EntreContos

Literatura que desafia.

Nem a rosa, nem o cravo – Clássico (Jorge Amado)

As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades?

Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u’a nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.

Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.

Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só 0 ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só 0 ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo – desde o crepúsculo aos olhos da amada – sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.

Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!

……………………………………………………………
O texto acima foi publicado no jornal “Folha da Manhã”,  edição de 22/04/1945, e consta do livro “Figuras do Brasil: 80 autores em 80 anos de Folha”, PubliFolha – São Paulo, 2001, pág. 79, organização de Arthur Nestrovski.

Fonte: Projeto Releituras

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14 comentários em “Nem a rosa, nem o cravo – Clássico (Jorge Amado)

  1. Fil Felix
    30 de setembro de 2017

    Um dias desses vi um video do Jean Willys comentando algumas obras do Jorge Amado, falando de como sua leitura amadureceu, dos temas tratados etc. Bem interessante, mas os comentários no vídeo eram atacando o Jean Willys. Extremamente grosseiros, xingando mesmo. E este conto funciona bem como um contraponto com a situação pós-2ª Guerra e o desabafo do autor, com a situação de hoje, onde os debates estão cada vez mais calorosos e partidários.

    Não é segredo que o Jorge Amado se identificava com o comunismo e depois foi se desprendendo, mas ainda levando e nos mostrando uma consciência de liberdade e valorização, as críticas sociais que sempre surgiram nos livros, mais ou menos panfletárias. É um autor que gosto muito mas, como no vídeo que comentei, as discussões em torno dele geralmente acabam caindo nessa polaridade.

    Esta crônica me chamou muita atenção pela crueza de como ele comenta o tema, sem muitas metáforas, indo direto ao ponto e que, pra mim, foi o mais interessante: condenando aqueles que, em meio às tragédias e impunidades sociais, prefere se calar. Cada autor ou artista tem o direito de criar aquilo que achar importante, mas também está em suas funções alertar a sociedade. E o Jorge Amado dá uma cutucada enorme naqueles que fecham os olhos para as catástrofes e continuam a escrever sobre maravilhas. Ele, como autor sensível, não consegue passar despercebido, lhe faltam palavras.

    E mesmo hoje, quantos artistas e figuras públicas importantes preferem o silêncio que se pronunciar contra as irregularidades? Como dizia Dante, na Divina Comédia, há um lugar especial no Inferno para aqueles que ficam em cima do muro, que se acovardam: o Vestíbulo. Onde ficam os rejeitados tanto pelo Paraíso quanto pelo Inferno, que nunca tomaram um partido e serão esquecidos por todos.

  2. marcilenecardoso2000
    27 de abril de 2017

    Estória de tristeza, de desesperança, deprimente, de quem só vê o lado ruim da vida, apesar de as coisas belas estarem aí também. Eu sei disso tudo porque também vejo o mundo dessa forma…

  3. Olisomar Pires
    26 de abril de 2017

    Interessante como até pessoas inteligentes e instruídas acreditam na falácia do desvirtuamento do comunismo quando este não dá certo.

    O que elas não entendem ou parecem não entender é que esse “desvirtuamento” é consequência natural do próprio comunismo em função de sua essência.

    O livro ” A revolução do bichos” retrata bem essa situação.

    • Eduardo Selga
      27 de abril de 2017

      Olisomar,

      Embora meu nome não tenha sido citado, pelo conteúdo de seu comentário ele se refere à reposta que dei ao Gustavo, motivo pelo qual tomo a liberdade de também responder-lhe.

      Há uma questão semântica que precisa ser entendida nesse caso. Uma ideologia, qualquer que seja ela, não é algo natural, como beber e dormir. Ao contrário, é uma construção sistemática, é um mecanismo, o que significa ser uma artificialidade que, incorporada ao humano, passa a comandar a vida em sociedade.

      Assim sendo, os caminhos que essa ideologia segue não podem ser naturais, e sim resultado de decisões dialéticas envolvendo as forças políticas que comandam a engrenagem e as forças que a combatem. Se o sistema chamado comunismo caminhou por aqui ou por ali, isso de modo algum pode ser creditado a uma “[…] consequência natural do próprio comunismo em função de sua essência”.

      Além disso, falar em “essência” quando se trata de ideologia é mais ou menos o mesmo que acreditar em “natureza humana”, termo que significa tendências inexoráveis de nossa espécie. Esse conceito é muito questionado na Filosofia, pois acreditar nele significaria ignorar a importância primordial da sociedade na construção do comportamento e da cultura. Do mesmo modo, qualquer estrutura ideológica sofre modificações ao longo do tempo em função do elemento humano. Noutras palavras, não existe ideologia em si quanto à sua história: ela é contextual, depende da sociedade.

      Quanto à falácia, os fatos históricos dependem de interpretação para que exerçam força histórica para além do tempo em que ocorreu. Se não houver essa interpretação, é apenas fato, não fato histórico.

      Pois bem. A revolução de 1917 ensejou outros fatos políticos, a ponto de muitos historiadores estabelecerem o stalinismo como uma caricatura do comunismo, e que o altera profundamente; outros não aceitam essa divisão, entendem absurdamente que a corrente ideológica não sofreu mutação. Acreditar numa ou noutra versão é legítimo, desde que não seja uma questão de fé ou mera repetição de discursos: é preciso conhecer os fatos. Naturalmente.

      • Olisomar Pires
        27 de abril de 2017

        Achei esse texto por acaso na net, achei interessante e deixo para diversão de nós todos.

        “Sócrates, enviado para 2017 em um vórtice temporal, cai em São Paulo, no meio de um manifesto e encontra um militante esquerdista:

        – Olá excelente rapaz! Do que se trata toda essa gente reunida?

        – Olha, velhote desinformado, estamos lutando contra a elite, por justiça!

        – Sim, eu realmente sou um desinformado, eu sou quem não sabe, mas estou muito feliz de encontrar você, que realmente sabe! Peço que me ensine, é possível?

        – Sim claro, sou da USP, tem muita coisa que você precisa aprender.

        – É um grande dia, excelente rapaz! Finalmente encontrei alguém sábio, que me ensinará. Primeiro, gostaria de saber o que é a elite; depois, o que é justiça; e, por último, qual é a aplicação de justiça pela qual estão lutando; pode ser nessa ordem?

        – Sim, isso é fácil!

        – Perfeito! O que é a elite?

        – A elite são os ricos, que têm muito dinheiro, muitos bens…

        – Então, o critério para discernir a elite é o da quantidade de dinheiro, de bens que as pessoas possuem, certo?

        – Sim, é isso mesmo!

        – E a partir de que ponto um homem é considerado rico, participante da elite?

        – A classificação disso é feita através das classes sociais, que são A, B, C, D, E e F! A classe A é composta por quem tem mais; e a partir dela vai diminuindo para quem tem menos, até a classe F, que é praticamente integrada por miseráveis, que nada têm; é por ela que lutamos!

        – Certo, como eu posso identificar quem é a elite nesses termos?

        – São as classes A, B e C; mas é só separar quem ganha mais de 2.300 por mês e eis a elite!

        – Entendi; e os outros todos não são elite, certo?

        – Sim, o critério é esse
        .
        – Quem ganha mais de 2.300 por mês é da elite, e a elite é malvada, certo?

        – Certo!

        – E quem ganha menos de 2.300 por mês não é da elite; e não é malvado, correto também?

        – Sim, é exatamente isso! O senhor está aprendendo muito bem; qual seu nome?
        – Meu nome é Sócrates excelente rapaz.

        – Certo, Sócrates! Está aprendendo muito bem…

        – Você, é formado por uma universidade, não é isso?

        – Sim! Sou inclusive professor! Da USP, como eu disse!..

        – Que dia maravilhoso para mim, excelente rapaz! Encontrei finalmente um sábio! Quanto ganha um professor da USP?!

        – Eu ganho 10 mil…

        – Então você é da elite e é malvado?!

        – Não… é que… olha… eu luto pelo povo e… eu quero só o bem dele!

        – Mas você disse que o critério era esse…

        – Eu sei, parece estranho, mas são nossos representantes que vão acabar com essas diferenças sociais!

        – Estou me esforçando para compreender, quem são seus representantes?!

        – São os políticos!

        – Quanto ganha um político hoje, rapaz?

        – Depende, deputado ganha cerca de 35 mil por mês, um senador uns 39 mil…

        – Então, eles são da elite também!

        – São sim… mas são eles que vão fazer o bem para o povo!

        – Mas você me disse que a elite só faz o mal; e que o critério era o de que quem ganhasse mais de 2.300 por mês, seria mau…; tanto você, quanto seus representantes, são da elite e, portanto, devo supor que são maus, segundo suas próprias palavras… Ou será de outra forma?

        – Estou desconfiando que você é um “infiltrado”, velho! Como pode duvidar do que estou dizendo?

        – Eu só estou tentando aprender…; e você disse que me ensinaria. Mas, em final, você é um homem mau e seus representantes também são maus; ou esse critério estará errado?

        – Eu não sou mau! Lula é santo! Que espécie de perguntas são essas?

        – Chama-se lógica, rapaz, eu só estou examinando seu próprio critério… Se o critério estiver certo, você e seus representantes são maus; se forem bons, contudo, o critério está errado. Não é razoável pensar dessa forma?

        – Está bem…, talvez o critério esteja errado, pois eu sou um homem bom e meus representantes também são bons, pois afinal estamos lutando pela justiça, pelo bem, por algo bom!

        – Muito bem rapaz! E qual é a luta de vocês?

        – Lutamos contra os maus… quer dizer, a elite…

        – Nos critérios que você me colocou?

        – Sim!

        – Ora, estão lutando contra si mesmos?

        – Não! Bem, talvez o critério esteja errado mesmo… não sei mais!

        – Mas me diga, o que é justiça?

        – Justiça é o estado em que todos ganhem o mesmo salário! Para não haver desigualdade, sabe?

        – Mesmo os que não trabalham?

        – Não, só os que trabalham, claro…

        – Então já não são todos, concorda?

        – Bem, quis dizer todos os que trabalham…; os que não trabalham, ganham bolsas; para que não fiquem sem nada…

        – Essas “bolsas”, são como um salário?

        – Sim! Recebem uma vez por mês!

        – E de onde sai o dinheiro dessas bolsas, rapaz?

        – Impostos! As pessoas trabalham e pagam impostos e o Estado redistribui essa renda; e paga as bolsas.

        – Então, quem paga as bolsas é quem trabalha…; e é justo que quem não trabalha receba salário,…por não trabalhar? E que quem está trabalhando pague salário a quem não trabalha?

        – Sócrates, você está me deixando confuso…

        – Apenas me responda: a justiça consiste em pagar salário para quem não trabalha, é isso?

        – Não…em redistribuir a renda…

        – Mas, no final da sua redistribuição, isso é o que acontece…, ou não?

        – Sim é…, mas…tudo parece estranho… Mas quando fizermos o comunismo, tudo vai ser diferente, tudo vai ser justo e ninguém vai ser miserável, não vai dar pra você entender agora…; a elite é poderosa e controla tudo!

        – Rapaz, até agora tudo que você me disse foi contraditório, não?

        – Sim, foi! É que você precisa esperar o comunismo acontecer…; aí, sim, tudo vai fazer sentido!

        – Ora, rapaz, então esse tal comunismo deve ser maravilhoso! Onde já aconteceu?

        – Em Cuba, Coreia do Norte, Russia, Alemanha oriental…

        – Então esses lugares devem ser o próprio paraíso! Conte-me como são.

        – Olha, as coisas não vão tão bem…; alguns lugares inclusive já abandonaram o comunismo; mas outros permanecem em luta!

        – Rapaz, que surpresa! Por que afinal abandonaram algo tão maravilhoso?

        – Não deu certo, mas continuamos tentando! É culpa do capitalismo!

        – E os outros lugares?

        – Cuba e Coreia do Norte continuam comunistas!

        – Que maravilha! E como são estes lugares? Estão bem? Todos são prósperos? Não existem mais classes?

        – Pra falar a verdade, não estão bem não: Cuba e Coreia do Norte estão passando fome… Mas isso é por culpa do capitalismo!

        – Ora, mas um modelo tão bom, pelo qual vocês lutam, não faria apenas o bem?

        – É que os dirigentes não fizeram o comunismo como pensávamos; eles deturparam o modelo original marxista, fizeram outra coisa…

        – Mas você me disse há pouco que eles eram bons…

        – Eu disse, mas…Bem, nunca se sabe…

        – Será que talvez vocês estejam errados?

        – Talvez, Sócrates,…

        – E por que esses países têm dirigentes?

        – Eles tem poder militar; e muito capital…

        – Ora, você me disse que não haveriam classes sociais…

        – No comunismo existem apenas a classe dos políticos e a do proletariado!

        – Então, mesmo nele existem ainda classes, correto?

        – Não tenho como discordar agora…

        – Meu rapaz, não me parece que você esteja lutando por algo bom, pois seus exemplos foram todos maus; e não me parecem confiáveis seus representantes como bons, pois sempre terminam por trair o povo; e mesmo seus critérios não me parecem bons, pois não se sustentam, nem agora, nem nos exemplos que me forneceu.

        – O senhor está me deixando sem resposta. Eu preciso estudar mais…

        – Eu agradeço pela conversa, mas vou continuar procurando alguém realmente sábio, que possa me ensinar de sua sabedoria.

        Um grupo de garotos se aproxima e cumprimenta o professor.

        – Quem é este homem professor!?

        – Um velho chamado Sócrates, que eu estava ensinando, mas agora estou um pouco confuso…

        – Por que está confuso professor?!

        – Ele discordou de algumas ideias minhas, e eu não consegui sustentá-las…

        Grupo de garotos grita:

        – ATENÇÃO TODO MUNDO! ESSE É UM VELHO FASCISTA! RACISTA! MISÓGINO! SEXISTA! HOMOFÓBICO!

        Após levar cuspidas e apanhar, Sócrates, ferido, desaparece no vórtice temporal.

        O professor da USP prossegue em sua campanha; mas, cada vez que vê um velho calvo e de barba comprida, começa a tremer de medo”.

        (Texto de Ricardo Roveran).

      • Eduardo Selga
        27 de abril de 2017

        Olisomar,

        Contrapor argumentos com ficção não costuma funcionar muito bem, pois são duas camadas distintas do discurso: uma, objetiva; a outra, imaginada.

        Ainda assim, deu para entender a intenção e, não sendo eu o “excelente rapaz”, tampouco o Sócrates do texto ficcional (que evidentemente é distinto do Sócrates real), quero dizer que, sim, o termo “elite” frequentemente é usado de maneira equivocada por militantes do que chamamos esquerda, na medida em que significando classe social rica. Na verdade, o termo é sinônimo de “nata social”, em diversos campos, principalmente o intelectual. O termo mais adequado é “classe dominante”, pois fica implícito a prevalência econômica que não necessariamente significa qualidade intelectual. Ocorre uma espécie de transposição de significados, em que “elite” passa a ocupar o lugar de “classe dominante”, mas sem perder o peso de “nata social” (apenas do ponto de vista financeiro, contudo).

        É verdade que existe uma parcela da militância que se guia por estereótipos, bem como há uma direita que desconhece o essencial dos fenômenos sociais e políticos e vocifera discursos inconsistentes. É uma direita também estereotipada, que acredita em mitos ideológicos já falecidos mesmo na Europa e EUA, as grandes matrizes desse pensamento.

      • Olisomar Pires
        28 de abril de 2017

        Nunca tive intenção de contra-argumentar, caro Selga, até porque o espaço é curto e a discussão é ampla por demais.

        O texto ficcional foi apenas para descontrair, eu não vincularia sua pessoa ao estereótipo do militante esquerdista.

        Penso que o pensamento mundial está se transformando e veremos o resultado em breve.

  4. Gustavo Castro Araujo
    26 de abril de 2017

    Interessante notar que o texto foi escrito ao fim da II Guerra Mundial, quando os crimes praticados pelos nazistas vinham à tona na medida em que os Aliados (pelo oeste) e os russos (pelo leste) esmagavam o restava do III Reich. Nesse contexto, não deixa de ser compreensível o desabafo de Jorge Amado.

    Embora de fato o escritor baiano fosse simpatizante do comunismo, algo que demonstrara claramente em “Capitães da Areia”, p.ex, de 1936, não vejo texto como uma tentativa de contrapor aquele regime ao fascismo. A mim pareceu muito mais uma manifestação de indignação em face da realidade por que passava o mundo – como posso falar de coisas bonitas enquanto o universo perece? – do que a defesa indireta daquela ideologia. Admito, porém, que é uma interpretação possível.

    O que não concordo definitivamente é com a ideia de que o comunismo – ou qualquer regime à esquerda – detém o monopólio da virtude, que sonha, que busca a utopia em seu sentido essencial, enquanto que o extremo oposto, a direita, é vista como egoísta e responsável por todos os males e pesadelos que assolam a humanidade. O mundo não é maniqueísta a esse ponto. Veja-se, p.ex, o regime adotado por Stalin, ainda mais sanguinário do que o protagonizado por Hitler, sem falar de Mao Tse Tung, Kim Il-sung, Pol Pot, ou Fidel Castro – todos à esquerda, todos comunistas, todos totalitários, todos ditatoriais e notórios por ignorar qualquer noção de direitos humanos.

    Sim, é uma discussão que renderia meses, mas creio que o ponto é esse mesmo. Apaixonamo-nos por vieses ideológicos que de certa maneira nos cegam para os pecados cometidos por quem personifica essas vertentes. Um raciocínio que vale para ontem – pois a direita matou, não se pode esquecer que a esquerda também o fez com igual eficiência – e também para hoje, especialmente aqui no Brasil, considerando que a corrupção não é privilégio ou exclusividade deste ou daquele governo.

    Gostei do texto do Jorge Amado pelo contexto histórico que o permeia, mas confesso que ficaria com melhor impressão se conhecesse algum desabafo semelhante, também assinado por ele, em relação ao pogroms e aos gulags soviéticos, como fez Soljenítsin. Não que houvesse obrigatoriedade do autor de Gabriela em fazê-lo, mas, convenhamos, se existisse tal texto, sua honestidade intelectual e, mais importante, sua isenção ao tratar de forma idêntica dois regimes de terror, ressaltariam ainda mais sua genialidade.

    Afinal, como falar de flores com os três milhões de mortes na Sibéria, com os cinco milhões de assassinatos cometidos pelo Khmer Vermelho no Camboja?

    • Eduardo Selga
      26 de abril de 2017

      Gustavo,

      É verdade que a militância política de Jorge Amado se mostra nalgumas de suas obras, como no citado romance “Capitães da Areia”, afinal o texto ficcional de um autor é, até certo ponto, sua extensão enquanto sujeito no mundo. Porém, é mais eficiente buscar essas evidências em sua vida política: enquanto deputado federal pelo PCB na década de 40 conseguiu garantir liberdade de culto à umbanda e ao candomblé, que sofriam, como hoje, perseguição religiosa. Ou seja, como é característica das militâncias socialista e comunista, o autor acreditava na liberdade do sujeito como pré-condição para a vida plena. E quando digo “liberdade” não é com a conotação individualista que o capitalismo a entende, e sim como exercício das coletividades de uma sociedade.

      Assim como um ficcionista ao longo de seu labor literário constrói um estilo que o identifica, o capitalismo cria seus mitos, condição sine qua non para sua existência. Um deles é o consumismo, a ideia de que a felicidade reside na grande quantidade de coisa que o sujeito adquire. Ser é ter. Não necessariamente coisa material: os bens imateriais, como a fama, contam muito, na medida em que criam a ideia de pessoa “diferenciada”.

      O real combate ao capitalismo pretende quebrar esse mundo fantasioso, ficcional, doentio, causador de constantes guerras, criado a partir do fim da Idade Média. Ora, um mundo oposto a essa regra é utopia, e o conservadorismo não quer essa utopia porque prejudica os lucros. Por isso eu disse que a direita não sonha. Não sonha com um mundo melhor, coletivamente falando, embora devamos ressalvar que ela sempre sonha com mais e mais melhorias. Para si própria. Para sua tribo de meia dúzia, exclusivamente.

      É preciso ter claro que o mundo nunca teve e não tem em nenhum lugar um regime verdadeiramente comunista. A URSS é um desvirtuamento de uma revolução vitoriosa da classe trabalhadora. O nome desse desvio se chama stalinismo,distante do marxismo. Ele se transformou em discurso dominante no que costumamos chamar de esquerda, e sim, foi responsável por muitas mortes, inclusive dos que pretendiam recolocar o bonde nos trilhos marxistas.

      Foi citada, mais ou menos indiretamente, a corrupção do partido político que esteve no poder por treze anos no Brasil no século XXI. Acontece que esse partido não é de esquerda. Se pegarmos seu estatuto, não veremos nem a palavra “socialismo”, nem “comunismo”. Acostumamo-nos a vê-lo assim por ser mais fácil metê-lo nalguma caixinha, mas ele defende uma espécie de “capitalismo humanizado”, que trabalha muito com políticas de inclusão. E o que são elas? Meras compensações da injustiça social, nunca uma proposta de revolução e tomada do Estado pelos trabalhadores, como um partido verdadeiramente comunista proporia. A rigor, o partido mencionado é de centro-esquerda. Desse ponto ao comunismo vai uma distância gigantesca.

      • Gustavo Castro Araujo
        27 de abril de 2017

        Entendo seu ponto de vista, mas me vejo distante dele. Pelo que você diz, o comunismo jamais foi implantado de fato, de modo que não se pode confundi-lo com o stalinismo, que é um desvirtuamento das ideias marxistas.

        Nesse viés de raciocínio, posso defender que o capitalismo em essência tampouco foi verificado na história mundial, eis que o objetivo principal desse sistema – especialmente quando observadas suas raízes, como o mercantilismo – era a produção de riqueza de modo amplo, à toda sociedade. Nessa senda, a concentração de riqueza nas mãos de poucos é um desvirtuamento da ideia original e, levada ao extremo, pode transbordar para o fascismo (que seria o extremo oposto ao stalinismo).

        De todo modo, pelo que se vê nenhum dos sistemas é perfeito quando posto em prática, eis que dependem de agentes humanos para se efetivarem. É nesse momento que se verificam os desvios e, dependendo da situação, os radicalismos. É por isso que me desagrada a ideia de colocar na conta do capitalismo – única e exclusivamente – a culpa pelas mazelas mundiais. Nenhum regime foi capaz de dar uma resposta alternativa satisfatória – repito, na prática – às inúmeras falhas desse sistema.

        Posso até admitir que, em tese, o comunismo seria uma saída, afinal, quem não gostaria de viver num mundo igualitário, em que todos tivessem o mínimo de dignidade pessoal e material? O problema é que – de novo – na prática, isso não funciona (jamais funcionou, jamais funcionará) devido ao componente humano, que tem seus desejos, que tem seus anseios (algo que poderia ser explicado até mesmo no sentido científico) e que jamais se contentaria com o suprimento de necessidades básicas. É como disse Montesquieu: todo aquele que detém o poder tende a abusar dele – e eu complemento -, normalmente em favor próprio, não importa o regime que defenda.

        Mais do que uma utopia, o comunismo é uma miragem e, às vezes, uma ferramenta, um chamariz, uma “cenoura na vara”, destinada a ludibriar as pessoas visando conceder privilégios a poucos (o caso de Ceausescu, na Romênia, é clássico), algo que, no fim, o aproxima do que ocorre – também na prática – com o capitalismo.

        Considerando-se a “utopia” comunista como algo que jamais se realizará, cumprindo, assim, a definição da palavra, não sobram muitas alternativas. No final, dá para parafrasear Churchill e dizer que o capitalismo é o pior dos sistemas políticos-econômicos, à exceção de todos os outros.

      • Eduardo Selga
        27 de abril de 2017

        Gustavo,

        Voltando ao assunto, o capitalismo implantou-se como fruto de uma luta de classes envolvendo a burguesia e a aristocracia, na qual a primeira saiu vencedora com sua proposta de lucro substituindo o escambo. Ora, o lucro é necessariamente para poucos, quais sejam, os proprietários dos meios de produção. Assim sendo, a intenção nem de longe “era a produção de riqueza de modo amplo, à toda sociedade”. Não havendo esse intento, não se pode afirmar que “a concentração de riqueza nas mãos de poucos é um desvirtuamento da ideia original”. Ao contrário, a mecânica do capitalismo implica uma contínua destruição do tecido social e de si mesmo pelo monopólio com vistas à sua reconstrução e manutenção enquanto sistema. É uma autofagia preservativa. Se estamos hoje à beira de mais uma guerra em larga escala mundial é porque o capitalismo está, de novo, em crise.

        Franz Kafka escreveu um belo conto intitulado “Na Colônia Penal”, em que existe uma máquina encarregada de executar os condenados do Estado, e o faz após 12 horas de tortura com agulhas escrevendo na carne da vitima o motivo de sua condenação. A certa altura um personagem diz a outro: “a máquina é muito complexa, aqui e ali alguma coisa tem de rebentar e quebrar; mas não se deve por isso chegar a um falso julgamento do conjunto” Ou seja, mesmo ruim o sistema é bom. É isso o que você diz, ao parafrasear Winston Churchill: “[…] o capitalismo é o pior dos sistemas políticos-econômicos, à exceção de todos os outros”.

        No entanto, aplaudi-lo significa abraçar a morte em função do lucro de muito poucos. Não haverá alternativa? A quem interessa essa niilismo?

      • Gustavo Castro Araujo
        27 de abril de 2017

        Creio que está bem delineado o ponto em que discordamos. Vejo a mim mesmo longe de aceitar a ideia de autofagia capitalista, a noção defendida por você de que esse sistema corrompe o tecido social, beneficiando poucos. Apesar de crises e guerras (que aliás sempre existiram independentemente do sistema adotado), o que se vê na realidade é um progresso constante de todos os países que adotam a economia de mercado.

        Explico: sempre haverá injustiças, de modo que posso admitir que há falhas gritantes na própria concepção do capitalismo e que há possibilidade (ou mesmo necessidade) de aperfeiçoamento. No entanto, é inevitável perceber – e aqui apresenta-se um paradoxo – que é a busca pelo lucro (tão mal falada) que permite à humanidade avançar, que permite o surgimento de novas tecnologias, que possibilita à medicina progredir, que diminui a mortalidade infantil, que torna mais ágil o fluxo de informações e assim por diante. Nada disso existiria se não fosse pelo capitalismo. Nós mesmos sequer estaríamos travando este interessante debate se não fossem as empresas que investiram neste tipo de plataforma.

        Vivêssemos num sistema diferente – mesmo no utópico comunismo – seria difícil chegarmos ao atual estágio de modernidade. No sonho marxista estaríamos colhendo maçãs em troca de um salário simbólico, felizes (talvez?) em nossa ignorância. Teríamos o mínimo, mas nada mais que isso. Valeria a pena realmente? E o desejo humano de ir além, onde ficaria? Teríamos a disciplina necessária para nos comportarmos como robôs, para convencer a nós mesmos de que essa existência modorrenta seria a tradução de paraíso terreno? Não me parece que algo assim seria possível.

        Bem, você me jogou uma pergunta e creio ter respondido: vale a pena abraçar o capitalismo, mesmo com todas as falhas, pelo simples motivo de que inexiste alternativa. Ou há algo que possa substituí-lo na prática (não no terreno meramente utópico), considerando a natureza humana? Aceito sugestões…

  5. Olisomar Pires
    25 de abril de 2017

    Texto muito bonito e pungente, principalmente, se trazido aos dias atuais, sob as luzes dos fatos históricos, onde sabemos que o mundo foi iludido com promessas de igualdade vindas de ideologias nefastas, sendo que todas possuiam o mesmo princípio: a devastação do Homem.

  6. Eduardo Selga
    25 de abril de 2017

    Por motivos que acredito ser desnecessário lembrar, é uma crônica muito atual, o que na verdade não é surpreendente, afinal a História parece ser cíclica ou pendular, de modo que o passado de quando em quando se manifesta, se recicla no presente. O pensamento nazifascista, que os mais inocentes ou os que acreditam a História um traço linear supunham enterrado, ei-lo de volta, agora sob nova direção e outra roupagem. Mas o cheiro de sangue é o mesmo.

    Particularmente importante esse texto por tratar-se de um autor de um Brasil que hoje vive, em várias dimensões, um fascismo disfarçado. É a antessala de uma ditadura declarada.

    Ainda mais interessante é a crônica quando nos damos conta de que Jorge Amado pertenceu aos quadros do Partido Comunista Brasileiro, o oposto das forças políticas que hoje comandam nosso país e boa parte do Ocidente. É um lamento de ontem que reverbera hoje, em cenários distintos.

    Todo o texto remete a uma característica básica da luta política da esquerda no mundo, e que não aparece à direita do espectro político: a utopia. Não no sentido pejorativo do termo, significando coisa irrealizável, quimera, e sim enquanto possível sociedade justa. E à direita a utopia não aparece porque ela não sonha, embora seja responsável por muitos de nossos pesadelos. Apenas acumula.

    O trecho “como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento” demonstra bem o que eu disse acima. Diante da bestialidade desumanizadora de muitas atitudes fascistas, como falar de flores? Fazer isso parece alienado, é como usar a literatura apenas como evasão, encastelar-se num cenário ficcional em detrimento de uma realidade que precisa ser combatida a ferro e fogo.

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Publicado às 25 de abril de 2017 por em Clássicos e marcado .