EntreContos

Literatura que desafia.

Os Fantasmas de Alice – Conto (Ângelo Lima)

“Pode um ser onipotente criar um objeto tão pesado que não possa levantar?”

Conversam numa sala de estar de classe alta.

– Dominação. É quase um fetiche. É tudo o que eles querem. – Alice parecia desinteressada na conversa, talvez por alguma decepção prévia com o interlocutor. Mas mantinha uma certa tensão corporal, como se precisasse estar atenta a algo além do que conversavam.

– Essa sociedade não seria o que é sem o controle social. Temos que agradecer ao governo por viver num lugar quase sem violência.

Alice falava devagar, como a ganhar tempo:

– Você não sabe o que é violência, Coelho. Nasceu aqui. Se a imprensa não te alimentasse com essa propaganda tóxica todos os dias, você não teria traumas e medos e estaria livre desse seu ufanismo partidário.

– Alice, eu sei o que estou dizendo. Sou mais estudado que você. E devo-lhe lembrar que é minha subordinada. Se você não está disposta a cometer um crime de traição ideológica, é melhor aceitar o que digo.

Dois bipes foram ouvidos, vindos do relógio de Alice. Era a hora. Sacou sua arma e a apontou, com as duas mãos. Permanecia calma e de voz tranqüila:

– Por coincidência, eu estou disposta. – atirou duas vezes no peito.

Dois “fantasmas” – homens com uniforme de invisibilidade – surgiram na sala.

– O que fazemos com o corpo?

– Não se apegue aos personagens. Concentrem-se na História. Coletem os arquivos, deixem o corpo.

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“Pode um ser tão frágil, amar tão intensamente… que não possa suportar?”

A conversa é por telefone.

– Dominação. É o meu fetiche. É tudo o que eu quero. – Alice mordeu os lábios, antecipando o cumprimento da promessa do interlocutor. Ela não tinha laços emocionais com a Revolução, estava nessa por mais do que simples ideologia.

– A Revolução não seria o que é sem a sua ajuda, Alice. Vou te agradecer pessoalmente do jeito que você quiser.

Alice falava devagar, como não estivesse numa cena de crime:

– Você ainda não sabe o que eu quero, Leonardo. Nem imagina. Mas eu sei muito bem e imagino todos os dias. Você não sabe como eu tremo de excitação, como estou me sentindo livre sabendo que agora é só questão de tempo.

– Assim você me fará arrepender, Alice. Ainda há tempo. Até lá, você é minha subordinada. Ajude os fantasmas a recolherem a arcada dentária e digitais do corpo, vamos desaparecê-lo.

Ela seguiu as ordens, mas seu braço cibernético era o único membro que não tremia. Dois bipes foram ouvidos, missão cumprida. Era a hora. Pegou sua bolsa e a apertou forte contra o peito, com as duas mãos. Sua fisionomia mudou e a voz assustava:

– Alguém me ajude! – fechou os olhos, perdendo a consciência.

Os fantasmas se entreolharam, esperando algum contato de Leonardo.

Ele hesitou, mas agora só restava dar prosseguimento ao planejado.

– Não se apeguem aos personagens… A Revolução vale qualquer sacrifício. Desapareçam-a.

Arcada dentária, digitais, as suas partes mecânicas e o dispositivo que causou o ataque cardíaco foram removidos do que restou de Alice.

“Por coincidência, eu estava disposto…”

 

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2 comentários em “Os Fantasmas de Alice – Conto (Ângelo Lima)

  1. Neusa Maria Fontolan
    24 de abril de 2017

    Uma Alice suicida, talvez procurando a liberdade de um mundo repleto de engrenagens desajustadas. Mas, ela pediu ajuda antes de morrer, talvez tomando consciência de que sua morte seria inútil, apenas uma peça a ser descartada, o mundo continuaria igual. O melhor seria ter ficado e lutado pelo que acreditava. Seguindo o caminho ao qual ela estava “disposta”, ela apenas alimentou um pouco mais esse monstro que temia.

  2. marcilenecardoso2000
    20 de abril de 2017

    Inusitado. Uma contradição: Alice, que, pelo que entendi, é a do País das Maravilhas, buscando mudanças, uma revolução, sendo que a estória da mesma se passa no país de uma rainha tirana. Mas na verdade, acho que uma das intenções do criador de Alice seja exatamente mexer com nossos brios sobre este quesito. Outro aspecto do conto que me chamou a atenção foi a manipulação da massa, no caso, Alice. Alguns revolucionários, talvez a maioria, levam as pessoas a trabalhar em prol de uma causa, depois exterminam estas mesmas pessoas.
    Parabéns pelo conto.

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Publicado às 20 de abril de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .