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Literatura que desafia.

Ilusões Irresistíveis: o fabuloso mundo dos concursos literários – Artigo (Gustavo Araujo)

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O caminho é conhecido: ao se deparar com a triste realidade do mercado de livros no Brasil, o autor desconhecido ou independente enxerga nos concursos literários sua tábua de salvação. Sim, porque se nenhuma das grandes editoras lerá seu original, ao menos os jurados dos concursos sérios o farão. Mesmo que não obtenha o primeiro lugar, o texto será apreciado com inteligência e, uma vez denotado o talento, a publicação há de se tornar realidade.

Parece o mundo perfeito. O blogue “Concursos Literários”, comandado pelo talentoso Rodrigo Domit, vem quebrando sucessivos recordes de acesso, o que demonstra a avidez de novos e velhos escritores pela última possibilidade de redenção.

O problema é que em termos literários, o mundo perfeito não existe. Ou se existe, é enfadonho demais e destinado ao fracasso e ao esquecimento. O fato é que concursos literários – ao menos os grandes concursos, os mais conhecidos do público – são um grande espetáculo, e como tal, oferecem miragens, sobrevivendo de aspirações hiperbólicas e infundadas.

Em geral, tais certames contam com vultosos patrocínios, apresentam ícones do universo literário entre seus jurados e, naturalmente, oferecem elevados prêmios em dinheiro. Essa combinação faz com que editoras pequenas e autores independentes (quando possível) apostem suas fichas numa possibilidade de reconhecimento justo, embora sabendo que os medalhões e as grandes casas de publicação também estarão participando.

Como resultado, veem-se centenas, por vezes milhares, de obras inscritas. Obras que, em tese, aqueles jurados de alto escalão devem ler de cabo a rabo para definir as melhores.

O Prêmio Jabuti, por exemplo, conhecido como mais importante do país, contou com 202 (duzentos e dois) romances inscritos em sua última edição. Três jurados tiveram três meses de prazo para escolher os finalistas. Vamos repetir: três jurados, três meses de prazo para analisar 202 romances.

O Prêmio Rio de Literatura de 2015, não ficou muito atrás: teve 346 (trezentos e quarenta e seis) romances inscritos, que deveriam ser avaliados por cinco jurados no prazo de seis meses.

O Prêmio Biblioteca Nacional de 2015 teve 125 romances inscritos, com três jurados e sete meses de prazo.

O Prêmio Oceanos, cuja premiação é talvez a mais elevada no Brasil, teve, em 2015, 592 (quinhentas e noventa e duas) obras inscritas. De acordo com o site do certame, 100 (cem) jurados escolheriam os finalistas, num prazo de 35 (trinta e cinco) dias.

Não é preciso muita perspicácia para perceber que na maioria dos casos, o tempo destinado à avaliação é insuficiente. Não raro, justificativas são jogadas ao vento, para explicar a rapidez. Ora diz-se que a leitura de uma página ou de um capítulo é suficiente para que o jurado ateste a qualidade de um livro. Ora diz-se que basta um resumo preparado pela editora. Ora diz-se que ao contrário do senso comum, é possível dar conta da maratona de romances.

Talvez essas explicações satisfaçam mentes conformadas, mas, falando francamente, não é razoável acreditar que o caráter de uma obra literária possa ser examinado por qualquer tipo de leitura dinâmica – seja por um capítulo representativo (o que acaba se tornando uma questão de sorte), seja por um resumo (o que parece ainda pior), ou pela sucessão ensandecida de obra após obra num prazo reconhecidamente exíguo.

Não por acaso, os grandes concursos literários tendem a premiar as mesmas figuras, ou aqueles que despontam como grandes nomes, bestsellers escolhidos a dedo pelas grandes editoras. Vez que outra, “desconhecidos” são sagrados vencedores, dando a falsa impressão de que há renovação no mercado. Ledo engano. Também esses são apontados por quem manda no jogo. Em qualquer caso, a idéia é não deixar dúvidas sobre a seriedade do certame, já que termina eleito alguém cuja excelência é notória e indiscutível justamente porque publica por uma grande empresa.

A estratégia, obviamente, provoca polêmicas. Em 2010, Chico Buarque teve o romance “Leite Derramado” escolhido como melhor livro do ano de ficção no Prêmio Jabuti, mesmo sem vencer na categoria específica a que concorria. Em 2012, nesse certame, um dos jurados avaliou romances que concorriam ao prêmio máximo com notas baixíssimas a fim de elevar as chances de outro livro, que acabaria se tornando o vencedor por conta disso.

Mais recente, o Prêmio Kindle de literatura recebeu duas mil inscrições de obras eletrônicas, teoricamente inéditas. A promessa era a publicação em papel pela editora Nova Fronteira, além de um bom dinheiro para o primeiro lugar. O prazo de inscrição terminou no dia 30 de novembro. Quinze dias depois, os finalistas estavam escolhidos. Quinze dias. Duas semanas. Se já é difícil ler UM livro em quinze dias, o que dizer de dois mil?

A falta de transparência, como se denota, é a tônica desses certames. Concursos se converteram em uma grande ferramenta de propaganda, uma festa em que os convivas atiram confetes uns nos outros, onde a qualidade literária não é, necessariamente, perseguida. Antes vale divulgar o nome de quem organiza, a marca do patrocinador, o medalhão, as grandes editoras e seus apadrinhados, enfim, aqueles que comandam o espetáculo, tudo visando, claro, o lucro. Em suma, trata-se de um negócio, business, como dizem os descolados.

Fazer parte desse circo pode parecer interessante à primeira vista, mas ao contrário de atrações que buscam o brilho em igualdade de condições entre si, novos-autores-ingênuos-de-todas-as-idades terminam como figurantes, adereços iludidos diante de um mago astuto que brande nas mãos um baralho de cartas marcadas.

Claro que há concursos sérios, em que as obras são lidas e avaliadas com isenção à luz dos aspectos eminentemente literários, como aqueles em que autores inscrevem obras inéditas sob pseudônimo – caso dos concursos organizados pelo SESC. Esses, contudo, são raros, caem no esquecimento sem qualquer repercussão, sem qualquer alarde, sem coluna na Folha de S. Paulo. Concursos sérios não fazem parte do jogo do mercado, não dão lucro, não geram polêmica, não são interessantes. Ficam restritos aos pequenos núcleos onde ainda se preserva algo conhecido como ética. Por isso não se ouve falar deles.

Seria maravilhoso se o sucesso em concursos literários derivasse de dedicação do autor e das qualidades da obra concebida. Infelizmente, os grandes certames refletem a dependência financeira que domina o mercado de publicação no Brasil, o que faz do talento para a escrita algo secundário.

Por isso, peço perdão aos galardoados nos grandes concursos. Não encontro motivos para admirá-los mais do que a qualquer outro escritor. A diferença entre eles e você, autor independente que ainda acredita num mundo justo, é que eles, os proclamados vencedores, estão escudados por uma máquina nefasta que impede a renovação literária verdadeira. Um cenário que lamentavelmente irá prosseguir, afinal, o espetáculo não pode parar.

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21 comentários em “Ilusões Irresistíveis: o fabuloso mundo dos concursos literários – Artigo (Gustavo Araujo)

  1. josewaenyescritor
    22 de maio de 2017

    Muito interessante seu artigo, Gustavo; triste realidade para autores que contam com a imparcialidade de figuras do mercado editorial para ter seu talento reconhecido…
    Mas eu sou marrento! Vou tentar emplacar uma de minhas obras num concurso, nem que seja para participar, como diz o ditado.

  2. Rodrigo Domit
    30 de dezembro de 2016

    o tema é complexo …

    recomendo a leitura deste artigo muito preciso do Tezza:
    http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/cristovao-tezza/literatura-judiciaria-1yyvaipxnp6eyf9mvz0vxanny

    “A primeira coisa a lembrar é óbvia: todo concurso é falível e comete erros e omissões. Um concurso literário é apenas índice de valor de um momento, de acordo com as cabeças idiossincráticas dos jurados, e não uma decisão transcendente decretada pelas musas. […] Concurso é um fenômeno errático que não deve ser supervalorizado.

    Mas é bom que existam porque são uma opção importante para quem começa, desde que, como disse, o escritor não veja neles mais do que eles são. Um escritor sério não deixa de escrever porque perdeu um concurso, e nem se enche de vento porque ganhou.”

    • Gustavo Castro Araujo
      2 de janeiro de 2017

      Excelente artigo esse do Tezza. No fundo, é preciso saber escolher [o concurso]. Obrigado pelo comentário, Rodrigo.

  3. Evelyn Postali
    29 de dezembro de 2016

    Ótima reflexão, Gustavo! Parabéns! Eu não acredito muito nessas seleções, não, mas cada um deve buscar o que mais lhe convém.Eu optei por revisar com profissionais quando é possível ou, senão, deixar na gaveta para quando for. Não me arrependo das revisões profissionais pagas nos dois primeiros. Foi um investimento positivo. E também não me iludo muito com editoras, apesar de gostar da ideia e desejar ter uma. E parabéns aos colegas que comentaram com propriedade.
    Abraços!

    • Gustavo Castro Araujo
      29 de dezembro de 2016

      É verdade, Evelyn. Revisores são sempre bem vindos, ainda mais se forem profissionais. Do mesmo modo, editoras podem representar armadilhas ou salvações. É preciso discernimento para saber escolher. Abraços!

  4. rubemcabral
    29 de dezembro de 2016

    Gostei do artigo. Sim, realmente é impossível fazer qualquer avaliação honesta em tempo recorde, como nos concursos citados.

    Só gostaria de ressaltar que, sim, existem alguns poucos concursos bem corretos, em que efetivamente os textos são lidos em tempo hábil e os resultados não beneficiam somente “medalhões” literários.

    Participei, por exemplo, do “Caminhos do Fantástico” da Editora Terracota, e posso afirmar que desde o anonimato ao prazo de avaliação, tudo correu dentro do razoável e, como se podia esperar, os textos selecionados foram realmente muito bons (os contos selecionados eram publicados numa antologia anual).

    Algumas cidades, institutos culturais e até bibliotecas também trabalham bem seriamente. Tais concursos são, via de regra, menores e oferecem prêmios mais modestos, mas creio que valem a pena a participação, nem que seja para avaliar seus textos ao gosto do leitor médio ou ao do academicista.

    • Gustavo Castro Araujo
      29 de dezembro de 2016

      Concordo, Rubem. Concursos menores são infinitamente mais interessantes, seja pela isenção, seja pela transparência. Talvez por isso os medalhões não apareçam.

  5. Fabio Baptista
    28 de dezembro de 2016

    Pra mim, esses prêmios são iguais à Larissa (a menina mais bonita da sala, na longínqua sétima série).

    No fundo, eu sabia que ela nunca iria querer nada comigo, mas a verdade mesmo… é que eu gostava de me iludir.

    O Prêmio SESC 2017 já é realidade! 😀

  6. Eduardo Selga
    28 de dezembro de 2016

    Essa depauperação dos concursos, outrora sérios, tem íntima relação com um processo maior: o rebaixamento da cultura por meio da indústria cultural, o que faz com que simulacros de arte sejam considerado obras de arte, pelo viés do impressionismo crítico e do prazer gerado pela recepção textual, o que significa basicamente o seguinte, em se tratando de literatura: se o texto tal agradou meu gosto particular enquanto leitor, isso significa que ele tem indiscutível qualidade literária.

    Ora, numa sociedade empobrecida estética e educacionalmente, é preciso relativizar esse gosto e a sua soberania. O leitor não é o sol do universo chamado Literatura. Deveria ser o autor, em todas as suas colorações. Afinal, há leitor tanto para Guimarães Rosa quanto para Paulo Lins, e aqui não faço entre eles comparação quanto à qualidade, antes me refiro às suas construções estéticas.

    A cultura industrializada não é algo inevitável, absolutamente necessário. Ela ganhou força a partir da Segunda Guerra, quando os EUA se deram conta de que dominar os povos por meio da cultura é muito mais barato e lucrativo do que fazê-lo pelas armas. Mas é possível e necessário produzir cultura e literatura fora das amarras, conforme podemos observar Brasil afora, nos coletivos culturais, principalmente.

    Esse fordismo cultural, ou seja, a cultura na linha de montagem, é o que representam os concursos citados no artigo. Mas não é apenas uma questão econômica: está fundamentalmente arraigada a uma questão ideológica: propagam-se os textos que não incomodam a estrutura que sustenta a indústria.

    É nesse sentido que eu, como já disse noutras ocasiões, considero que “gêneros” como o “fantasia” não passam de forçação de barra. Eles não existem de fato, são construções dessa indústria, sempre faminta por uma “novidade”. Nesse sentido, é a mesma lógica midiática que faz as gôndolas dos supermercados serem “renovadas” de quando em quando, ou as novelas serem substituídas por outras que você tem a nítida sensação de já ter visto antes. Os produtos culturais midiáticos (e a palavra “produto” cai como uma luva) trazem em si essa ideia de déjà-vu.

    Coloquemos os olhos em nós mesmos. Não apenas existem os autores alinhados com a perspectiva que acabo de criticar: também temos os que escrevem sob outra ótica, e que produzem literatura de boa qualidade. No entanto, um lugar ao sol para esses rebeldes punks está vedado.

    Aliás, Gustavo, que tal, talvez junto com a Caligo, promovermos um concurso de contos a nível nacional que mostre ao tal “mercado” que é possível aliar qualidade literária, seriedade avaliativa e viabilidade editorial? Um concurso com quantidade máxima de concorrentes, larguíssimo tempo para análise e tema incômodo. Fica a ideia.

    • Gustavo Castro Araujo
      29 de dezembro de 2016

      Interessante seu comentário, Eduardo. Incômodo, para dizer o mínimo – e nisso me refiro como qualidade. Concordo com quase tudo o que você disse, mas não sei até que ponto essa concordância abrange a ideia embutida de que padecemos inevitavelmente de uma colonização cultural. É algo no que pensar. Assim como na sugestão que você fez no que tange a um certame mais longo, abrangente e desafiador. Obrigado por suas impressões sempre oportunas. Um abraço!

    • Rodrigo Domit
      30 de dezembro de 2016

      isso sem contar a espetacularização do(a) autor(a) em detrimento da valorização da obra

      em uma sociedade com os nossos índices de leitura, o que faz sucesso é saber da vida do(a) autor(a) … ninguém vai ler o livro mesmo

      é importante vender o livro, mesmo que a pessoa não leia … mas é mais importante ainda vender participação em eventos (remuneração melhor do que direito autoral) do que vender o livro por si só

  7. Catarina
    28 de dezembro de 2016

    Fazendo uma continha básica. Peguei aqui um livrinho fino (158 páginas) e de leitura rápida. Se os jurados do Jabuti analisassem 202 romances teríamos 355 páginas por dia, isto é: mais de 2 romances por dia. Imaginem um romance que começa assim: “A gota serena não é fixe. Deixar, se transforma-se em gancho e se degenera em outras mazelas, de sorte que é se precatar contra mulheres de viagem.” Não teria a menor chance o genial Sargento Getúlio de João Ubaldo Ribeiro nos dias de hoje.
    Sua crônica dói, mas precisamos lê-la.

    • Gustavo Castro Araujo
      29 de dezembro de 2016

      Obrigado pela leitura e pelo comentário, Catarina. Não tenho a menor dúvida de que hoje autores como Machadão ou mesmo Clarice teriam poucas chances de sucesso se desconhecidos fossem.

  8. Tamires de Carvalho
    28 de dezembro de 2016

    Triste realidade. Por isso faz tempo que deixei de acreditar nesses concursos. O prêmio Kindle foi realmente uma piada, conversa para boi dormir.

  9. Davenir Viganon
    28 de dezembro de 2016

    Muito bom artigo.
    Essa situação me lembra outro assunto polêmico, a do “vanity press”, e o foco da enganação não muda muito: Usar os escritores como cimento onde se faz um selo para colar na capa de um livro, “Vencedor do Prêmio tal”. (meio dramático, mas é por ai). É por isso que não me animo a mandar um livro meu para nenhum concurso desses, além de, é claro, o fato de eu não ter livro nenhum para mandar.

  10. Brian Oliveira Lancaster
    28 de dezembro de 2016

    Já participei de alguns concursos literários em minha cidade natal, mas essa sensação de “limbo”, sempre permanece. A mente começa a achar que não vale a pena tanto esforço e vigor, e acaba direcionando a energia literária para outras coisas.

    • Gustavo Castro Araujo
      29 de dezembro de 2016

      O problema é a falta de transparência. Quando termina o concurso e vemos que não fomos os vencedores, ficamos com aquela sensação de vazio mesmo. Não dá para saber até onde fomos, se gostaram ou não, se batemos na trave ou se já estávamos fora lá no início…

  11. Cilas Medi
    28 de dezembro de 2016

    Não consegui, em duas ocasiões, ir até o fim com o Leite Derramado. Coerente a análise. O tempo para uma leitura correta e lúcida é de, pelo menos, uma semana. Abraços!

  12. sergioricardosite
    28 de dezembro de 2016

    Realista e lúcido.

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Publicado às 28 de dezembro de 2016 por em Artigos e marcado .