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Detox Literário.

O Sétimo do Sétimo – Conto (Fabio Evangelista)

sétimo

O mesmo lugar, as mesmas paredes, as mesmas grades distantes ao alto –o único meio que me resta para ver o céu. Não acredito que já faz quase um mês que estou aqui. O primeiro de muitos. O primeiro do resto. Quanto mais os dias passam, mais o tempo parece demorar a correr. É difícil ficar sóbrio aqui dentro. A falta de qualquer atividade causa demência –os miolos amolecem e a pessoa acaba morrendo de melancolia. Há até um nome para isso. Os médicos chamam de “gliose”. Sei disso porque aconteceu com senhora a três celas do outro lado do corredor. Desde que cheguei aqui só escuto ela gemer, não entende mais nada do que acontece ao seu redor.  Isso é sofrimento ou libertação? De certo que não se trata de felicidade.

As pessoas não fazem ideia do que acontece nas masmorras de manicômios. Sim, eles ainda existem. Somos os filhos rejeitados da sociedade, cobaias, animais enjaulados. Lembro-me em detalhes o primeiro dia em que vim parar aqui. Achei estranho um policial ter batido à minha porta com um mandado obrigatório para que eu fizesse exame de sangue.

Compararam meu DNA com a saliva encontrada nos corpos e pronto… finalmente o tão procurado “Maníaco das luas cheias” foi encontrado. Acontecem coisas estranhas na vida de um homem. E tudo isso é realmente muito estranho, pois não me sinto de forma alguma culpado. De maneira alguma seria capaz de ter cometido aqueles crimes. Canibalismo, minha nossa! Só de pensar meu estômago embrulha.

A senhora de meia idade em frente a minha cela sempre me encara quando está acordada e parece me julgar com os olhos. Não me julga mal, acredito. Senhora Myers… Conheci-a no primeiro dia. Ela está sempre se desculpando pelos cabelos embaraçados e pelos lábios que sem batom. Reclamava disso todos os dias… Tinha sido transferida da ala feminina para cá, pois ela deixava as mulheres agitadas. Todas queriam linchá-la. Mas, de qualquer forma, ela sempre preferia estar no meio de homens. Vivia conversando com um ser imaginário que ela chamava de “Shrutes”. Às vezes eles até brigavam. Uma vez a observei dando um tapa no ar e depois pedindo desculpas por tê-lo agredido.

Myers tinha uma história macabra, como todos que estão aqui dentro. No entanto seu relato mexeu comigo de um jeito especial. Ela tinha um filho único, Donald, o qual foi convocado para a guerra ao completar dezoito anos. Ficou muitos meses sem ter notícias do filho. Foi quando ela começou a delirar com a figura de Shrutes, o fantasma de um velho major que jurou proteger o filho durante a guerra.

Shrutes tinha lhe dado uma condição para que o filho voltasse vivo para casa: ela teria que executar sacrifícios humanos. Sra. Myers era de uma aldeia que ficava na base de uma montanha muito frequentada por turistas no inverno. Ela havia herdado uma pequena propriedade rural do pai. Seu falecido marido tinha a transformou numa pousada para visitantes. Shrutes a convenceu de que estaria tudo bem em matar os hóspedes que a incomodasse. Ela então passou a despejar sonífero no café de qualquer um que reclamasse dos seus serviços. Quando desmaiavam, ela preparava a carroça e os levava para o celeiro. Degolava-os ali mesmo, e então os pendurava em ganchos usados para drenar sangue de porco. Deixava os corpos repousando em soda cáustica até virar uma massa escura, com a qual ela fazia várias barras de sabão. Vendia-as na pequena igreja da aldeia. Com o sangue ela teve a ideia de preparar bolos que eram servidos em fatias para os demais hóspedes.

Myers afirma que bolo de sangue humano tinha um sabor naturalmente adocicado. Segundo ela, a iguaria era muito apreciada pelos clientes e até virou notícia, tornando uma atração turística. Muitos confeiteiros lhe ofereceram dinheiro pela receita, mas obviamente ela nunca a revelou. Somente Shrutes sabia qual era o ingrediente secreto.

A mulher sempre sorria enquanto contava suas histórias. Na semana passada ela lembrou-se de uma senhora muito gorda que havia sido rude com ela ao reclamar de insetos em seu chalé. Myers contou-me que a carne dela era branca por baixo da pele, não vermelha como na maioria das pessoas. Seu corpo rendeu mais de quarenta quilos de sabão, e o bolo feito de seu sangue foi o mais doce que alguém já provou.

Nesse dia eu perguntei se o filho tinha voltado vivo da guerra. Ela não sabia. A fama de seus bolos e o desaparecimento de alguns hóspedes acabaram chamando atenção demais e logo descobriram o que ela andava fazendo. Foi então que ela veio parar aqui. Está internada há mais de dois anos –os enfermeiros me disseram. No entanto Shrutes garante que o filho está vivo e casado com uma estrangeira. Segundo o ser imaginário, ela tinha três netos, duas meninas e um menino. Sempre que ela se lembrava deles, lágrimas escorriam de seus olhos. Ela queria vê-los, mas ninguém aqui tem direito a visitas.

Uma vez por semana as enfermeiras nos dão banho e trocam as nossas roupas. Um único banho por semana. Elas sedam-nos, despem-nos, amarram-nos e nos esfregam com uma esponja molhada em um balde com água e sabão. O mesmo balde e esponja para todos, é claro. Algumas das enfermeiras sussurram para Sra. Myers que o sabão usado em seu banho tinha sido feito com o corpo do seu filho, o qual morreu na guerra. A maioria delas afirma que o fantasma do velho major estava enganando-a. Myers está sempre sedada durante os banhos, mas parece compreender as palavras, pois logo após recuperar-se ela desaba a chorar. Shrutes sempre aparece para confortá-la e consegue convencê-la de que o filho está bem.

Coitada. Existe algum limite para a loucura humana? O crime que ela cometeu é cruel, sem dúvida, não dá para deixá-la solta. No entanto é difícil não sentir pena daquela senhora. Transtornos não são maldades. Uma pessoa com distúrbios mentais não é boa nem má. É apenas como um animal selvagem. Alguém pode chamar de má uma hiena que arranca pedaços de um gnu ao devorá-lo enquanto ele ainda está vivo? O leão parece ser mais piedoso, pois abate suas presas com uma única mordida na jugular, dando-lhe uma morte rápida –uma morte mais digna. Porém dignidade, ética e bondade são valores humanos e não podem ser aplicados na natureza. A natureza é o que é. Do mesmo modo, não podemos culpar Sra. Myers por começar a ouvir vozes de um ser imaginário que lhe pediu para cometer sacrifícios em troca de poupar a vida de seu filho.

Lembro-me que na segunda semana Sra. Myers estava muito curiosa, insistindo para que eu lhe contasse a minha história. Contei a ela a verdade –que fui culpado por um crime que não cometi. Eu era vigia noturno de uma fábrica de tecidos quando comecei a sofrer algumas crises de desmaios. Acontecia sempre no meu posto de trabalho.

Após passar a crise, eu sempre acordava com o sol a pino, em algum lugar totalmente diferente do qual havia desmaiado –geralmente uma praça ou nos campos ao redor da cidade. Não acontecia sempre, apenas em alguns dias específicos do mês… Uma vez acordei a mais de dez quilômetros do meu local de trabalho.

Fui buscar ajuda médica e os doutores disseram que o meu caso poderia ser hereditário. Parece que alguns casos de sonambulismo são genéticos. Recebi medicação para dormir, mas isso não me ajudou muito.

Nessa época a cidade estava em pânico. Um serial killer estava à solta. A polícia tinha identificado um padrão em suas ações e sabia quando os ataques iriam acontecer. No entanto não sabiam onde iria acontecer e não havia uma única pista ou suspeito que eles pudessem investigar.

Minhas crises de desmaio aconteciam nas mesmas noites que o assassino agia. Não acredito em coincidências desse tipo. Só poderia haver uma explicação para isso: alguém estava tentando me incriminar.

Um dia, após uma crise, algumas crianças me encontraram caído e totalmente nu próximos aos arbustos de uma praça pública. Acabei acordando num leito de hospital. Nesse dia a polícia tinha sido notificada sobre um caso de homicídio. Os restos mortais de uma mulher foram encontrados naquela mesma praça. Os documentos dela estavam dentro do que havia restado de sua bolsa. Nenhum dinheiro foi levado.

A vítima era minha esposa, Wilma.

Eu estava de folga no dia, por isso dormia em casa quando tive a última crise de sonambulismo, antes de vir para cá. Minha mulher aparentemente teria me flagrado pulando a janela do quarto e me seguiu. Acabou virando vítima do serial killer. Nossa vizinha confessou à polícia que Wilma estava preocupada comigo. Eu sempre a amei muito e jamais seria capaz de cometer um ato desses. Talvez o alvo do maníaco fosse eu. De qualquer forma todos acreditaram que eu a matei.

O pior é que o filho da mãe conseguiu me incriminar. O padrão de seus crimes era o canibalismo. Ele matava suas vítimas a mordidas, e então se alimentava de suas vísceras. Logo a polícia começou a seguir uma linha de investigação e descobriu que a mesma saliva estava presente em todos os corpos. Minha mulher estava desaparecida e eu tinha recebido alta hospitalar quando recebi o mandado para realizar o exame de sangue.

Meu DNA foi comparado com as amostras de saliva encontradas nos corpos e isso acabou me incriminando. Treze pessoas assassinadas e devoradas, a maioria mendigos ou campistas que dormiam nas florestas ao longo das margens do lago, seus restos mortais cobertos com a minha saliva.

A própria Sra. Myers suspeitou contra mim enquanto eu lhe contava minha história. Disse-me que eu deveria ter ficado maluco durante minhas crises e então cometido os crimes. Na verdade as conclusões da Sra. Myers não foram diferentes às da maioria. Todos acreditaram que eu fosse o culpado. Até mesmo eu cheguei a duvidar da minha inocência.

Por não confessar e realmente parecer confuso, acabei sendo considerado um incapaz, e só por isso vim parar aqui, nas masmorras de um manicômio, ao invés de ser sentenciado à morte.

Finalmente o “Maníaco das luas cheias” estava preso e as pessoas podiam dormir em paz.

No entanto as provas foram insuficientes, e isso me dá esperança de sair logo daqui. Foram feitos diversos testes com a minha arcada dentária, comparando-a com as marcas das mordidas encontradas nas vítimas. Nenhum desses testes foi conclusivo –a profundidade das marcas mostrava que o canibal era um homem muito maior e mais forte do que eu.

Certamente alguém armou contra mim. As crises de desmaios poderiam ter sido causadas por ação de sedativos. Talvez alguém tenha me sedado durante os meus turnos na fábrica e apanhado amostras de minha saliva, despejando-as nos corpos de suas vítimas. Porém, mesmo que os testes da arcada dentária tenha provado o contrário, o júri considerou os exames de DNA suficientes.

Confesso que estou pouco preocupado com tudo isso. Acredito em minha inocência e logo ela será provada. Quando isso acontecer, abrirei um processo contra o Estado. Sei disso porque estou aqui, preso nessa cela imunda, enquanto o verdadeiro assassino está solto. Logo ele cometerá outro crime e todos saberão que sou inocente.

No instante em que contei isso à Sra. Myers, ouvi pela primeira vez uma voz grave me dizendo que isso não iria acontecer. Robert era um negro alto e forte que ocupava a terceira cela depois da minha, do mesmo lado do corredor. Tinha uma história complicada. Sua irmã era casada com um policial graduado em psicologia, especialista, vejam só, em casos de serial killers.

Robert me ensinou que se um assassino tem preferência por uma vítima, ele geralmente vai seguir sempre o mesmo padrão. Se gostar de matar senhoras da terceira idade, irá sempre perseguir e matar velhinhas. É como um fetiche.

Contei a ele que o assassino que me incriminou não tinha nenhuma preferência de vítima. Ele me explicou que canibais geralmente não costumam seguir padrões. O cunhado dele havia lhe dito isso, enquanto ele o forçava a engolir o próprio fígado.

Robert e seu cunhado se davam muito bem. Porém aos poucos ele se tornou um alcóolatra e começou a agredir sua irmã e seus sobrinhos. Um dia os dois brigaram feio e Robert lhe deu uma surra, mas isso apenas piorou a situação, pois o homem usou sua autoridade e o prendeu por agressão a um policial.

Após esse episódio, Robert chamou o cunhado para se acertarem. Os dois acabaram bebendo juntos e fizeram as pazes. Robert planejou tudo e tinha despejado calmantes na bebida do seu cunhado. Quando o cunhado desmaiou, ele o amarrou numa cadeira no porão de sua casa.

Robert abriu seu ventre com uma faca serrilhada e lhe retirou órgão por órgão, primeiro os não vitais, fritando-os em óleo quente. O homem então forçou o cunhado a comê-los lentamente. Enquanto contava os detalhes, Robert divertia-se em descrever os gritos que o cunhado deu ao ver seu próprio testículo sendo frito. Obviamente o homem se recusou a comê-lo, mas mudou de ideia quando Robert prometeu que se ele o fizesse, o outro testículo seria poupado. O homem engoliu sem mastigar. Robert considerou isso uma trapaça e lhe arrancou a outra bola.

A própria irmã a quem ele estava defendendo o denunciou e Robert foi preso. Sua pena foi atenuada porque ele tomava medicação forte para controlar as emoções. Apenas por isso não foi condenado à morte e acabou vindo parar aqui. Um caso parecido com o meu. Um caso parecido com o de todos que estão aqui.

Robert tinha uma teoria interessante a respeito do meu caso. Se eu fosse realmente inocente, então o assassino poderia ter agido apenas por ódio. A morte de minha esposa teria sido o grand finale  de sua obra –pelo menos dessa obra em particular.

O maníaco teria concluído o seu objetivo: minha mulher estava morta e eu estava preso num manicômio pelo resto dos meus dias.

Perguntei a ele por qual motivo alguém faria isso comigo. Robert respondeu que aparentemente esse maníaco tinha algum tipo de obsessão por mim, para ter se dado ao trabalho de coletar e despejar amostras de minha saliva em cada uma de suas vítimas. Quando conseguiu finalmente me incriminar, sua obra estava completa.

Poderia ter agido até mesmo por vingança. Esse tipo de psicopata é muito preciso em seus atos. São pessoas muito inteligentes que calculam cada passo de suas ações. Serial killers tem compulsão por matar, e certamente ele o fará de novo. Porém esses novos crimes seriam feitos de outras maneiras, tentando incriminar outras pessoas que tenham de alguma maneira o prejudicado. Provavelmente agiria em outra cidade bem longe da minha. A obra realizada comigo estava encerrada e ele tinha saído impune.

Depois de ouvir as conclusões de Robert, voltei à minha cama sem esperanças e fiquei durante muitas horas pensando em quem seria capaz de fazer algo assim. Lembrei que durante os três anos que trabalhei como vigilante, tive apenas um conflito. Um jovem desesperado tinha pulado os muros da fábrica. Ele foi flagrado pelas câmeras e tive que correr para impedi-lo de entrar nos galpões.

Foi um caso muito engraçado, na verdade. O homem estava fugindo de um travesti e de seu cafetão. O rapaz tinha feito um programa e não tinha dinheiro para pagar. Ia levar uma surra se não tivesse pulado os muros da fábrica. De qualquer modo, precisei chamar a polícia e o caso acabou saindo no noticiário local. O pobre jovem foi vítima de humilhação durante muitos meses. A cidade em que morávamos era pequena e qualquer acontecimento virava um grande alvoroço.

Comecei a assimilar os fatos e as coisas começaram a fazer sentido. Acabei lembrando-me de que foi logo depois desse caso que começaram as minhas crises de desmaios e, consequentemente, os casos de homicídio. Seria bastante provável que o jovem tenha me considerado culpado de sua humilhação e estivesse se vingando.

Perto da fábrica havia um ponto de prostituição e, se não me engano, a primeira vítima dos assassinatos foi um travesti. Seria o mesmo travesti que teria perseguido o jovem no dia em que o surpreendi pulando os muros da fábrica?

Tentei conversar com os diretores do manicômio sobre isso, mas eles nunca autorizaram. George me explicou que isso nunca iria acontecer. A única forma de sair daqui seria fugindo. Mesmo que minha inocência fosse provada, eles jamais iriam me libertar, a não ser que eu tivesse uma família dedicada e rica, disposta a gastar fortunas com advogados, o que não era o meu caso.

George passava muitas horas escrevendo fórmulas malucas nas paredes de sua cela.  Era um velho professor de matemática que perdeu o juízo. Acabou abusando dos alunos que tirassem notas menores que quatro. Sempre garotos. Matava suas vítimas de modo bastante cruel. Tinha construído um jardim no fundo de sua propriedade, com um lago no centro, lotado com piranhas importadas ilegalmente da Amazônia. Fazia um pequeno corte no braço ou perna dos garotos e os jogava no lago. As piranhas destruíam qualquer evidência, deixando apenas os ossos, lisos como porcelana.

Tinha a mania de exibir os pequenos crânios em figuras geométricas que ele desenhava em seus aposentos. Dizia que importava os crânios de sítios arqueológicos. Assim foi descoberto.

Conheci George mais intimamente na segunda semana. Pareceu-me um homem bastante lúcido. Antigamente ele escrevia suas fórmulas num velho caderno de anotações. Um dia as folhas em branco terminaram e ele começou a escrever nas paredes da cela. Os enfermeiros não gostaram muito disso e tentaram retirar suas canetas.

Um dos enfermeiros teve o tímpano furado. O outro perdeu um olho.

A partir de então suas canetas foram confiscadas, mas George continuou escrevendo nas paredes da cela… usando as próprias fezes para isso.

Os demais internos me disseram que logo eu iria me acostumar com o cheiro.

Isso ainda não aconteceu.

Eu estava respondendo algumas curiosidades da Sra. Myers quando ele me perguntou qual era o meu número mágico. No primeiro momento não dei atenção a ele, porém ele insistiu bastante e acabei respondendo apenas para que se calasse.

Perguntei a ele o que era um “número mágico”, e ele me respondeu que todos nós temos um número secreto que faz tudo em nossa volta parecer coincidência. Disse a ele que talvez o meu número fosse o sete, e tive de lhe contar toda a história da minha vida para que ele pudesse interpretar:

Na verdade não era nada muito complexo. Tratava-se apenas de uma coincidência que sempre me pareceu curiosa. Nasci de uma família humilde e muito numerosa, todos operários de uma fazenda de milho no oeste do Estado. Ao todo tenho nove irmãos, seis homens e três mulheres. Sou o sétimo filho dos meus pais. Antes de mim nasceram apenas homens. Depois de mim, apenas mulheres.

O mais impressionante é que com o meu pai aconteceu a mesma coisa, apesar de ele ter uma irmã a menos.

George ficou impressionado e disse-me que essa coincidência estava ligada a misticismos de diversas culturas antigas. A partir de então ele passou a me chamar de “O sétimo do sétimo”.

Contei a ele que eu havia abandonado a propriedade rural e fui para a cidade em busca de oportunidades, e tudo o que consegui foi tornar-me vigia noturno de uma fábrica de tecidos. Foi quando começaram as minhas crises de desmaios.

No dia seguinte George me explicou que éramos apenas números ali dentro. Cada paciente somava um número a mais, e isso garantia a verba que o Estado mandava para a instituição. E quanto mais pacientes o manicômio tivesse, maior era a verba que os diretores recebiam. E onde há dinheiro e pessoas, há corrupção. Talvez o verdadeiro assassino já tenha sido encontrado e eles apenas não me informam. E nunca irão me informar. Minha família não sabe se estou vivo ou morto. Não creio que se importam.

Pelos próximos dias mal nos falamos e começo a concordar com as deduções do professor: somos apenas números ali dentro. Nunca irão me soltar.

Todos os dias, junto com as refeições, os agentes distribuem a medicação –sempre as mesmas três pílulas: uma branca, uma azul e uma vermelha, sem nenhuma identificação. Parece que todos ali dentro sofrem do mesmo transtorno, pois todos recebem essas mesmas três pílulas. Eu as tomei nos três primeiros dias, mas depois fingi engoli-las e passei a despejá-las no vaso sanitário. Elas me deixavam estranho, aéreo, de certo modo conformado com a situação. É isso que eles querem.

Na última semana comecei a guardar as pílulas debaixo do colchão, ao invés de descartá-las. Acho que encontrei a solução. Quando conseguir acumular uns cinquenta comprimidos de cada cor eu os engoliria todos de uma vez. Isso resolveria o meu problema. Ninguém irá sentir minha falta mesmo, a não ser, talvez, os diretores desse lugar que terão um número a menos.

Hoje após o jantar guardei mais três. Ao todo contei dezoito. Ninguém até agora percebeu. Em um ou dois meses estarei pronto para a liberdade eterna.

Deitado na cama, percebo um vento gelado que desce do teto e invade a cela. Os últimos raios do sol iluminam uma das paredes. As luzes dos corredores se apagam. Depois de um tempo minhas pupilas se dilatam e percebo que a cela não está assim tão escura. Há uma forte claridade passando por cima das grades ao alto da cela, pelas quais posso ver o céu noturno. Somente agora posso enxergar com clareza o brilho da lua. Levanto-me para admirá-la. Bela lua! Redonda, brilhante, majestosa! Sinto que posso ficar horas olhando para ela sem ter com o que me preocupar. Todas as preocupações do mundo são expulsas diante de sua majestade. Sinto-me nostálgico e abduzido por seu brilho.

Começo a me sentir hipnotizado pela lua. Começo a ficar estranho e aéreo. Preciso desviar os olhos de seu encanto, mas não consigo. Sinto uma vontade incontrolável de saldá-la. A visão dos meus olhos se ampliam. É muito bela! Enxergo todos os seus detalhes, tenho o foco de visão mais poderoso ao de  uma águia. A grande imperatriz das noites me convoca, me chama, me hipnotiza e me consome. Não consigo explicar, é como uma viagem de ácido!

Desvio a atenção e me sinto um pouco mais lúcido. Olho para o prato semivazio de alumínio e sobe-me um nojo repugnante pelas sobras de arroz, apesar de minha fome estar aumentando muito rápido, cada vez mais. Tenho muita fome, mas não consigo encarar os restos que deixei. Esse nojo se apodera da minha razão e começa a ser descarregado em forma de raiva. Tenho vontade de chutar longe o prato. Deus, o que está me acontecendo?

Sinto um calor insuportável vindo de dentro do meu corpo. Estou suando feito um porco! Até a pouco tempo sentia um frio insuportável, mas agora parece que estou numa sauna seca. Preciso tirar a roupa, não estou aguentando… quero ficar nu. Sim, quero. Preciso ficar nu. Tenho de ficar nu para saldar a lua!

Ah desespero! O que significa tudo isso? Que diabos está acontecendo?

Começo a ficar irritado, inquieto. Estou me desesperando. Estou me desesperando. Estou me… A maldita calça não quer sair! O cinto deve ter ficado preso. Tento abrir a fivela, mas a fivela está presa! Suo feito um porco e a maldita fivela não abre… Estou sem coordenação, não sinto mais meus braços. Rá, que sensação maravilhosa! Não sinto meus membros! Pareço estar viajando, viajando pela escuridão em direção à lua. Poderia deixar que me matem agora. Sim, poderia. Tanto faz! Nada mais me importa. Só quero que essa sensação nunca me deixe!

Arrebento o cinto numa só puxada. Volto a sentir meus músculos. Estão fortes! Incrivelmente fortes! Fico nu e vejo todos os meus pelos. Estão tão eriçados que mal posso enxergar a pele. O que colocaram na comida? Será que misturaram cogumelos junto ao arroz?

Fome, maldita fome. Não posso pensar em comida. Quero destruir esses ovos que me embrulham o estômago. Quero pisar com força nesse monte de merda que me deram para engolir. Preciso de carne, muita carne. Preciso de carne. Meu faro… Meu faro… Posso sentir o cheiro de carne a quilômetros! Tenho de sair daqui. Preciso sair daqui para me alimentar. Preciso estar forte para saldar a lua. Está linda! Maravilhosa. Tenho a obrigação de reverenciá-la.

Dou um chute no prato e ele ricocheteia por várias vezes nas paredes. O chão fica repleto de arroz. Minha força está incrível! Sinto-a fluir em meus músculos. Preciso descarregá-la. Preciso disputá-la com alguém. Onde está o… como é mesmo o nome do enfermeiro? Não consigo me lembrar, há um branco em minha mente!

Meus sentidos estão ampliados, com olhos de gavião e ouvidos de um coiote. Ouço baratas rastejando pelos corredores como se fossem elefantes!

Fome, fome. O cheiro de carne está me deixando louco! Entra-me nas narinas e desce diretamente no estômago. Preciso da carne. Tenho de comer para cantar para a lua. Preciso saúda-la. Preciso, preciso,… realmente preciso…

Não consigo ficar parado. Ando de um lado para o outro, sem parar.  Ergo o pescoço e solto o diafragma. Não consigo evitar. Emito um sonoro uivo para a lua. É uma maravilhosa sensação! Farejo o medo por todos os lados Isso me excita! Pela primeira vez sinto-me realmente vivo! Sinto-me vivo, sou um animal! Um animal livre! Sou um animal livre e vivo! Estou totalmente nu, mas não me sinto assim. Estou livre! Libertei-me de todos as amarras do mundo. Nada poderá me impedir. Sou um ser irracional agora e com muito orgulho disso. Viva a escuridão, viva a lua!

Solto outro uivo. Estou preso, mas estou livre. Não sou mais prisioneiro da minha mente. Sou um animal livre.

Dou fortes chutes nas grades. Tenho necessidade de disputar essa energia com alguém. Preciso descarregá-la. Tento abrir as grades com os braços e os dentes. Sinto uma potência incrível nos dentes. Sou capaz de mastigar correntes com eles!

Rosno para as pessoas atrás das grades. Não sou mais capaz de articular. Não encontro mais palavras. As palavras perderam todos os sentidos para mim. Estou livre, e não preciso mais de roupas ou de verbos. Deixo meus instintos me guiarem. Estou sobrecarregado de instintos. Sinto, cheiro, olho e ouço. Preciso caçar!

Solto outro uivo. Desta vez um que expressa toda minha raiva e fome. Os internos começam a ficar agitados. E eu estou com fome. Muita fome! Os guardas de plantão correm até minha cela. Sua voz vibrando em meus ouvidos me deixa mais irritado. Bato com tanta força na porta que seus trincos se rompem. A porta cai e os guardas pulam para o lado.

“Meu Deus!” um deles diz ao me ver.

Avanço em sua direção. Ele se afasta e procura a pistola. Tenta se comunicar com o rádio. Parece ser uma presa fácil. Parece estar apavorado, e eu adoro isso. Adoro o cheiro de medo, o cheiro pulsando por baixo de sua pele.

Pulo para cima dele. Bato todos os recordes do salto à distância. Estou ágil nas pernas. É inútil lutar contra mim. Começo a farejá-lo. Seu cheiro é diferente, incrivelmente bom. Tateio sua pele com a língua. O gosto também é bom! Ele não entende. Estou fora de controle! Rasgo sua carne com os dentes! Saboreio suas vísceras, retalho ele inteiro, enquanto os outros guardas vão buscar ajuda! Não me satisfaço, preciso de mais! O sangue doce escorre pelos meus lábios. Trituro os seus ossos como se fossem manteiga! Minha mandíbula está forte.

Clarões e lampejos são acompanhados de sons de explosões. Sinto dores no peito e nas coxas como se algo me perfurasse. Volto para a cela e salto em uma das paredes, dando impulso para o outro lado. Assim consigo alcançar as grades de ferro do teto. Agarro-as e forço-as para baixo até que as paredes cedem. As luzes de muitos homens se aproximam. Dou mais um salto e alcanço a saída pelo teto.

Ergo-me nos campos lá fora. Estou sobre um gramado alto, sentindo o cheiro forte de orvalho. Corro pelo campo. Sigo a trilha marcada por um odor reconhecido. Há um cercado de arame pela frente. Improviso uma abertura com uma única investida de uma das mãos.

Finalmente estou livre! Corro em direção às florestas, sempre seguindo o rastro de carne fresca –carne humana. Paro no meio da mata e me ergo sobre as duas pernas. Finalmente posso admirar o brilho da lua. Canto em sua homenagem! Um único tom alto que não muda de nota. Agacho-me novamente e uso os braços para correr mais depressa, seguindo sempre o rastro que cada vez fica mais forte e suculento!

 

Horas depois eu abro os olhos, incomodado com a luz do dia. Estou deitado num campo de margaridas em meio a uma clareira na floresta, totalmente nu. Não estou mais em minha cela. O que poderia ter acontecido? Estou sonhando? Morri? Lembro-me apenas de sentir muito calor e uma forte ansiedade. Depois disso, nada. Um branco total, uma grande lacuna na memória. Será que tive mais uma crise de desmaio?

Sigo andando e encontro uma pequena casa no meio do campo. As roupas no varal parecem me servir. Chamo por alguém e peço ajuda, mas a casinha parece estar abandonada. Abutres se incomodam com a minha presença e voam para longe. Apanho as roupas e reparo na porta entreaberta. Há uma marca de garras poderosas, como as de um urso, ou de um animal ainda maior. É melhor sair dali. Visto-me rapidamente e vou-me embora. Procuro por uma estrada ou algum sinal de civilização.

Cinco dias depois, livre do manicômio e me escondendo das autoridades, ouço a notícia de que naquela mesma casa foram encontrados os restos mortais de um casal de idosos e seus três filhos. O “maníaco das luas cheias” voltou a atacar.

Começo a desconfiar de que eu precise de ajuda médica. Talvez eu realmente precise de uma overdose de comprimidos…

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Um comentário em “O Sétimo do Sétimo – Conto (Fabio Evangelista)

  1. JULIANA CALAFANGE
    10 de abril de 2016

    Bom, Fabio, eu gosto muito de histórias de terror. Achei sua ideia muito boa, mas penso q se vc a escrevesse em 3a pessoa podia conseguir melhor resultado. Digo, no sentido de provocar o medo. É mais fácil fazer isso em 3a pessoa do q em 1a. É complicado para o leitor entrar na mente do protagonista. Ficou tudo meio distante, sabe? Um tanto descritivo até. No momento do último ataque, ficou esquisito. Percebi q vc queria q víssemos o lado animal do personagem, seus instintos aflorando sob o efeito da lua cheia. Mas isso é muito difícil em 1a pessoa, pois não somos animais pra saber como ele se sente… então tudo ficou descritivo mais uma vez. Também me incomodou um pouco as comparações com as drogas, ácido, cogumelos, pq em nenhum momento do texto vc menciona que ele tenha usado drogas pra fazer essa comparação. Um garoto criado na fazenda… Enfim, acho q sua ideia merece ser retrabalhada em 3a pessoa, procurando mais momentos de tensão e suspense, provocando medo no leitor. Fiquei querendo sentir aquele arrepio na espinha, que afinal não veio.

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Publicado às 9 de abril de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .