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Literatura que desafia.

Saudade de Voar (Fabio Baptista)

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Dizem que em toda rua do Brasil tem pelo menos um menino bom de bola. Pode não ser um Neymar, mas sabe dominar no peito, tocar de primeira e chutar tirando do goleiro. É o que dizem. Mas, se isso é regra, a rua do Jorginho era exceção.

Que time ruim aquele da Rua 7! O Jorginho, “craque” do time, só dominava de canela e chutava torto, longe do goleiro, mas longe do gol também. Feliz quem jogasse contra eles no campeonato que o Seo Arlindo organizou para a molecada da vila. A Rua 7 ficou com medo de dar o maior vexame e nem faria a inscrição, mas o Seo Arlindo acabou convencendo o Jorginho a participar, dizendo – “Se você não sabe jogar com os pés, jogue com o coração. Tudo que um jogador precisa é um pouco de sorte e muita motivação!”. As frases rimavam, então parecia que era verdade mesmo.

E não é que os ruins de bola da Rua 7 levaram esse negócio de motivação a sério? Entraram no campinho de barro com a cabeça erguida, sobrancelhas franzidas, peito estufado, confiantes na vitória. Mas depois do apito inicial, nem viram a cor da bola e o primeiro tempo acabou 2 a 0 para o time da Rua 12. Foi um balde de água fria. “Não tem jeito, nós somos pernas de pau!”, os meninos resmungavam cabisbaixos, conformados com a amarga realidade. Quem poderia defendê-los? O que poderia ajudá-los? Qual seria a motivação agora?

No segundo tempo, veio a resposta.

E ela ficou sentada no muro de tijolo que separava o campinho da calçada, assistindo ao jogo com curiosidade de quem vê um desenho novo passando na TV. Aninha, neta do Seo Arlindo, olhos amendoados, cabelos encaracolados, sorriso faceiro… “OLHA A BOLA, JORGINHO!!!” – alguém gritou, chamando a atenção do garoto que, por alguns instantes, havia esquecido completamente do futebol.

O Jorginho olhou para a bola e dominou (meio de canela, mas dominou), correu, tocou, driblou, chutou. Como jogou aquele menino! Fez dois gols, empatando o jogo que acabaria assim se o juizão (o Seo Arlindo em pessoa) não marcasse um pênalti totalmente “Mandrake” bem no finzinho do jogo. Antes da cobrança, o Jorginho olhou para a Aninha, e ela abaixou a cabeça com um sorriso envergonhado aparecendo no canto da boca. O resto foi fácil. Bola num canto, goleiro no outro e Rua 7 classificada. Disposição, vontade, garra, motivação, determinação… e uma forcinha do árbitro.

O futebol não tem segredo.

Nas rodadas seguintes, o time do Jorginho contou com o reforço da Aninha, que passou a ver os jogos desde o começo. Assim, com o craque do time inspirado, avançaram para a semifinal e depois para a grande final contra a Rua 6, de longe a melhor equipe do torneio. O que a Rua 7 tinha de perebas, a Rua 6 tinha de bons jogadores. Bastava ver cinco minutos de partida para perceber que a distribuição de “talento para o futebol” havia sido feita de maneira desbalanceada naquele bairro.

O jogo foi um massacre. Mesmo com a Aninha assistindo, só dava Rua 6 pressionando do começo ao fim, chegando com perigo a todo momento. Mas, por pura obra do acaso (ou talvez do anjo da guarda do goleiro da Rua 7), a bola não entrava de jeito nenhum. Faltando dois minutos para acabar, o time do Jorginho conseguiu subir pela primeira vez ao ataque. O Lino (um menino magrelo e meio desengonçado, que parecia uma garça correndo) foi até a linha de fundo e bateu na redonda de qualquer jeito, mais para se livrar dela que qualquer outra coisa, e acabou, sem querer querendo, fazendo um cruzamento perfeito. O tempo foi passando em câmera lenta, pelo menos na visão do Jorginho, que correu, tomou impulso e voou de encontro à bola, subindo mais que os grandalhões da Rua 6 para dar uma cabeçada certeira e abrir o placar.

Momento mágico, daqueles que a gente lembra por um milhão de anos, ou talvez até um pouco mais.

* * *

Isso foi há muito tempo.

Hoje, o Jorginho é o doutor Jorge Albuquerque, advogado trabalhista. Parou de jogar bola e foi estudar, como a mãe mandou. Casou (não com a Aninha), teve dois filhos, comprou casa, carro e uma TV bem grande. “Venceu na vida”, como as pessoas gostam de falar. Depois daquele gol, muitos momentos marcantes aconteceram – o primeiro beijo (na Aninha), o gosto de erguer a taça, a formatura, o casamento, os filhos. Mas, nas noites estreladas o Jorge lembra, com um sorriso de canto de boca, de quando ele, ainda Jorginho, subiu como um pássaro e mandou a bola para o fundo do gol, há tantos anos. Nas noites estreladas ele lembra e sente uma saudade tão bonita que às vezes faz até chorar. Saudade do campinho de barro. Saudade do Seo Arlindo, dos moleques ruins de bola da Rua 7 e de todas as coisas que fez e deixou de fazer no antigo bairro.

Saudade do sorriso da Aninha.

Saudade de voar.

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Sobre Fabio Baptista

7 comentários em “Saudade de Voar (Fabio Baptista)

  1. Neusa Maria Fontolan
    22 de fevereiro de 2016

    Simplesmente lindo.

  2. Brian Oliveira Lancaster
    22 de fevereiro de 2016

    Fábio incorporando o Gustavo… Texto bem melancólico, com ar de nostalgia geral, próximo ao leitor. Você já tinha a habilidade bem mais cedo que outros. O EC foi ótimo nesse sentido para lapidar muito do que eu escrevia. Por isso você já ganhou 4 vezes (agora chega né :P).

  3. Gustavo Castro Araujo
    19 de fevereiro de 2016

    Gostei do conto! Com essa temática, também, é difícil não gostar. Para quem é da minha geração (1970-1980), é praticamente impossível não se identificar com as descrições, com as dificuldades típicas da idade, com os amores impossíveis. A narrativa é redondinha (sem trocadilho), simples, e termina com um ar de nostalgia bem equilibrado.

  4. JULIANA CALAFANGE
    19 de fevereiro de 2016

    Q lindo! Sabe, enquanto “menina”, eu não entendo muito de futebol, nem da emoção q ele proporciona a jogadores e torcedores. Mas com certeza há na minha vida muitas coisas q são como o futebol, q nos dá esse sentimento de voar. e eu me identifiquei completamente com o Jorge Albuquerque. Em tantos momentos da vida me pego sentindo essa saudade bonita que faz a gente chorar… Q lindo! Muito obrigada, adorei a leitura, campeão!

  5. Fabio Baptista
    19 de fevereiro de 2016

    Bom, essa é uma versão revisada. Em 2006, Neymar nem era nascido rsrsrs.

    Hoje vejo que a versão original tinha alguns “pecados” e até entendo a decisão do jornal. Apesar que, depois de ler os 10 selecionados, fiquei com aquela impressão de “pqp… o meu tava melhor!”.

  6. Catarina
    19 de fevereiro de 2016

    Absurdo!!! Este conto é simplesmente maravilhoso. Muito melhor do que o meu “Cida e a Televisão” que foi classificado finalista no mesmo ano (também em 2006 e um dos primeiros que escrevi) no concurso Contos do Rio, jornal O Globo.
    Vai saber os critérios adotados?

  7. Fabio Baptista
    19 de fevereiro de 2016

    Esse foi o primeiro, ou um dos primeiros contos que escrevi.

    Foi para um concurso de contos do jornal “O Estado de São Paulo”, na época da Copa de 2006, se não me engano. Os 10 melhores seriam publicados no jornal e depois numa coletânea.

    Não, não fui classificado 😦

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Publicado às 19 de fevereiro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado , .