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Literatura que desafia.

Amigas dos tempos de militância – Conto (Suzana Mag)

cartum da manifestação de 20140003

O restaurante transbordava do odor de batata frita e carne na brasa, do vai-e-vem dos garçons equilibrando sangrias, cervejas e apetitosas sobremesas, do arrastar de cadeiras, do vozerio e gargalhadas de grupos festejando aniversários. No fundo, porém, próxima a uma fontezinha artificial, um tanto pretensiosa, havia silêncio. Uma única mesa. Apenas uma mulher de uns quarenta anos, talvez, vestida de xadrez miúdo, um pouco antiquado, com vestígios de uma antiga e original beleza. Nariz longo e fino, cabelos quase negros, a testa alta e clara, os olhos castanhos, oblíquos e inteligentes. No pescoço delicado, usava um estranho pingente de jade em forma de meia lua quase rente ao pescoço.

Ela passava as páginas maquinalmente de uma revista de moda esquecida na cadeira ao lado. Foi quando lhe apareceu aquela figura em rosa e branco, vinda não sabia de onde. E se olharam estarrecidas, ajustando as novas fisionomias a um retrato empoeirado e esquecido, atirado a um canto.

“Dora!”

Dora se limitou a fechar a revista num gesto lento e cansado. A outra estava alvoroçada, quase radiante, piscando os olhos rapidamente, um hábito característico, quando se desorientava um pouco. Roliça, quase gorducha, com uma grossa pasta de couro debaixo do braço, esperava.

“Você está bem. Mais ou menos como na última vez em que nos vimos”.

A outra esperava talvez um convite para sentar. Mas não se fez de rogada. Puxou a cadeira e começou a despejar um inventário circunstanciado dos últimos anos, que casara, que se separara, que comprara uma casa de praia, que morara em tal parte. Dora a acompanhava com um olhar atento e sério, com acenos de cabeça e monossílabos quase inaudíveis, roçando de leve, com a ponta dos dedos longos e delicados, o pequeno pingente de jade.

A outra cessou o manancial aos poucos, escorrendo mais lentamente as historietas do filho mais velho, primeiro de turma, até derramar as gotinhas derradeiras, das suas aulas de violão e inglês.

“Sabe, às vezes me lembrava dos nossos tempos de militância, de como era a nossa vida…”

Dora e o materialismo histórico. A intelectual do grupo que explicava as filigranas do Capital, destrinchado em grupos de estudo com os alunos da Sociologia e da Economia. Que tinha horror de falar em público e se escondia no estudo da doutrina e na organização dos eventos. Fora uma época heroica, todos lançados, com feroz ímpeto e denodo, para extirpar os velhos alicerces, para aí tecer uma nova trama vibrátil e pura para uma sociedade com inúmeras possibilidades de mudança. Noites perdidas na faina dos compêndios de Hegel, da Economia clássica inglesa, para entender o mundo. Depois, a ânsia da  ação. O trabalho das comunidades, com os sindicatos, o magistério nas escolas de periferia, instilando nas primeiras letras o segredo terrível da opressão social.

Vitória, com as saias indianas, os cabelos longos até a cintura. Dora esquiva, quase conventual, seguindo Vitória em suas aventuras amorosas, se retirando discretamente, dando voltas a esmo, sem um lugar para se abrigar. Ela, um rebento de uma família de classe média ausente e intolerante com a sua paixão pela militância. Bolando por aí, sem destino, até reencontrar Vitória exultante da noitada. Vitória e seu pingente de jade, um presente a troco de nada, porque festejar aniversário e natal era um hábito burguês, então era um presente por nada. Vitória, vinda de uma cidadezinha perdida no Sertão, tão pobre, como teria ela arranjado aquilo, tão pequeno e delicado. Mas lá se iam muitos anos…

…E depois, Vitória se passara para as burocracias, as untuosas burocracias, de ricos e cobiçados cargos, cortejando os chefes, quem sabe até dormindo com eles, não se pode garantir o contrário, continuando sem estudar, continuando a ser a mulher da ação, da fala peremptória, dos copiosos delírios arquiteturais, das gloriosas mitologias, como jóias escondidas a serem exibidas a céu aberto, a todos. Tudo isso fora-se. Vitória edificou outros projetos, de sólidos patrimônios financeiros, engordou, atirou fora as saias indianas, as chinelinhas cambaias, meteu salto alto, um super clean cabelo louro-cinza chanel, no melhor salão da cidade.

E não se viram mais, as duas amigas, Dora e Vitória. Dora foi viver o seu ardor de entrega a uma utopia fraterna, de justiça e igualdade, de paz entre os homens. Internalizou-se nas comunidades rurais, assim como sempre foi, silenciosa, com gestos cada vez mais cansados e lentos. Como fora difícil navegar sozinha, arrostando as burocracias mesquinhas e paquidérmicas, a única alegria consistindo em ver alguns homens despontando na sua inteira e sublimada humanidade. O halo heroico de Dora foi aos poucos se esgarçando, despendendo fagulhas na noite densa da sua solidão nativa. E da doce fantasia arquitetural sobre a sociedade sobrara um pesadelo arquitetural manietador, que embaçara e embaralhara as suas crenças e objetivos práticos de vida.

Onde estava agora o fulgor das antigas visões?

Dora acompanhara com incredulidade, depois tristeza, depois raiva, a trajetória triunfante da sua grande amiga. Ela a deixara de lado, preocupada com coisas mais importantes. A sua glória neste mundo. Um apartamento e uma casa de praia. O carro do ano, talvez? Fora deixada num ostracismo tão grande! Suas tristezas, doenças, lutos e opiniões intelectuais foram silenciados gradualmente, e seus encontros, que se faziam cada vez mais raros se converteram num monólogo auto-laudatório até cessar mesmo o monólogo. E ficou apenas um silêncio constrangedor, quando não estavam com  amigos em comum convocados para disfarçar aquele embaraço, todo aquele tédio.

E agora Dora acariciava o pequeno pingente de jade, com uma velha dor redespertada. Enquanto Vitória lhe solicitava detalhes da vida dos velhos amigos, que ela ia dando molemente, embora com toda a correção e cortesia que lhe eram próprias. Quando Vitória se calou, ainda ruborizada e meio arfante do esforço do falatório frenético, foi Dora que adiantou já o seu preâmbulo de despedida, que precisava ir embora em breve, pois tinha um compromisso.

Vitória teve um assomo de surpresa, um certo mal-estar, inauditos para ela, até então. Notou que a mulher madura à sua frente, de olhar melancólico, metida no seu vestidinho de xadrez miúdo era, na verdade, quase uma estranha, a fitá-la assim, opaca e distante.

Dora se despediu, levando a revista. Vitória ainda ficou algum tempo, sentada, ajustando uma pulseira no pulso, com o olhar distraído na fonte artificial.

Foi quando vislumbrou, destacando-se na alvura da toalha da mesa, atrás de um vasinho de margaridas de plástico, o pequeno pingente de jade…

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5 comentários em “Amigas dos tempos de militância – Conto (Suzana Mag)

  1. Neusa Maria Fontolan
    22 de fevereiro de 2016

    Não entendi muito bem o papel do pingente de jade. Foi um presente de Vitória para Dora? Um presente muito querido, já que ela o usou por todo esse tempo, talvez alimentando as boas recordações que tinha. Ao deixar o pingente ela estava se desligando por completo do passado.

  2. Fabio Baptista
    14 de fevereiro de 2016

    Li e não curti muito.
    Achei adjetivado em demasia e esse reencontro não conseguiu me cativar. Achei que faltou “cutucar a ferida” com mais vontade.

    Abraço!

  3. José Leonardo
    14 de fevereiro de 2016

    Olá, autora. Você possui uma bela eloquência e uso bem pensado de adjetivos. Em poucos parágrafos conseguimos sorver as atividades anteriores da duas personagens, os sonhos, a luta pela utopia realmente irrealizável e enganosa. Que bom uma delas ter tomado rumo certo. Abraços.

  4. Claudia Roberta Angst
    13 de fevereiro de 2016

    Boa caracterização do ambiente e das personagens. As lembranças de um passado compartilhado e por uma delas aparentemente esquecido dão a base para as reflexões de Vitória. Os tempos de militância ficaram para trás e as duas amigas seguiram caminhos diferentes. A sensibilidade da autora transborda ao descrever as sensações e sentimentos provocados pelo inusitado encontro. O contraste do jade (esperança) esquecido atrás do vasinho de margaridas de plástico (lembranças descartáveis) ficou ótimo. Conto muito bom!

  5. Pedro Luna
    13 de fevereiro de 2016

    Um bom texto, sobre a vida que muda as pessoas. O pingente deixado foi a tesoura que cortou talvez um último laço que ali havia. O seu estilo de escrita parece com um estilo que estou lendo muito ultimamente, por isso curti.

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Publicado às 9 de fevereiro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .