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Literatura que desafia.

Não aguento mais gente que não aguenta mais – Crônica (Catarina Cunha)

Medo

Antes das redes sociais, quando não queríamos mais ouvir comentários sobre uma determinada notícia, bastava desligar o rádio ou fechar o jornal ou se afastar disfarçadamente do chato do momento.  Hoje acordamos com o sinal de alarme de mensagem nova no nosso celular de uma operadora invasora informando que a seleção da Croácia pousou neste exato momento no aeroporto brasileiro. Melhor quando o celular toca na chuva, paramos numa marquise escura e suspeita para ouvir uma gravação que não podemos perder a incrível promoção de tablet dez vezes melhor e mais barato que o nosso. Como não se sentir pelado numa vitrine? Entramos no metrô e a tevê informa que a festa de casamento da socialite em São Paulo foi deslumbrante. No noticiário do elevador fico sabendo que pesquisa afirma que 1/3 das mulheres e ¼ dos homens preferem desabafar com os cães. Um cachorro orelhudo vestido com um agasalho bizarro ficou à deriva para adoção no Largo do Machado. Milhões de crianças e animais estão abandonados neste momento, mas aquele cachorro moveu o mundo e conseguiu seu Shangri-la, foi adotado por uma família com um harém de mais quatro cachorrinhas. Só eu recebi a mensagem oito vezes.  Queremos saber das coisas, mas as coisas se repetem exaustivamente porque conhecemos muita gente e as pessoas querem interagir, dar opinião, saber a nossa e assim criam uma bola de neve sufocante.

Amamos fazer parte de grupos. Assim sobrevivemos e evoluímos. Assim também entramos em guerra e tivemos que defender nosso espaço e zona de conforto. E na internet qual a zona de conforto necessária para o humano, esse mamífero territorial, predador, se sentir seguro o suficiente para não atacar o próximo gratuitamente? Como fazer com que esse animal acuado não reaja com violência em dobro? Como evitar ver uma dona de casa ser morta como uma bruxa da idade média e um publicitário com humor de sardinhas 88 esquartejar um zelador porque a correspondência era mal distribuída? Eu vi um cadeirante ser  arrastado como pano de chão no hospital porque estava sem a carteira de identidade? Pare esse trem doido, seu maquinista, que eu quero descer! Chamem Herodes para esclarecer direitinho o que está acontecendo. A humanidade sempre foi ruim ou está piorando a cada dia? Ou será que apenas estamos retratando mais nossa brutalidade e covardia? Hoje todo bolso tem uma câmera pronta para documentar as piores barbáries, antes só faladas e palavras são facilmente esquecidas. Mas as imagens ficam no inconsciente coletivo e se repetem, magoam e geram mais dor e mais violência. Desenvolvi uma teoria capenga a partir de algo que li sobre gatos precisarem de vinte metros quadrados de território para se sentirem seguros. Na minha teoria cachorros precisam apenas da promessa de quilômetros quadrados que eles já abanam o rabinho feliz da vida. Já grande parcela dos humanos concentra sua segurança num teclado de, no máximo, trinta centímetros. Através das maquininhas, déspotas se agigantam, idiotas viram pensadores, a história é bolinada com requintes de crueldade e os covardes procriam impunimente. E quantos metros quadrados tem a internet? Onde reside o limite para não nos sentirmos invadidos em nosso terreno, ofendidos em nossas crenças, valores e ideologias sem perdermos aquela imperdível amiga de infância e seu filho amiguinho virtual com pensamentos tão divergentes de nosso próprio filho? É simples. Não podemos aderir ao bloco dos que não aguentam mais e sair por aí distribuindo veneno. Neste faroeste os fracos não têm vez. Temos que aguentar se quisermos continuar neste mundo como o desenhamos e você, já que leu isto até aqui, faz parte do grupo dos fortes.

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12 comentários em “Não aguento mais gente que não aguenta mais – Crônica (Catarina Cunha)

  1. Davenir Viganon
    16 de novembro de 2015

    Depois de tanto usar as redes, e de me empolgar com elas, vem o refluxo. Ai descobrimos que as redes nos usam e que não queremos mais fazer parte disso, tarde demais, nossa vida já está ali registrada para o lucro do Zuckeberg.
    Resta juntar paciência para suportar os que ainda estão como eu estava antes.
    Não basta ficar do outro lado da moeda, precisamos (eu incluso) de uma superação pra lidar com a tecnologia, para além do amor e ódio cegos.

    Tua crônica me fez pensar, obrigado.

  2. Antonio Stegues Batista
    13 de novembro de 2015

    Em tempo: Eu me enganei, foi Noé e não Adão.

  3. Antonio Stegues Batista
    13 de novembro de 2015

    Um desabafo corajoso, Catarina.Mas, a maioria desses acontecimentos ocorrem no mundo desde que Adão saiu da Arca com sua família. A História nos mostra o que era e como era a humanidade no passado. Hoje, a vida não mudou muito, só que agora nós temos a tecnologia da informação.Informações que vem de todos lados, instantaneamente. A única época boa foi a Idade da Pedra. Você ficava sentado diante da entrada da caverna, olhando um carreiro de formigas só para passar o tempo.

  4. Jowilton Amaral da Costa
    11 de novembro de 2015

    Ótima crônica, Catarina.

  5. Claudia Roberta Angst
    11 de novembro de 2015

    Ah, esses tempos modernos que nos bombardeiam com tanta informação. E pra que saber tanta coisa? A maioria desnecessária que só embota a mente.
    Hoje mesmo no telejornal, falaram sobre pesquisas que apontam as redes sociais como fonte de depressão. A comparação é sempre cruel. É muita ostentação e blablablá. E quando se dá conta, a pessoa está lá viciada na vida de gente que nem conhece.
    É fácil ter opinião de maneira virtual, reclamar, protestar, encher a página de argumentos veementes.
    Detox virtual ou que seja!
    Gostei muito da sua crônica.

    • catarinacunha2015
      16 de novembro de 2015

      Pô, Claudia, então é por isso que os antidepressivos são os remédios mais vendidos do mundo, segundo informação obtida… na internet!

  6. Fabio Baptista
    10 de novembro de 2015

    O teclado, ah, o teclado! A válvula de escape do homo sapiens (e também da mulher sapiens, por que não?), contra tudo que faz revirar o estômago (e não é pouca coisa) nesse maravilhoso mundo moderno!

    Boa demais essa crônica, Catarina!

    • catarinacunha2015
      16 de novembro de 2015

      Fabio, É tanta bagaceira na telinha que respinga sangue e veneno no teclado.

  7. piscies
    10 de novembro de 2015

    Boa.

    Expressou tudo o que eu sinto. Você sintetizou os meus pensamentos.

    Esses dias eu notei como algumas pessoas das minhas redes sociais se esforçam para se autoafirmarem, postando fotos com sorrisos forjados em lugares despojados. Notei também a quantidade de pessoas falando e criticando mas nada fazendo.

    Decidi que não seria como elas. Não mais, ao menos.

    Tenho tomado atitudes sempre que penso algo diferente. Defendo minhas ideias ao vivo, ao invés de ficar irritado e postar uma mensagem mal educada no facebook. Encaro meus problemas de frente. Tenho tentado, aos poucos, deixar de ser uma pessoa “que não aguenta mais”, sem nada fazer para mudar o seu contexto.

    Foi um bom texto Catarina!

    • catarinacunha2015
      16 de novembro de 2015

      Eu também tenho me esforçado para não rebater agressões, mas a carne é fraca e às vezes…

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Publicado às 10 de novembro de 2015 por em Crônicas e marcado .