EntreContos

Detox Literário.

Iraci (Igor F.G.)

“Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos”.

Termino de ler essa pichação estúpida na parede, e incrivelmente conveniente pra atual situação, enquanto balanço, ponho pra dentro, fecho o zíper, lavo as mãos e saio do banheiro.

Acredito que Paul Sartre se referia a palavra “liberdade” quando formulou essa frase, o que só torna tudo mais conveniente ainda, de uma maneira que jamais seria se minutos antes, a lógica e bom senso que sempre me gabei de ter, fossem mais rápidos que minhas mãos e minha raiva.

Depois que libertei Iraci.

Que seja.

Só preciso de mais um tempo aqui nessa imundice.

Sento no balcão do bar, que agora está lotado, agradeço a Deus, pela iluminação precária disfarçar minha cara feia e minhas mãos, que ainda não pararam de tremer da adrenalina de agora a pouco.

A uns metros de mim, vejo uma mulher de mini saia, cabelos compridos e cacheados, e um salto imitação barata da ultima moda da TV.

Uma coitada.

O álibi perfeito.

_Ê velho! É… Me dá duas cervejas, uma pra mim e outra praquela ruiva ali, beleza? Digo pro garçom.

_Boa escolha meu chapa, e logo cedo da noite, olha que o primeiro da fila pega o melhor lugar hein. Ele diz.

_Olha que eu sou atrasado pra caralho. Eu respondo.

Ele ri e mostra um incisivo lateral completamente podre, a coisa menos nojenta desse local.

Esse ai vai se chamar Banguela nesse conto.

Olha só Iraci, como a história tá nascendo!

Levanto e ando em direção a mesa da mulher.

_Ê!

_Oi, você que me pagou essa bebida?

_Depende…

_Sônia. Ela diz estendendo a mão pra mim.

_Prazer. Eu retribuo.

_Então _Ela cruza as pernas sem nem uma celulite que seja, ou o que a pouca iluminação aparenta.

Que inveja!

_Quer subir logo? Ou quer conversar um pouco? Ela pergunta.

Ridícula!

_Pera, pera, uma coisa de cada vez, beleza? Toma essa cerveja ai!

 

Dou uma olhada pras escadas, não vejo nem uma movimentação incomum, e por mais que eu tenha me tornado um cretino pouco antes, a única coisa em minha mente é a frase de Sartre na parede do banheiro.

Eu fiz o que não queria?

Foda-se.

Estou sendo responsável pelo que sou agora?

Talvez.

Eu posso dar o fora daqui antes que a polícia chegue.

E perder um final adequado pra essa história?

Ou os peitos que a mulher tá pra mostrar no pole dance do palco do bar?

Desnecessário.

_Mas sim, pergunta como é tem sido minha vida ultimamente. Digo pra Sônia, entorno meu copo, e noto que ela também já tá terminando o dela.

_Hnn… Como tem sido tua vida ultimamente? Diz ela.

_Uma merda. Aceno pra Banguela trazer mais duas cervejas.

_Por quê?

_Porque Bukowski morreu essa semana.

_Ah, meu Deus, era parente próximo? Diz ela, Banguela chega com as bebidas, e pisca pra mim.

Tipo: Vai fundo e forte meu filho, que ela já tá na caceta.

Lógico, ela é uma puta.

Eu penso, depois digo:

_Não, não era parente meu. Não consigo conter um riso.

_O que foi?

_Nada… É que sei lá, além de bonita, tu é bem experta. Eu digo.

_Sério? Valeu.

Gala seca!

Que seja.

Esse lugar é uma merda, olha ai Iraci, o que taria fazendo uma hora dessas se não fosse eu.

De nada.

Nada mesmo.

Nada de sirenes, gritaria, ambulância.

Perfeito, ainda tenho tempo pra desenvolver o meio do conto.

_Iai Sônia, tu é homem ou mulher?

_Mulher.

Como eu pensei, coitada.

_Por que, não gosta de mulher?

Puta desgraçada!

Me imagino levantando da cadeira, e batendo sua cabeça contra a mesa diversas vezes.

_Não, gosto sim… Eu digo.

_Ah, se não eu chamaria umas amigas trans daqui, claro, ia ser mais caro.

Chupa essa Iraci, a fila já tá andando pra mim.

Volto a olhar pras escadas, vejo um cara gordo de vestido, chorando, enquanto desce e as tetas gigantes vão balançando de um lado pro outro.

Caralho! Essa ai vai se chamar Divine aqui, porque é a cara da Bads Johnson.

Égua Iraci, tu é foda.

Divine vai até a saída do bar, onde tem um segurança, e eu vejo que agora só preciso enrolar mais uns minutos aqui, até tudo acabar.

Peço mais duas bebidas.

_Ê, quem é aquele gordo maquiado ali, que tá charamingando com o segurança?

_Ah… Sônia se vira pra olhar pra saída quando Banguela chega com os copos _É a dona daqui.

A pessoa mais imunda viva.

_Deve ter rolado uma treta séria ai né? Eu digo.

_É, não deve ser nada de mais, sempre rola alguma briga lá em cima, de algum cliente que não quer pagar, essas coisas. Diz Sônia.

Divine volta pras escadas, só que agora acompanhada do segurança, a música tá tão alta, tem tanta gente entretida com a mulher do pole dance, que eu e Sônia somos os únicos que notamos essa “movimentação fora do comum”.

Também.

Se eu não notasse, diria que tô ficando doido.

Responsável pelo que sou?

Hun…

_Escuta, é… No último livro que li do Bukowski…

_Ah! Então esse tio que morreu ai era escritor! Diz Sônia.

Bonitinha e esperta né? Pensando bem, já tô sentindo tua falta Iraci.

_Ele tentava, ele tentava… Eu digo.

_Era gringo? Eu gosto dos gringos, pagam bem e gozam rápido. Ela diz entornando a o copo.

_Ele era um otário, é só disso que tu precisa saber, mas sim, deixa eu te falar…

_O quê? Tu goza rápido? Ela diz.

_Não caralho! Olha… Eu li em Hollywood, que tinha um bar que fedia a mictório em todos os locais que tu sentava, que nem esse aqui, ai as pessoas precisavam imediatamente de um drinque pra conseguir suportar o fedor, depois de mais 4 ou 5 pra conseguir entrar no banheiro _Aceno pra Banguela _A gente já vai pra quarta bebida, né?

Sônia me olha já entediada, enquanto um carro de policia para na entrada do bar.

Perfeito.

Tá na sua hora de brilhar Iraci!

Continuo falando:

_Escuta, depois dessa a gente vai ali pro banheiro, beleza?

_Mas eu não tô com vontade de mijar. Ela diz.

Aja paciência.

_Tu vai primeiro e me espera lá, entra no feminino, beleza?

_Ah… Saquei, Ok, mas nesse caso é mais caro.

_Que seja, que seja, eu pago. Eu digo.

Dois policiais entram enquanto Divine desce ainda chorando com uma garota atrás, e o segurança.

Perfeito.

Perfeito.

E perfeito.

Sempre vou te amar Iraci!

Todos olham, uns clientes viram a cara, outros se levantam e saem discretamente, Sônia está séria.

_Deve tá rolando treta séria mesmo, né? Eu pergunto.

_Pois é…

Chega uma ambulância, dois caras tiram uma maca de dentro, todos sobem as escadas, o bar continua tenso, mas com música ainda tocando.

Eu não estou sendo preso.

Sartre é foda.

E é tudo culpa tua Iraci.

Só que agora tu te fodeu.

E eu sou um mito.

Sônia já está completamente desanimada pra trepada no banheiro, uns cinco minutos depois, eles descem, e na maca, vai um corpo pálido deitado.

Perfeito.

Posso sentir um volume crescendo dentro da minha cueca, é meu pau enrijecendo.

Divine vai de cara borrada logo atrás, junto da outra garota.

Eu fiz o que não queria?

_MEU DEUS, É IRACI DEITADA NA MACA! Sônia se choca.

Maravilhosa!

_É, a primeira e única. Eu digo.

Sônia levanta e anda em direção da garota atrás de Divene, enquanto lembro quando eu estava lá em cima, cerca de meia hora atrás, onde passei pelo corredor, vi um cara saindo com um sorriso de orelha a orelha de um dos quartos, entrei nesse mesmo quarto e encontrei Iraci, ainda de quatro com a bunda branca pra fora, se recompondo do primeiro cliente da noite.

Desgraça!

Fechei a porta, ninguém tinha me visto subir, Iraci me viu e tomou um susto, caiu da cama, tentando abaixar a saia enrolada na cintura pra cobrir as coxas.

Desgraça!

Eu te amava caralho.

Só consigo pensar nisso, enquanto nem dou tempo pra Iraci tentar se explicar, porque aperto tão forte seu pescoço, que logo para de respirar.

Porra Iraci, foi só uma briga como qualquer outra, a gente ia voltar a ficar juntos, e eu ia te ajudar com a grana da faculdade, não precisava te prostituir, caralho!

Fazemos o que não queremos?

Vai tomar no cu Jean Paul Sartre!

Larguei o corpo morto de Iraci no chão, desci, fui mijar e vi a frase conveniente na parede.

Perfeito.

Só preciso de um final.

Já que não tem volta, pois minhas mãos e minha raiva, foram mais rápidas que minha lógica e bom senso.

Sônia volta chorando pra mesa.

_Meu Deus, alguém matou Iraci, ninguém sabe quem foi, agora que acharam o corpo.

_Pô, coitada… Mas sim, olha! Acebei minha cerveja, é como eu disse, beleza? Tu vai primeiro e me espera, no banheiro das mulheres. Eu digo.

_Cara, desculpa, posso até te reembolsar as bebidas que pagou pra mim, mas hoje não dá mais pra trabalhar, Iraci era minha amiga… Diz Sônia.

Será mesmo que pensou que euzinho aqui, ia fuder contigo naquele banheiro imundo da porra?

_Iraci não era tua amiga. Eu digo.

_Como? Diz Sônia.

_Iraci era teu amigo, pois Iraci era homem, todo mundo sabe disso…

E que homem, me excitou até morto na maca.

_Como assim? Como tu sabe disso? Sônia parece assustada.

Sei do quê?

Que Iraci perdeu a mãe um tempo depois que brigamos, que não aceitou minha ajuda, por mais que não estivesse conseguindo se manter na faculdade, e veio se vender nessa porcaria de puteiro?

Posso imaginar Iraci na frente do espelho, meu amor, de cabelos curtos, lindo, branquinho, com fiapo algum de barba no queixo, nariz fino, boquinha carnuda, se maquiando, pondo peruca, virando mulher.

E que mulher!

_Ouvi o Banguela falando, enquanto tu conversava com a menina do lado da Divine. Eu digo.

_Como? Banguela? Divine? Tu tá bem chapado mesmo né? Ela não parece mais assustada.

_É o nome que eu escolhi pros personagens… Pra hora que for escrever o conto sobre tudo isso aqui, quando chegar em casa. Eu digo.

_Ah…

Será que ela vai sacar que eu matei Iraci?

Bonitinha e esperta?

Não.

Não posso deixar pistas.

_Mas sim, olha ai… É… Eu pago o dobro agora, pra gente ir no banheiro e tu chupar minha pica, beleza? Eu digo.

_Sendo assim… Ok. Diz Sônia.

Ela levanta e entra no banheiro, olho pro Banguela de braços debruçados no balcão, ele pisca pra mim, eu pisco de Volta.

Tipo: Isso ai garotão, não te falei que ela já tava na caceta!

E olha que nem vou pagar hein!

Estalo os dedos das mãos que não tremem mais, tomo o último gole, olho pra saída, a ambulância já está partindo, os policiais ainda interrogam alguns clientes.

Perfeito.

Deixar essa zinha gargarejar com meu pau?

Nunca!

Prefiro homens.

Depois que cuidar dela, vou sair pela porta dos fundos.

“Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos”.

Que seja.

Já vou pensando em um titulo pro conto, enquanto me levanto e ando em direção ao banheiro feminino.

Pode ser “liberdade”.

Mas assim daria a ideia de que essa história tem todo um significado moral por trás dos fatos, e isso é um saco.

Prefiro que as pessoas se matem procurando coisa onde não tem.

Bom, certa vez Sartre afirmou que Bukowski é o maior poeta da América.

Se isso serve de consolo.

O titulo no começo da página vai ser:

Iraci.

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Um comentário em “Iraci (Igor F.G.)

  1. Fabio Baptista
    10 de novembro de 2015

    Fala, Igor!

    Bom conto, cara. Gosto desses cenários sujos narrados em primeira pessoa. E gosto ainda mais quando narrados por alguém perturbado, como era o caso aqui.

    Em certos pontos fica a impressão que você exagerou um pouco na dose dessa perturbação e o conto fica meio confuso, mas, no final, todas as pontas são ligadas. Muito bom.

    Alguns detalhes de revisão que poderiam deixar o conto ainda melhor:

    – _Ê velho! (…)
    >>> cara, toda essa marcação de diálogo ficou horrível. Não há nada que justifique utilizar esse “_”. O correto é travessão “—”, tanto no começo, quanto para separar os “ela disse”.
    Exemplo:
    — Ê, velho! É… Me dá duas cervejas, uma pra mim e outra praquela ruiva ali, beleza? — Digo pro garçom.

    – em direção a mesa
    >>> em direção à mesa

    – experta
    >>> acho que quis simular algum sotaque aqui, mas… não ficou legal.

    – entornando a o copo
    >>> sobrou um “a”

    – Tá na sua hora de brilhar Iraci
    >>> Tá na sua hora de brilhar, Iraci

    – Aja paciência
    >>> haja (a menos que seja um trocadilho tipo: “paciência, entre em ação”)

    – Eu te amava caralho
    >>> Eu te amava, caralho (um exemplo onde a vírgula se faz extremamente necessária! :D)

    Abraço.

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Publicado às 9 de novembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .