EntreContos

Literatura que desafia.

O Conto da Flor Azul (Ruh Dias)

Parte 1

A grama era macia e estava úmida. Aliás, era macia somente nos primeiros passos, ela logo notou, pois a grama começou a espetar a sola dos seus pés depois de um certo tempo. Era difícil saber quanto dele – do tempo – havia passado: estava tão distante do mundo que ela sentia que ali não havia tempo algum.

Eu sei, é difícil imaginarmos um lugar sem tempo. O cérebro estala com a noção da atemporalidade, sem marcação de minutos, de mês, de estação do ano ou de período. Ela sentia-se suspensa por cabos invisíveis, sem estas noções básicas, mas continuava andando, com a grama cada vez mais úmida e cada vez menos macia.

Ela não sabia de onde vinha, nem para onde ia. Não sabia onde estava, tampouco. Passado, presente e futuro se confundiam na sua cabeça, formando uma matéria viscosa que a impedia de pensar com clareza. E por que ela continuava andando?, você há de perguntar. É porque é isso que os pés foram construídos para fazer. É porque o mundo gira e a vida passa e, se não estamos em movimento, estamos mortos. A vida logo se esvai de tudo aquilo que fica estagnado, à margem dos acontecimentos.

O que ela estranhava não era a grama pontuda nem a falta de objetivos daquela caminhada sem rumo, e sim, a luminosidade do lugar. Estava escuro demais para ser dia, e claro demais para ser noite. Parecia que o Sol tinha desistido de cumprir suas funções no meio do caminho, e a Lua ainda não aparecera para dar-lhe folga. O céu tinha uma cor própria, que não era azul, laranja ou cinza. Cor talvez não seja a palavra certa. Se pouco antes teu cérebro estalou com a noção de um lugar sem tempo, tente imaginar, agora, uma não-cor. Estalou mais ainda, não é?

Aquele lugar era como uma casca de fruta velha. E ia de nada para lugar nenhum.

Ela sentia uma Solidão única, com S maiúsculo, a Solidão mãe de todas as solidões. Veja bem, quando você se sente só, você sabe que existem outras milhares de pessoas por aí, pelo mundo. Você pode não conhecê-las e elas podem não fazer a menor diferença na sua vida, mas elas existem. É uma solidão em um lugar habitado. Dói, eu sei. Mas a solidão dela é outra.

Lá no fundo, ela sente um oco que ecoa, porque ela intuiu que é a única pessoa que existe. Não há mais nada nem mais ninguém além dela. Por isso, a Solidão dela tem S maiúsculo. Ela intuiu isto por causa do Silêncio – também com S maiúsculo. É o silêncio primordial e essencial do universo, que existe antes da criação do mundo e depois que ele acabe, lá no fim de tudo. Nós não conhecemos este Silêncio do vácuo das coisas, mas ela logo notou que ele era tão denso e tão pesado que ensurdecia. Como a pressão do fundo do mar.

Estaria ela no começo ou no fim? Não sabia. Só sabia que, onde quer que estivesse, só havia ela. Perceba que, depois de não conseguirmos responder ao quando, nossa próxima pergunta é o onde. Precisamos de muitas referências externas para não enlouquecermos, não acha?

A grama não emite som quando pisada. A roupa dela não farfalha quando ela anda. Não venta. O céu não se decide. Nada acontece.

A Solidão, aos poucos, vai se apoderando dela. Não há com quem falar e nem a quem fazer as mil perguntas que começam a brotar dentro de sua cabeça – e pior, do coração. As piores perguntas são as que vem do coração. Não há nenhuma perspectiva de mudança do cenário no horizonte e, mesmo que ela parasse de caminhar, ficaria ali para quê? Esperando o quê? Andar fazia ela fingir que tinha um rumo e o fingimento, em momentos de desespero, ajuda. Todo mundo já fingiu alguma coisa, em algum momento.

E então ela seguia, fingindo esperança. Também fingia que não estava sufocando por aqueles malditos S maiúsculos, a Solidão e o Silêncio. Não sabemos quanto tempo ela ficou lutando assim, desculpe se não posso informar as coisas com mais precisão a você.

Mas, então, de longe, ela viu um relevo diferente na grama. A vista mal alcançava e deveria haver quilômetros e mais quilômetros entre ela e aquele relevo. E como ele era a única novidade ali, ela se ateve nele com unhas e dentes. Não que fosse uma pessoa observadora, era que tudo ali era sempre tão da mesma maneira que qualquer mudança chamaria a atenção. Continuou caminhando no mesmo ritmo: não havia pressa. Chegaria naquele ponto de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde. Só temos pressa se temos tempo a perder e, no caso dela, nem tempo havia. Ela estava antes da criação dele. Antes da criação de tudo. Percebe como ela era sozinha?

Ela estava gostando daquela sensação de antecipação. Mais ou menos aquela que sentimos antes de uma festa ou antes de uma viagem, quando a espera pela coisa é melhor do que a coisa em si.

Passo a passo, ela foi se aproximando. O relevo foi se tornando um borrão, e o borrão foi começando a ter uma forma, e a forma mostrou ser uma pequena flor. E, conforme ela se chegava mais perto, a flor foi adquirindo pétalas e haste e, então, quando estava quase ao lado dela, viu que era uma flor azul. Sua haste se erguia acima da altura da grama e, na ponta, a flor estava delicadamente pendurada. As pétalas eram poucas, grandes e arredondadas, começavam azul claro nas pontas e terminavam azul escuro próximas ao miolo. O miolo era amarelo gema-de-ovo.

A primeira coisa que ela pensou foi que as pétalas daquela flor pareciam guardar as cores do céu em si mesmas. A flor tinha um perfume fininho e fujão. Ela arrancou a flor da grama, sem hesitar, porque sentia que merecia um pequeno agrado depois de tudo aquilo que passara até ali. Aquele ato era a criação do mundo – mas ela não sabia.

 

Parte 2

O barulho da rua, aos poucos, foi ficando cada vez mais alto e incômodo. A cidade acordava aos poucos, agitando suas engrenagens e colocando a vida em movimento. O despertador ao lado da cama, com tic-tac arrogante de quem manda em você, marcava 7:20h da manhã. Ela poderia dormir mais dez minutos – se o barulho lá de fora não tivesse interceptado seu sono. Deitou-se virada para cima, olhando o teto.

Seus pés doíam e as juntas dos seus joelhos também. Vagarosamente, o cérebro dela começou a tentar lembrar-se do que fizera no dia anterior que justificasse tamanho desconforto. Depois de algum tempo se esforçando, ela notou que não se lembrava de nada. Creditou sua amnésia repentina ao sono – ou melhor, à ausência dele. Agora eram 7:25h e ela deu um enorme e cansado suspiro. O tempo ditava toda sua rotina, como um general sem compaixão e sem possibilidade de diálogo. E ela começou a imaginar como seria um mundo sem o tempo.

Você deve estar pensando que, se ela soubesse sobre os S maiúsculos, não sentiria tanta vontade assim de conhecer um mundo sem tempo, e concordo com você.

Agora era 7:28h. Passara três minutos de olhos fechados, desejando que o mundo parasse e ela pudesse se recompor. 7:29h. E, enfim, o barulho agonizante do despertador tocando. Ela lançou suas pernas por sobre a cama e tratou de levantar logo, já que não podia mais adiar seu contato com o exterior. Ao, fazer isso, apoiou-se na cama e só então percebeu que, caída entre seus dedos, ainda fresca e perfumada, havia uma flor azul.

Você deve pensar que a reação dela foi de ficar surpresa: engana-se. Ela ficou encantada. Passara toda sua vida desejando que algo extraordinário acontecesse em sua rotina sem graça, acreditando que merecia vivenciar algo de mágico e fantasioso, sentindo lá no fundo que fora feita para acontecimentos solenes e modificadores da existência. E aquela flor azul era o que havia esperado todos aqueles anos.

Olhou-a bem de perto, analisando suas pétalas grandes e arredondadas e seu miolo amarelo-vivo. O azul da flor era desconcertante, um azul tão puro e tão real, completamente diferente de tudo o que tinha visto. A flor toda, apesar de pequena, reluzia como se fosse parte do início da criação do mundo. Ela sentiu, no meio do peito, que segurava algo primordial e desencadeador de tudo, achou-se um pouco louca, e decidiu não contar sobre a flor a ninguém.

Guardou-a dentro do livro que havia na cabeceira da cama. Algo lhe dizia que aquela flor não murcharia, nem morreria: que estava acima de todas as coisas, e que havia viajado por muitas eras até parar em sua mão. Não me pergunte como ela sabia de tudo isso, deduzo que seja intuição.

No curto tempo que transcorreu entre ela guardar a flor e levantar-se para trocar de roupa (7:37h agora), sentiu um cheiro de grama. De grama? Não, de jardim, reconsiderou ela. Olhou para a cabeceira da cama e lá estava seu livro, sendo soterrado entre diversas plantinhas que cresciam de dentro dele, como pequenos ramos de ervas e frutinhas silvestres. O volume das plantas aumentava a cada piscar de olhos e, logo, esparramavam-se por sobre a cabeceira da cama, caindo no chão, derrubando o despertador e um porta-retrato. A vida era gerada com força total.

Não demorou muito a aparecerem abelhas, borboletinhas minúsculas que pareciam alucinações, meia dúzia de passarinhos e joaninhas. Andavam pelo quarto todo como se ali morassem desde sempre e fosse seu habitat natural. O jardim continuava a crescer e ganhar cada vez mais espaço em seu quarto, e agora mal se via a penteadeira dela. A cama já começava a ser subjugada pela profusão de plantas e pequenos animais.

Os pés dela, então, tocaram um pequeno trecho de grama, que aparecia como se fosse um tapete por debaixo da cama. Era rasteira e tinha um tom de verde de coisa nova, recém-nascida. A flor, no meio do redemoinho de acontecimentos botânicos, vamos dizer assim, escorregou e caiu na grama. Ela estendeu a mão para alcançá-la e a pontinha do seu pé direito notou que a grama era macia e úmida. Ao tocar a flor, sentiu um puxão forte e arrebatador, daqueles que acontecem sem pedir permissão e te levam embora.

A grama era macia e estava úmida. Aliás, era macia somente nos primeiros passos, ela logo notou, pois a grama começou a espetar a sola dos seus pés depois de um certo tempo. Era difícil saber quanto dele – do tempo – havia passado: estava tão distante do mundo que ela sentia que ali não havia tempo algum.

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2 comentários em “O Conto da Flor Azul (Ruh Dias)

  1. miqueiasdellorti
    14 de setembro de 2015

    Olá Ruh,

    Gostei muito do seu conto. Tem uma história cativante e fantástica e as descrições das cenas colocam-nos no jardim e no quarto junto com a personagem.

    Concordo com o comentário do Fábio quanto as intervenções do narrador. Elas são tão constantes que chegam a dar vontade de desistir, mesmo com a história cativante.

    Não sei se foi sua intenção estruturá-la dessa forma, mas essas intervenções geraram, para mim, uma carga exagerada de justificativas e talvez isso não permita que a história se mostre tão atraente como ela realmente é.

    É como se você disse ao desafortunado leitor (nesse caso particular, eu rs) que ele não tem sensibilidade o bastante para entender as entrelinhas.

    Você deve deixar que o leitor deduza essas nuances da história, deixar que a mente dele estale, sozinha, quando tentar imaginar uma não-cor, e não que você proclame o que ele deve ou não sentir ou pensar (isso entristece a gente, não somos tão brutos assim).

    Tirando isso, o conto é lindo. Sou novo aqui e, pelo pouco que vi, todos apresentam criticas bastante construtivas, com o intuito de ajudar e não diminuir o autor. Acho isso sensacional e, por isso, espero que minha opinião tenha ajudado de alguma forma.

    Parabéns.

  2. Fabio Baptista
    11 de setembro de 2015

    Olá, Ruh Dias!

    Estou com um sentimento conflitante após a leitura.
    O conto me gerou altos e baixos. Comecei, confesso, sem qualquer expectativa. Estava achando meio repetitivo (enrolado) e as intervenções do narrador quebrando a quarta parede não estavam me agradando.

    Porém, ao avistar o relevo, o leitor sente a curiosidade da personagem. E isso é ótimo. Somado a isso, bem o gancho para a parte 2, que achei simplesmente genial: “Aquele ato era a criação do mundo – mas ela não sabia”.

    Eu li até a metade da parte 2 numa grande ansiedade. Estava esperando algo ainda mais genial (tipo num conto do José Leonardo, que o menino está num lugar delimitado por paredes brancas), mas esse final meio em loop acabou me frustrando. Não é um final ruim, longe disso. Mas minhas expectativas nesse momento estavam muito altas.

    No balanço geral, um ótimo conto. Parabéns!

    Abraço.

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Publicado às 10 de setembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .