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Literatura que desafia.

Aniversário de Casamento (Mirlene Souza)

Ela tirou o assado do forno. Sentiu o cheiro e admirou o resultado. A carne estava dourada, macia e suculenta. Colocou-o em cima da mesa, milimetricamente posta e cuidadosamente decorada. Um vaso de lírios brancos adornava o centro, ladeado por um par de belos castiçais de prata. Os pratos de porcelana foram presente de casamento dados pela sogra. Herança de família. Praticamente uma relíquia. Acendeu o par de velas e deu uma última conferida na disposição da mesa. Estava perfeitamente simétrica: os talheres, as taças, os guardanapos. A carne assada, o purê, a salada. Os castiçais e os lírios. Tudo tal como no primeiro aniversário de casamento. Olhou para o marido sentado do lado oposto e deu-lhe um sorriso branco como mármore. Um sorriso de boneca.

– Já volto! – Anunciou, com entusiasmo, para o marido – Vou buscar nosso vinho especial que coloquei para gelar. Foi até a cozinha e tirou o avental engordurado, salpicado com pequenas manchas encarnadas, pendurando-o atrás da porta.  Puxou do fundo da geladeira a garrafa de vinho francês que estavam guardando para quando completassem dez anos de casados. Começou a preparar o balde de gelo, uma peça de prata polida tão reluzente quanto um espelho. Parou por um minuto e deteve-se em sua imagem refletida na superfície prateada. Seu rosto estava distorcido e desfigurado pelo formato circular da peça, mas ela estava bonita naquela noite. Havia colocado o vestido favorito do marido, estampado com pequenas flores azuis. Seu cabelo dourado estava especialmente brilhante, as ondas arrumadas com cuidado sob as orelhas. Havia se maquiado. Pintara os lábios de vermelho e passara no rosto uma camada generosa de pó de arroz. Tentando disfarça o olho roxo.

Despertou do devaneio. Enterrou a garrafa no balde de gelo e levou para a mesa. – Aqui está! Pode deixar que eu abro. – Enroscou o saca-rolha até o final e abriu a garrafa com algum esforço. Despejou o líquido rubro dentro das taças. Serviu o marido com uma porção generosa de purê. Ajeitou a salada do lado esquerdo do prato. Quando foi servir-lhe um pedaço da carne assada lembrou-se de que havia esquecido a faca em algum lugar. Começou a procurá-la. – A faca… Onde terei deixado a faca… – Foi até a cozinha. Revirou as gavetas, procurou entre a louça suja na pia. – A faca… A maldita faca… Onde a deixei?

Lembrou-se, de súbito, onde ela estava. Voltou para a sala de jantar. Foi até onde o marido estava sentado. – Está aqui! – E puxou uma enorme faca de cortar carnes de dentro do peito do homem. Limpou a lâmina no vestido, partiu o assado e depositou um pedaço, primeiro no prato do morto e depois no seu. Sentou-se. Partiu a carne suculenta e vermelha em pequenos pedaços. Antes de colocar o primeiro na boca, olhou para o marido, o peito aberto, sangrando como um animal abatido. Sorriu para ele. – Feliz aniversário, querido! – Era um sorriso de boneca.

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2 comentários em “Aniversário de Casamento (Mirlene Souza)

  1. Anorkinda Neide
    24 de agosto de 2015

    hehehe bom!
    Curto e forte!

  2. Rodrigo Campos
    26 de julho de 2015

    Bom, mas era para ser ficção científica. Não policial. Desculpe, são as regras, 0,0.

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Publicado às 25 de junho de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .