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Detox Literário.

A Morte não pede carona (ela entra, senta e se aconchega) – (Jefferson Lemos)

Space

Desculpe-me pela história resumida, mas os baixos níveis de oxigênio não me permitem extravagâncias. Afinal de contas, o ser humano tem dessas coisas. A morte iminente nos assola, cercando como um muro encimado de arame farpado transpassado por uma cerca elétrica (ufa), mas ainda assim os resquícios de esperança que se alojam lá no fundo de nossa existência incompreensível, como uma gripe intermitente sem hora para passar, insistem em nos dizer que vai ficar tudo bem.

O caralho que vai.

Contemplar o oceano estelar de infinidades galácticas, é uma opção (única) não tão confortadora quanto aparenta ser. A escuridão que envolve, inundando as estruturas metálicas dessa cápsula à deriva e se infiltrando em cada parte do meu corpo, cada cubículo dos meus poros, é uma sensação de sufoco. É como se afogar sem água ter, aguardando por uma mão se estendendo da superfície, ou um sinaleiro rasgando o véu em vermelho. Sinal de que a ajuda vem.

Mas sei que não.

Aqui não é assim.

O que cruza em minha frente são caminhos celestes. Poeira cósmica e meteoritos perdidos de seus bandos. Passeando como abelhas confusas, esbarrando nos transeuntes e ziguezagueando sem rumo. O que cruza em minha frente é um sol distante, orbitando um sistema solar que 99,9999999% da população desconhece. Inclusive você. O que cruza, cruzou e se estagnou em minha frente, é a morte derradeira, sentada ao meu lado, apertada e pedindo espaço, apenas esperando. Jogou a mão em volta dos meus ombros e me tratou como um amigo de longa data. Recusou o oxigênio que eu tinha a oferecer. Um presente para você, aproveite enquanto pode. Parecia ter dito. Fitei seus olhos de escuridão e vi o tempo passar.

O mundo muda e a roda gira.

Eu estaria mentindo se dissesse que não tenho medo.  Tenho um pavor crescente se alastrando como raiz forte, ficando seus tentáculos na carne mole, estremecendo os músculos e tendões. Ou talvez seja apenas frio. O vácuo não é um lugar muito convidativo.

Minha mente fraqueja.

Argon era, e talvez ainda possa ser chamada assim, a nave mais segura da Frota Estelar das Nações Unidas. Capaz de viajar em velocidade de dobra, desmembrando o espaço e criando e destruindo túneis temporais. Era a própria segurança envolta em metal e chapas de aço. Eu, ridiculamente ignorante como sempre fora, não tive qualquer traço que pudesse significar medo ou receio. Não até um buraco no casco sugar metade da tripulação para o espaço.

Vi cabeças estourando com a pressão da velocidade. A gravidade que dilacerava corpos e o calor pulverizador de essências. O vermelho que manchava a mácula da negritude sideral era tão ínfimo, que só o contraste com o branco das instalações era capaz de fazê-lo ser notado. Os gritos ecoavam no nada e desapareciam junto a seus autores. Criadores de obras tão passageiras e cheias de emoção que chegavam a tocar, emocionando e fazendo chorar. Senti-me em uma ópera espacial, onde a cacofonia se fazia canção. O som do vento rasgando ferro, distorcendo aquele conceito de proteção em questão de segundos. Eu corri, ao tom melódico de um Mozart impiedoso, vendo a realidade desacelerar. Cheguei às cápsulas salva-vidas apenas pela sorte. Ou destino. No fundo eu ainda acreditava que alguém olhava por mim.

Ejetei no último momento, impulsionado pela explosão de meu “Titanic”, como um sol e eclosão. Ninguém me seguiu. A pressão me lançou como um foguete, através de milhares de quilômetros. Vaguei pelo nada e parei em lugar nenhum, ainda se movimentando.

Quantos dias se passaram, eu não sei dizer.

Agora, divido esse momento íntimo com uma amiga que se tornou a melhor. Afinal, quem mais te visitaria você estando tão longe? Ela veio, e disse que iria ficar. Se eu estivesse em casa, ofereceria uma cerveja, ligaríamos a TV e assistiríamos alguma reprise de futebol. Mas em minha posição, não posso oferecer muita coisa. Nossa diversão é uma pequena janela redonda, mostrando a imagem 3D do infinito.

E assim vivo eu, um náufrago em um mar de estrelas. Tomando doses de O² enquanto aprecio a vista. O frio está de matar, mas minha ilustre amiga quer aproveitar a brisa. Talvez eu possa abrir a janela e dar um jeito nisso…

7 comentários em “A Morte não pede carona (ela entra, senta e se aconchega) – (Jefferson Lemos)

  1. Alan Machado de Almeida
    8 de maio de 2015

    Gostei do últimos parágrafos que comparavam a condição de um perdido no espaço à de um naufrago de um barco. Sem falar que a interação com o leitor ao se usar o termo “você” para se referir a este transforma o conto em um texto de segunda pessoa. A qual o narrador conversa com leitor. Final triste, costumo preferir eles aos alegres. E a passagem de explosão de parte da nave me lembrou uma cena de Star Trek Além da Escuridão, só que com detalhes mais punks. Resumindo em três palavras: gostei do conto.

  2. Claudia Roberta Angst
    4 de maio de 2015

    Acho que já li este conto, né? Titia tem os seus privilégios…rs. Ótima narrativa. Continue assim. 🙂

    • Jefferson Lemos
      5 de maio de 2015

      Claro! Além de ser parceira de escrita, ainda dá puxão de orelha pelos erros! Quer melhor? hehe

      Obrigado! 😀

  3. Carlos Henrique Fernandes Gomes
    4 de maio de 2015

    Agora sim, desprendido das amarras ao pé da letra do tema “Naufrágio”, no outro desafio (o grande DTRL), posso dizer que não me sinto ludibriado coisa nenhuma com esse naufrágio sem navio e sem mar, conforme diz o dicionário. Que se f*** o dicionário, afinal a licença poética serve pra quê? Seu jeito de escrever sensações extremas de forma poética é dos melhores entre os que se atrevem a fazê-lo! Acho que além de você conheço um cara de nome parecido, o JC Lemos; conhece ele? Enfim, a cadência que você deu mostrando as fases do militar interplanetário passando da coragem, para a qual foi treinado, efeito da adrenalina, para a não aceitação e suas perguntas inesperadas até a aceitação e suas sensações incômodas, esse efeito é surpreendente. Um conto nota déééis, como diz o cara da apuração das escolas de samba do Carnaval do Rio de Janeiro! Parabéns pela obra!

    • Jefferson Lemos
      5 de maio de 2015

      Grande Carlos!

      Tentei burlar aquele naufrágio lá, para ficar um pouquinho mais original. hehe
      Acabou dando certo no final. Como disse para o FB, quero investir em FC e Fantasia, que acho ser mais minha praia. Então pode esperar umas loucuras vindas de mim por um tempo.

      E conheço esse tal de JC Lemos ai, maluco chato pra caramba!

      Obrigado pela leitura e pelo comentário, logo mais lerei o seu! 😀

      Abraços!

  4. Fabio Baptista
    4 de maio de 2015

    Grande Jefferson Lemos!

    Eu li esse conto no Recanto das Letras, mas acabei não comentando.
    Gostei bastante desse tom intimista, combina muito com FC.

    Esse conto teve uma pegada “Gravidade” e acho que ilustra bem a sua evolução técnica.

    Algumas sugestões:

    – É como se afogar sem água ter
    >>> Ficou meio estranha essa frase. Compreensível, mas estranha.

    – envolta em metal e chapas de aço.
    >>> Teria inventado um nome de metal diferente aí. Além que (posso estar errado, mas) sempre encaro aço como um metal, o que torna a frase redundante.

    – Vaguei pelo nada e parei em lugar nenhum, ainda se movimentando
    >>> Trocaria por “me movimentando”.

    Nada que atrapalhe o resultado final desse ótimo conto.

    Abraço!

    • Jefferson Lemos
      5 de maio de 2015

      Obrigado pela atenção, Fabio!

      Vou averiguar e fazer as alterações!

      E FC é meu objetivo, então preciso sair tacando FC em tudo que vejo, agora. Hahahaha

      Abraço!

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Informação

Publicado às 3 de maio de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .