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Detox Literário.

A Noite Em Que Eu Conheci A Terra Sem Luz (Cícero Sena)

Eu acordo respirando rápido e com o coração batendo forte como se fosse ter um derrame ou alguma coisa do tipo.

Não acredito que tive aquele pesadelo outra vez. Ele fazia com que corpo inteiro suasse como se eu tivesse participado de uma maratona, dessas que fazem a gente morrer no meio do caminho. O sonho consiste em apenas alguns segundos de Lúcia segurando uma cabeça decepada e pedindo pela minha ajuda. A cabeça que ela segura grita algumas palavras loucas depois, algo como “Dentinho está vindo! Dentinho está vindo!” então eu acordo com os sintomas que eu já mencionei.

Odeio o efeito que essa garota tem em mim. Queria deixar de amar aquela desgraça de psicopata, mas Lúcia continua na minha mente mesmo depois de tudo que ela fez, mesmo depois de eu ter sido obrigado a entregar ela para a polícia, mesmo depois dela ter  enfiado uma bala na própria cabeça.

O sol ainda não nasceu e meu quarto está totalmente escuro. Me levanto ascendo a luz e pego meu notebook pois eu tenho um monte de arquivos de filmes merdas e alguma coisa deve ser chata o suficiente para me fazer dormir.

Quando ligo meu PC saio em busca das minhas pastas de filmes e séries, mas meu computador trava. Bato no desgraçado, xingo e então a tela fica preta como a porra da noite por alguns segundos, quando ele retorna lá está uma foto de Lúcia na tela. Não consigo parar de olhar para a imagem por alguns minutos, pois ela está incrivelmente linda naquela foto.

Eu tento apagar a foto, mas não consigo.  Minha mão fica sobre o botão de delete, mas não dá para apertar.

Merda.

Fecho o notebook e caminho na direção da sala para ver alguma coisa na televisão. Enquanto eu ando pelo corredor tenho a impressão de ouvir a voz da Cabeça que Lúcia segurava em meu sonho dizendo repetidamente as mesmas palavras:

“Dentinho está vindo! Dentinho está Vindo”.

Instintivamente olhei para trás, mas não vi de onde a voz me chamava. Isso também é algo que vem acontecendo com frequência, escutar coisas, principalmente essa voz que diz  “Dentinho está vindo!”.

Quando eu sento no meu sofá ligo a TV no volume máximo. Não dá para escutar vozes esquisitas na sua cabeça com tanto barulho. É a vantagem de morar em casa, não em apartamento. TV alta não faz diferença.

Quando a TV liga percebo que vários canais estão zoados, sem sinal nem nada. Sabia que esse negócio de parabólica era uma má ideia.

Depois de muito trocar de canal surgiu algo funcionando. Era um filme onde uma criatura gigante com vários rostos de pessoas sobre a pele que gemiam como se sentissem dor, eu tento trocar de canal, mas o controle não funciona então minha percebo que as minhas paredes estão jorrando sangue.

O chão começa a tremer e rachar liberando uma estranha fumaça negra com cheiro de enxofre e carne podre. O sangue que escorria pelas paredes já estava espalhado por todo o chão da minha sala como uma espécie de tapete vermelho.

Eu subo no sofá para que minha pele não tocasse naquela coisa.

Então senti o meu pé arder.

Eu estava pegando fogo.

Era uma dor tão aguda que leva apenas alguns minutos para que ela me obrigue a ficar desacordado. Meu cérebro simplesmente desligou.

Quando acordei estava tudo escuro. Eu estava em algum terreno baldio ou coisa assim, mas era difícil saber por conta da pouca visibilidade que tinha. Escutava os sons de pessoas chorando e gritando como se estivessem sentindo muita dor. Nada daquilo fazia sentido naquele primeiro momento.

–Que cacete você está fazendo aqui? – perguntou uma voz feminina que levei alguns minutos para reconhecer.

–Lúcia? Você está morta! Onde é que eu estou? – meus olhos estavam confusos, levei alguns minutos para perceber que ela tinha uma Cabeça decepada nas mãos, assim como nos sonhos.

Para o meu completo pavor a boca da Cabeça começou a fazer diversos barulhos, ela parecia estar mais assustada do que eu. Então ela disse as palavras que ficariam na minha cabeça durante toda a eternidade.

–Dentinho está vindo!

Eu corri de Lúcia enquanto ela falava coisas que eu não conseguia entender, pois a minha mente não prestava atenção nela. Minha cabeça só pensava em correr na direção oposta à dela e da Cabeça falante.

Mas então o percebi que os sons de choro e lamento estavam mais próximos e o que quer aquilo fosse,  eu certamente não iria querer chegar perto, por isso mudei de direção para tentar chegar em algum lugar onde pudesse entender o que estava acontecendo ou que ao menos tivesse um pouco de luz, pois eu via muito pouco o que estava acontecendo ao meu redor.

Foi quando uma mão me segurou com força.

–Você tem que vir comigo seu idiota! Dentinho vai te ver! –berrou Lúcia que ainda segurava aquela cabeça – Vamos! – ela gritou ao me puxar.

Eu não queria ir com ela.

Ela matava pessoas.

Mas minhas pernas não obedeceram a minha mente e foram na direção que Lúcia apontou como mais segura. Nós corremos como loucos, fizemos isso durante bastante tempo até que Lúcia fez sinal para pararmos.

–O que você está fazendo na terra sem luz? – Lúcia perguntou.

–Terra sem Luz? Eu não sei do que você está falando. Por que cacete você está andando por aí com essa cabeça? Joga essa porra fora!.

–Tenha mais respeito garoto, eu era um homem sagrado quando vivo! – berrou a cabeça que Lúcia tinha nas mãos.

– Quando vivo? Que merda está acontecendo? Como essa cabeça fala?

–Você acabou de chegar não é? – disse Lúcia com um ar pesado – Diego, se você está na terra sem luz quer dizer que você morreu e provavelmente vai ficar aqui por toda a eternidade.

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Sobre o autor:

Cicero Sena é escritor e jornalista responsável pelo site  garotosdigitais.com.br. Além de terror e fantasia é fã de coisas legais como filmes sangrentos e heróis que ninguém mais admira.

4 comentários em “A Noite Em Que Eu Conheci A Terra Sem Luz (Cícero Sena)

  1. Cicero Sena
    27 de janeiro de 2015

    Obrigado por comentar galera. Vou ficar de olho nas dicas que vocês deram.

  2. Jefferson Reis
    22 de novembro de 2014

    A alternância entre presente e pretérito não soou legal. Acredito que o ritmo ficará melhor se você usar somente o passado nos verbos.

    Assim como Gustavo Araújo, fiquei com a sensação de que a narrativa é um rascunho. No entanto, gostei. Lembrei-me de uma creepypasta sobre um jogo antigo de Pokémon, que, contrariando o roteiro, leva o jogador para um lugar estranho e misterioso.

  3. Gustavo Araujo
    21 de novembro de 2014

    Gostei da ideia e do clima de suspense gerado. No entanto, fiquei com a sensação de que se trata de um rascunho ou de um prólogo. O conto merece mais desenvolvimento.

  4. Anorkinda Neide
    21 de novembro de 2014

    Eu gostei do conto, gostei da sua narrativa informal com as girias e palavrões que nos aproximam do personagem, só achei que terminou abruptamente, agora eu quero ver as desventuras de Diego na terra sem luz..hehehe

    Encontrei estas correçõezinhas pra fazer: ‘ter sido obrigado a entregÁ-LA para a polícia’ e em seguida em ACENDO a luz, nao tem s depois do a.

    Abraço ae!

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Informação

Publicado às 20 de novembro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .
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