EntreContos

Literatura que desafia.

Lona Preta (Leda Spenassato)

Ladrão de Terras. Invasor, vagabundo, preguiçoso. Fui taxado de muitos adjetivos. Mas, o ronco de meus intestinos, só eu é que sei.  Noites inteiras sem dormir, uma lombriga comendo o rabo da outra. O gosto de podre que sobe pela minha garganta só a água ameniza, e, não sei por quanto tempo vou desfrutar deste líquido. Sei que nas cidades já está à venda. E o preço a ser pago? Não sei qual o nome que se dá aqueles que se apossaram da água e a comercializam. Só sei que com o dinheiro que se paga uma taxa mínima de água eu compraria cinco quilos de farinha, cinco quilos de arroz, e dois de feijão, saciaria a fome das minhas lombrigas por quase trinta dias. Elas estão comendo pouco, de tanto passar fome seus estômagos reduziram-se, não há necessidade de operar. O meu? Está menor que um ovo de galinha. Só preciso de um punhado de feijão com arroz para acalmar meus vermes e poder dormir. Penso que é pedir pouco. Conformo-me com pouco. Mas minhas lombrigas não. Se elas não comem não me deixam em paz, sobem até minha garganta comicham, saem pelas minhas narinas e tentam entrar pela minha boca. Tenho medo de morrer asfixiado.

Já, ouvi falar que as bichinhas matam, sobem pela goela e sufocam.

Tomei chá de semente de abóboras, mas não tinha açúcar para misturar. Elas não se acalmaram.  Benzimento? Não ta resolvendo. É muita lombriga para poucas benzedeiras. Doutores?  No tal de SUS? Posseiros são tratados como lombrigas implorando por um pouco de comida.  Os  doutores  atendem  de  longe,

olham com desprezo e com indiferença rabiscam no papel. Estende dizendo:

– Tome isto aqui e você vai ficar bom.

Olho o papel, não entendo nada. Não me arrisco perguntar. Vou-me embora. Vou tentar comer mais um pouco de sementes de abóbora. Lembro-me que não tenho dinheiro para comprá-las. As sementes que plantei não vingaram na Terra pobre.

Talvez, ao retornar para o acampamento, eu passe por uma roça de aboboreiras. Roubo uma. Se o dono da fruta me pegar com a mão nela, penso que é melhor correr. Ele não vai acreditar que peguei sua abóbora para tirar as sementes, fazer veneno e matar minhas lombrigas. Ele não deve ter lombrigas. Então, não vai entender. Não mora em uma casa de lona com chão batido. Não dorme ao lado de um cão sarnento.

Preciso das sementes da abóbora. Preciso dormir. As lombrigas já estão todas sem rabo. Parto a fruta ao meio. Descasco as sementes. Um servição danado. Falta o açúcar. Engulo as amêndoas mesmo assim. É muito ruim. Preciso dormir. Ficar acordado também é ruim.

O cão lambe os beiços, dou-lhe um pouco das amêndoas, ele cheira, cheira e vai coçar-se em outro canto. Não come, vai ficar com suas lombrigas.

Ajeito uns trapos no chão, a caminhada até o doutor faz-me doer à carcaça. Deito. Um cheiro de cachorro. Maldito cachorro, dorme nos meus trapos. Sonho com comida. Uma abóbora recheada com carne moída. Eu preciso de pouco. Dê muito pouco.

O cachorro lambe minha boca. Acordo de supetão. Maldito cachorro, outra vez foi comer raposa. Qualquer dia destes também vou comer raposa. Deve ser melhor do que engolir lombrigas.

Não posso me entregar. Hora de levantar. Mais uns dois dias e levantaremos acampamento, vamos tomar posse de uma fazenda em Santa Fé do Sul. Lá certamente encontraremos comida. Aí vou tratar minhas lombrigas. Meu esqueleto vai se recompor. Quem sabe as carnes voltem a cobrir meus ossos. Pode ser que sobre uma cama para descansar minha alma. Sem Terra também tem alma! Sente dor! E a fome. Há! A fome. Essa dói, dói muito. Jornalista nunca deve ter passado fome.

Muito antes de ser Ladrão de Terras, como noticiam os jornais, fui roubado. Até a dignidade me levaram. Durmo com um cão sarnento. Jornalista não. Eles tentam a todo custo desacreditar o nosso movimento (MST) junto à sociedade. Enclausurados em um mundinho de hipocrisia não conhecem um dígono. Querem servir o ângulo dos mais fortes. O nosso movimento não paga os seus salários. Jogam a população brasileira contra nós. Nas salas de aula os alunos massacram os professores ao ouvi-los falar em movimentos sociais. Adolescentes dignos de dó repetem o refrão dos pais e da mídia. Desarmados acalmam os ânimos quando alguém, na sala, diz que seu pai não é Sem Terra, mas, graças a eles tem emprego, Sustenta suas lombrigas. Um lombrigueiro instruído sabe que tudo de bom que a humanidade desfruta, hoje em dia, é resultado de muita luta, de muitos movimentos que mancharam a Terra de vermelho com o sangue de muitas Dorothy, de muitos Chico Mendes.

Há! Se a mídia conhecesse os dois ângulos, e tudo de bom que nosso movimento conseguiu fosse divulgado, teríamos a sociedade toda do nosso lado.

Mas o número de quantas lombrigas devorou o meu estômago e o de meus companheiros até chegarmos à Conquista da Fronteira, à Cooperativa Regional Oeste Catarinense, à Confederação das Cooperativas da Reforma Agrária do Brasil (Concrab), ninguém notícia. Nem da fome das lombrigas, dos homens da cidade que graças ao emprego em uma dessas cooperativas, foi sanada, a imprensa fala.

Sou um baderneiro, invasor de Terras. Meu estômago dói. O estômago dos grileiros de Terras não dói. Eles não são baderneiros, não são invasores de Terras, não são ladrões e não têm lombrigas, podem pagar o médico. Eles não nasceram em uma casa de tábua bruta, na barranca de um rio, não foram expulsos, a pontapés, ainda na barriga, cor de cuia, da mãe. Não comeram do pão que o diabo amassou.

Sobrevivi assistindo o desminguar de uma pobre mulher, cujo marido foi arrancado de seu rancho e morto pelas mãos dos capangas dos grileiros de

Terras. Aqueles que não fazem serviços sujos!

Nasci em noite de Lua Cheia, debaixo de uma lona preta, em cima de uns trapos no chão batido. Alimentei-me numa teta caída onde o leite era mais doce que o mel. A rapariga mais fera do que o mais feroz dos animais, me protegeu. Me fez jurar. A Terra! – Esse imenso Jardim da Casa do Criador – não tem divisas.

Em Santa Fé do Sul a polícia nos esperava com metralhadoras e escopetas. Minhas lombrigas me encorajando. Um estampido, e, elas saltaram da minha barriga, enquanto lágrimas umedeciam os olhos de um soldado.

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3 comentários em “Lona Preta (Leda Spenassato)

  1. Daniel Vianna
    19 de outubro de 2014

    Escreve-se tanto sobre o terror sob a forma de fantasia hoje em dia, não é, Ledi? E as pessoas se esquecem que há também o (verdadeiro) terror em nosso dia a dia, seja nos campos, seja nas cidades. Muito bom. Concordo com o Lucas em relação às lombrigas, pode dar uma equalizada, mas o texto é bastante atual, trazendo-nos reflexos sobre a questão da água também, por exemplo, e que, pouco a pouco, amplia sua participação em nossa pauta de debates. Literatura útil. Obrigado e aquele abraço.

  2. Ledi Spenassatto
    14 de outubro de 2014

    Obrigada, Lucas.

  3. Lucas Rezende
    14 de outubro de 2014

    Um conto para pensar bastante. Este lado da história todos desconsideram (me incluo neste meio).
    Ótima proposta, só achei repetitivo demais o assunto das lombrigas.
    Parabéns!

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Publicado às 13 de outubro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .