EntreContos

Literatura que desafia.

Quarto de número Nove (Leda Spenassato)

Premeditei no quarto de um hotel o assassinato.  330,00 km de distância longe de casa. Em um passei de moto, na companhia de  uns vinte motociclista, que sequer poderiam imaginar que eu um companheiro de muitas viagens e passeios, dono de um extrovertido e aparente senso de humor fosse capaz de planejar um ato tão maquiavélico. Arquitetei tudo, ainda antes de sair de casa. Chegando ao hotel, á noite, depois de um passeio descontraído, pus em plano o mais ardiloso e sarcástico ato que já pratiquei, um assassinato. Matar Nara. Calar para sempre a sua boca, silenciar a sua voz, apagar seu olhar, que, mesmo sem falar nada, acusava-me dia e noites adentro. Tudo o que eu fazia estava  errado para Nara. Meu jeito de comer, de falar, as palavras que eu proferia, meu sotaque,  minha postura, e até mesmo os meus pensamentos ela queria controlar.  Por infinitos anos foi assim. Nara se apossou de mim, comandou e adestrou o meu eu. Adestrou entre aspas, pois não conseguiu transmitir-me o mais sonhado e esperado de todos os merecimentos que tem um trabalhador depois de um dia extenuante de labor.

Eu não era Eu. Eu fazia e vivia da maneira que Nara estipulou. E, isso tudo, no decorrer do tempo foi tomando forma e se materializando até o dia em que num momento de esquizofrenia, depois de três longas noites sem dormir, surgiu essa ideia e não mais me abandonou. Todos àqueles que estudam a mente humana sabem o quanto me custou tomar tal decisão. Sabem que eu lutei muito com a perda da dissociação  e discordância de unidade da minha personalidade para viver uma personalidade que não era a minha, mas a que Nara me impôs.

Foi quando então, surgiu a viagem de moto. Consegui, depois de muito maquinar o meu plano diabólico, convencer Nara a me acompanhar, argumentando que seria bom para o nosso casamento.  Para o casamento dela!

O Hotel era uma espelunca, com um corredorzinho estreito e comprido, se duas pessoas se deparassem nele teriam de passar de lado uma pela outra.  Instalamo-nos no quarto número nove. Uma rápida olhada, tudo certo, o plano seria perfeito. O passeio, à janta e a cerveja tudo de acordo com a etiqueta de Nara. Gentilezas, sorrisos, postura de gente fina. Enfim, o quarto de número nove. Nara se deita e em menos de dez minutos dorme como um anjo. Eu que não era eu, com o canivete em uma das mãos e um travesseiro em outra, beijo a face da mulher que um dia amei desço a minha cabeça em seu peito, escuto o seu coração para certificar-me de que nada saia errado.  E, no momento maior em que a ruptura do contato com a realidade se rompe eu acerto o coração dela que é impedida de gritar. Porém, ainda assim, me acusa com o olhar.

Hora de fechar o quarto: o corpo miúdo de Nara em posição fetal, coube  perfeitamente dentro do roupeiro em volto em um coberto. A sua ausência, sob a indulgência de uma viagem as presas até a casa de uma tia doente apenas gera espanto. Que pena?

A Minha aparente tranquilidade,  o cabelo ouriçado de quem acabou de se levantar encobertam a angústia de quem, como eu, esperava com a morte da esposa reencontrar a paz. Reencontrar o seu Eu.

Porém nem morta Nara deixou de me perturbar, agora mais do que antes.

Sinto sua falta na cama, sinto falta dela me chamando para levantar, sinto raiva quando acordo e Nara não está no quarto, sinto raiva de ter que ser Eu mesmo. De ter que resolver tantos problemas  sem a sua ajuda.

Sinto que Eu sem Nara não existo.

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5 comentários em “Quarto de número Nove (Leda Spenassato)

  1. Maria Santino
    10 de outubro de 2014

    Olá!

    Sim, no geral é bacana mesmo. Gostei desse frenesi, do desconforto após o feito e de algumas imagens projetadas na mente. Uma revisão no texto daria um brilho maior. Queria vê-la (melhor, lê-la), nos próximos desafios daqui 😉
    Abraços!

  2. fantasticontos
    10 de outubro de 2014

    Oi Ledi
    Gostei muito de seu texto. História muito boa. Apenas como sugestão diria para esmiuçar mais o final, deixar mais claro a parte do hotel.
    Parabéns.

  3. rubemcabral
    9 de outubro de 2014

    Ledi, o enredo é interessante, mas carece de mais desenvolvimento e de muita revisão, pois o texto apresenta muitos erros.

  4. Nara Susane Klein
    8 de outubro de 2014

    Não me mate, por favor! 😀

    Esse conto me fez lembrar de Stephen King e suas histórias…
    Nossa! Gostei muito! Ótimo final! Além de tudo, é possível refletir sobre dar valor ao que temos em nossa vida. Muitas vezes, reclamamos e só percebemos o quanto era importante, quando já não temos mais…

    Parabéns!

  5. Daniel Vianna
    8 de outubro de 2014

    Gostei, Ledi. Mas achei que podia expandir um pouco mais a história. Ficou alguma dúvida sobre a maneira como o corpo foi deixado. Parece que o personagem a deixou ali no hotel e deu uma desculpa para, depois, seguir sua vida normalmente, sem sequer medir as consequências. Na hora da morte, também, mencionou o travesseiro, mas ele aparentemente não foi utilizado, já que ela olhou para ele. Essas falhas, entretanto, não desmerecem o texto, que está bem escrito e bem narrado, apenas mostram que foi escrito rapidamente e que não foi editado. Mas é aquilo: só erra quem trabalha, e já vi outro texto teu aqui e, pelo jeito, trabalhas mesmo. É isso aí. Parabéns. Aquele abraço.

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Informação

Publicado às 8 de outubro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .