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Literatura que desafia.

Machado de Assis e a Saga Crepúsculo (Gustavo Araujo)

machado

Tenho visto em alguns fóruns discussões bastante interessantes sobre os rumos literários preferidos pelos jovens autores (alguns não tão jovens). Dia desses debatia-se acerca do excesso de estrangeirismos em obras recentes, traduzido nas infindáveis histórias sobre vampiros, zumbis, feiticeiros e temas afins. E também sobre o fato de se ambientar histórias em outros países.

Para os críticos, isso revelaria uma negação da cultura típica brasileira, uma ignorância auto imposta, tanto dos autores clássicos como dos romances consagrados da literatura nacional. Mais do que isso, ao abraçar fontes de inspiração de outros países e, de modo mais amplo, ao se deixar influenciar por temas “da moda”, nossos jovens aspirantes a escritor estariam cavando a própria sepultura, já que tais temas, quando assinados por autores nacionais, não seriam atrativos para o mercado editorial.

As questões surgidas, então, podem ser assim resumidas: 1) É válido surfar a onda de modismos estrangeiros? É aceitável que autores nacionais criem narrativas que se passam em outros países? Ou os que assim optam devem ser automaticamente classificados como preguiçosos, traidores ignorantes da cultura a que pertencem? 2) Ao embarcar em temas que agradam ao mercado mundial, ou que se passam no estrangeiro, autores brasileiros estão fatalmente fadados ao fracasso de vendas?

Para responder a primeira questão peço licença aos puristas. Com a tal globalização e especialmente com o advento da internet, qualquer um que goste de escrever tem diante de si uma fonte inesgotável de autores e de romances estrangeiros. A influência de tais obras passa a ser tão ou mais relevante que os clássicos autores nacionais. Somado a isso pode-se dizer que a imposição, nos anos de escola, de obras extremamente cansativas da literatura brasileira termina por criar um tipo de ojeriza ao que é nacional.

Do mesmo modo, existem milhares de informações sobre aspectos culturais diversos de cidades e países de outros continentes. Às vezes até mais acessíveis que os nossos próprios. Se bem ambientada, ou seja, se descrita com honestidade e acerto, a ambientação estrangeira, mesmo quando realizada por um autor brasileiro, pode ser muito interessante.

Penso que num mundo como o que vemos hoje, em que fronteiras culturais existem apenas na cabeça das pessoas, escrever sobre “temas da moda”, sobre assuntos que agradam o grande público internacional, ou até sobre outros países, não é, para o autor brasileiro, motivo de vergonha. Tampouco é negar toda uma tradição literária que apostava no folclore e em regionalismos maçantes. Isso é evolução. Se somos bombardeados com filmes, músicas e programas de TV vindos de todas as partes do globo, nada mais natural que adotemos também as fontes literárias. Nada mais natural que escrevamos como nossos autores favoritos, não importando suas origens.

Isso nos leva à segunda questão. Há hoje espaço para que o autor brasileiro venda quando escreve sobre esses temas mundialmente consagrados, sobre assuntos passados em outros países? Infelizmente, grandes editoras apostam numa segmentação bem conhecida: de autores nacionais há auto-ajuda, livros religiosos e, quando muito, crônicas. Ponto.

Porém, isso não significa que está tudo perdido. Editoras menores têm apostado em autores nacionais que se entregam sem medo ao vampirismo, ao terror, aos lobisomens e a cidades como Praga, Londres, Paris ou Nova Iorque.

Naturalmente, o volume de vendas não se aproxima dos medalhões de outros países, aqueles publicados pelos grandes, mas isso demonstra que há, sim, espaço para o autor brazuca nessas searas. O público anda ávido por histórias de monstros, de fantasia, de fadas, por romances passados na Europa ou na América do Norte. Claro que autores estrangeiros seguem mais atrativos para quem vive da venda de livros, mas é bacana perceber que autores nacionais estão conquistando seu espaço.

A palavra é insistir. Não ter medo da velha guarda, dos detratores que se apegam a um suposto dever de que os autores brasileiros deveriam escrever sobre temas brasileiros apenas. Para mim, isso revela uma tacanhez sem fronteiras, uma negação ao fato de que as fontes de inspiração mudaram de setenta anos para cá.

O mundo é único. Viva John Lennon, que aliás era inglês.

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2 comentários em “Machado de Assis e a Saga Crepúsculo (Gustavo Araujo)

  1. Fabio D'Oliveira
    29 de agosto de 2015

    Um assunto delicado. Todos nós temos alguma opinião sobre isso, não é? Eu prefiro olhar para essa situação quando estou no muro. Assim, enxergo os dois lados. E tudo o que vejo é confusão.

    Infelizmente, as pessoas não conseguem ceder à evolução natural. Tudo é mutável. A globalização está aqui e temos que aceitá-la, por isso não existe real problema em ver escritores brasileiros escrevendo sobre monstros e cidades de outras culturas. O importante, no final das contas, é a qualidade do texto. No entanto, a vanguarda sempre vai existir. O jeito é ter paciência com eles!

    Como muitos autores brasileiros querem conquistar seu espaço, eles adotam o tipo de literatura que é adorada pelo público em geral. E é fato que a própria cultura brasileira é rejeitada pela maioria da população. O preconceito contra autores brasileiros é enorme pelo simples fato de serem brasileiros! Então, logicamente, muitos tentam pegar carona no sucesso que o exterior faz aqui.

    Isso tudo, é claro, no ponto de vista profissional. No amadorismo, encontramos de tudo! Desde autores que possuem o talento ignorado até escritores em ascensão que só escrevem merda. E é por isso que ainda permaneço nessa vertente.

  2. Fabio Baptista
    6 de agosto de 2015

    Resumidamente responderia as questões da seguinte forma:

    1) Eu só me importo que a história seja boa. Se ela se passa no Brasil ou em Marte, não faz muita diferença.

    2) Os autores brasileiros estão fadados ao fracasso, qualquer seja o tema que escolham.

    Esse artigo, somado à notícia que acabei de ler sobre a Andressa Urach (que confessou já ter cobrado 15 mil reais por programa), me deu uma ideia para um outro artigo sobre prostituição (literária).

E Então? O que achou?

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Publicado às 4 de fevereiro de 2014 por em Artigos e marcado .