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Detox Literário.

A Vida e Seus Pequenos Surtos – Conto (Rodrigues)

A vida e seus pequenos surtosMarta usava aquela mesma roupa listrada. Imperceptível. Seus passos sempre encobertos pela sandália de pano que deslizava no chão de tacos. Tinha cintura fina e um cabelo opaco que lhe fazia mais invisível. Ela sentou-se à mesa do Sr. Guilherme, observou seu sorriso molhado e gordo. “Que pedante infeliz, a barriga mal cabe atrás da pobre mesa de mogno, as perninhas vivem coladas uma na outra, pernis inchados”, pensou Marta. Chefe e secretária, os dois não tinham nada em comum, exceto pelo fato de que ela deveria passar pelo menos uma hora por dia à frente dele ouvindo suas reclamações, planos, piadas, carências e propostas inviáveis.

Doze metros à frente, na baia recostada à janela chuvosa, José concentrava-se revisando os últimos documentos enviados pelo Sr. Guilherme. Porém, o olhar do auxiliar magro viajava era entre os lábios ruivos de Marina, sua colega de trabalho. Por desventura, seu campo de visão, às vezes, passava direto por Marta e acabava no detalhe dos dentes esverdeados do chefe. Quando tal fatalidade ocorria, o pensamento era matá-lo, cortá-lo em diversos pedaços e fazer um grande churrasco na empresa. Colocá-lo no espeto, temperá-lo ao alho, servir sua carne com gordura, sem gordura, em fatias grossas ou bem finas. Ao som de músicas selvagens e álcool, todos devorariam a carne da baleia e, bêbados como animais arruaceiros, disputariam a pele macia de Marina.

José usava óculos redondos e bem pequenos, o que lhe dava uma aparência de rato e de mosca. Já eram mais de sete horas da noite. Aos poucos, as luzes da loja foram sendo apagadas e os funcionários iam se despedindo, mas a papelada ainda era gigante ao seu lado.

– Não posso deixar isso para amanhã – pensou.

Era um velho costume, “trabalho de hoje não se faz amanhã”. Acelerou o serviço até as oito e meia, terminou e foi até a mesa do Sr. Guilherme.

– Até segunda, Sr. Guilherme.

– Ainda aí, é?

– Estava correndo pra terminar tudo.

– Ah, certo. Você pode chegar segunda meia hora mais cedo pra receber o…? Você sabe.

– Claro.

No domingo, ao fim da tarde, José saiu de casa com seu cão salsicha para as exemplares treze voltas no quarteirão. Ao passar pela confeitaria, não pode deixar de perceber o suculento sonho que reluzia na vitrine. Amarrou a coleira do animal no ferro próximo à porta, entrou e sentou-se em uma das últimas mesas do salão. A garçonete veio em sua direção.

– Sabe aquele sonho bem fresquinho da vitrine? – disse José.

– Pois não.

– Quero oito pra viagem.

– Certo.

Pegou os doces, caminhou pelo chão quadriculado da confeitaria, saiu e desprendeu o cão. Foi comendo alguns sonhos do saquinho e, após entrar em casa, sentou-se no sofá da sala. Já era noite. Uma noite clara. Sentiu-se bem. O vento entrava, sorrindo pela escuridão; e gelava seu rosto. Aos poucos, o volume da tevê foi diminuindo, a visão de José enturvando e suas pernas se esticando, esticando, até que se esbaldaram no braço do sofá e o homem caiu em sombra.

De manhã, Marina abriu os olhos e enxergou um feixe de luz na janela. Era uma seta fria que tocava seu ventre. Acordou. Sentiu-se deprimida, gostaria de dormir ali o dia todo. O barulho dos trabalhadores e dos carros era um convite ao desmaio. Ao sair de casa, tropeçava sempre, atrapalhada, sua saia subia, pernas brancas e bonitas de fora, ela ajeitava, ajeitava e ajeitava a roupa. Sem saber, fazia uma dança ingênua e sensual pela cidade.

Já José, recém-acordado em casa pelas lambidas do cão, escovava os dentes e sentia o creme de sonho e sono indo goela abaixo. Ele apanhou o molho de chaves, enfiou no bolso e rumou na direção da loja. Ao chegar, abriu as portas de vidro, olhou para os dois lados e entrou. Nada de errado. Subiu um lance de escadas e colocou seu código de segurança no alarme. Minutos depois, ouviu o barulho de motor do carro-forte estacionando na frente do comércio. Ficou um pouco tenso.

Um homem de bigodinho, barriga saliente, uniformizado, ficou parado na frente da loja com uma escopeta nas mãos. Lá de fora, acenou para José, que abriu uma fresta na cortina arroxeada e lhe respondeu com um sinal. Estava tudo certo. Dois homens parados ao lado do carro-forte. Um terceiro saiu com duas grandes malas e entrou na loja. Subiu as escadarias e entregou os volumes para José.

– Quer conferir? – disse o vigilante.

– Sim, um momento.

José abriu as malas, os cristais brilharam jogando uma luz em seu peito e rosto, o reflexo ofuscou sua visão e o deixou confuso. Suor frio e tremedeiras vinham. As mãos molhadas iam fechando o zíper bem devagar. Com dificuldade, endireitou a coluna, equilibrou-se para levantar e olhou para os vigilantes.

– Perfeito.

Antes que os seguranças fossem embora, o Sr. Guilherme chegava em seu furgão. Era possível escutar seus passos de longe. Ele entrou, passou reto pelos guardas mexendo a cabeça num cumprimento falso, subiu as escadas e tomou as maletas de José, que iria colocá-las no cofre. “Quem você pensa que é?”, disse o chefe. Com esforço, Guilherme carregou-as para o térreo e as guardou. Subiu novamente, bateu as mãos e acenou com as sobrancelhas para José. Foi para a cozinha comer as roscas meladas que sempre trazia.

Os outros funcionários foram chegando um a um. Marina já estava em sua mesa tomando um copo de água gelada. Apesar do frio, um suor caía-lhe do rosto fazendo sua franja grudar na testa. Parecia nervosa. Sua blusa de bolinhas tinha alguns respingos. Olhava as horas o tempo todo e dava grandes talagadas. Começou a bater alguns pedidos em sua máquina de escrever enquanto tirava os saltos embaixo da mesa.

– Oi, Marina.

– Oi, José, tudo bem?

– Sim.

– Como foi o final de semana?

– Tudo bem, tudo bem. E o seu?

– Também.

Era aquele o diálogo de todo um dia, exceto pelas despedidas. “Tchau”. “Tchau, tchau”. Lá pelas quatro horas, José levantou-se para um cafezinho. Colocou a xícara na base da janela e ficou observando o movimento da rua. Reflexos. Flashes de poças e vitrines embaralharam sua visão. Sentiu-se atordoado, trôpego. Foi à cozinha, lavou o rosto e tomou uma aspirina para se acalmar. Seus olhos criavam estranhas figuras cintilantes ao redor dos objetos, auras de diversos tons pairavam sobre as coisas. Foi até a sala do Sr. Guilherme.

– Posso ir embora? Não estou me sentindo bem.

– Você sabe que vai ser descontado, né?

– Sim, tudo bem. Não me sinto legal.

– Vê se para de encher a cara. Vá pra casa repousar, ô…

O chefe nunca se lembrava de seu nome.

Despediu-se de Marina e dos outros funcionários. Marina olhou-o com certa estranheza. No caminho de casa, José procurou um local escuro e tranquilo onde pudesse descansar um pouco. Entrou na Igreja Sétimo Calvário, sentou-se em um dos bancos da frente. “Devo estar doente”. Antes de a missa começar, José caminhou para casa, passou reto pelo cachorro no quintal e, sem nem comer nada, deitou-se na cama mais próxima no quarto de hóspedes. Cobriu-se dos pés à cabeça com um cobertor grosso. Suava muito, mas, sabia que, com uma noite quente e os remédios que tomara, estaria novo para trabalhar no dia seguinte.

O cão lambão invadiu o quarto cedo e esquentou-lhe as bochechas com saliva. José sentia-se ainda cansado, mas livre do mal estar e das dores do dia anterior. Entrou no banheiro e começou a lavar o rosto e molhar os cabelos na pia. Fios circulares de água enxaguavam suas mãos e sua boca. Ele deixava que o líquido escorresse goela abaixo, caísse lábios afora molhando seu peito. Uma sensação vigorosa tomara-lhe. Agachou e segurou os joelhos, deitou-se no chão com as costas para o encharcado. Virou a cabeça de lado e observou a luminosidade que invadia o banheiro e se expandia por toda a casa. Encrespou o rosto .“Aquele porco…”.

Vestiu-se e saiu em passos rápidos. Bateu a porta com força, passou pela casinha do cachorro e pelo portão. Na rua, acelerava mais e mais. Era guiado pelo vento, flutuava um pouco acima da calçada. Tudo brilhava. Os vidros, poças, espelhos. Nenhum dente, nenhum olho era mais vivo que o dele. Entrou na loja demasiadamente feroz para ser notado. Subiu as escadas e passou por Marina. Os pés da moça adormeceram. Sentada, deixou as pernas deslizarem na cadeira, suas coxas abriram-se, ela as fechou envergonhada. Ao esfregar as canelas, sentiu-as quentes e úmidas. Calafrios acariciavam-na como um espírito de bom humor.

José vasculhou as salas onde Guilherme poderia ter escondido as joias. Bateu nas paredes, sentiu um fundo falso, oco, e empurrou com força até entrar em uma divisória secreta. “Só um tapado idiota poderia ter feito isso”, pensou José. Na pequena sala, havia um cesto com várias revistas pornográficas. Embaixo delas, as duas malas com as joias recentemente adquiridas pela loja.

Então José abriu os dois volumes, pegou os colares, anéis e pulseiras mais valiosos, e devolveu as revistas para o cesto. Colocou os objetos dentro de sua maleta de trabalho, mas não coube muita coisa. Escondeu alguns nos bolsos e por baixo das calças. Colocou dois colares no pescoço, escondidos pelo blazer. Ao sair da saleta, deu de cara com Marta. Os dois encararam-se.

– Ele já está voltando – disse ela.

José correu, passou por Marina e notou o olhar desesperado da mulher. Antes de sair, foi até ela. Como se fossem grandes amigos, os dois ficaram bem próximos. José acariciou os cabelos da moça, bem perto do pescoço; e disse algo em seu ouvido. Ela fez que sim com a cabeça, levantou-se, foi para a sala secreta e voltou cheia de joias balançando em seu pescoço e pelos braços. Os dois saíram correndo da loja pela primeira calçada que encontraram.

Passos rápidos e ofegantes ornavam com o barulho dos colares e pulseiras. José passou algumas que estavam caindo de seus bolsos para o pescoço de Marina. Viraram bruscamente na entrada do Motel Taileiras. Ela puxou um bolo de notas de sua bolsa e jogou no guichê. Pegaram a chave e correram para o quarto 32. Jogaram todos os objetos roubados em cima da cama. José puxou Marina com força, machucando seu pescoço. As bocas juntaram-se num impulso desesperado antes dos corpos caírem nos lençóis.

Um forte ruído de pele, saliva e tecido. Era tudo o que ouviam. Mastigavam-se na cama disputando espaços. Joias piscavam com a baixa luz que escapava da persiana. Marina dançava em cima de José com colares escuros entre seus seios. José os lambia. Seus rostos deslizaram um no outro e, súbito, colaram-se. Gozaram juntos pela primeira e última vez.

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Este Conto foi escrito por Rodrigues. A publicação neste blog foi devidamente autorizada pelo autor.

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2 comentários em “A Vida e Seus Pequenos Surtos – Conto (Rodrigues)

  1. rubemcabral
    7 de setembro de 2013

    Gosto do jeito que o Rodrigues esmiuça o cotidiano de pessoas comuns.

  2. Gustavo Araujo
    5 de setembro de 2013

    Um conto muito envolvente. Quem já não sentiu vontade de fazer isso? Jogar tudo para cima, cometer um delito… Claro, nossos freios sociais nos impedem, mas que às vezes dá vontade, isso dá…

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Publicado às 4 de setembro de 2013 por em Contos Off-Desafio e marcado .