EntreContos

Detox Literário.

“O Garoto no Convés” – Resenha (Gustavo Araujo)

O_GAROTO_NO_CONVES_1267467082PJohn Boyne é um autor fantástico. Sabe como poucos tomar fatos históricos e recontá-los sob o ponto de vista de gente comum, principalmente crianças e adolescentes.

Essa fórmula ficou bem evidente em “O Menino do Pijama Listrado”, quando ele adotou como pano de fundo uma realidade sobre a qual há vasta literatura: os campos de concentração nazistas.

Com a obra seguinte, o método foi repetido. Boyne tomou um evento mundialmente conhecido – o motim no navio britânico HMS Bounty – e tratou de recontá-lo sob os olhos de um garoto de 14 anos, John Jacob Turnstile, o protagonista, daí nascendo “O Garoto no Convés”.

A história do Bounty, apesar de bastante conhecida nos países de língua inglesa, não é famosa por aqui, razão pela qual evidentemente os editores brasileiros preferiram adotar um título semelhante à obra precedente de Boyne. De fato “O Motim no Bounty” só chamaria a atenção de fanáticos por História da Navegação, ao passo que “O Garoto no Convés” atrairia todos aqueles que choraram com “O Menino do Pijama Listrado”.

Pois bem, para quem não conhece a história do Bounty, aqui vai um resumo rápido: em 1789, o navio britânico HMS Bounty deixou a Inglaterra com destino ao Tahiti com o objetivo de coletar sementes de fruta-pão, que seriam cultivadas nas colônias inglesas do Caribe. Os frutos alimentariam os escravos e assim o império britânico ficaria ainda mais rico. O plano era audacioso e, para chefiar a missão foi escalado o capitão William Bligh. Conhecido por seus métodos disciplinares rigorosos, Bligh conduziu seus homens até a Polinésia com mão de ferro.  Vencendo as intempéries, chegaram ao destino e lá passaram seis meses à sombra de palmeiras e aproveitando toda a hospitalidade do povo tahitiano. Na viagem de volta, os homens de Bligh, liderados pelo imediato Fletcher Christian, se amotinaram e expulsaram o capitão e um pequeno séquito de marinheiros que lhe permaneceram leais.

Bligh e seu grupo de cerca de 18 homens foram baixados à água em um escaler com parcas provisões e abandonados à própria sorte. Fletcher Chistian e os demais, cerca de 22 homens, regressaram ao Tahiti. Dos amotinados, alguns permaneceriam na Polinésia, enquanto outros, incluindo o próprio Christian, se refugiariam nas ilhas hoje conhecidas como Pitcairn, destino que somente se tornou conhecido mais de 40 anos depois.

Mas não é só o motim em si e a fuga de Fletcher Christian que tornaram a história do Bounty tão apaixonante. Motins não eram raros em longas navegações. O grande diferencial do Bounty foi que contra todos os prognósticos, Bligh e seus seguidores conseguiram sobreviver, protagonizando uma das maiores façanhas da história marítima. Bligh era um navegador extremamente habilidoso e, com muita técnica, sangue frio e, claro, disciplina para economizar suas provisões, conseguiu fazer com que seu bote minúsculo atravessasse o equivalente a 6500km de oceano, até a região hoje conhecida como Timor. E isso em 1790! No final, Bligh embarcou de volta à Inglaterra, enquanto o navio inglês Pandora foi enviado ao Tahiti para prender os que se amotinaram. Jamais conseguiriam prender Fletcher Christian e os que desapareceram rumo a Pitcairn. Os amotinados presos foram transportados para Londres onde enfrentaram corte marcial, com condenações que variaram de pena de morte por enforcamento até a simpes advertências.

A história do motim ganhou as manchetes. Tornou-se peça de teatro logo em seguida e se transformou num grande sucesso de público. Invariavelmente, os autores preferiram retratar Bligh como um tirano enquanto Christian seria o bom moço, preocupado com o bem estar da tripulação e que, num impasse sem volta, libertou todos da sanha disciplinadora do comandante, oferecendo-lhes o paraíso como recompensa.

Com o passar dos anos, a lenda só fez aumentar. Além das peças de teatro surgiram filmes, como a versão dos anos 1930, com Clark Gable no papel do mocinho Fletcher Christian, e a versão dos anos 1980, com Mel Gibson fazendo as vezes do heroi.

Obviamente, livros também surgiram em profusão, sendo um dos mais fiéis, em termos de documentação, o excelente “A Viagem do Bounty”, de Caroline Alexander.

Mas, voltemos a “O Garoto no Convés”.

John Jacob Turnstile é um garoto de 14 anos, órfão, que sobrevive nas ruas praticando pequenos furtos. Certo dia, ele é preso e, ao ser enviado à prisão, vê-se diante da possibilidade de trocar a pena atrás das grades por uma longa viagem marítima, de destino incerto, como ajudante pessoal do capitão do navio. Naturalmente, John Jacob escolhe o mar e acaba servindo diretamente o Capitão William Bligh.

É pelos olhos de Turnstile que conhecemos a tripulação, escutamos suas reclamações, acompanhamos seu batismo quando o Bounty cruza o Equador. Turnstile é dono de um humor cáustico, sarcástico até, que não se preocupa em esconder seus preconceitos e os conceitos pouco favoráveis que nutre por certos marinheiros e oficiais.

É nesse ponto que está o grande diferencial de “O Garoto no Convés”. Ao contrário da maioria das obras a respeito do motim, Flectcher Christian é retratado como um sujeito arrogante e manipulador. Já o Capitão Bligh é visto como um oficial íntegro, disciplinador, sim, mas porque é preciso, além de honrado e extremamento inteligente.

Turnstile acompanha todos os eventos que se tornariam conhecidos – a estada hedonista no Tahiti, o inevitável  motim em si, e a luta pela sobrevivência no bote até o Timor. Suas observações são extremamente interessantes, especialmente quando se referem aos demais personagens do enredo.

Obviamente, John Boyne escreveu um livro baseado em fatos reais e que não podem ser tomados como expressão da verdade. Para isso, como dito acima, é melhor pesquisar o livro de Caroline Alexander.

De todo modo, não é absolutamente necessário conhecer a real história do Bounty para gostar de “O Garoto no Convés”. Mesmo quem nunca ouviu falar em Fletcher Christian e em William Bligh antes desse livro irá, certamente, gostar da narrativa, afinal, não é sempre que se pode ir ao Tahiti e entender os motivos pelos quais tantos homens foram enfeitiçados pelo perfume de um lugar tão exuberante.

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado às 10 de agosto de 2013 por em Resenhas e marcado , , .