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Detox Literário.

O Momento Bom do Dia – Conto (Leila Patrícia)

A mulher acordava antes do sol.

Quando havia café, passava um café ralo. Quando não havia, colhia algumas folhas da laranjeira junto ao portão e preparava um chá.

Enquanto a água fervia, acordava as filhas.

A mais velha atravessava a rua ainda sonolenta até a venda da esquina. Voltava segurando um embrulho com dois pães.

Nunca três.

Ela nunca estranhou isso.

Um era seu.

O outro, da irmã menor.

A mãe bebia o chá.

Era o momento bom do dia.

Depois a mulher vestia a pequena, ajeitava seus cabelos e lhe dava o pão sem manteiga. Era nesse momento que voltava a atenção a outra filha.

—Vista-se rápido. Depois da aula venham direto para casa e não solte a mão de sua irmã, ouviu bem? A menina balançava a cabeça afirmativamente enquanto colocava os sapatos.

—Esquente o almoço de vocês. Eu trouxe um bife, comam com arroz. Quando eu chegar vou olhar se vocês comeram.

Todos os dias eram as mesmas recomendações, mas a garota ouvia com a mesma atenção.

Na volta da escola, antes de sair para brincar, a menina escondia o bife no quintal para o cachorro encontrar.

As duas corriam para vender algumas garrafas vazias, que encontravam no quintal. As escuras valiam mais. Depois compravam mais pães. Às vezes, alguns retalhos dos doces de leite que uma vizinha vendia barato às crianças do bairro.

Depois brincavam na rua até escurecer.

A mãe nunca soube.

Quando saía para o trabalho, caminhava depressa, levando a menor pela mão.

A mais velha corria ao lado.

Estava tudo bem.

Amava a mãe.

À noite, a mulher voltava diferente.

Chegava cheirando a fumaça do fogão a lenha e ao cansaço de um dia inteiro de trabalho. Entrava sem perguntar como fora a escola, se haviam almoçado ou feito o dever.

Procurava algo dentro da bolsa.

A menina esperava, olhando para os pés.

Já não precisava ouvir a ordem.

Quando a nota amassada pousava em sua mão, ela sabia o que fazer.

Ia devagar pela rua.

Parava diante dos portões, imaginando em quais casas ela gostaria de morar.

Fazia de conta que estava caminhando pela Ilha Perdida, com Henrique e Simão.

Chutava uma pedra.

Esperava um carro passar numa rua quase vazia.

Mas a venda acabava chegando.

O dono recebia o dinheiro em silêncio.

Escolhia uma garrafa escura na prateleira dos fundos, embrulhava em um jornal e a entregava sem levantar os olhos. Evitava olhar para a criança.

A menina voltava para casa apertando o embrulho contra o peito, como se pudesse impedir que existisse.

Não podia.

A mãe arrancava a garrafa de suas mãos.

O primeiro gole ainda deixava vestígios daquela mulher da manhã.

O segundo começava a apagá-la.

As meninas aprendiam a desaparecer.

Falavam baixo.

Respiravam baixo.

Esperavam a garrafa esvaziar.

Nas noites de sorte, a mulher dormia antes da raiva.

Nas outras, bastava um copo quebrado, uma toalha fora do lugar, um silêncio interpretado como desafio.

Ou nada.

Sem aviso prévio, uma mão a agarrava pelos cabelos e batia sua cabeça contra a parede.

A menina aprendeu que chorar não adiantava.

Esperava as estrelas desaparecerem de diante dos olhos.

Se encolhia contra a parede, segurando a irmã pequena.

Só esperava.

Quando o sol atravessava a janela, a mulher colocava água para ferver.

Se houvesse café, fazia café.

Se não houvesse, arrancava folhas da laranjeira.

A menina atravessava a rua em busca de dois pães.

Nunca três.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 30 de agosto de 2026 por em Contos Off-Desafio e marcado .

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