Quando leio um romance, assisto a um filme ou ouço uma música, é natural que, desde o primeiro segundo, eu procure o significado daquela obra, ou o que há por trás da voz daquele personagem. Tendo estudado filosofia, eu tenho prazer por identificar e entender a mensagem central das histórias. Se for algo sem tanta profundidade, não é tão interessante (a não ser que seja algo muito bem escrito, como um filme do Tarantino).
Por causa disso, o livro contemplado nesta resenha me provocou.
Contraponto foi publicado pela primeira vez em 1928, e é um pouco complicado explicar sobre o que ele fala. Começamos acompanhando Walter Bidlake, que está em conflito com a esposa grávida, Marjorie, que ele não ama mais. O rapaz a abandona para ir a uma festa da elite inglesa, onde conhecemos muitos outros personagens do romance. E aqui nos familiarizamos, pouco a pouco, com um conjunto heterogêneo de visões de mundo que não apenas divergem, mas se complementam e debatem ao longo do livro.
Se formos obrigados a determinar como é um romance comum, vamos generalizar no sentido de que há um protagonista, com sua filosofia pessoal, talvez um vilão que surgirá para provocá-lo, alguns personagens alternativos para oferecer apoio ou visões alternativas. Sim, estou simplificando bastante mas é apenas para contrastar com a intenção de Huxley, que aqui é mais realista: não há protagonistas, mas os capítulos acompanham personagens variados, com visões variadas, e, em várias passagens, essas pessoas se encontram e conversam sobre a sociedade, sobre a vida, sobre eles mesmos. Fiquei uns três quartos do livro me perguntando qual era o significado maior da história (ou histórias), e estas foram minhas impressões:
Ficou claro que a estrutura do romance é o mais importante para o autor, o que o próprio título já entrega. Contraponto é um termo técnico musical onde há mais de uma melodia na música, e ambas funcionam independentemente, ou seja, poderiam funcionar como melodia principal se a outra fosse retirada. Essas melodias independentes se entrelaçam, antagonizam, performam uma espécie de dança ao longo da canção. Isso pode ser bem percebido na música de Bach, por exemplo, e nos refrões finais de músicas pop, onde versos que antes eram cantados em momentos diferentes ao final se juntam e tocam ao mesmo tempo, produzindo uma catarse musical (ou eargasm, como já vi falarem por aí em inglês).
Huxley tenta fazer a mesma coisa com seus personagens aqui. Não temos uma história única nem um protagonista, mas todos poderiam ser centrais. Acompanhamos várias tramas paralelas, pulando de uma a outra. Essas tramas vão se entrelaçando e gerando debates, provocações, discussões, embates. Eu já admirava a habilidade do autor em criar personagens bem reais nas obras que havia lido dele, e aqui ele continua tecendo pessoas realistas, originais e divertidas. O fato de a maior parte deles ser também representantes de alguma visão específica filosófica aumenta o meu prazer. Essa rede de perspectivas que Huxley tenta tecer aqui tem bastante similaridade com a de outro livro que li recentemente, Mrs. Dalloway, da Virginia Woolf, apesar deste último ser menos analítico e mergulhar muito mais na psiquê humana com seus fluxos de consciência.
Ao final da leitura, descobri que muitos dos personagens de Contraponto eram baseados em pessoas reais contemporâneas a Huxley, e lá me vi novamente caçando os easter eggs e mapeando quem era quem…. (curiosamente, comprei esse livro junto com On the Road).
Vale comentar alguns deles, a título de entendimento de como o livro funciona:
Philip Quarles é um escritor intelectual e alter-ego do próprio Aldous Huxley. Ele ama abstrações, conectar ideias, e vive mais na própria cabeça que no mundo real, que dirá no das emoções. Vive em constantes embates com a mulher, Elinor, que, apesar de amá-lo, contempla traí-lo com um político protofascista que é o exato oposto dele: utilitarista, intenso, apaixonado, e que demonstra constantemente seu interesse por ela.
Maurice Spandrell é o intelectual niilista que tem prazer na decadência e destruição do belo. Praticamente cada comentário cínico que sai de sua boca é para atacar algum pressuposto moral ou de beleza. Alegre na infância, se tornou amargo quando a mãe se casou pela segunda vez. O personagem segue pervertendo mulheres que se apaixonam por ele e defendendo a falta de significado na vida e nos valores da sociedade. Ao final do livro (spoilers, claro. Pule pro próximo parágrafo) ele convence Illidge, marxista indignado com a desigualdade social, a assassinar o político protofascista mencionado no parágrafo anterior. O estratagema dá certo e ele percebe, mais uma vez, a falta de punição para a maldade no mundo. Sem provas da existência de Deus (aparentemente era o que ele queria secretamente o tempo todo), investe contra membros do partido fascista num ataque suicida. Após algumas leituras, entendi que o personagem é largamente baseado em Baudelaire (inclusive compartilhando muito de seu passado) e na filosofia decadentista surgida no final do século XIX.
Por fim, Mark Rampion, o mais original do grupo, é um entusiasta do equilíbrio de mente e corpo, constantemente insistindo na necessidade da alma, da vida, da humanidade, do corpóreo. Critica ferozmente a sociedade industrial, o intelectualismo, a desumanização artificial (que o próprio Huxley faria com mais energia a seguir em Admirável Mundo Novo). É baseado em D. H. Lawrence, famosíssimo poeta da época, amigo pessoal e bastante admirado pelo autor. Percebo que é também o personagem menos provocado pela história e pelos acontecimentos, o que me dá a entender que sua filosofia é a que mais se aproxima dos ideais de Huxley, apesar de este, ironicamente, ser representado por outra persona.
A obra contém muito mais personagens do que eu trouxe aqui, mas não quero testar a sua paciência, leitor ou leitora. Apenas confie que temos outros personagens pitorescos, engraçados, ricos, mas eu quis focar nos que me foram mais interessantes. Estes se cruzam em festas, clubes, moradias e têm embates não diferentes das discussões filosóficas dos filhos em Irmãos Karamazov, apesar de não em forma tão dramática quanto escrito por Dostoievski. Na verdade, tudo é discutido de forma um tanto afastada de grandes acontecimentos, e poderíamos dizer que, apesar do humor, a escrita é fria e bastante analítica. Mesmo assim, é notável como Huxley representa cada perspectiva, defendendo-as perfeitamente. Everard Webley, líder dos Ingleses Livres, quase um Mussolini, a certa altura da história discursa de forma coerente, apaixonada e eloquente, apesar de sabermos das horríveis consequências que tais mensagens trazem na vida real.
Huxley tenta também trazer recursos narrativos diferentes, como passagens epistolares e um curioso capítulo que consiste nas anotações pessoais de Philip Quarles. Estes parecem ser as observações do próprio autor em relação ao livro que lemos, onde são explicadas suas ideias para a confecção de Contraponto (as questões musicais e de múltiplas perspectivas que eu já mencionei), num momento metalinguístico bastante inspirado. Mas em geral o livro segue o mesmo tom narrativo simples, direto e que talvez seja monótono para alguns.
Talvez por isso, pensei em parar o livro algumas vezes. Minha edição tem 500 páginas com letras pequenas e a obra não oferece emoções ou grandes acontecimentos que fazem virarmos as páginas avidamente pra saber o que acontecerá. Mas a riqueza dos personagens e as belas passagens críticas e analíticas da vida me fizeram terminar o livro, apesar de eu ter demorado meses, e fico feliz de ter ido até o fim. Talvez um dia releia com o prazer de pescar maiores detalhes.
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