Nicete desejava saber se Litério, seu marido, ainda tinha quentura nos lábios. Da boca dele, só recebia resmungos e reclamações.
A solidão dela transbordou em um aneurisma; no velório, Litério encarava a morta em silêncio. O correr dos dias lhe mostrou que lar de homem sozinho é pior que um caixão. Esperou a noite sem estrelas. Ninguém reparou na terra revirada ao amanhecer.
Litério não demorava mais no bar. Passou a ir rápido para casa, apaixonado pela brancura rija que um dia foi Nicete. Feliz, admirava a sua esposa que se transformou em relíquia.
Verídico rs … gostei.
Gostei da ideia do texto. O amor recuperado somente após a morte da esposa, sendo uma metáfora para o fato de que acabamos só dando valor para algo depois de perdermos. Como é um microconto, acho que se o tom escolhido fosse mais sombrio ou até mesmo voltado para o humor, o texto poderia ser mais impactante. Isso me frustrou como leitor, pois gostei muito da ideia central, mas da forma com que ela foi concluída, isso pq um microconto, pelo menos pra mim, ou engaja por um território completamente inóspito do fantástico, ou nos causa risadas ou angústia e nojo, podendo também ser seco e direto como uma pedra. O que encontrei aqui me pareceu uma maneira de escrever como em um romance, algo maior, que foi picado e deixado aqui. Parabenizo o autor pela ideia.
Esse texto funciona muito bem; a narrativa mistura ironia e intensidade emocional de forma impactante.