Nicete desejava saber se Litério, seu marido, ainda tinha quentura nos lábios. Da boca dele, só recebia resmungos e reclamações.
A solidão dela transbordou em um aneurisma; no velório, Litério encarava a morta em silêncio. O correr dos dias lhe mostrou que lar de homem sozinho é pior que um caixão. Esperou a noite sem estrelas. Ninguém reparou na terra revirada ao amanhecer.
Litério não demorava mais no bar. Passou a ir rápido para casa, apaixonado pela brancura rija que um dia foi Nicete. Feliz, admirava a sua esposa que se transformou em relíquia.
É evidentemente alguém que escreve com esmero e imaginação da sutileza. Gosto muito do estilo. “Transbordou em aneurisma”, o desejo de saber se ainda havia “quentura nos lábios”, tudo isso convém à narrativa por economia e associação entre sentimentos. Discordo do Astrongo, acima. Há muitíssimo humor no estilo, um tipo de humor um pouco do Drummond da Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte. Ok, talvez eu esteja forçando a barra. Mas o conto é bem bom. Tenho duas ressalvas, uma maior que a outra. A pequena: por que noite sem estrelas? Para quem vai fazer algo ilícito na calada da noite, é mais necessário que ela seja sem luar, não sem estrelas (embora, é claro, uma noite sem estrelas faça supor que tampouco haja lua, se a causa da ausência são as nuvens). A grande: do ponto de vista psicológico, há uma desproporção entre o sentimento de Litério diante da ausência da esposa e a paixão que dedica à “santa”. Lembremos que, em vida, ele já andava desinteressado. Depois da morte, não era tanto pela mulher que ele sofria, mas pelo tédio, pela solidão. Até aí, a psicologia é consistente. A metamorfose do sentimento é que me parece um salto que requer maior detalhamento. Ele se apaixona. Mas como é que um apaixonamento nasce de um contexto tão aborrecido? Talvez valha a pena qualificar essa paixão de alguma maneira menos absoluta, irônica, incorporando o fato de que ele já não a amava “com quentura” havia muito tempo.
Gosto de micro contos que provoca alguma emoção (boa ou ruim, tanto faz), e o seu provoca isso. Tem impacto, é bem escrito. A última frase achei dispensável, conta o que já sabemos. Em microcontos, menos pode ser melhor. Parabéns, gostei muito. Boa sorte no concurso.
Verídico rs … gostei.
Gostei da ideia do texto. O amor recuperado somente após a morte da esposa, sendo uma metáfora para o fato de que acabamos só dando valor para algo depois de perdermos. Como é um microconto, acho que se o tom escolhido fosse mais sombrio ou até mesmo voltado para o humor, o texto poderia ser mais impactante. Isso me frustrou como leitor, pois gostei muito da ideia central, mas da forma com que ela foi concluída, isso pq um microconto, pelo menos pra mim, ou engaja por um território completamente inóspito do fantástico, ou nos causa risadas ou angústia e nojo, podendo também ser seco e direto como uma pedra. O que encontrei aqui me pareceu uma maneira de escrever como em um romance, algo maior, que foi picado e deixado aqui. Parabenizo o autor pela ideia.
Esse texto funciona muito bem; a narrativa mistura ironia e intensidade emocional de forma impactante.