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Detox Literário.

A santa no altar (Mariana Carolo)

Nicete desejava saber se Litério, seu marido, ainda tinha quentura nos lábios. Da boca dele, só recebia resmungos e reclamações.

A solidão dela transbordou em um aneurisma; no velório, Litério encarava a morta em silêncio. O correr dos dias lhe mostrou que lar de homem sozinho é pior que um caixão. Esperou a noite sem estrelas. Ninguém reparou na terra revirada ao amanhecer.

Litério não demorava mais no bar. Passou a ir rápido para casa, apaixonado pela brancura rija que um dia foi Nicete. Feliz, admirava a sua esposa que se transformou em relíquia.

38 comentários em “A santa no altar (Mariana Carolo)

  1. leandrobarreiros
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de leandrobarreiros

    Jesus.

    Um conto que causa extremo desconforto por uma série de motivos. Primeiro, fala sobre a solidão em um casamento triste. Segundo pela queda de Nicete para um aneurisma, condição horrível e, segundo o texto, consequência do próprio casamento. Terceiro pelo homem que tarde demais se arrependeu e só conseguiu enxergar a esposa no vazio dela e por fim pelo elemento necrofílico que é uma senhora porrada.

    Eu não consigo não pensar que essa admiração também não é carnal, tendo em vista que o que a esposa se perguntava no início era sobre a quentura nos lábios.

    Enfim, puta conto. Um dos mais impactantes para mim até aqui.

  2. Sarah Nascimento
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de Sarah Nascimento

    Olá! Nossa que microconto triste. Eu achei que essa história exemplifica muito bem o que vi estes dias sobre desejo pelo que você não tem. Depois que não tinha mais a esposa o marido aí passou a amá-la, mas quando ela tava viva com ele não queria ela. É uma contradição bastante verdadeira e muito, muito triste. Seu microconto mexe com a gente, chega a ser incômodo, parabéns. Muito bem utilizadas as palavras pra fazer a gente se sentir mau. risos. Excelente.

  3. maquiammateussilveira
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de maquiammateussilveira

    Essa história é digna das crônicas de “A Vida como Ela É”, do Nelson Rodrigues. Gosto muito do tom suburbano desse microconto, clima de subúrbio do interior. Os personagens lembram aquele vizinho de algum parente, são personagens muito bem estruturados, mesmo em tão poucas palavras. E como é fácil simpatizar com eles [principalmente com o maldito e esquisito Litério]. A história serviu muito bem ao formato microconto, por causa da linguagem muito acertada. E olha que tem elementos, viu? O desejo da esposa, a morte, o arrependimento do marido, a consumação de um crime, o desfecho! Ao meu ver, essa é a melhor qualidade desse texto: não ficou nada corrido, nem uma parte atropelada, tudo muito bem contado em menos de 100 palavras. E olha que não é um texto seco, árduo. Pelo contrário, é cheio de nuances. Não sei como você conseguiu, hein. Um dos meus contos preferidos nesse desafio. Acredito que de todos os 37, seja o que melhor desenvolveu os personagens. E que contou de forma orgânica a história mais complicada. Isso não é pouco. Parabéns!

  4. Alexandre Parisi
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de Alexandre Parisi

    Oi, Dr. Ian Kelson! Teu conto é um mergulho corajoso no horror gótico regionalista. A metamorfose aqui é duplamente perturbadora: a esposa que vira objeto (“relíquia”) e o marido que transmuta indiferença em adoração mórbida. A imagem da solidão “transbordando em um aneurisma” é genial e visceral.

    O que me agradou foi o clima de estranheza, mas vejo oportunidades de melhoria. O final está um pouco previsível; o leitor já entende a exumação pela “terra revirada”, então o último parágrafo soa explicativo demais. Além disso, a mudança súbita de Litério — de ranzinza a apaixonado — carece de uma ponte psicológica mais fluida para não parecer um salto brusco. Gramaticalmente, evite repetir a mesma ideia em frases seguidas, como o retorno rápido do bar.

    No geral, é uma peça impactante que causa um desconforto legítimo e necessário.

  5. Alexandre Costa Moraes
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de Alexandre Costa Moraes

    Oi, Dr. Ian Kelson.

    Achei seu microconto muito bom. Resumindo: Nicete morre de solidão e Litério, que em vida só reclamava, descobre tarde demais um tipo de amor que nasce só depois que ela se vai.

    O ponto mais cruel é o horror disfarçado de devoção. O luto vira ritual profano e a “santa no altar” surge dessa inversão do afeto, com imagens muito boas e um final que reinterpreta tudo (embora o último parágrafo tenha explicado de forma desnecessária).

    De forma geral, você abordou muito bem o tema da metamorfose, física e simbólica, com impacto. E ainda mandou um terror massa.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  6. Fabio D'Oliveira
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fabio D'Oliveira

    Um misto de sensações.

    A dor da perda e a incapacidade de aceitá-la. Litério representa isso muito bem. O conto trabalha muito bem algumas questões bonitas através de um cenário mórbido e bizarro. O autor é ousado. Gosto muito disso. A metamorfose está no texto em mais de uma camada. No desejo de Nicete, na morte dela no ato, na mudança de atitude de Litério.

    Gostei muito desse micro. Me impressionou pela qualidade geral e pela ousadia do autor.

  7. Bia Machado
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Bia Machado

    O conto trabalha a metamorfose de forma sombria e eficaz. Nicete busca calor e recebe apenas indiferença; sua morte funciona como ruptura e, ao mesmo tempo transformação. A solidão que a destrói é também o gatilho para a mudança de Litério, que não melhora, só degrada. Ele se metamorfoseia em alguém que só consegue amar o inerte, e ela, em relíquia, um objeto de devoção mórbida. A força do texto está no contraste entre afeto e necrofilia emocional, e no uso preciso de imagens que tornam a dor silenciosa, mas profunda.

  8. danielreis1973
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de danielreis1973

    Prezado(a) Microcontista (aviso comum em todo os contos):

    Por conta do sistema de comentários (abertos) e do sistema de votação (escolha dos dez favoritos), estou adotando também um critério de análise mais simples para todos, procurando refletir mais como me senti com leitor do seu texto do que como analista/crítico e atribuidor de notas. Por isso, desculpo-me de antemão pela concisão, e reforço que o que comento aqui é sobre como me senti ao ler seu conto, não sobre o quão bom ele ou você é, ok?

    Vamos à análise:

    Outro um texto mórbido e chocante. Manda mais! Gostei de como o autor construiu a reversão do desejo de Litério a partir da ausência da esposa em sua vida. E de como a indiferença acabou metamorfoseada em adoração. Parabéns, muito sucesso no desafio!

  9. Renata Rothstein
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Renata Rothstein

    Escritor(a), seu microconto é sombrio, macabro/terror, explorando uma metamorfose muito diferente: Nicete passa de esposa viva para uma relíquia macabra, e Litério transforma o luto em ação extrema, carregando o corpo e preservando-o de maneira horripilante. O texto brinca com o limite entre amor, obsessão e morte, gerando impacto imediato no leitor.

    O que funciona: o clima é tenso e inquietante, e o terror é construído com detalhes sugestivos — o velório, a solidão, a transformação de Nicete em objeto. A narrativa prende pelo suspense e pelo horror contido.

    O que poderia melhorar: algumas passagens poderiam explorar mais a tensão psicológica, mostrando Litério antes da ação final, aumentando o suspense antes da “metamorfose” da Nicete.

    No geral, é um microconto eficaz, macabro e perturbador, que trabalha metamorfose de forma literal e impactante.

    Desejo boa sorte no Desafio.Beijos

  10. Leandro Vasconcelos
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Leandro Vasconcelos

    Opa! E aí, meu caro autor? Seu micro me impressionou! Uma aula de como construir uma atmosfera de terror em meras 99 palavras. Palmas! Muito bem escrito, consegue nos trazer um suspense mesmo no espaço diminuto. Melhor ainda: os personagens têm uma certa profundidade, o que também é surpreendente. Litério, antes um resmungão, só percebe o quanto amava a esposa depois de sua morte. E, de tão obcecado, a desenterra para que vire a “santa no altar”… ou algo mais! Bizarro. Eis aqui a adequação ao tema do concurso. A esposa se transforma em seu objeto de adoração. O mais interessante é que ele não amava a esposa de fato. Ele amava uma idealização dela. Tanto é que, depois que a ergueu como relíquia, não houve mais razão para reclamar. Afinal, ela também não poderia fazer mais nada! Tornou-se um mero ídolo, um troféu (trazendo para os dias de hoje). É idealização que muitos homens fazem das mulheres e, quando percebem o que é real e o que é fantasia, vão para o bar, fogem de casa. Muitos, se pudessem, namorariam bonecas infláveis! Enfim, seu conto possui linguagem direta, mas bem trabalhada; contou uma história sem precisar de muito. “Lar de homem sozinho é pior que um caixão”: concordo! Kkkk… muito bom. Em suma: parabéns!

  11. Leila Patrícia
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Leila Patrícia

    Oi, Dr. Ian. Tudo bem?

    Seu conto me prendeu pelo incômodo. Ele começa quase simples, uma mulher carente, um marido ranzinza, e de repente desce para um lugar muito sombrio.

    Gostei muito dessa frase: “a solidão dela transbordou em um aneurisma”. É exagerada, quase dramática demais, mas combina perfeitamente com o tom. Parece que o corpo explode de falta de afeto. E depois vem o silêncio do velório, que já prepara o terreno para algo errado.

    O ponto alto é a virada: o homem que não dava calor em vida passa a correr pra casa por causa da “brancura rija” da esposa. Isso é macabro. Ele só consegue amar quando ela vira coisa. Relíquia. Objeto fixo, imóvel, que não reclama, não exige.

    Se eu mexeria em algo? Talvez deixasse o começo um pouco menos direto, menos explicadinho, pra estranheza crescer mais devagar. Mas o final é forte. Fica aquele desconforto na boca. Boa sorte no desafio.

  12. Gustavo Araujo
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Gosto de temáticas regionalistas, dessa linguagem meio despudorada, simplória (no bom sentido), que leva o leitor para um Brasil desconhecido, mítico até, onde pessoas se chamam Litério…

    O(A) autor(a) soube lidar bem com o contexto, com as razões, com os desejos de parte a parte, criando um ambiente por um lado familiar e por outro inusitado. Isso ficou muito bom.

    O único problema é que o final é telegrafado. Se o conto terminasse no no segundo parágrafo ficava perfeito, já que o terceiro, com a explicação, acaba parecendo uma muleta.

    De todo modo é um ótimo trabalho, um conto bom de ler. Parabéns e boa sorte no desafio.

  13. Luis Guilherme Banzi Florido
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Luis Guilherme Banzi Florido

    Boa noite, Ian! Tudo bem? O véio só foi dar valor quando perdeu. Um classico, né? O conto apresenta uma dose de morbidez e flerta com o terror, apesar de nao apostar no medo como ferramenta, e sim na estranheza. Gosto de como você vai tecendo o conto e nos conduzindo por estilos e expectativas diferentes. Primeiro, parece que a historia será sobre abandono, solidão a dois. Então, temos a morte e a morbidez do luto. Então, temos uma especie de critica às pessoas que só dão valor ao que perdem, ao mesmo tempo que há uma critica ao homem que só via na mulher uma serviçal. Por fim, descobrimos o ato terrivel do marido, e o conto se torna uma especie de terror morbido. Tudo isso em pouquissimas linhas, o que demonstra um grande talento de sua parte. É um conto interessante e cheio de camadas. Parabens!

  14. Thiago Amaral
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Thiago Amaral

    Não considerei tanto terror, apesar dos elementos mórbidos. Achei que tem um tanto de humor e ternura também, pela solidão de ambras as personagens, o que me tocou bastante.

    A linguagem aqui salta os olhos pela criatividade ao narrar a história. Parece contada de forma bastante natural, quase brincalhona. Considero esse o maior trunfo do conto.

    Infelizmente, não vejo muita metamorfose por aqui. Por esse motivo, talvez eu rache meu coração ao não incluir o conto na lista. Mas veremos.

  15. Antonio Stegues Batista
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Antonio Stegues Batista

    A esposa morreu, Litério foi no cemitério, pegou o corpo, transformou a esposa em uma múmia e construiu um altar para ela. Esse conto de terror não é tão original, não trás nada novo, mas não há dúvidas de que é bem impactante. Parabéns.

  16. Kelly Hatanaka
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Santa de casa não faz milagre.

    Enquanto estava em casa, cuidando de tudo, Nicete só ouvia reclamações e não recebia nem um beijo do marido. Depois de morrer de solidão, finalmente teve atenção do estrupício.

    Litério só foi capaz de amar a idealização de Nicete, nunca sua presença.

    O conto ilustra bem essa solidão a dois, esse desencontro.

    De início, dá-se a impressão de que Litério sente falta dos cuidados de Nicete. Porém, ele fica satisfeito em tê-la como relíquia, imóvel, na casa. Era incapaz de amar alguém vivo, real e foi preciso santifica-la, transformá-la em relíquia para se apaixonar.

  17. Rodrigo Ortiz Vinholo
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Rodrigo Ortiz Vinholo

    Sinistro! Gostei MUITO do uso de linguagem, e de como o assunto da metamorfose se desdobra em diferentes sentidos. Um excelente exemplo de micro que sabe abordar bem a narração e a técnica, sem arroubos poéticos confusos. Parabéns!

  18. Fabiano Dexter
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fabiano Dexter

    Ola Ian,

    Excelente texto! Começa com um desejo de uma mulher e termina, de forma sinistra, com ele realizado.

    Uma mistura de loucura, saudade e solidão que fez com que Litério levasse de volta para casa a sua esposa, já falecida.

    É uma inversão em casamentos muito longos onde, após uma vida compartilhada, quem fica não consegue se adaptar e acaba por seguir não muito tempo depois o companheiro para o outro lado.

    Parabéns!

  19. toniluismc
    12 de fevereiro de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá, Dr. Ian!

    Que texto sinistramente bom! Gira em torno de uma solidão que vira necrofilia velada, com Nicete passando de esposa viva e frustrada pra “relíquia” desejada na terra revirada.

    A escrita é afiada, com frases curtas que batem como marteladas: o aneurisma transbordando, o lar pior que caixão, a brancura rija. É uma proposta ousada, quase gótica, que subverte o luto em obsessão póstuma.

    Sobre a metamorfose: a mudança dela de corpo quente pra objeto frio é mais decomposição que transformação propriamente dita. Falta aquele elemento de renascimento ou mudança de forma que o tema pede (tipo, ela voltando como algo novo, ou ele se alterando junto).

    Fica mais uma história de perda irreversível do que de metanoia. Pra turbinar, um toque fantástico (os olhos dela piscando na relíquia?) daria o giro metamórfico sem perder o tom macabro. De qualquer jeito, prende e perturba na medida certa.

    Parabéns pelo feito e boa sorte!

  20. Fernanda Caleffi Barbetta
    12 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fernanda Caleffi Barbetta

    Olá Dr. Ian,

    Seu microconto de horror é bom. Tem certa poesia na sua morbidez.

    Quando inicia dizendo o que ela desejava, dá a impressão ao leitor de que o curto texto será sobre ela, sobre seus sentimentos. Criou em mim uma expectativa que não se cumpriu, me colocou no caminho errado. Talvez começar com o foco nele de cara, dizendo que ele só tinha resmungos para a esposa, que parecia não desejá-la. Não quero refazer seu microconto rsrs, é só uma sugestão como leitora, do que a leitura me trouxe.

    Açgumas construções muito boas, como “tinha quentura nos lábio”.

    Gostei também de “A solidão dela transbordou em um aneurisma”.

    “A solidão dela transbordou em um aneurisma; no velório, Litério” – não entendi a escolha pelo ponto e vírgula, aqui seria melhor um ponto.

    Em um microcotno, evitar repetição de idéias: “Litério não demorava mais no bar. Passou a ir rápido para casa”.

    O final, “Feliz, admirava a sua esposa que se transformou em relíquia”, pareceu um pouco uma forçação para mostrar que está adequado ao tema metamorfose…

    Parabéns pelo texto!

  21. claudiaangst
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de claudiaangst

    Olá, autor(a), tudo bem?

    O tema proposto pelo desafio parece ter sido abordado de duas maneiras: a transformação do sujeito após a morte da mulher e a metamorfose do corpo – de vivo para relíquia.

    Aquela velha e conhecida história: só percebem o trabalho não realizado, só dão valor quando perderam (no caso, a companhia, a prestadora de serviços domésticos, a amante).

    Texto muito bem escrito. Não há palavras ou explicações desnecessárias. O desfecho, embora não surpreendente, apresenta o tom certo para deixar um gostinho de terror misturado à terra revirada.

    Parabéns pela participação e boa sorte (grande chance de pódio, hein).

  22. Priscila Pereira
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, Dr Ian! ( Gosto de pesquisar os pseudônimos e o seu é um personagem de um filme… legal!) Tudo bem?

    Gostei do seu micro, mostra um homem que descobre que a esposa quando morta, é perfeita, então ele se transforma em um bom marido… bem, tarde demais… pensando bem, o conto é bem sinistro… melhor nem pensar muito nos subtextos…

    Parabéns e boa sorte!

    Até mais!

  23. Pedro Paulo
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Pedro Paulo

    Em poucas palavras, há uma virada notável quando de início se parece que leremos na perspectiva da esposa, mas sua morte súbita nos põe na solidão do marido, que finda por uma decisão mórbida e chocante. Neste texto destaco a escolha de palavras, numa opção pelo lirismo para transmitir sentimentos e imagens sórdidas. A “quentura nos lábios” seguida de uma boca que só reclama é um contraste doloroso, enquanto a “brancura rija que um dia foi Nicete” traz dois elementos de seu estado cadavérico, mas com um floreio que evidencia a necrofilia sem tornar o seu impacto meramente apelativo. Enxergo algumas metamorfoses no texto, mostrando que tem primor próprio, mas também corresponde ao desafio. Parabéns. P.S.: Gostei da referência no pseudônimo, é bem condizente com aspecto sinistro do micro.

  24. Lucas Santos
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Lucas Santos

    Parabéns pela participação, Dr. Ian Kelson!

    O texto reproduz a nossa cruel realidade. Litério representa muitas pessoas que enxergam a presença do próximo como óbvia e, por conseguinte, acabam escanteando afetos, tempo de qualidade, palavras de afirmação, atos de doação, em suma, amor. Geralmente, o senso de importância só é reestabelecido quando há a perda do outro.

    Litério não soube lidar com a perda de Nicete e foi ao extremo: exumou a própria esposa, visando estrangular sua solidão e, ao mesmo tempo, corrigir as negligências do passado. Muito ao contrário de um gesto romântico (e sinistro), é uma evidência de seu egoísmo. Nunca foi por ela, sempre foi por ele.

    Em “A solidão dela transbordou em um aneurisma;”, eu substituiria o ponto e vírgula por um ponto final, porque há mudança de cena. Primeiro, ela tem o aneurisma, depois, é velada.

    Apesar de bem grafado, o último parágrafo desmonta o subtexto que o penúltimo construiu. O leitor já consegue compreender que Litério a desenterrou no trecho: “Ninguém reparou na terra revirada ao amanhecer”.

  25. André Lima
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de André Lima

    Esse é um dos meus contos preferidos até então. Ganhou muita força na segunda leitura.

    Gosto muito dos elementos escatológicos apenas na sugestão. A poética combina com o estilo. É peculiar, original. O mórbido misturado com o lírico. A morte e o amor.

    Parabéns pelo excelente trabalho.

  26. andersondopradosilva
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de andersondopradosilva

    Linguagem simples, mas competente. Às vezes, o valor merecido não vem em vida. Pena a esposa não ter recebido o amor merecido em vida. Tem um quê de conto de terror, pelo susto de se imaginar ter uma defunta dentro de casa. Tem gente que não sabe amar, daí o arrependimento, a culpa e as demonstrações tardias de afeto.

  27. Fernando Cyrino
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fernando Cyrino

    Gostei do seu microconto, Dr. Ian Kelson. Achei legal mesmo. A falta de atenção e o excesso de resmungos e reclamações durante a vida de Nicete, se transformam e cuidado e carinho ao cadáver. Litério tem agora a sua própria santa em carne seca e ossos, na própria casa para ser venerada. Muito criativo. Parabéns e muito sucesso no desafio.  casa para ser venerada… 

  28. Givago Domingues Thimoti
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Givago Domingues Thimoti

    Olá, Dr. Ian Kelson!

    Tudo bem?

    Esse é um micro mórbido e bem existencial. Achei-o muito bom, lembrando um pouco de uma situação que presencio. O valor e o amor sendo reconhecidos apenas depois de morta. Parabenizo-o pelo texto porque é bastante difícil escrever uma narrativa com um subtexto tão latente como nesse caso. Exige ótimas escolhas de palavras e concisão.

    Sei que é um elogio curto, mas é de coração.

    Atenciosamente,

    Givago

  29. Mariana
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Mariana

    É um conto interessante, que parece flertar com Álvares de Azevedo. Está presente a metamorfose é o conto parece começar e terminar, gostei e poderá entrar na lista dos favoritos. A imagem é esquisita. Parabéns e boa sorte no desafio.

  30. cyro eduardo fernandes
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    Bem escrito. A mórbida metamorfose é ousada. O título do conto dá um brilho no enredo. Parabéns e boa sorte.

  31. Martim Butcher
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    Complementando: é uma paixão requentada, ideia que dialoga bem com o fato de amar um cadáver, que é frio.

  32. LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR

    Achei seu microconto interessante. O tema da metamorfose aparece na mudança de atitude do marido depois que a esposa faleceu. Me lembrou a história da Dona Inês de Castro lá de Portugal. A narrativa trata de temas atuais como valorização daquilo que temos apenas quando perdemos.

  33. Martim Butcher
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    É evidentemente alguém que escreve com esmero e imaginação da sutileza. Gosto muito do estilo. “Transbordou em aneurisma”, o desejo de saber se ainda havia “quentura nos lábios”, tudo isso convém à narrativa por economia e associação entre sentimentos. Discordo do Astrongo, acima. Há muitíssimo humor no estilo, um tipo de humor um pouco do Drummond da Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte. Ok, talvez eu esteja forçando a barra. Mas o conto é bem bom. Tenho duas ressalvas, uma maior que a outra. A pequena: por que noite sem estrelas? Para quem vai fazer algo ilícito na calada da noite, é mais necessário que ela seja sem luar, não sem estrelas (embora, é claro, uma noite sem estrelas faça supor que tampouco haja lua, se a causa da ausência são as nuvens). A grande: do ponto de vista psicológico, há uma desproporção entre o sentimento de Litério diante da ausência da esposa e a paixão que dedica à “santa”. Lembremos que, em vida, ele já andava desinteressado. Depois da morte, não era tanto pela mulher que ele sofria, mas pelo tédio, pela solidão. Até aí, a psicologia é consistente. A metamorfose do sentimento é que me parece um salto que requer maior detalhamento. Ele se apaixona. Mas como é que um apaixonamento nasce de um contexto tão aborrecido? Talvez valha a pena qualificar essa paixão de alguma maneira menos absoluta, irônica, incorporando o fato de que ele já não a amava “com quentura” havia muito tempo.

  34. Nilo Paraná
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Nilo Paraná

    Gosto de micro contos que provoca alguma emoção (boa ou ruim, tanto faz), e o seu provoca isso. Tem impacto, é bem escrito. A última frase achei dispensável, conta o que já sabemos. Em microcontos, menos pode ser melhor. Parabéns, gostei muito. Boa sorte no concurso.

  35. Ana Paula Benini
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Ana Paula Benini

    Verídico rs … gostei.

    • Ana Paula Benini
      15 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ana Paula Benini

      aprofundando: Adorei a temática, a mudança do homem depois de perder sua esposa. Muito bem escrito. Parabéns e boa sorte!

  36. Astrongo
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Astrongo

    Gostei da ideia do texto. O amor recuperado somente após a morte da esposa, sendo uma metáfora para o fato de que acabamos só dando valor para algo depois de perdermos. Como é um microconto, acho que se o tom escolhido fosse mais sombrio ou até mesmo voltado para o humor, o texto poderia ser mais impactante. Isso me frustrou como leitor, pois gostei muito da ideia central, mas da forma com que ela foi concluída, isso pq um microconto, pelo menos pra mim, ou engaja por um território completamente inóspito do fantástico, ou nos causa risadas ou angústia e nojo, podendo também ser seco e direto como uma pedra. O que encontrei aqui me pareceu uma maneira de escrever como em um romance, algo maior, que foi picado e deixado aqui. Parabenizo o autor pela ideia.

  37. Wilian Cândido Corrêa
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Wilian Cândido Corrêa

    Esse texto funciona muito bem; a narrativa mistura ironia e intensidade emocional de forma impactante.

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Informação

Publicado às 8 de fevereiro de 2026 por em Microcontos 2026 e marcado .