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As Avós – Doris Lessing – Resenha (Gustavo Araujo)

Alguém aí sabe para que serve a literatura? Por natural uma infinidade de respostas é possível, mas para mim o principal objetivo é nos pôr para pensar, abalar nossos princípios e as certezas que bovinamente mastigamos. É o caso da vencedora do Nobel de Literatura de 2007, Doris Lessing, que em 2003 escreveu a novela “As Avós”. Doris tinha mais de 80 anos quando colocou o ponto final na história de Lil e Roz, duas amigas inseparáveis que por motivos diversos acabam jogando por terra as convenções sociais que nos regem enquanto família e sociedade.

Digo então que é impossível analisar essa novela de pouco mais de 100 páginas sem SPOILERS. Então, se você é daqueles que não gosta de saber os pontos principais do enredo, aquilo que causa desconforto, coceiras cerebrais, engulhos de indignação ou mera boca seca, sugiro que pare por aqui, leia o livrinho e depois retorne para dar sua opinião.

Roz e Lil cresceram juntas e são como unha e carne. Vivem na paradisíaca baía de Baxter, uma comunidade litorânea cercada por rochas, dividindo segredos, amigos e anseios. Vem a vida adulta e ambas se casam com seus respectivos namorados, têm filhos e passam a morar próximas uma da outra. Lil é mãe de Ian; Roz é mãe de Tom. Eventualmente, o marido de Lil falece num acidente de carro; já o marido de Roz acaba se mudando para uma cidade grande e se separa dela. Roz e Lil, assim, tonam-se ainda mais dependentes uma da outra. A vida segue, seus filhos crescem, tornando-se eles próprios amigos para a vida toda, como suas mães.

Até aí, o roteiro não apresenta muitas surpresas, é verdade, seguindo a prosa fácil e fluida da autora. Mas algo acontece no meio desse caminho tranquilo.

Roz inicia um romance com Ian, enquanto Lil faz o mesmo com Tom. Exato. As amigas da vida toda passam se relacionar intimamente com o filho uma da outra, que a essa altura são pouco mais do que adolescentes, algo que, na narração da autora, acontece sem sobressaltos, sem qualquer tipo de arroubo.

Não é exagerado dizer que esse aspecto provocou – assim como provoca até hoje – uma enorme polêmica.

Leitores mais sensíveis, que enxergam nesses relacionamentos cruzados entre mães e filhos algo próximo de incesto ou pedofilia, não escondem o desconforto. Não vou dizer que essas pessoas estão erradas em se sentir assim, quase que ofendidas, pois o enredo permite esse tipo de interpretação. De fato, Roz e Lil são tão próximas que é possível entender a relação entre elas como se irmãs fossem e, nesse sentido, a sedução dos respectivos filhos pode ser interpretada como de uma tia com um sobrinho que mal consegue fazer a barba.

De outro lado, há quem enxergue essa aproximação, que deságua em amor, algo natural e mesmo terno, uma vez que Roz e Lil não têm relação de parentesco e ainda porque não há nada que proíba a relação de mulheres mais velhas com homens mais jovens, mesmo bem mais jovens, mormente se disso resulta carinho, compreensão e cumplicidade.

Como disse, a prosa de Doris Lessing, por simples que é, não parece tomar partido, não defende uma esta ou aquela linha, enfim, não pretende justificar ou apresentar motivos pelos quais as mulheres terminam indo para a cama com o filho uma da outra e assim permanecem durante todo o desenrolar da história, que dura cerca de dez anos.

Na realidade, a autora apresenta os fatos e habilmente deixa para quem lê a missão de interpretar, de acordo com seus próprios códigos de conduta, o que acontece, se é certo, se é aceitável, se é justificável.

De minha parte, acredito que a amizade entre Roz e Lil é tão profunda que elas terminam por utilizar a única saída possível para dar vazão a esse amor que nutrem entre si. Não são lésbicas, definitivamente, não sentem atração física por outras mulheres, nem uma pela outra, mas é evidente a interdependência entre elas. A necessidade de se completarem, de selarem fisicamente essa relação, acaba, dessa forma, transbordando para os meninos, que também se apaixonam por elas, aperfeiçoando o ciclo. O sexo com eles, nesse sentido, acaba servindo como reflexo de algo muito maior, amor talvez, entre quatro pessoas intimamente relacionadas.

Fato é que a vida acaba interferindo e depois de anos Roz e Lil são obrigadas a escolher que rumo tomar, já que seus filhos crescem, tornam-se homens adultos e elas, inevitavelmente, se veem diante da velhice, do fenecimento da beleza e de seus propósitos pessoais. É esse outro momento em que o livro brilha. Também aí Doris Lessing não faz juízo de valor. Mostra o ocaso se projetando sobre as mulheres e as dúvidas que ambas passam a cultivar sobre o egoísmo, sobre o tempo, sobre o amor. É hora de Ian e Tom viverem suas vidas. Que se casem com alguém de suas idades, que tenham filhos…

Em suma, “As Avós” não é uma obra que se lê para simplesmente passar o tempo. Ninguém passa indiferente ou mesmo incólume por ela. De uma maneira ou outra, há muito ali que mexe com o leitor. Repulsa, indignação, até mesmo ojeriza são sentimentos possíveis quando se termina. Mas também há certo deslumbramento, justamente pelo fato de autora (que, recorde-se, escreveu essa história quando tinha mais de oitenta anos de vida) saber como jogar com as convenções, como provocar, como instigar o pensamento sem jamais erguer qualquer bandeira, seja moralista, seja  libertária, conservadora ou liberal. Isso sim é literatura de verdade.

Vale o risco.

7 comentários em “As Avós – Doris Lessing – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Luis Guilherme Banzi Florido
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Luis Guilherme Banzi Florido

    Fala, Gustavao! Excelente resenha! Um livro que eu não tinha intenção de ler, e agora, provavelmente imediatamente após mandar esse comentário, vou direto pro app da Amazon! Hahahaha. Não tenho muito a acrescentar sobre a história ou a obra em si, mas quero dar meu pitaco sobre a questão da função da literatura dizendo que concordo com tudo! Especialmente, concordo que esse tipo de obra cumpre um dos papéis essenciais da literatura e da arte, que é cutucar, incomodar, transgredir. John Dewey disse que, e eu parafraseio, o papel da arte é romper a crosta da normalidade da realidade. Concordo! Um dos papéis da arte, talvez seu principal, é romper a bolha da normalidade em que confortavelmente nos abrigamos e respirar outros ares. Ares que questionam nossas convicções e nos fazem pensar, mesmo que não necessariamente transformem nossa vida de mundo – mas a coloque em perspectiva. Ótima resenha como sempre, meu amigo! Grande abraço!

  2. Kelly Hatanaka
    2 de fevereiro de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Pronto. Mais um livro para minha lista infinita.

    O tema da terceira idade, das relações amorosas numa etapa da vida tão idealizada quanto a infancia, me interessa muito. Até bem pouco tempo, não havia muito tempo de velhice. As pessoas chegavam alquebradas a uma idade nem tão avançada assim, sofriam de dores nas costas e, pouco depois, partiam. Mas as coisas mudaram. Vivemos mais. A terceira idade dura mais tempo, e um tempo de qualidade. O que fazer da vida com este tempo, com esta mistura de inquietações e experiência?

    Ótima resenha que, tal como a obra, instiga sem tomar partido.

    • Gustavo Araujo
      2 de fevereiro de 2026
      Avatar de Gustavo Araujo

      Kelly, em vários momentos a prosa dela me fez lembrar da sua, especialmente pela maneira natural como ela narra os pontos de ruptura que a vida apresenta inesperadamente.

      Na verdade, a autora vai um pouco além da questão das chances que a terceira idade apresenta, abordando, antes, o que se entende por amor, por autoestima, quando se é, digamos, jovem com experiência, trinta, quarenta anos de idade.

      Tenho certeza de que você vai gostar desses dilemas, não só porque são instigantes, mas porque dá para ler numa sentada.

      Valeu pelo comentário.

  3. Priscila Pereira
    31 de janeiro de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, Gustavo! Tudo bem?

    Ótima resenha! Achei muito interessante a ideia do livro, porém não é uma leitura que escolheria para ler, se não fosse obrigada, então provavelmente nunca lerei. Mesmo assim é bem legal ver os pontos de vista de quem faz a resenha, e a sua foi muito boa de ler.

    • Gustavo Araujo
      31 de janeiro de 2026
      Avatar de Gustavo Araujo

      Valeu pelo comentário, Priscila, ainda mais por saber que essa temática não é a que mais te agrada. De todo modo, espero que um dia você possa dar uma chance a Doris, nem que seja para reafirmar as suas convicções.

  4. Pedro Paulo
    29 de janeiro de 2026
    Avatar de Pedro Paulo

    A ênfase que é feita quanta à idade da autora ao tempo em que escreveu a obra ressoa com um aspecto que me também me chamou a atenção. Existem muitos estigmas a cercar a terceira idade, alguns deles atravessando a sexualidade de pesoas idosas, as quais, em teses mais etaristas, não deveriam pensar ou falar sobre sexo, quanto mais fazer. Se a autora teve esses preconceitos bobos a influenciá-la de algma maneira, não sei, mas agrada constatar que, pelo que indica a sua resenha, a narrativa traz suas personagens e seus romances avizinhados com o aspecto mais desejado por qualquer literatura: a naturalidade. Não requer explicar. Julgar? Muito menos. Essas operações ficam pra quem lê. Entretanto, crê-se e se quer bem a essas duas amigas. Então eu não ousaria responder a sua pergunta inicial, mas esse livro, que tragou sim o meu interesse de leitor, deve estar entre as boas práticas dessa arte!

    • Gustavo Araujo
      31 de janeiro de 2026
      Avatar de Gustavo Araujo

      Doris é uma espécie de visionária, Pedro, uma escritora (perdoe o clichê) à frente de seu tempo, alguém da mesma linha de Isabel Allende e outras inconformistas, ainda assim com a capacidade invejável de não parecer panfletária. Vale a pena conhecer mais da obra dela.

E Então? O que achou?

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Publicado às 26 de janeiro de 2026 por em Resenhas e marcado , , .