Alguém aí sabe para que serve a literatura? Por natural uma infinidade de respostas é possível, mas para mim o principal objetivo é nos pôr para pensar, abalar nossos princípios e as certezas que bovinamente mastigamos. É o caso da vencedora do Nobel de Literatura de 2007, Doris Lessing, que em 2003 escreveu a novela “As Avós”. Doris tinha mais de 80 anos quando colocou o ponto final na história de Lil e Roz, duas amigas inseparáveis que por motivos diversos acabam jogando por terra as convenções sociais que nos regem enquanto família e sociedade.
Digo então que é impossível analisar essa novela de pouco mais de 100 páginas sem SPOILERS. Então, se você é daqueles que não gosta de saber os pontos principais do enredo, aquilo que causa desconforto, coceiras cerebrais, engulhos de indignação ou mera boca seca, sugiro que pare por aqui, leia o livrinho e depois retorne para dar sua opinião.
Roz e Lil cresceram juntas e são como unha e carne. Vivem na paradisíaca baía de Baxter, uma comunidade litorânea cercada por rochas, dividindo segredos, amigos e anseios. Vem a vida adulta e ambas se casam com seus respectivos namorados, têm filhos e passam a morar próximas uma da outra. Lil é mãe de Ian; Roz é mãe de Tom. Eventualmente, o marido de Lil falece num acidente de carro; já o marido de Roz acaba se mudando para uma cidade grande e se separa dela. Roz e Lil, assim, tonam-se ainda mais dependentes uma da outra. A vida segue, seus filhos crescem, tornando-se eles próprios amigos para a vida toda, como suas mães.
Até aí, o roteiro não apresenta muitas surpresas, é verdade, seguindo a prosa fácil e fluida da autora. Mas algo acontece no meio desse caminho tranquilo.
Roz inicia um romance com Ian, enquanto Lil faz o mesmo com Tom. Exato. As amigas da vida toda passam se relacionar intimamente com o filho uma da outra, que a essa altura são pouco mais do que adolescentes, algo que, na narração da autora, acontece sem sobressaltos, sem qualquer tipo de arroubo.
Não é exagerado dizer que esse aspecto provocou – assim como provoca até hoje – uma enorme polêmica.
Leitores mais sensíveis, que enxergam nesses relacionamentos cruzados entre mães e filhos algo próximo de incesto ou pedofilia, não escondem o desconforto. Não vou dizer que essas pessoas estão erradas em se sentir assim, quase que ofendidas, pois o enredo permite esse tipo de interpretação. De fato, Roz e Lil são tão próximas que é possível entender a relação entre elas como se irmãs fossem e, nesse sentido, a sedução dos respectivos filhos pode ser interpretada como de uma tia com um sobrinho que mal consegue fazer a barba.
De outro lado, há quem enxergue essa aproximação, que deságua em amor, algo natural e mesmo terno, uma vez que Roz e Lil não têm relação de parentesco e ainda porque não há nada que proíba a relação de mulheres mais velhas com homens mais jovens, mesmo bem mais jovens, mormente se disso resulta carinho, compreensão e cumplicidade.
Como disse, a prosa de Doris Lessing, por simples que é, não parece tomar partido, não defende uma esta ou aquela linha, enfim, não pretende justificar ou apresentar motivos pelos quais as mulheres terminam indo para a cama com o filho uma da outra e assim permanecem durante todo o desenrolar da história, que dura cerca de dez anos.
Na realidade, a autora apresenta os fatos e habilmente deixa para quem lê a missão de interpretar, de acordo com seus próprios códigos de conduta, o que acontece, se é certo, se é aceitável, se é justificável.
De minha parte, acredito que a amizade entre Roz e Lil é tão profunda que elas terminam por utilizar a única saída possível para dar vazão a esse amor que nutrem entre si. Não são lésbicas, definitivamente, não sentem atração física por outras mulheres, nem uma pela outra, mas é evidente a interdependência entre elas. A necessidade de se completarem, de selarem fisicamente essa relação, acaba, dessa forma, transbordando para os meninos, que também se apaixonam por elas, aperfeiçoando o ciclo. O sexo com eles, nesse sentido, acaba servindo como reflexo de algo muito maior, amor talvez, entre quatro pessoas intimamente relacionadas.
Fato é que a vida acaba interferindo e depois de anos Roz e Lil são obrigadas a escolher que rumo tomar, já que seus filhos crescem, tornam-se homens adultos e elas, inevitavelmente, se veem diante da velhice, do fenecimento da beleza e de seus propósitos pessoais. É esse outro momento em que o livro brilha. Também aí Doris Lessing não faz juízo de valor. Mostra o ocaso se projetando sobre as mulheres e as dúvidas que ambas passam a cultivar sobre o egoísmo, sobre o tempo, sobre o amor. É hora de Ian e Tom viverem suas vidas. Que se casem com alguém de suas idades, que tenham filhos…
Em suma, “As Avós” não é uma obra que se lê para simplesmente passar o tempo. Ninguém passa indiferente ou mesmo incólume por ela. De uma maneira ou outra, há muito ali que mexe com o leitor. Repulsa, indignação, até mesmo ojeriza são sentimentos possíveis quando se termina. Mas também há certo deslumbramento, justamente pelo fato de autora (que, recorde-se, escreveu essa história quando tinha mais de oitenta anos de vida) saber como jogar com as convenções, como provocar, como instigar o pensamento sem jamais erguer qualquer bandeira, seja moralista, seja libertária, conservadora ou liberal. Isso sim é literatura de verdade.
Vale o risco.
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