O chuveiro não parava de pingar. Investiguei a torneira e mesmo removendo o seu regulador não fui capaz de identificar como remover a peça interna para reparar a vedação. Foi mais uma ocasião em que me ressenti da minha falta de tino para o que quer que fosse manual. Quando o faz-tudo chegou e estranhou a curiosa peça que se escondia por debaixo da vedação, senti-me um pouco menos ignorante, já que o especialista também não compreendeu de imediato. Mas também não demorou muito. Ao extrair a peça com um alicate, encontrou a borracha de vedação gasta e explicou que era a mesma de qualquer outra torneira, mas com um acabamento que nunca havia visto. Saiu na mesma bicicleta em que havia chegado e retornou com as borrachas novas. Após a substituição da vedação desgasta e reinstalação da torneira — coisa de um minuto — perguntei quanto devia a ele — a forma que encontrava de disfarçar minha preocupação por produto ou serviço cujo preço não conhecia sem me mostrar muito vulnerável. Ele se espantou.
— Por essa besteira? Oxe. Nada!
Hesitei por um instante. Insisti, disse que ele havia gastado o tempo dele não só para ir até ali, mas para partir, voltar e ir de novo, fora a compra das borrachas. Além de nos ter atendido assim que chamado! Ele sequer se virou para mim, respondendo enquanto subia na bicicleta para ir embora.
— Não, rapaz, por coisa simples assim não cobro nada não. Ainda mais pra você que está com filho chegando aí!
E se foi.
Embora eu o tenha recebido na porta, o faz-tudo havia passado por minha esposa, cujos sete meses de gestação se mostravam em sua barriga arredondada. Eu e ele só nos tínhamos visto uma única vez em um serviço anterior dois anos antes, que acabara por ser a simples realocação de uma telha para acabar com a goteira. Naquela vez, trocamos ainda menos palavras do que nesse serviço do chuveiro. Mas essas suas últimas palavras ficaram comigo. Desconcertara-me a resolução com a qual rejeitou não uma, mas duas ofertas de pagamento por ter ido até a nossa casa.
Voltei a lembrar da nobreza desse gesto quando descobri o provérbio africano que diz “ser preciso de uma aldeia inteira para criar uma criança” ou mesmo quando estudava o Estatuto da Criança e do Adolescente e reconheci a abnegação daquele sujeito nos artigos que identificavam as crianças e jovens como prioritários dos cuidados da lei. É dramático, é claro. Não vivo em uma aldeia e sequer sei o nome do faz-tudo ou de onde ele é. Nunca tornei a vê-lo na rua. Mas o que me fez pensar é que, apesar da simplicidade do serviço, ele havia tirado o seu tempo para estar ali e, além, para se mover por alguns quarteirões e retornar, chegando a gastar alguns centavos do próprio bolso para resolver aquele pequeno inconveniente. Sem cobrar, ainda negou o pagamento. Duas vezes. Então, mais recentemente, passado por essa memória novamente, ocorreu-me que talvez o estranho seja que eu estranhe a sua atitude.
Lembrei-me da situação quando passei pelo feed do youtube e vi mais um vídeo propondo debate entre um bilionário e trinta assalariados — uma versão brasileira de uma tendência gringa. Não aguentei ver mais do que cinco minutos de repetições da palavra “mentalidade” e assumo as consequências pelo possível aprendizado perdido com os outros cinquenta e cinco minutos do conteúdo, mas o contato com aquilo me fez lembrar do faz-tudo e sua dispensa de pagamento. Foi natural que eu quisesse pagá-lo. Mas por que eu insisti diante da negativa?
Reconheço em mim a persistência de uma mentalidade transacional. Na grande maioria de minhas relações, reconheço uma dinâmica de trocas explícitas e implícitas. Tenho horror à dívida. Imagino que qualquer credor meu me tem por menos e que eliminarei o atrevimento do despeito por quitar nossos compromissos. Não precisa ser financeiro. Minha paranoia também contabiliza favores e a qualquer gentileza eu respondo que “tô te devendo uma!”. E talvez fale duas vezes se achar que a pessoa não me escutou, pois não quero que fique achando que não reconheci o meu compromisso em retornar aquele apoio. Mas, se me redime, quando faço favores não tenho isso em mente.
Quando sou gentil ou me esforço para além da conveniência para ajudar alguém, o que também não é tão raro, não espero nada em troca e sinto que o ato vale por si só. É quando sei que minha gentileza é genuína. Quando a proposta é uma troca e a iniciativa parte de mim, costumo anunciar o que as partes envolvidas tirarão daquilo, como se o verbal tornasse o acordo mais definitivo e tudo fique às claras: não quero que achem que estou me aproveitando. E, se em contato com uma pessoa beneficiária da minha gentileza, percebo que aguardo algo de volta — pois, confesso, esse pensamento nunca pude eliminar de todo — repreendo-me, tentando me manter fiel à gentileza.
Então por que a surpresa em relação ao descompromisso do faz-tudo? Fico pensando se fosse eu sentado em frente àquele bilionário contando essa história, à guisa de um argumento em defesa da cooperação entre iguais ou algo assim, o que ele diria? Antecipo algo sobre uma “oportunidade de portfólio” ou, mais além, “um visionário de networking”, pois certamente eu o indicaria e chamaria aquele trabalhador novamente quando estivesse em apuros, o que é verdade — tanto que eu o chamaria novamente como, muito certamente, estar em apuros, já que não resolvi algo tão simples como foi o caso do chuveiro.
Mas, quando recobro a situação e a indiferença com a qual tratou a minha persistência saindo com pressa, estou decidido que não é nenhuma grande façanha empreendedora de garantia da clientela. Poderia pensar ainda que o faz-tudo tenha olhado para mim e para minha casa e pensado “tá aí um coitado”, mas só nos olhamos nos cumprimentos e no seu curto caminho para o banheiro não o vi se detendo em nada da casa. Entretanto, ele cumprimentou a mim e à minha esposa grávida de sete meses. Por outro lado, eu também poderia mesmo pagá-lo, ainda que minhas condições financeiras não sejam aquelas em que se possa dispensar a oportunidade de economizar, e ele provavelmente sabia disso.
Por mais que a persistência da minha perspectiva transacional me impeça de ver com clareza, tratou-se até mais do que uma gentileza da parte do faz-tudo. Foi solidariedade. Compaixão. Sem dar muito por isso, viu a simplicidade do que o trouxera até ali e, primeiro, nos viu, uma família a se formar, um casal aguardando o seu primogênito, o pai que não soube trocar a borracha de uma torneira, dois jovens que logo lidariam com toda a maravilha e a reviravolta dos cuidados de um bebezinho. Aquele homem viu aquilo e decidiu ajudar. E, provável, não se lembra disso, agiu com a naturalidade de uma conclusão óbvia. Humanidade.
E então vejo minhas próprias generosidades e quando o cálculo de uma-mão-lava-outra assombra, eu reprimo. Penso naquele encontro fortuito e reflito que a pressão do cotidiano não pode me fazer evitar de ir além do que eu iria se puder amparar alguém. E se preciso alimentar o transacional em mim, penso que talvez esteja devolvendo àquele homem a graça da solidariedade que me demonstrou assim, tão naturalmente.
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