Meu pai não foi embora de casa. Isso foi o que mais custou a entender.
Ele continuava chegando à noite, bebendo um gole do café morno. Continuava ali, ocupando o espaço que sempre foi dele. Mas alguma coisa tinha sido retirada do centro, como se o mundo tivesse desaprendido um eixo.
No começo, ninguém percebeu. Minha mãe dizia que era só cansaço, que o tempo faz isso com os homens. Eu, menino ainda, achava que ele estava aprendendo a desaparecer devagar.
Meu pai passou a dormir com os olhos abertos.
Não no sentido literal, não pense nisso. Dormia olhando. Como se o sono fosse uma outra forma de vigília, como se o corpo estivesse aqui e a atenção em outro ponto que ninguém alcançava. Quando eu chamava, ele demorava um tantinho além do aceitável para responder. Num intervalo que acanhava.
Nossa casa continuou funcionando. A roupa lavada. Almoço servido. E os dias iam se empilhando como sempre foram. Mas meu pai já não atravessava os cômodos. Ele permanecia. Era isso. Permanecia demais.
Quando as perguntas começaram, vieram disfarçadas. Se estava doente. Se queria vender a terra, se mudar dali. Ele respondia com frases curtas, sem erro, sem afeto. Nada que justificasse o desconforto que se instalava.
Foi minha mãe quem entendeu primeiro. Não falou, e às vezes parecia aliviada por não precisar falar. Apenas passou a deixar um prato a mais sobre a mesa, mesmo quando ele não sentava. Um copo com água ao lado da cama, mesmo quando ele não deitava. Era o jeito dela de aceitar sem nomear.
Com o tempo, eu percebi que meu pai tinha escolhido um lugar onde não se pisa. Não era fora e não era dentro. Não era loucura, nem fé. Era um intervalo. Um espaço estreito demais para dois.
Ele não foi embora. E por isso mesmo, não voltou nunca mais.
Os anos fizeram o que sempre fazem. Minha irmã se mudou. Meu irmão desistiu de perguntar. Minha mãe envelheceu com dignidade, que é outra forma de cansaço. E eu fiquei.
Fiquei porque alguém precisava sustentar o que não tinha apoio. Porque alguém precisava olhar para ele sem pedir explicação. Porque alguém precisava herdar o que não se transmite, e eu não tive coragem de largar.
Às vezes, de noite, eu me sentava perto do meu pai e sentia que ele estava quase pronto. Quase pronto para atravessar, cair, cessar. E havia em mim uma urgência terrível, uma vontade de dizer, agora sou eu, pode descansar.
Nunca disse.
No dia em que tentei, a voz não saiu. Se saiu, foi baixo demais. Ele me olhou com um reconhecimento tão exato que me faltou chão. Era como se dissesse, sem nenhuma palavra, que aquele lugar não aceitava substituição.
Meu pai morreu sem morrer. E eu fiquei vivo com um peso que não cabe em corpo algum.
Hoje, sei que há escolhas que não são escolhidas, são um estado necessário. Sem se repetir ou corrigir. Apenas permanecem lá, exigindo testemunha.
Se um dia eu desaparecer sem sair de casa, por favor, não procurem motivo. Talvez eu só tenha aprendido, enfim, onde meu pai esteve o tempo todo.
Olá, Leila!
A ausência presente machuca mais que a ausência não-presente. A pessoa está do seu lado, mas também não está. É como uma disforia da realidade, uma apatia aguda, uma morte sem morte. Seu conto aborda este tema com muita sensibilidade.
Gosto desse tipo de conto porque desperta reflexões. Faz pensar. E isso é bom. Eu tive um pai ausente. Não tenho contato com ele, não mais. E nem desejo estabelecer. Mas me pergunto como seria se tivesse um pai ausente presente. Pensando agora, conheço pessoas que possuem pais assim. Eles estão lá, mas também não estão.
O que faz uma pessoa se dissociar da realidade desta forma? Sumir enquanto ainda existe? Só consigo pensar em infelicidade.
O conto é muito bom.
É isso!
Não sei se é a fase da vida, mas esses textos que lidam com as mudanças sutis e profundas do cotidiano tem me pegado bastante.
Curti o estilo mais poético que faz uso das metáforas mais nas construções singulares do que propriamente no vocabulário. É o estilo poético que mais curto, tem uma pegada de mistura reflexão/emoção.
De vez em quando bate esse sentimento de estar desaparecendo um pouco. O primeiro comentário da mãe já foi uma porrada bem dada na minha cabeça, que o tempo faz isso com os homens, e tive que parar de ler para pensar um pouco sobre isso. E o desdobramento da narrativa só fez crescer o impacto do texto.
Enfim, na minha experiência de leitura, o texto atravessou a qualidade literária e teve algum impacto enquanto ser humano, que, imagino, seja um dos focos de narrativa nesse estilo.
Não tenho certeza se é o primeiro texto seu que li, Leila. Mas agora você está no meu radar =)
Adorei a leitura! Muito interessante! Parabéns!
Creio que a grande qualidade de qualquer obra literária é o uso das entrelinhas. Expor universos, dilemas, anseios e decepções com poucas palavras é algo invejável e é o que vemos neste conto. O pai desligou-se em vida, despediu-se, desenganou-se, desistiu de si mesmo. Doença ou desânimo? Depressão? Resignação com o fim inexorável? Bem, o motivo acaba não importando muito, já que o que fica é uma espécie de angústia misturada com a aceitação de quem testemunha esse apagar das luzes. E que no fim tenta tirar um significado disso, ainda que de modo inseguro e insatisfatório. É um conto real, doído, e por isso fica na memória. Excelente, Leila. Obrigado por compartilhar.
Gostei muito deste conto. Ele conta uma história deixando tanta coisa nas entrelinhas. Mas, ao mesmo tempo, os acontecimentos não estão jogados, não são aleatórios. O conto, de fato, relata algo que parece muito íntimo, muito pessoal.
O conto fala de perda. Não especifica se se trata de uma doença, ou só do tempo que passa mesmo. Tenho experimentado um bocado desse sentimento, de ver alguém se desligando aos poucos e, talvez por isso, o texto me tocou tanto.
Quando o narrador fala que ficou, me pareceu tão intenso, isso. Não pensei em um lugar físico, como ficar em casa, mas sim uma permanência muda, uma não desistência e, ao mesmo tempo, uma aceitação.
Parabéns pelo texto lindíssimo.
Você leu… 🫠.
Fico tão contente que você tenha percebido esse jogo de entrelinhas sem sentir aleatoriedade, porque o texto tenta justamente sustentar um íntimo que não dá para organiza em confissão. A perda ali não é nomeada de propósito, pode ser doença, pode ser o tempo, pode ser só o desgaste de continuar. Pode ser o que o leitor quiser que seja. O “ficar” que você leu como permanência muda e não desistência é um ponto central do conto, e ver isso devolvido por você, com tanta clareza, me alegra. Obrigada por compartilhar sua experiência. É assim que meu conto passa de fato a existir.
Olá, Leila! Tudo bem?
Que conto intrigante!! Parecia que eu estava entendendo sem entender o tempo todo, e no final não sei se entendi ou não, mas sei o que senti. Já cuidei de parentes idosos, alguns com senilidade outros não, e meu pai mesmo morreu cedo demais, na pandemia. Esse desaparecimento de corpo presente é mais difícil de aceitar do que a morte física e seu conto mostra muito nem isso. Gostei bastante! Parabéns pelo conto!
Oi, Priscila
Obrigada pela leitura.
Esse “entender sem entender” que você sentiu é um lugar que me interessa muito, porque algumas experiências não se organizam em explicação, só em sensação, e tem significado diferente para cada um . E o desaparecimento em vida que você menciona é um tipo de luto difícil de sustentar, sem fase, sem marco ou rito. Sinto muito pela perda do seu pai, ainda mais no desespero da pandemia. Saber que o texto chegou a algum lugar na sua vivência me importa. Obrigada por compartilhar isso comigo.
Um conto poderoso sobre a vitória da letargia ou, mais apropriadamente, sobre a solitude inexpugnável. A dificuldade em definir é parte do charme do texto, que não cede ao didatismo de definir o mal de que sofre o pai do narrador, quando poderia ter optado por algo mais concreto, deixa no abstrato. Esse recurso também faz a leitura ser mais familiar, pois comunica com aqueles sentimentos ruins que devemos ter todos e, simples sendo em sentir, difíceis são em definir. É nessa verossimilhança que vejo a potência do conto, aumentada pela narração em primeira pessoa, que traz um sentimento de tragédia pessoal, o relato de um mal que se revela nas sutilezas e afeta mais direta ou indiretamente todos em volta. Obrigado pelo conto, Leila.
Oi Pedro Paulo
Muito brigada pela leitura e pela precisão do seu olhar. Pois é, essa dificuldade de nomear não é um jogo, é uma recusa mesmo, porque às vezes dar um nome organiza demais, explica aquilo que, na experiência, é difuso, lento, infiltrado. Fico contente que você tenha percebido essa opção e que ela tenha ampliado a verossimilhança do relato. A opção da primeira pessoa vem exatamente dessa tragédia íntima, que não se anuncia, só vai se espalhando e puxando a gente para dentro. Obrigada por se deixar no texto e por escrever a partir dele.