EntreContos

Detox Literário.

A herança que sobrou – Conto (Leila Patrícia)

Meu pai não foi embora de casa. Isso foi o que mais custou a entender.

Ele continuava chegando à noite, bebendo um gole do café morno. Continuava ali, ocupando o espaço que sempre foi dele. Mas alguma coisa tinha sido retirada do centro, como se o mundo tivesse desaprendido um eixo.

No começo, ninguém percebeu. Minha mãe dizia que era só cansaço, que o tempo faz isso com os homens. Eu, menino ainda, achava que ele estava aprendendo a desaparecer devagar.
Meu pai passou a dormir com os olhos abertos.

Não no sentido literal, não pense nisso. Dormia olhando. Como se o sono fosse uma outra forma de vigília, como se o corpo estivesse aqui e a atenção em outro ponto que ninguém alcançava. Quando eu chamava, ele demorava um tantinho além do aceitável para responder. Num intervalo que acanhava.

Nossa casa continuou funcionando. A roupa lavada. Almoço servido. E os dias iam se empilhando como sempre foram. Mas meu pai já não atravessava os cômodos. Ele permanecia. Era isso. Permanecia demais.

Quando as perguntas começaram, vieram disfarçadas. Se estava doente. Se queria vender a terra, se mudar dali. Ele respondia com frases curtas, sem erro, sem afeto. Nada que justificasse o desconforto que se instalava.

Foi minha mãe quem entendeu primeiro. Não falou, e às vezes parecia aliviada por não precisar falar. Apenas passou a deixar um prato a mais sobre a mesa, mesmo quando ele não sentava. Um copo com água ao lado da cama, mesmo quando ele não deitava. Era o jeito dela de aceitar sem nomear.
Com o tempo, eu percebi que meu pai tinha escolhido um lugar onde não se pisa. Não era fora e não era dentro. Não era loucura, nem fé. Era um intervalo. Um espaço estreito demais para dois.

Ele não foi embora. E por isso mesmo, não voltou nunca mais.

Os anos fizeram o que sempre fazem. Minha irmã se mudou. Meu irmão desistiu de perguntar. Minha mãe envelheceu com dignidade, que é outra forma de cansaço. E eu fiquei.

Fiquei porque alguém precisava sustentar o que não tinha apoio. Porque alguém precisava olhar para ele sem pedir explicação. Porque alguém precisava herdar o que não se transmite, e eu não tive coragem de largar.

Às vezes, de noite, eu me sentava perto do meu pai e sentia que ele estava quase pronto. Quase pronto para atravessar, cair, cessar. E havia em mim uma urgência terrível, uma vontade de dizer, agora sou eu, pode descansar.

Nunca disse.

No dia em que tentei, a voz não saiu. Se saiu, foi baixo demais. Ele me olhou com um reconhecimento tão exato que me faltou chão. Era como se dissesse, sem nenhuma palavra, que aquele lugar não aceitava substituição.

Meu pai morreu sem morrer. E eu fiquei vivo com um peso que não cabe em corpo algum.
Hoje, sei que há escolhas que não são escolhidas, são um estado necessário. Sem se repetir ou corrigir. Apenas permanecem lá, exigindo testemunha.

Se um dia eu desaparecer sem sair de casa, por favor, não procurem motivo. Talvez eu só tenha aprendido, enfim, onde meu pai esteve o tempo todo.

Um comentário em “A herança que sobrou – Conto (Leila Patrícia)

  1. Pedro Paulo
    10 de janeiro de 2026
    Avatar de Pedro Paulo

    Um conto poderoso sobre a vitória da letargia ou, mais apropriadamente, sobre a solitude inexpugnável. A dificuldade em definir é parte do charme do texto, que não cede ao didatismo de definir o mal de que sofre o pai do narrador, quando poderia ter optado por algo mais concreto, deixa no abstrato. Esse recurso também faz a leitura ser mais familiar, pois comunica com aqueles sentimentos ruins que devemos ter todos e, simples sendo em sentir, difíceis são em definir. É nessa verossimilhança que vejo a potência do conto, aumentada pela narração em primeira pessoa, que traz um sentimento de tragédia pessoal, o relato de um mal que se revela nas sutilezas e afeta mais direta ou indiretamente todos em volta. Obrigado pelo conto, Leila.

Deixar mensagem para Pedro Paulo Cancelar resposta

Informação

Publicado às 10 de janeiro de 2026 por em Contos Off-Desafio e marcado .

Navegação