Metade de fevereiro e é com muito prazer que afirmo que sigo firme na meta pessoal de ler (e resenhar sem spoilers) um livro literário por mês durante o ano de 2025.
O livro deste mês (02/25) foi “A Cabeça do Santo”, romance de estreia de Socorro Acioli.
É um livro curto, com 166 páginas. A história se desenvolve a partir de Samuel, um andarilho que vive de bicos e negociatas, enquanto trilha seu caminho até a decadente cidade de Candeia, no interior do Ceará, a mando de sua recém-falecida mãe. Antes de falecer, ela lhe fez 4 pedidos. Samuel deveria rezar e acender velas para 3 (três) santos: Francisco, Antônio e Padre Cícero. E ir para Candeia conhecer a avó e ver se seu pai está vivo.
Sem local para ficar na cidade, Samuel se refugia dentro da cabeça da estátua de Santo Antônio. Ali dentro, ele recebe o dom de escutar as preces das mulheres.
Há algumas coisas interessantes para se pontuar sobre esse livro. A primeira é o que me fez, enquanto leitor, cativar meu interesse: Gabriel Garcia Marquez. Socorro bebe e se lambuza da fonte do realismo fantástico do autor colombiano. Segundo a própria autora (informação contida na orelha no livro) a ideia surgiu após um curso de escrita criativa de contos com o próprio Gabriel.
Aqui, confesso que até o momento, iniciei 2 obras do autor e ainda não finalizei: Amor nos Tempos do Cólera e 100 anos de Solidão. Então, vou me abster de comentar (e julgar) se Socorro foi feliz em sua missão de seguir as lições do mestre ou se não passa de uma estratégia marqueteira para atrair o público.
O que posso dizer, de uma forma geral, é que a mistura de realismo fantástico com uma roupagem brasileira, em especial, cearense, me agradou bastante. Prato cheio para os regionalistas.
A escrita é simples. Confesso que me frustrou um pouco nessa questão: o estilo de escrita do início do livro, fantástico e lúdico, não se repete no decorrer da história. Pudera, fazer essas construções ao longo do livro exigem muito esforço, esmero e um jogo de palavras. Mas, naquela toada de “a primeira impressão é a que fica”, com certeza eu esperava mais.
Muito se constrói posteriormente a partir de diálogos. Uma tarefa difícil, sem dúvidas, porém bem executada pela autora. Alguns fragmentos do livro parecem mais saídos de uma conversa depois da missa de domingo.
No mais, a escrita consegue estabelecer no imaginário do leitor o universo de Candeia. De alguma forma, imaginamos e construímos a decadente cidadela e os seus personagens. São personagens humanizados. Por exemplo, Samuel não é um golpista, tampouco um beato. É um cara que está ali tentando sobreviver enquanto cumpre promessas em memória de sua mãe.
Por fim, meu último ponto é sobre a história. Se eu pudesse sintetizar num ditado popular “A Cabeça do Santo”, eu escolheria “Deus escreve certo por linhas tortas!”.
Essa obra é, invariavelmente, sobre a fé, essa força estranha e motriz que nos move por essas andanças tortas que chamamos de vida. Força estranha essa cuja referência a autora escancara ao final de seu livro. Aqui, ela pode até extrapolar o sentido da música composta por Caetano Veloso. Ainda bem que o fez assim.
Ao final da leitura, enquanto escrevo essa resenha, me peguei refletindo na abordagem única da autora sobre a fé e suas múltiplas formas de manifestação. Samuel, cético e amargurado como qualquer pessoa que perde a mãe e se vê órfão de um pai vivo-morto, duvida e debocha de Santo Antônio. Acredita fielmente que não há fé dentro dele. Ainda assim, precisa cumprir sua promessa feita para sua mãe; uma promessa de acordo com a fé de Mariazinha. E nesse meio tempo, ele precisa lidar com a fé das mulheres em torno da figura do santo casamenteiro, ávidas por um casamento, com a fé dos homens em relação ao poder, ao dinheiro, à amizade. E sua fé em suas convicções vai se abalando cada página mais.
A forma como Socorro aborda a fé é interessante e com um quê de diferente. Não cai no estilo de “sermão” ou “testemunho”. Tem muita coisa nas entrelinhas do livro. Por vezes é piegas? Sim. Mas não é nada exagerado.
Ah, um aviso digno de nota: é uma leitura que pode ser rápida, mas que não deve ser feita rapidamente. Não se deixe levar pelos diálogos e pelos capítulos curtos.
Conclusão final: um bom livro sobre fé, que apresenta aos leitores brasileiros uma escritora a se observar nos próximos anos.
Nota: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️- – – (7/10)
Próxima leitura: Maus!
Accioli visitou o meu estado no ano passado, falando em uma mesa de literatura num tradicional Festival de Artes daqui. Na ocasião, falou tanto do livro que você resenhou como de “A Palavra que Resta”, de Stenio Gardel, que orientou em seu curso de escritores. São duas obras diferentes, mas li as duas neste ano e gostei mais da obra do discípulo que a da mestra.
Sobre a “Cabeça” também tive a mesma impressão, de que a premissa prometia mais do que entregou. O final, inclusive, achei súbito, com a rede de personagens não se desenvolvendo muito para além do contato com o protagonista. Ainda assim, é uma leitura leve e divertida, com uma abordagem regional vívida. É mais legal ainda ao descobrirmos que se baseia na situação real de uma estátua d’uma cidade cearense.
Achei a mesma coisa.
Resenhas nos servem como laboratórios de nossas impressões. É através delas que podemos digerir o que de fato interessa ou não interessa num livro. Análise no sentido científico da palavra, pontuada, claro, pelo gosto pessoal. Gostei da resenha, Givago, mas não creio que vá ler o livro por causa dela. Talvez o que vc escreveu seja melhor do que a própria obra, embora a trama original me instigue. Ao fim, sugiro a vc ler o conto “O Afogado Mais Bonito do Mundo” aqui no EC, do Gabriel Garcia Marquez. Pode ser uma boa maneira de conhecer o autor e as razões que o tornaram tão admirado.
Boa tarde, Gustavo!
Sobre as obras do Gabo Marquez, eu fiquei na metade das duas; em o Amor nos Tempos do Cólera, eu abandonei porque esqueci o livro na casa dos meus avós. Só recuperei depois de uns meses e não consegui voltar ao livro. O 100 anos de Solidão era o favorito da falecida minha ex, larguei no meio depois do término de dor nos cornos, digo, de cotovelo kkkkk
Mas eu peguei o conto para ler, assim que eu terminar o conto para o desafio eu dedico a devida atenção
Já topei com esse livro algumas vezes. E com mais umas duas ou três resenhas dele. Nunca li o livro e tampouco as resenhas dele que encontrei anteriormente, mas a sua eu li. Me despertou a curiosidade, acho até que tenho ele aqui no Kindle, de alguma vez em que ele ficou de graça, vou conferir, inclusive pra matar a saudade do realismo fantástico do nosso país. Do Gabriel li Cem Anos de Solidão umas três vezes, estranhamente é um dos livros da vida. E li um fininho dele com discursos que ele fez, inclusive de quando ganhou o Nobel de Literatura, foi um bom aprendizado. Obrigada pela resenha.
Olá, Bia! Obrigado pelo comentário. Fico feliz em saber que a resenha despertou sua curiosidade.
Abraços!
O tema é bastante interessante. Não sei se vou ler algum dia, mas vc conseguiu despertar a curiosidade com a resenha. Valeu, Givago.
Obrigado pela leitura, Thiago!
Pronto. Me deixou com vontade de ler. Foi par fila. Este livro já tinha chamado minha atenção, quase comprei algumas vezes. Mas agora, sua resenha me deixou intrigada.
Obrigado, Kelly! Que bom que a resenha contribuiu para colocar o livro de vez na fila!
Junho eu devo comprar outro livro dela, “Oração para Desaparecer”. Devo fazer a resenha, mas talvez eu publique no RDL (só para trazer uma variedade de autores resenhados para o EC).
Oi, Givago!!
Gostei bastante da resenha! Deu pra imaginar bem como é o livro, e deve ser bem interessante mesmo.
Sua forma de escrever sobre o livro foi muito boa e sincera, sem artifícios. Você manda muito bem nisso. 😘
Olá, Priscila! Obrigado pela leitura! Vou tentar manter essa toada de resenhas, ajudam bastante na missão de ler um livro por mês.
Sobre o “A Cabeça do Santo”, recomendo a leitura. Um bom livro de estreia nacional.
Resenhas escritas por leitores e escritores que conhecemos, com quem dividimos os mesmos espaços. Escritas por escritores diletantes e neófitos. Escritas por pessoas que sabemos livres de amarras, vínculos, contratos com editoras e autores ávidos por promoção e por vendas. Resenhas em cuja honestidade, ainda que simplória, podemos confiar. Um privilégio! Obrigado, Givago! Parabéns pelo texto! Vou comprar o livro!
Olá, Anderson! Bom dia! Tudo bem?
Que bom que gostou da resenha! Fico muito contente! Esse livro foi uma boa leitura, muito interessante a forma como a autora abordou a fé. Vale a pena conferir.
Também é um livro muito bonito de se ter na estante.
Att,