EntreContos

Detox Literário.

A guerra oculta (Kelly Hatanaka)

Venho procurando por minha irmã há muito tempo. Procurei em todos os lugares em que ela costumava estar, falei com todos com quem ela costumava conversar, mas ninguém sabe dela. Fiquei inquieta porque alguns sequer se lembravam dela, é como se nunca tivesse existido. É fácil perder a noção do tempo quando se é imortal; ela devia estar desaparecida há mais tempo do que eu pensava. De qualquer maneira, isto não estava certo.

Minha irmã não está mais nos reflexos dos espelhos, nem nas curvas das mulheres, nem nos pensamentos dos amantes. Há muito não se ouve seu riso indecente e não se vê seu véu dourado cobrindo os arredores e espalhando plenitude. Sinto-me culpada, pois eu deveria ter percebido sua ausência, nós deveríamos ter sentido sua ausência. Mas parece que todos, humanos e deuses, acostumaram-se com a falta de beleza.

A primeira a sentir sua ausência, lamento dizer, não fui eu ou um de seus amantes, mas sim uma de suas maiores antagonistas, a esposa de nosso pai. Hera, protetora dos casamentos, sempre se irritou com as artimanhas de minha irmã, com suas travessuras, instigando e acobertando os amantes. Tiveram suas brigas, batalhas territoriais, em que minha irmã invadia os domínios tranquilos de Hera e os enchia de paixão e desatino e em que esta, por sua vez, trazia para si as sacerdotisas de minha irmã, conquistando-as com as benesses de uma vida conjugal. Por fim, habituaram-se a manter uma distância respeitosa uma da outra, o que nos concedia alguma paz de tempos em tempos.

Mas, em nosso último encontro, Hera me abordou, séria como sempre:

— Tem visto aquela sua irmã?

— Ártemis?

— Não se faça de tonta, Atena. Não combina com você.

Eu também gosto de irritar Hera, que sempre se ressentiu dos casos de meu pai e, por consequência, da minha própria existência.

— Não. Nunca fomos muito próximas, você sabe. As Musas devem saber por onde ela anda.

— Não sabem, já perguntei. Estou preocupada.

— Você, Hera, está preocupada com Afrodite? 

— E você, a deusa da estratégia, está surpresa? Não admira que o cristianismo tenha nos suplantado.

— Não nos suplantou! — rio — Continuamos vivos como nunca. Mas, por que se preocupa? Você deveria estar aliviada.

— Ah, Atena. Você tem estado tão ocupada com conhecimentos e estratagemas de poder… aposto que não tem olhado para os lados.

— Hera, direto ao ponto, por favor.

— O que você tem a dizer das pessoas, atualmente? Estão mais sábias? Mais conscientes? Imagino que sim, com tanto conhecimento disponível a todos, o tempo inteiro. Não estão? Pois não me admira.

Eu não havia observado isso. Talvez eu tenha mesmo estado ocupada demais com outras coisas. Hera continuou:

— Em meus domínios também, as coisas não andam bem. As pessoas nunca tiveram tanta liberdade para se relacionar e para se comprometer com quem amam. E nunca estiveram tão solitárias. Parecem ter desaprendido a amar. Os casamentos estão tão esgarçados e tão vazios e enchem as pessoas de medo e de tensão.

— Seus domínios nunca foram fáceis, Hera. Não é por acaso que jamais me casei.

— Não são fáceis, mas são um caminho, e, por vezes, um refúgio, uma semente. Hoje, esvaziaram de poder e de significado porque os humanos estão sós, mesmo quando estão acompanhados. E não são apenas meus domínios. Tem falado com Deméter? Com Perséfone? O mundo está estéril de ideias, todos assombrados pelo medo, esmagados pelo senso comum.  Não há mais criação e até o submundo foi afetado. As Musas estão caladas, não vêm sentido em nada. Só Ares parece estar feliz. E, apesar de ser meu filho, sua felicidade descabida me assombra.

Não consigo disfarçar uma expressão de desagrado com a menção a Ares, meu carniceiro meio-irmão, deus da guerra, que, por sua vez, não aprecia o fato de dividir o título comigo e, muito menos, que eu tenha sempre saído vencedora de nossos embates.

Hera prosseguiu:

— Nunca gostei de Afrodite, ela bagunça meus domínios e me perturba. Mas ela tem sua função. E os casamentos precisam do amor. As artes e a criação precisam da beleza. Até você precisa dela. Como se faz diplomacia sem acolhimento? Ou seus domínios estão funcionando normalmente?

Não estão. A ignorância e a estupidez têm ganhado espaço, apesar de todos os meus esforços. Os humanos perderam totalmente a capacidade de discordar e de debater ideias. Estão se reduzindo a um estado constante de defesa teimosa e imbecil de meia dúzia de argumentos pobres. Mas não quero dar a Hera a satisfação de estar certa e respondo somente o necessário:

— Vou procurar por ela. 

Então, tenho vagado à sua procura. Despachei ajudantes de meu irmão, Hermes para os quatro cantos do mundo à sua procura e, justamente quando a falta de respostas começava a me preocupar, recebo notícias de que a risada de Afrodite foi ouvida em um rincão distante. Adotei minha imagem mortal, despojada de minha querida armadura, de meu escudo e de meu elmo e, vestida de jeans e camiseta, adentro o pequeno estabelecimento na beira de uma estrada em Minas Gerais. Restaurante da Neide.

Fico otimista ao perceber a proximidade de minha irmã, pois, dentro daquele pequeno restaurante muito simples, tudo parecia especialmente bonito. O véu de ouro de Afrodite havia se esparramado sobre aquele ambiente e espalhado um pouco de seus atributos. Havia harmonia entre as louças de jogos diferentes e os copos desiguais. Havia um perfume suave nas toalhas de mesa de chita. Havia uma alegria no ar, as conversas às mesas fluíam com leveza.

— Oi, gata! Seja bem vinda. Sou a Neide. Temos aquelas duas mesinhas perto da janela. Precisa de mais lugares?

Quem fala comigo é uma bonita mulher, de uns cinquenta anos, sorriso generoso, olhos perspicazes e doces e ostentando os sinais de minha irmã em sua pele fresca como a noite e na sua voz musical. É uma de suas sacerdotisas, ou seguidoras.

— Não, sou só eu.

Ela anda a meu lado, movimentos suaves e cadenciados, como se dançasse uma dança secreta, ouvindo uma música silenciosa.  Após me acomodar à mesa, ela lista as opções do dia.

— … E por fim, para sobremesa, temos fruta ou doce. O doce do dia é nossa especialidade: ambrosia. Modéstia à parte, é dos deuses!

— Neste caso, vou querer um desses… irmã.

E então, ouço, após tanto tempo, a risada indecorosa de Afrodite. O riso alto, cristalino e caloroso, que atrai para si todos os olhares, todos os pensamentos, todas as intenções, que balança o equilíbrio monótono das águas e faz o tempo espiralar.

Muitas vezes me irritei com sua risada. Ela trespassa a lógica de meus argumentos, destrói a sequência de eventos que eu havia planejado e é, quase sempre, mais eficiente que toda a minha diplomacia. Eu considero sua risada uma arma secreta desleal, contra a qual eu ainda não desenvolvi um contra-ataque eficiente. Mas, naquele momento, no pequeno restaurante, fiquei aliviada ao ouvi-la e pude quase entender seu efeito sobre os mortais.

— Foi a ambrosia que me denunciou? Dei muita bandeira, não foi? — ela ria enquanto puxava a cadeira e se sentava à minha frente.

— Irmã, por que está se escondendo aqui?

— Eu não sou do tipo que se esconde, maninha. Não conseguiria me esconder, mesmo que quisesse. Sou muito notável, você sabe. Eu vim para cá porque aqui encontrei espaço.

— Ninguém sabia de seu paradeiro.

— E desde quando eu dou satisfações?

— O que você quer dizer com “encontrar espaço”? Você sempre teve seu espaço no Olimpo.

— Sim, mas não é lá que sou lembrada. É aqui, no mundo dos humanos. E este mundo estava fechando as portas para mim.

— Bobagem, você é a deusa do Amor!

— E quão interessadas estão as pessoas no Amor? Ou na beleza? Venha, vou lhe mostrar uma coisa.

Com um gesto, Afrodite nos levou a outro lugar. Um lugar que reconheci imediatamente.

Uma ampla caverna que se abre para um penhasco no mar, clara, com suas paredes de raro mármore branco. As ondas, quebrando-se contra as pedras, elevavam um vapor etéreo e constante de água e sal. No ar, um odor feminino e antigo, de algas, rosas e terra. No centro, uma fogueira ardia eternamente. A caverna de Afrodite, seu lugar sagrado.

Minha irmã costumava passar muito tempo aqui, conversando longamente com suas visitantes sobre amores e sobre aqueles pequenos artifícios femininos que nunca entendi.

— Eu costumava receber muitas visitas, este lugar estava sempre cheio. Depois que as meninas se cansavam de tanto brincar com Ártemis, de tanto perseguir aves e pequenos animais e de correr com os cervos no bosque sagrado da infância, Ártemis as conduzia até mim. E eu lhes falava sobre o amor e elas me olhavam e se reconheciam em mim, no amor, na doçura, na gentileza, no acolhimento. Elas voltavam aqui sempre que o mundo dos homens estivesse árido demais, cinza demais, lógico demais. E dançávamos e ríamos e tudo ficava melhor. Até que, um dia, o chamado de Hera ficasse mais forte e elas me deixavam. E estava tudo certo, era assim que devia ser. De certa forma, eu seguia com elas, jamais as abandonaria. E também, sempre havia novas meninas chegando. Mas, um dia, elas pararam de chegar.

— Por que? Para onde foram?

— Suas perguntas me entristecem, embora não me surpreendam. Ártemis passou a conduzi-las até você, Atena.

— A mim? Mas eu não tenho um espaço sagrado, como o seu. O meu espaço é amplo, infinito e indefinido. Eu nunca soube destas meninas.

— Sim, eu sei.

— Se Ártemis está conduzindo as meninas até lá, elas estão perdidas e sozinhas, num mundo de conhecimento e lógica. 

— Sim.

— E, por que Ártemis está fazendo isso?

— Ela disse que as meninas não queriam a mim, Afrodite, e sim a você, Atena. Foi quando entendi que eu precisava estar presente no mundo dos mortais, nem que fosse num pequeno lugar, ou acabaria por ser esquecida.

— Mas, por que? Não entendo…

— A Deusa da Sabedoria e a Deusa do Amor… estão mais para deusas da ingenuidade.

Era a voz cortante de Hera ecoando pela caverna. Afrodite sorriu, deleitada.

— Ora, se não é a matrona mais amada do Olimpo. Bem vinda, bela Hera. O que a traz aqui, a meu doce recanto?

— A necessidade. Nunca poria meus pés neste antro se não fosse preciso. Minha missão é especialmente dolorosa, pois venho depor contra meu próprio sangue.

— Atena, querida, você poderia dar algumas aulas de lógica e oratória para nossa amada Hera? Apesar de ser imortal, não gostaria de gastar a eternidade ouvindo seu palavreado sem fim.

— Afrodite, paz. Hera, paz. Precisamos nos ouvir. Diga, Hera, o que a traz aqui? — ser deusa da diplomacia tem suas vantagens.

— Foi Ares, meu filho. Ele envenenou as meninas contra Afrodite e as convenceu a escolher Atena.

— Sabia que isso só podia se coisa sua, Hera. — Afrodite estava furiosa.

— Não tenho nenhuma participação nisso. Descobri tudo há pouco, pois estava inquieta com a felicidade de Ares e o observei em segredo.

— O que, exatamente, ele fez? — desconfio do que tenha sido, mas preciso ouvir. Hera não gosta de mim ou de Afrodite, somos faces diferentes do feminino e do poder, mas, neste caso, nosso interesse é comum.

— Ao longo do tempo, enquanto as mulheres lutavam por seu lugar no mundo, ele plantou a ideia de que o feminino é uma fraqueza. E vem reforçando a ideia de um poder feminino, que, embora seja feminino no nome, é masculino na essência e tem feito as mulheres lutarem por este poder mutilado. Elas se armaram, se fecharam, endureceram e tornaram-se belicosas. Homens e mulheres estão em guerra, inclusive entre si e, pior ainda, contra si mesmos.

— Contra si mesmos?

— Sim, pois o feminino existe em todos e, ao desprezar o feminino, estão em guerra contra si. O masculino existe em todos e, ao combater o masculino, também lutam contra si.

— Então, Ares criou esta guerra global e silenciosa simplesmente levando as meninas a rejeitarem Afrodite. Elas ficam vagando sozinhas pelo meu espaço de conhecimento, e a solidão as embrutece e entristece e, assim, mutiladas, elas seguem odiando aos outros e a si mesmas — resumo.

— E seguem todos solitários e infelizes, homens, mulheres, todos.

— Este plano é de Ares, mesmo? Não será de Zeus? – pergunta Afrodite, desconfiada.

— Não. Eu sei que não, — conheço o grande plano de meu pai, nós o desenhamos juntos — o plano de Zeus é o oposto: ter feminino e masculino integrados um ao outro, funcionando juntos, se retroalimentando. Neste momento, a humanidade deveria estar se integrando e não se dividindo mais.

— Vamos ordenar a Ártemis que traga as meninas para Afrodite — disse Hera.

— Explique para ela, Atena.

— Primeiramente, não podemos ordenar nada a Ártemis. Ela é uma deusa, como nós. E depois, ela não pode conduzir os humanos contra a vontade deles. 

— Precisamos seduzi-las, então, e que bom que estamos aqui com a Deusa do Amor e da Sedução. Vamos falar com as meninas ainda nos domínios de Ártemis — Hera estava inconformada.

— Explique esta também, Atena. Estou fatigada e sem paciência.

— Afrodite não pode entrar no bosque sagrado da infância. É interditado a ela.

— Ora, então diga algo você, que é a estrategista!

Confabulamos por muito tempo e, fora o óbvio, conter Ares, não conseguimos pensar em nada que pudéssemos fazer que não ferisse o livre arbítrio dos mortais. O fato é que teríamos que esperar para ver se o mundo perceberia a ausência do feminino, se o buscaria novamente e se seria capaz de encontrá-lo. O mundo terá que curar-se. Temos alguma esperança porque o feminino é tão antigo quanto o mundo e foi atacado tantas vezes, sempre renascendo de alguma forma. E, enquanto discutíamos, Hera e eu, não percebemos que Afrodite havia partido. Mas, desta vez, sei onde ela está. Percorrendo o mundo dos mortais com seu véu, lembrando-os da beleza e do amor, fortalecendo sua presença, fazendo-se presente. É o que ela pode fazer.

41 comentários em “A guerra oculta (Kelly Hatanaka)

  1. opedropaulo
    11 de dezembro de 2021

    Pelo que tenho visto dos meus comentários, estendo-me mais no ponto em que sou crítico, talvez por tentar ser cuidadoso ao apontar detalhadamente o que achei falho, no que nem sempre sou bem-sucedido. Então prefiro adiantar os vários pontos positivos do conto: sua adequação ao tema, assumindo a perspectiva de deuses; a ambientação, que é também dada em seus personagens – a narração, cujo tom é consistente até o fim, é totalmente focada nas personagens; e uma construção textual que é habilidosa em delinear uma mensagem clara e apresentá-la ao leitor sem poluir o texto por torná-lo muito expositivo, isto é, sem perder de vista o tom pessoal que o conto tem ao deixar suas personagens expressarem a mensagem. Agora, é comum que textos tenham suas mensagens e, digo que não é incomum que as autorias se esforcem em passá-las, mas neste conto quero apontar alguns pontos controversos (internamente, quero dizer, pois ainda não me refiro à discussão nos comentários), pois, enquanto no conto convivem elementos divergentes, quando referentes à mensagem principal, a autoria quer tão claramente endossar essa mensagem que acaba a enfraquecendo. Não quero parecer confuso, então adiante eu apontarei o que quero dizer quando falo de “elementos divergentes”, o que considerei ser a autoria “endossar a mensagem” e, porque, isso não a sustenta. Não é uma avaliação puramente técnica e tampouco admito a existência de uma leitura desse modo. Também espero transparecer meus posicionamentos pessoais ao comentar este conto.

    Há mais de um trecho que reflete um conjunto de valores. O mundo é pintado como decadente e há sintomas claros que ficam ilustrados logo na conversa entre Hera e Atena. A falência do casamento, ideias que não são boas e a impossibilidade de debate. Até esse momento, exceto talvez pelo matrimônio, o pessimismo das duas deusas é generalizado e perpassa por várias esferas da vida. É a própria sociabilidade humana que está belicosa e intragável, em pouco reflete o refino de seus deuses. Entretanto, há um elemento específico em que, por através do sumiço de Afrodite, quer se afiançar a doença deste mundo. A falta da beleza e, quando as deusas se encontram, discute-se mais profundamente essa beleza como próxima do feminino. Outros parágrafos podem ser reservados somente a isso. Sei que soo repetitivo. Ao reprisar o que se passa no texto, também sei que não posso fazê-lo fielmente e busco deixar evidentes as marcas da minha leitura.

    O feminino é o que me refiro como “elemento divergente” na história. Veja bem, já expondo também um traço de minha persona, a apropriação de determinado grupo de valores sob “feminino” e “masculino” me entedia. O compromisso de ler o conto com sinceridade e espírito crítico, entretanto, faz que por excelência eu não faça dos meus valores o único prisma para avaliar o texto, mas, ainda assim, não posso renegar um certo incômodo. O que considero que fica claro é que só por ter personagens como Hera e Atena – esta, servindo como bom exemplo, não entende as minúcias do feminino incorporado em Afrodite e, aliás, é referenciada pela própria Hera como complementada pela deusa do Amor – percebe-se que a autoria reconhece a pluralidade que uma mulher, enquanto pessoa (ou, melhor, deusa antropomorfizada), pode ter (o que não significa que os contextos vividos pelas mulheres as viam por um viés igualitário, muito pelo contrário). Nos próprios comentários a autoria explicou entender o múltiplo da mulher e, em seu conto, abordar o aspecto que julga faltante, incorporado em Afrodite. Apesar desse reconhecimento, o sumiço de Afrodite e a centralidade da suposta “falta do feminino” parecem ser a base da decadência do mundo que é discutida por Hera e Atena no início do texto. Fica posicionado como um problema central. Em um mundo onde tudo jaz empobrecido e fora do lugar, é justamente “o masculino” e “o feminino” que mais aparecem deslocados de suas respectivas expressões. Mas o feminino “plural” é também bastante aparente nas deusas que traz para a história… essas deusas, por excelência, são representações de valores e, se trazem componentes distintos, como é que o mundo vai padecer por faltar um deles? A princípio, quando era a “falta de diálogo” (outro ponto um pouco preguiçoso, mas que é impossível de se rejeitar totalmente dado que vivemos em um ambiente polarizado), fazia mais sentido. O desaparecimento de Atena pareceria uma mensagem mais firme, quero dizer. É o que aponto como “divergente”. E por quê argumento tão fortemente pelo feminino – ou sua falta – não segurar essa responsabilidade de afundar o mundo?

    O que é o feminino nesse texto? Bom, esse espectro de gênero, “num plano de Zeus”, é integrado ao masculino na maneira em que separa para si valores bem específicos ligados a, em geral, acolhimento. Há um imaginário bastante contestado a respeito dessa mulher acolhedora, por vezes maternal, por vezes fiadora de um lar, em que o conto argumenta ser apontado pelas críticas como “fraqueza”. Acredito que a crítica mais acurada é como esse viés pinta as mulheres como figuras essencialmente passivas ou, quando muito, com autoridades restringidas em certos espaços (dona do lar, por exemplo). Essa oposição parece sugerida quanto as meninas parecem fugir de um mundo “de conhecimento e lógica” para brincar com Ártemis e serem ensinadas por Afrodite. O mesmo parece reforçado quando navegar pelo mundo de conhecimento é justamente o que embrutece e isola as mulheres. Esse trecho é até um pouco chocante, pois é incoerente. Segue abaixo, recortado sem o que imagino ser algum prejuízo ao seu contexto:

    “Ares criou esta guerra global e silenciosa simplesmente levando as meninas a rejeitarem Afrodite. Elas ficam vagando sozinhas pelo meu espaço de conhecimento, e a solidão as embrutece e entristece e, assim, mutiladas, elas seguem odiando aos outros e a si mesmas”.

    A ideia de que as mulheres, buscando se valorizar, estariam se apropriando de outros valores, como se algumas áreas de atuação e conhecimento fossem restritas ao masculino – daí a tal mutilação – encontra zero apelo em mim. Outro traço pessoal, é claro, apesar de eu ter argumentado por se contrapor dentro do próprio texto, mais acima. Abaixo, quero também me explicar como isso prejudica a história na estrutura dela mesma. Mas antes, queria apontar outro elemento no trecho acima: a guerra global e silenciosa. Alguns termos se popularizaram no vocabulário reacionário: globalismo e guerra cultural. De modo algum esses temas fazem parte do conto, mas sua lógica ressoa em trechos como esse. Enfatizo que não integram o seu texto de forma central porque perguntou nos comentários como teria chegado esse texto a um “progressismo x conservadorismo”. Pois bem, ressonâncias como essas levam o conto além de si mesmo. Mas levar da leitura à reflexão é um ponto positivo.

    Enfim, esse é o seu posicionamento e este é o meu, como vou avaliar o texto? Bem, essa divergência não figura um impasse. Aqui como quero colocar: o conto tem a seguinte premissa, básica em essência: o mundo está doente? Por quê? Falta algo, vamos atrás. Aqui está esse algo. A introdução nos apresenta ao problema e o cerca de um mistério verdadeiramente cativante, em uma escrita competente e rica que delineia seus personagens impecavelmente. Mas, como eu disse, vejo na autoria a intenção de passar uma mensagem e, portanto, esse “fim do mundo” recai sobre o sumiço de Afrodite que, no texto, é trabalhado como um sumiço do amor, escrito de uma maneira que não repercutiu em mim, pelo que expus nos parágrafos acima. A real natureza do problema e sua suposta solução não corresponderam à expectativa. Isso poderia acontecer a qualquer conto.

    Em termos de nota, isso é um 8, dois pontos a menos tirados da narrativa, mais especificamente na resolução da história e no próprio formato em que é colocado o conflito. Além de sobrar pontuação nesse critério da narrativa, soma-se com bom uso da língua portuguesa e abordagem temática. A falta de decimais enrijece os parâmetros.

    Ousando responder a pergunta que deixou para Anderson, eu diria que a distância entre moralismo e leitura edificante é o leitor.

  2. Renato Silva
    11 de dezembro de 2021

    Olá, tudo bem?

    A forma como você usou a mitologia grega, respeitando os arquétipos e personalidade de cada divindade, fazendo um paralelo com o mundo moderno, com diálogos bem construídos, sensacional.

    Fez uma crítica bem pertinente, ao mesmo tempo que nos convidou (principalmente as mulheres) a reflexão sobre o que ser uma “mulher de valor”. Neste ponto, eu concordo bastante. Nunca entendi essa “busca pela valorização” feminina nas obras modernas, onde colocam mulheres suadas, descabeladas, sujas de sangue, matando pessoas e transando com todo mundo. Uma mulher pode se destacar em uma história sendo feminina e utilizando dotes que lhes são próprios. A Luthien, em “O Silmarillion”, por exemplo. Muitos homens (entendam aqui elfos machos) morreram tentando tirar as Silmarills de Morgoth. Beren, um humano, foi sozinho para tal feito, pois era a condição para conseguir casar com a sua amada. Mas Luthien sabia que ele não conseguiria sozinho. Foi usando seus poderes que ela conseguiu auxiliar Beren. Aliás, Luthien fez muito mais do que isso. Uma personagem celebrada até hoje. Não precisou vestir calça comprida, se estapear com “macho escroto”, transar com todo mundo, nem ficou com discursinho sobre “como é duro ser uma elfa imortal, linda e rica”.

    A mitologia tá no conto. Os personagens se diferenciam e se destacam. As analogias foram bem construídas e transmitidas em diálogos acertados. É isso.

    Boa sorte.

  3. Felipe Lomar
    11 de dezembro de 2021

    O texto é bem escrito, bem elaborado, tem uma base sólida e está dentro do tema… Mas não é um conto. Para mim, soa mais como um ensaio filosófico, onde o autor apresenta e discute seu ideário e visões de mundo. A narrativa, por si só, não é o cerne do texto e serve apenas de suporte para o ideário.
    Boa sorte.

  4. Jorge Santos
    10 de dezembro de 2021

    Olá. A guerra oculta fala de feminismo e da perda dos valores tradicionais. As mulheres, em vez de beleza, preferem lutar em pé de igualdade pelo poder, usando a ideia de feminismo como arma de arremesso, em vez de procurarem a paz e harmonia. Foi esta a leitura que fiz, e a julgar pelo número de comentários (que por norma nunca leio antes de eu próprio comentar), não devo ter errado muito. Não me considero machista, mas não me revejo num mundo onde um homem não possa mostrar os seus sentimentos sem ser acusado de assédio – e isto sem passar dos limites impostos pelo senso comum e pelo código penal. É desta luta que o conto fala, usando a mitologia grega como ponto de partida.
    Em termos de linguagem, achei que o excesso de coloquialismo tira qualidade ao conto e que falta alguma fluidez.

  5. opedropaulo
    8 de dezembro de 2021

    Como é comum, estou escrevendo os comentários primeiro no Word para depois trazê-los pra cá.
    Conto bem interessante como outros que li, mas inédito em me instar uma necessidade incontornável de reler antes de firmar um comentário. Rolando um pouco para baixo, não me surpreendi em constatar que é, certamente, o texto mais comentado. Pois tenho que ler esse material também. Como o prazo se aproxima, avançarei sobre os demais antes da releitura e de passar pelos comentários.
    Parabéns e até logo.

    • Nix
      9 de dezembro de 2021

      Meu Deus do céu. Aquele comentário que te enche de medo…
      😬😬😬😬😬😬😬

  6. Luciana Merley
    7 de dezembro de 2021

    Olá, Nix.
    Foram atrás de mim e eu vim pra ver. Não estou participando do desafio e comentarei apenas esse conto, muito brevemente. Fico honrada quando alguém diz “foi vc, né, quem escreveu aquele conto?” (rsrs). Ser lembrada na escrita por algumas características textuais ou por uma visão de mundo é sempre uma honra para mim.
    Sua ideia é muito interessante e corajosa. Não sou uma boa conhecedora dos mitos gregos, mas seu texto me deixou mais interessada. A inter-relação que faz entre a humanidade contemporânea e a marca pessoal das deusas, faz sentido. Só tenho a impressão de que os gregos eram muito mais inteligentes que a nossa era (impressão?), pois criavam mitos para brigar entre si, ao invés de entrarem, eles próprios, numa guerra confusa como a que estamos vivendo. A seguinte sequência é especialmente geradora de tensões, apesar de verdadeira, na minha opinião:

    “enquanto as mulheres lutavam por seu lugar no mundo, ele plantou a ideia de que o feminino é uma fraqueza. E vem reforçando a ideia de um poder feminino, que, embora seja feminino no nome, é masculino na essência e tem feito as mulheres lutarem por este poder mutilado. Elas se armaram, se fecharam, endureceram e tornaram-se belicosas. Homens e mulheres estão em guerra, inclusive entre si e, pior ainda, contra si mesmos.”

    A luta das mulheres é inequívoca. Precisamos lutar todos os dias contra um monte de coisa, mas isso não deveria nos jogar no colo de um movimento ou uma ideologia claramente partidária e absurdamente autoritária como é o movimento feminista. E sim, perdemos a noção do valor do feminino, da grandeza das nossas capacidades e daquilo que nos diferencia e nos torna tão essenciais. O mundo moderno nos jogou na velha luta pelo poder, no campo dos homens e contra eles, pelo domínio da força física (mesmo quando a comparação é impossível, tentam nos convencer de que podemos sim ser excelentes eletricistas que sobem nos postes pelas madrugadas (aff) ). No fundo, quando abrem a boca e escrevem nos paper’s diários “contra o poder do mais forte”, PODER é tudo o que desejam.

    Tenho uma ressalva a seu texto, que sim, é rico em ideias e muito bem escrito gramaticalmente: acho que ficou discursivo demais, explicativo, com enredo ficcional perdendo espaço para o turbilhão de ideias lançadas. Pareceu sim didático, e isso, ao menos para mim, não é muito bom sinal num texto de ficção. Além de ser uma especialidade dos progressistas militantes da escrita que usam a literatura como arma de guerra (kkk) e que, obviamente, não é seu caso.

    Parabéns pela ousadia e pelo texto. Um abraço.

    • Nix
      9 de dezembro de 2021

      Oi Luciana.
      Confesso que fiquei bem feliz quando disseram no grupo que achavam que este conto poderia ser seu. Fiquei com a sensação de estar indo na direção correta.
      Obrigada por sua leitura e pelo seu comentário.

      • Luciana Merley
        11 de dezembro de 2021

        Obrigada a você, querida (o).

  7. Cícero G Lopes
    7 de dezembro de 2021

    Afrodite, Artémis, Hera e Atena são deusas que carregam características bem definidas e estereótipos para o amor e a beleza; para a provedora/caçadora/selvagem; casamento, união e fertilidade e para sabedoria e justiça. A ideia e assunto do conto é a fuga do amor e da beleza, representados por Afrodite, significando a perda de valores básicos e tão primordiais àquilo que nos faz humanos – visão do conto. Mas próximo do fim, Hera vem esclarecer que se trata de um plano de Ares. Não tem muito enredo, são mais discursos, defendendo as ideias do autor. Creio que esse seja o ponto fraco da obra. porque, embora, bem escrita… Não procurei e creio que não iria achar erros gramaticais, a ideia está bem desenvolvida, temos coesão e clareza, mas… de novo, para mim, é pouco profunda e se perde por isso. Boa sorte

    • Nix
      9 de dezembro de 2021

      Obrigada por seu comentario.

  8. Nix
    1 de dezembro de 2021

    Muito interessante como este conto, que escrevi de forma despretenciosa para dar vazão a uma inquietação pessoal, está repercutindo.

    Como foi que chegamos em conservadorismo X progressismo? O conto fala sobre o feminino, um conceito amplo e rico em significados. E, subitamente, a discussão vai ganhando contornos políticos. Sim, sei que política está em tudo, mas não gosto de ser empurrada o tempo todo em direção a uma polarização pobre. Não sou 100% conservadora, nem 100% progressista. Concordo e discordo em partes com os dois, como qualquer pessoa que tenha senso crítico e pensamento próprio.

    O veto aos absorventes no SUS, achei lamentável. Não é uma medida cara e teria um impacto positivo na vida de muita gente. Mas acho que eu não preciso ter crachá de progressista para defender esta causa, ou a liberdade de qualquer pessoa amar quem quiser. Também não acho que o fato de estar cansada do discurso da militância me obrigue a ser conservadora.

    Gosto do que disse o Fabio Oliveira em seu comentário, sobre o amor não ter barreiras e sobre o importante estar mesmo no amigo que lhe quer bem.

    Sei lá o que eu sou, progressista, conservadora, tatu-bola… Provavelmente, tatu-bola. E, com certeza, alguém que não vai ganhar este desafio já que, infelizmente, as pessoas que gostaram deste texto não estão participando, exceto a Kelly (obrigada!),e tenho, pelo menos um zero garantidinho.

    Mas tudo bem, nunca foi sobre vencer e sim sobre se divertir pelo caminho.

    PS: sei que Afrodite tem uma face guerreira, minha gente. Mas, neste conto, eu queria falar exatamente de sua face esquecida, oras bolas!

  9. fabiodoliveirato
    1 de dezembro de 2021

    Poxa, acho que o sistema é mais conservador do que progressista. Ainda mais agora, com leis de auxílio social, como do absorvente pelo SUS para a classe pobre, sendo vetadas. O líder nacional se elegeu por um motivo: a maioria dos votos legais foi dele. E isso é inegável. De certa forma, precisamos aceitar e ter respeito, mesmo não concordando com ele.
    Mas eu acho que o amor ultrapassa essas barreiras, Pri. Está no amigo que é sincero e quer seu bem, independente da posição dele (eu aqui, amigona, haha, um dos motivos de insistir na escrita). Está na família que se ajuda, seja de sangue, seja de circunstâncias (meu irmão de verdade não é do meu sangue, pessoa que valorizo mais que tudo, mesmo com as divergências ordinárias).
    Ainda acho que Afrodite tem inúmeras faces. E o amor e a beleza vai além de uma das suas concepções, como essa apresentada habilmente no conto, que é, certamente, válida e merece reflexão. Amor é gigante. Ainda mais no nosso país, que acolhe muitos povos rejeitados.

  10. Ana Maria Monteiro
    30 de novembro de 2021

    Por tão óbvia, a mensagem torna-se nebulosa, dual. A autora está muito “dentro” da história que contar como narradora externa. Isto leva o leitor (esta leitora) a questionar se não estará ela mesma, a autora, ainda portadora e transmissora desse tipo de pensamento, ainda a sensação de produto e reflexo dum tempo que foi o seu.
    Enfim, interrogações nascidas de uma leitura sem compromisso avaliativo.

  11. Priscila Pereira
    30 de novembro de 2021

    Olá, Nix!

    É uma pena eu não estar participando do desafio (e sem tempo ou paciência pra ler todos) porque eu queria muito te dar nota máxima! Amei seu conto! Simplesmente perfeito! Continuemos na luta na contramão do sistema! Um beijo ❤️

    • Nix
      30 de novembro de 2021

      Ah, Priscila! Pena mesmo! Uma forcinha cairia bem! kkkkkk
      Mas eu já estou felicíssima com seu comentário e com a constatação de que não estou sozinha. E bora, que pensar de forma livre e independente dá muito trabalho, mas vale a pena!
      Beijos!

    • fabiodoliveirato
      1 de dezembro de 2021

      Poxa, acho que o sistema é mais conservador do que progressista. Ainda mais agora, com leis de auxílio social, como do absorvente pelo SUS para a classe pobre, sendo vetadas. O líder nacional se elegeu por um motivo: a maioria dos votos legais foi dele. E isso é inegável. De certa forma, precisamos aceitar e ter respeito, mesmo não concordando com ele.
      Mas eu acho que o amor ultrapassa essas barreiras, Pri. Está no amigo que é sincero e quer seu bem, independente da posição dele (eu aqui, amigona, haha, um dos motivos de insistir na escrita). Está na família que se ajuda, seja de sangue, seja de circunstâncias (meu irmão de verdade não é do meu sangue, pessoa que valorizo mais que tudo, mesmo com as divergências ordinárias).
      Ainda acho que Afrodite tem inúmeras faces. E o amor e a beleza vai além de uma das suas concepções, como essa apresentada habilmente no conto, que é, certamente, válida e merece reflexão. Amor é gigante. Ainda mais no nosso país.

      • Priscila Pereira
        1 de dezembro de 2021

        Tô confusa aqui… O que eu falei sobre ir na contramão do sistema, não é o sistema político, nem o humano, mas sim um sistema espiritual, e não espero que todos entendam ou concordem. De qualquer forma, concordo com tudo o que você falou e não vejo onde, no meu comentário, eu afirmei o contrário 🤷🏻‍♀️😁😘

  12. Sidney Muniz
    29 de novembro de 2021

    Notas:

    Título –> 5
    Enredo –> 3,5
    Personagens –>2,5
    Originalidade –> 5
    Gramática –> 4
    Impacto –> 1
    Ambientação –> 3
    Narrativa –> 4
    Extra –> 0
    Dentro do tema? –> 5
    Total: –> 33,0

  13. Anderson Prado
    28 de novembro de 2021

    1. o tema do desafio está presente: figuras da mitologia não só aparecem como suas características são criativamente exploradas para propor a discussão de uma questão contemporânea relevante: a mudança no conceito de feminilidade;
    2. o domínio gramatical, mesmo não sendo perfeito, está acima da média; deparei-me com um outro deslize, mas, infelizmente, não tomei nota – a leitura no Kindle (que permite destaques) não deu certo, então tive de ler em .html mesmo;
    3. o domínio das técnicas de narração, embora também possa ser considerado acima da média, deixou um pouco mais a desejar do que o domínio gramatical; exemplifico:
    a. uso abusivo de “aquele” e suas variantes (“daquele”, “aquele”, “naquele”, “aqueles”): isso constitui um lugar comum literário, ou seja, “frase, imagem, construção ou combinação de palavras que se torna desgastada pela repetição excessiva e perde a força original” (Manual de Redação do Estadão), mas, para não dizerem que o Estadão é minha única cartilha, tem também Marcelino Freire, que anda por aí a procurar:
    “Onde fica ‘naquela noite’, que todo mundo usa e onde tudo acontece?”
    b. uso abusivo de pronomes de primeira pessoa: é um texto narcísico; há uma verdadeira enxurrada de eu’s, meu’s, minha’s; autor, revise seu texto procurando eliminar o maior número possível desses pronomes, pois boa parte deles estão implícitos no contexto, sobretudo quando o verbo está justamente conjugado na primeira pessoa, situação na qual se presume o pronome “eu”, que não precisa ser explicitado; mas atenção!, não são apenas os pronomes de primeira pessoa que abundam!, revise todos eles;
    c. moralismo: apesar de eu ter considerado meritosa a proposição de uma discussão relevante, não posso deixar de ressaltar, ao mesmo tempo, que o texto como um todo tem um forte viés moralizante, talvez propondo ao leitor e à sociedade uma revisão e correção de rumos;
    d. didatismo: o texto possui um forte tom didático, explicativo, o que acaba por ser reforçado por certas escolhas comuns em textos escolares: “por consequência”, “por sua vez”, “por fim”, “por vezes”;
    e. pedantismo/eruditismo: mitologia, por um equívoco bastante comum e, por isso, aceitável, acaba remetendo ao grego e ao Clássico; com isso, é de se esperar um vocabulário mais solene; neste conto, o moralismo e o didatismo fazem par com um vocabulário um tanto erudito, muito em função da tentativa de representação de uma linguagem que pudesse mais naturalmente ser atribuída aos deuses: “plenitude”, “desatino “, “espiralar”, “trespassa” etc.
    f. artificialismo: o conjunto do texto (moralismo, didatismo, pedantismo/eruditismo) somado aos diálogos dá um ambiente bastante artificial à obra; os diálogos não fluem naturais, ao contrário, soam teatrais, um verdadeiro clima de jogada ensaiada de time de futebol muito bem treinado mas sem a malemolência e a ginga necessária para um bom drible;
    g. notei certa repetição tanto de palavras quanto de ideias; destaco uma: “como se DANÇASSE uma DANÇA secreta, ouvindo uma MÚSICA silenciosa”.
    4. no geral, e feitas as devidas e eventualmente instrutivas ressalvas, gostei do texto, que possui algumas passagens verdadeiramente inspiradas, poéticas, e que, ao propor uma discussão relevante e contemporânea, conseguiu a proeza de dar um ar moderno e local ao tema.

    • Nix
      29 de novembro de 2021

      Ah, estou feliz por ter pagado a taxa de treta (sim, também vejo as mensagens no facebook).

      Não vou agradecer por seu comentário porque paguei por ele com treta (mas, obrigada!). Aliás, como você havia dito que não ia comentar nada e tals, eu estava preocupada em como conseguir uma boa treta. Mas deu tudo certo.

      Sabe, esse negócio do moralismo, eu lembrei de você enquanto escrevia este conto. Não é a primeira vez que você crtica isso em um de meus textos. E sei que, com esta observação, não estou entregando a autoria, porque esta é uma crítica recorrente sua. Já vi você dizendo isso para muitos outros autores. Então, posso ser qualquer um.

      Consegui me livrar ou reduzir algumas “falhas” que você havia apontado em outros textos,. Mas o moralismo, não consegui. O que me aborrece, porque não me considero uma pessoa moralista, oras! Mas preciso reconhecer que há, sim, um tom moralista, que não consegui remover.

      Dicas?

      Ah, e qual a distância entre o moralismo e a temática edificante?

  14. antoniosbatista
    28 de novembro de 2021

    Não vou falar em detalhes do que interpretei do texto, das mensagens que ele passa, não vi erro nenhum. Apenas dizer que achei uma boa história baseada nos deuses e deusas do Olimpo. Alguns deles tomavam a forma de humanos para descer à Terra e participar da História dos Homens. A leitura é fluida, a escrita com excelentes frases, indo direto ao ponto sem se deter em divagações inúteis. Gostei do enredo. As referências foram muito bem-feitas.

    • Nix
      28 de novembro de 2021

      Muito obrigada!!!

  15. Nix
    28 de novembro de 2021

    Lucas,
    “Enquanto elas “lutavam por seu lugar no mundo”, surge a ideia de que “o feminino é fraco”. Foi isso que você disse, e é isso que eu estou criticando.”

    No texto, a ideia de feminino fraco, é falsa e foi plantada por Ares, para criar conflito e é justamente o âmago do problema. Não é algo que estou elogiando.

    “Você diz “Pois hoje, é fraqueza ser gentil e acolhedor”. Duas coisas. Primeiro, não se separa sujeito de predicado por vírgulas.”

    Nossa! “Hoje” não é o sujeito da frase, Lucas, pelamordejesuiscristinho kkkkkk .

    Depois dessa, não vejo razão em continuar lendo seu comentário, até mesmo porque ele é uma questão de opinião, à qual, tanto eu quanto você temos direito.

    Fique com a sua que eu fico com a minha. E boa tarde.

    • Nix
      28 de novembro de 2021

      Agora, quando digo “No texto, a ideia de feminino fraco, é falsa” aí sim, cometi um erro, pois “a ideia do feminino…” sim, é sujeito da frase, só pra ficar claro. Erro de digitação…

    • Lucas Suzigan Nachtigall
      28 de novembro de 2021

      “Depois dessa, não vejo razão em continuar lendo seu comentário, até mesmo porque ele é uma questão de opinião, à qual, tanto eu quanto você temos direito.”
      Continuar o que? Você não respondeu nada. Pega UM ponto de um comentário e fica só nele, ao invés de responder os pontos que são importantes.
      Eu tô te perguntando: “De onde você tirou isso que gentileza é fraqueza hoje em dia?” Eu quero saber. Estou perguntando, e você, ao invés de responder, fica se esquivando, seja respondendo uma miudeza, seja deformando meu argumento para ficar mais fácil de elaborar a resposta, a invés de tratar de fato o cerne do argumento.

      • Nix
        29 de novembro de 2021

        Peguei uma “miudeza” como você diz porque você foi agressivo e tentou esfregar na minha cara um erro inexistente. Aí, não deu pra resistir.
        Quanto à sua pergunta, de onde tirei que gentileza é fraqueza hoje em dia, vejamos… este é um conto, é ficção, não documentário ou peça jornalística. De onde podemos concluir que tirei de minha visão de mundo.
        Eu acho que não tenho obrigação nenhuma de justificar minha visão de mundo a ninguém. Mas já que isso é importante para você, eu venho observando que este mundo anda árido demais. As pessoas estão dentro de suas bolhas e atacam todas as coisas com que elas discordam. Se gentileza fosse algo que as pessoas se preocupam em cultivar, elas não fariam isso. De onde deduzi, que a gentileza não anda sendo valorizada. Ando observando, também, que pessoas gentis são, geralmente, tachadas de “trouxas”, “ingênuas”. De onde deduzi que a gentileza tem sido interpretada como fraqueza. Minha visão, minha opinião, nada mais do que isso. Não tenho como mostrar as fontes bibliográficas, nem fotos, nem vídeos, nada. Fonte: observação dos fatos e vozes da minha cabeça. Simples assim. Como já disse antes, opinião.
        Agora, se você enxerga as coisas de forma diferente, ok. Eu não estou tentando convencer você de que o mundo é assim, de que a minha visão de mundo é a certa e a sua é a errada, mesmo porque seria falta de gentileza e isso seria irônico demais pro meu gosto. Se você acha que a gentileza está em sua melhor forma e que o mundo ama e valoriza a gentileza, ótimo, me dê então zero por um conto que você odiou e sigamos em frente, e eu, de minha parte, estarei torcendo para que você esteja certo, porque certamente, gosto mais da sua visão de mundo do que da minha.

  16. Kelly Hatanaka
    28 de novembro de 2021

    Oi Nix.
    Minha avaliação será feita com quatro critérios: tema (2 pontos), correção/escrita (2 pontos), criatividade (3 pontos), personagens (3 pontos).
    Tema (2): Totalmente dentro do tema. O autor utiliza-se livremente de elementos e atributos do mito de Afrodite, Atena, Hera, Ares e outros para desenvolver um conto sobre o feminino.
    Correção/escrita(2): Escrita correta e fluida. Alguns diálogos meio explicativos demais, mas nada que incomode. É muito agradável de ler.
    Criatividade(3): uma história criativa, parte de uma premissa não usual, o desaparecimento de uma deusa. Personagens mitológicos são utilizados de forma livre, muito mais dedicados à história e à narrativa do que à correção acadêmica.
    Personagens(3): Apesar do pouco apego à correção formal aos mitos, os personagens são bem desenhados e definidos. Gosto de mitologia grega e Hera, especialmente, foi muito crível, idem a andrógina Atena. Gostei também da menção ao véu dourado de Afrodite, que remete ao seu epíteto “a dourada”, como aquela que embeleza e dignifica tudo o que toca.
    Geral: E assim, saiu meu primeiro dez. Gostei muito do seu conto, me identifiquei fortemente com o tema. Eu também ando sentindo falta de Afrodite neste mundo e acho muito triste que atributos femininos estejam sendo constantemente interpretados como submissão ou fraqueza. Como se só atributos masculinos fossem fortes e válidos e não houvesse força e valor na gentileza e na escuta.
    Parabéns e boa sorte!

    • Nix
      28 de novembro de 2021

      Obrigada pelo seu comentário!
      Que bom que gostou!

    • Emanuel Maurin
      28 de novembro de 2021

      Vc de 10, legal. Então eu gostaria que vc me mostrasse onde tem movimentação dos personagens nos diálogos e onde tem cenário, eu não vi uma simples cadeira nas conversas e nem um piscar de olhos dos personagens. O que acha de diálogos grandes sem verossimilhança com a realidade da fala?

      • Kelly Hatanaka
        28 de novembro de 2021

        Ué. Não posso gostar? Justifiquei o que acho importante no meu comentário. Não faço questão de descrição de cadeiras ou de movimentação.

      • Emanuel Maurin
        28 de novembro de 2021

        Kelly, entendi, vc não faz questão de descrição de cena e nem movimentação de personagens, se pra vc esse tipo de diálogos são bons e merece 10 tudo bem, mas que parecem estatuas apenas mexendo a boca parecem. E vc senhor Andersom, para de atiçar discussão, porque a Kelly é 10.

      • Kelly Hatanaka
        30 de novembro de 2021

        Rá, Emanuel! Ó aqui a cadeira:
        “— Foi a ambrosia que me denunciou? Dei muita bandeira, não foi? — ela ria enquanto puxava a cadeira e se sentava à minha frente.”

        E cenários:
        “(…)pois, dentro daquele pequeno restaurante muito simples, tudo parecia especialmente bonito. O véu de ouro de Afrodite havia se esparramado sobre aquele ambiente e espalhado um pouco de seus atributos. Havia harmonia entre as louças de jogos diferentes e os copos desiguais. Havia um perfume suave nas toalhas de mesa de chita. Havia uma alegria no ar, as conversas às mesas fluíam com leveza.(…)”

        “(…)Uma ampla caverna que se abre para um penhasco no mar, clara, com suas paredes de raro mármore branco. As ondas, quebrando-se contra as pedras, elevavam um vapor etéreo e constante de água e sal. No ar, um odor feminino e antigo, de algas, rosas e terra. No centro, uma fogueira ardia eternamente. A caverna de Afrodite, seu lugar sagrado.(…)”

        😂😂😂😂😂😂

  17. Lucas Suzigan Nachtigall
    28 de novembro de 2021

    Bem escrito. Realmente coerente com o tema. Mas eu não consigo considerar uma boa história.
    Quando você vê o avanço da narrativa, a busca de Atena por Afrodite, foi bem delineada. Me lembrou de American Gods, especialmente a série, em alguns episódios específicos. A construção da narrativa, apesar de diálogos meio fracos, vai caminhando bem. Você pensa que ela vai falar da falta do amor no mundo, do crescimento do ódio. Quando, de repente, vira um “o feminismo surgiu e o mundo ficou uma bosta”.
    Sério? É isso?
    Se for, foi um desperdício de conto.
    Usar o nome de Afrodite, a deusa que, em Esparta, ensinava as mulheres a lutar e defender a sua cidade, a procurar seu lugar no mundo, pra falar “o problema foi quando as mulheres começaram a procurar o seu lugar no mundo”.
    Desperdício.
    Afrodite não é uma deusa de paz. Entre seus epítetos está o de Afrodite Areia, a Afrodite Belicosa, Afrodite Encheios, a Afrodite Lanceira, Afrodite Sumáquia, a Afrodite Aliada na Guerra, e Afrodite Enoplios, a Afrodite das Armas. É também uma deusa guerreira. De ir pra luta pelos seus ideais. Mas não é só isso. É também Afrodite Androphonos, a Afrodite Matadora de Homens. Isso são epítetos gregos dela, usados por eles na veneração à deusa. Ela não era só uma deusa de conformidade. Aliás, nem isso. Também era Afrodite Kalipugos (dos belos traseiros), Afrodite Pandemos (de todas as pessoas), Afrodite Porne (prostituta). Sempre foi uma deusa popular entre os gregos.
    Reduzi-la a um “enfrente o feminismo, Afrodite, e traga o amor de volta aos homens”, insinuando que que quando as mulheres deixaram a posição de subserviência e de cuidadoras, elas deixaram o feminino de lado, é um desperdício para o conto.

    • Nix
      28 de novembro de 2021

      Interessante. Se um conto não reflete sua visão de mundo, ele é ruim. Ok. Ares tem mesmo feito um excelente trabalho.
      Quanto à sua conclusão de que meu conto de alguma forma prega a subserviência feminina, ele é um sinal claro de que o feminino se perdeu e a única forma em que ele é aceitável é travestido de masculino.
      Lamento, mas fico feliz que eu ainda seja livre para fazer contos que sejam um desperdicio.

    • Nix
      28 de novembro de 2021

      E, só complementado, porque realmente, seu comentário é muito interessante.
      Em nenhum momento do texto se diz que a subserviência é bacaninha, ou desejável. Em nenhum momento se prega ou elogia a submissão.
      Mas o texto fala em gentileza, doçura e acolhimento. E você leu “gentileza, doçura e acolhimento” e traduziu em “subserviência.
      Agradeço, pois você provou meu ponto: o feminino está sendo atacado sempre que seus atributos são considerados fraqueza, defeito. Pois hoje, é fraqueza ser gentil e acolhedor. As pessoas tendem a ler isso como subserviência, o que diz muito sobre nós.

      • Lucas Suzigan Nachtigall
        28 de novembro de 2021

        Eu não fiz menção alguma à doçura e gentileza. Eu fiz menção a “Ao longo do tempo, enquanto as mulheres lutavam por seu lugar no mundo”
        Enquanto elas “lutavam por seu lugar no mundo”, surge a ideia de que “o feminino é fraco”. Foi isso que você disse, e é isso que eu estou criticando.
        Você diz “Pois hoje, é fraqueza ser gentil e acolhedor”. Duas coisas. Primeiro, não se separa sujeito de predicado por vírgulas. Segundo, de onde você tirou isso?
        E de onde você tirou que as mulheres, especialmente as feministas, não são acolhedoras? Pois são! E muito! Redes de acolhimento, em especial à vítimas de violência (doméstica, sexual e afins…) existem em muitos lugares, formado por mulheres e para mulheres.
        Nunca foi fraqueza ser gentil, mas também ninguém é obrigado a ser com gente que não mereça a gentileza ou o acolhimento. Ninguém é.
        Você diz, no conto: “— Então, Ares criou esta guerra global e silenciosa simplesmente levando as meninas a rejeitarem Afrodite. Elas ficam vagando sozinhas pelo meu espaço de conhecimento, e a solidão as embrutece e entristece e, assim, mutiladas, elas seguem odiando aos outros e a si mesmas — resumo.”. Mas não, elas não estão sozinhas. Nunca estiveram. Aliás, só começaram a luta pois estavam juntas. Elas entenderam que são mais fortes juntas, e aí está o feminino. Unidas. Braço a braço. O lema de 2018 foi “Ninguém solta a mão de ninguém”. Isso não é negação de gentileza ou de acolhimento, apesar da sua visão, por algum motivo, dizer que sim.
        O que acontece é o seguinte: você elencou uma série de valores que VOCÊ considera que são ontologicamente femininos (doçura, gentileza, acolhimento), e está tratando Afrodite como se fosse Nossa Senhora, Maria mãe de Jesus, como se em algum momento a deusa que começou a Guerra de Tróia tivesse algum interesse em sair inspirando doçura nas mulheres. O feminino é muito mais do que essa ideia de achar que mulheres devem ser “doces e gentis” como se isso fosse o elemento definidor de suas existências, e como se fugir disso fosse um sacrilégio.

  18. Emanuel Maurin
    28 de novembro de 2021

    Nix, olá. Tudo de bom para você.
    Afrodite desaparece e Atena sai a sua procura. Então Atena tira suas vestes de divindade e usa uma roupa básica para se disfarçar entre os humanos. Encontra Afrodite num restaurante em Migas Gerais e tenta convencer a irmã a voltar, mas Afrodite está desanimada com a forma que os humanos pensam sobre o amor. Depois do debate de ideias, Afrodite desapareceu novamente para lembrar os mortais da beleza e do amor.
    O conto tem um começo elegante e fluido, mas se perde nos diálogos grandes, sem cenários, monótonos e sem movimentação. A história agrada, está dentro do tema e tem uma pegada filosófica bacana de ler. Boa sorte no desafio.

    • Nix
      28 de novembro de 2021

      Oi Emanuel.
      Obrigada pela leitura e por seu comentário!
      Nix

  19. Rodrigo
    27 de novembro de 2021

    Brilhante. Muito bem escrito e coerente com o tema. Voto nesse. Adorei a frase: É fácil perder a noção de tempo quando se é imortal. Agora vou lembrar para sempre.
    Esse é um autor de verdade. Sabe fazer uma coisa bonita e dentro do tema.

    • Nix
      28 de novembro de 2021

      Muito obrigada, Rodrigo!
      Fico feliz que tenha gostado!🤍
      Obrigada pela leitura!

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Publicado às 27 de novembro de 2021 por em Mitologias e marcado .
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