EntreContos

Detox Literário.

Seus olhos ainda não sabem ver (Diretora de Tudo)

O dia em que conheceu Arthur Bispo do Rosário ficaria para sempre marcado na memória de Rosana. Como ele, ela havia resistido quando a imobilizaram com a camisa de força e cortaram os seus cabelos. Muito diferente de Bispo, entretanto, não houve nada de sacro em seu discurso, apenas infâmias dirigidas a todos os seus algozes, do Diretor aos guardas. Era o seu primeiro dia e não conhecia nada da termologia da Colônia Juliano Moreira, então não tinha ideia de para onde ia quando a transferiram para o Ulisses Viana. Também foi pega desprevenida quando sugeriram os miudinhos para acalmá-la e deram nela os primeiros eletrochoques. Esmurrou o primeiro dos enfermeiros, depois o segundo e depois o terceiro. Então chamaram o xerife.

Tinham conseguido levá-la para dentro do pavilhão e alguns dos internos assistiam à algazarra esboçando diferentes reações. Uns se esgueiravam de seus beliches, outros se desesperavam em um coro de gritos e lamentos de genuíno terror enquanto somente um deles ensaiava um digníssimo discurso preparativo para uma longa batalha. Mais tarde o conheceria por Duque de Caxias, como o próprio muito elegantemente se apresentaria. Rosana soube que o xerife chegava porque um dos encarcerados começara a batucar e cantar um sambinha para anunciá-lo.

Bispo não se vestia com o uniforme azulado dos demais. Um fardão preto cobria o seu torso, uma onda de palavras bordadas em fios brancos subindo e descendo pela extensão escura do seu traje. Vinha caminhando duro, com uma irritação desinteressada em seu rosto austero, os cabelos crespos coroando a cabeçorra, uma barbicha desgovernada em seu queixo pronunciado. Além do sambista, um dos guardas o acolheu com entusiasmo.

─ Chegou o boxeador!

Rosana não teve tempo de registrar a palavra, pois Bispo partiu para cima dela e os dois se engalfinharam, rolando pelas paredes enquanto no fundo soava uma estranha sinfonia entre a lamúria dos insanos, um samba e o discurso de general do Duque de Caxias. Trocaram murros e pontapés, mas em pouco tempo Rosana percebeu ao que o guarda se referia quando anunciou a chegada do seu oponente. O homem mancava, mas era mais ágil e preciso. Não durou muito, ele encaixou um gancho em seu maxilar que a fez girar em torno de si mesma. Antes de desmaiar ele estava sobre ela.

Acordou em uma das enfermarias, sentindo o rosto inchado e dolorido. Um dos diretores foi trazido assim que informado que ela despertara. Não era o mesmo de antes, Rosana achava que o seu baixo calão realmente impressionara o outro. Esse recém-chegado não começou melhor do que o anterior.

─ Rogério…

─ O meu nome não é esse.

O homenzinho por detrás dos óculos redondos hesitou da mesma forma como se fosse cometer perjúrio ou prescrever uma lobotomia. Mas, a contragosto, falou.

─ Rosana.

Ela se mostrou muito mais simpática diante da correção.

─ Oi, meu querido. Pois me fale, quer explicar por que além de careca estou também toda surrada? O tratamento de vocês é pra me deixar mais feia?

Ele ao menos sorriu. Depois explicou que o xerife era um interno a quem, embora evitassem, recorriam para ajudar com outros pacientes agitados e que o Bispo acabara se excedendo com ela, o que já havia sido compensado, pois o meteram numa das celas do bolo, espaço reservado especialmente aos internos fora de controle. Rosana sabia que, se não a haviam escutado quanto a não ser louca até aquele momento, tampouco seria diferente agora. Mas havia outras conquistas a perseguir.

─ Serei transferida para um dos pavilhões femininos?

A mesmíssima hesitação transpareceu no rosto ruborizado do diretor. Foram meses até que Rosana fosse transferida para o alojamento de mulheres. Foi aos poucos, custando mais ou menos, que conquistou esse reconhecimento. Primeiro deixaram que estivesse sempre barbeada, depois desistiram de implicar com os recortes que fazia de suas fardas e também com a touquinha que improvisara para cobrir a cabeça enquanto seus cabelos não cresciam. É claro que não deixara de bater e apanhar. Negara-se aos remédios até que abandonaram as tentativas. Perceberam que nem os choques a convenciam e, para sua sorte, lobotomia saíra da moda, embora os pacientes desse método ainda vagassem pela Colônia feito sonâmbulos.

Foi apenas na ocasião em que dois internos do pavilhão a atacaram que conseguiu promover sua mudança para o núcleo feminino.

─ Como é que é a história que não passo no crivo pra ser mulher, mas passo pra ser estuprada? Alguém me explica?

Naquela noite, foi movida para um dos pavilhões do Teixeira Brandão. Não havia lugar onde chegasse que não fosse recebida com desconfiança e ali não foi diferente. Mas em pouco tempo conquistou a simpatia de suas colegas de cárcere e logo mediava entre elas e funcionários. Não precisava dos punhos. Essa xerife sabia como convencer suas colegas e, se preciso, brigava por elas. Foi um dos guardas que convenceu seus colegas a aceitá-la como xerife. Seu nome era Sebastião, como ela descobriria mais tarde, quando conversaram a sós. Em seu primeiro encontro utilizaram um dos espaços proibidos da Colônia, umas edificações acabadas que faziam as vezes de quarto de núpcias e banheiro particular. Entre ruínas, fezes e urina, Sebastião e Rosana se amaram por muitas noites.

Enquanto conversavam, acabou perguntando daquele, o que a espancara. O que se dera do Bispo?

─ Ah, esse daí não tem cura não. Se trancou e não saiu desde aquele dia. Disse que está reconstruindo o mundo, o maluco!

Sebastião se censurou diante do seu olhar de reprovação. Não tinham nem dez minutos que Rosana havia explicado a ele sua teoria de que muito dos internos e das internas não eram tão loucos quanto sugeriam. Indagara-se o mesmo sobre o Bispo e então decidiu visitá-lo.

Naquele interim, Arthur Bispo do Rosário fizera da cela de agitados o seu quarto-forte. Não abriu a porta quando o chamou, deixando-se ver apenas pela viseira, um par de olhos vidrados a encará-la com a mesma chateação desinteressada da outra vez. Ela apenas o encarou de volta, em silêncio.

─ Você vê a minha aura?

Ela riu. A ira transpareceu naqueles dois olhos antes que a viseira os escondesse novamente, produzindo um audível baque metálico. Ela ainda escutou o resmungo, abafado pela porta.

─ Melhor ir saindo! Seus olhos ainda não sabem ver.

* * * * * * *

Nos anos seguintes Rosana ainda não havia determinado se Arthur Bispo do Rosário era louco ou não. Vinha fichando muitos dos seus colegas com um quadro de diagnósticos paralelos, para a maior irritação dos enfermeiros e médicos, que a desencorajavam. A iniciativa fizera sucesso entre os guardas, com quem muitas vezes discutia a respeito de suas avaliações. Sebastião, com quem vinha discutindo a possibilidade de armarem uma casinha nos arredores da Colônia como muitos vinham fazendo, tinha uma opinião firme sobre o Bispo.

─ Tá fichado, paixão. É esquizofrênico-paranoide!

Mas Rosana duvidava. Aprendera a senha e nunca falhava em adivinhar a cor da aura de seu mais nobre paciente, que sempre a recebia em seus melhores fardões. O quarto-forte de Bispo se transformara em um verdadeiro labirinto. Vitrines guardavam fileiras de utensílios da Colônia, de talheres a calçados; o artesão havia, a partir da madeira, do latão e de todo tipo de sucata, manufaturado centenas de miniaturas. Os visitantes se multiplicavam, perguntavam sempre a mesma coisa. Por quê? A resposta também não mudava.

─ Esta é a minha obra. Eu estou representando o mundo para que no dia de minha passagem vocês tenham testemunho de tudo que se passou nesta terra.

Não se estendia em mais explicações. Envelhecera, o mofo e a poeira do quarto-forte havia muito que o debilitara. E ele não comia, por dentro dos vultosos fardões era pouco mais do que pele e osso. Caminhava trôpego porque a visão turvava e não sabia por onde andava.

Os visitantes achavam suas peças bonitas. Muito do que o Bispo fizera era coberto dos fios azuis dos uniformes da Colônia. Quando uma farda rasgava ou ficava velha demais para uso, nunca era jogada fora; qualquer um da comunidade da Colônia, interno ou enfermeiro, sabia que deveria levar até aquele quarto-forte, onde o Bispo utilizaria os fios azuis em sua recriação do mundo. Era comum que afugentasse curiosos que quisessem levar um souvenir ou mesmo comprar alguma de suas peças. Até mesmo Rosana levara uma bronca quando brincara de levar uma das peças, uma faixa de miss. Não compreendia tudo que aquele homem fazia, mas ele via um brilho de pureza nas misses e confeccionava faixas e cetros em sua homenagem. Cetros enredados em fios azuis, que nenhuma miss no mundo havia ganhado.

Bispo, bem como a Colônia, virou caso de televisão. A Globo veio gravá-lo e depois vieram os outros, documentaristas, museólogos, estudantes e todo o resto. Nunca que Rosana julgara a Colônia como um lugar perto do agradável ou mesmo do digno, mas pelo visto se acostumara o bastante à degradação para se surpreender com toda atenção que as reportagens jogaram sobre a situação. Não se chocou com os olhares que o acervo sagrado do Bispo ganhava, entretanto.

Em uma ocasião, Bispo resistia a deixarem levar algumas de suas peças para exposição e Rosana agiu como mediadora. A negociante do outro lado da mesa se tratava da diretora do Museu de Arte Moderna. As duas se reuniram em frente à igreja da Colônia, sobre a qual se erguia uma escultura não muito bem-acabada de uma santa. Reconheceu de imediato a impaciência no rosto da outra mulher. No seu, o mais educado dos sorrisos. Preferiu poupar as apresentações.

─ Ele não acha que o que ele faz é arte.

A diretora revirou os olhos.

─ É claro que não! Qualquer artista contemporâneo nega o estatuto da arte. Este é que o verdadeiro atestado da arte moderna.

E então ela prosseguiu em falar sobre como mictórios, rodas de bicicleta e frascos de fezes constituíam o novo acervo artístico que encerraria o século vinte. Falou de nomes estrangeiros dos quais Rosana até ouvira falar, como Duchamp, Monzoni e Warhol. Se já desgostara da mulher ao vê-la, passara a detestá-la. Via nela o mesmo fascínio turístico de todos que vinham visitar o quarto-forte, sem saber o que realmente era aquele trabalho e como afetava o seu criador.

Arthur Bispo do Rosário era senhor e escravo do seu acervo e em um dos documentários que fizeram estava gravado para quem quisesse ver que, se ele quisesse, não faria aquilo. Fazia como a voz ordenava. Um dia, logo após uma de suas consultas com uma jovem psiquiatra de quem desconfiava de ele ter se apaixonado, Rosana o encontrou caído no chão, contorcendo-se. Foi fácil carregá-lo até a sua cama coberta de véus, ele não pesava quase nada. Seus olhos estavam úmidos de lágrimas que retinha, talvez por toda a vida.

─ Eu queria… viver que nem vocês. Normal, assim, fazer casinha, ter meus filhos, cuidar mais minha mulher… mas…

─ Mas o quê, querido?

─ A voz.  Ela não deixa. Se eu penso nisso ela me pega, me vira todo, entorta, me joga lá de cima… ela não deixa.

Enquanto se lembrava disso, a diretora não parecia achar o fim da explicação pela extrema necessidade das obras de Bispo em sua exposição. Rosana precisou se lembrar do motivo pelo qual aceitara negociar. A diretora discursava.

─ E agora, com o new dada

Interrompeu-a.

─ Esta aqui atrás de mim é a Nossa Senhora dos Remédios. Sabe por que ela tem essa bolsinha num dos braços? É dinheiro. Ela é a santa dos agiotas! Agora vejamos: quer expor os fios azuis do Bispo? Vai custar. A senhora menstrua? ─ A diretora ruborizou ─ É, talvez não, que nem eu, mas seguinte: muito das minhas colegas sim. Sem absorvente ou qualquer coisa, é um verdadeiro banho de sangue, colega. E mais, tem aqui as que não menstruam porque engravidaram. A gente até tem parteira, mas fora tirar a criança e entregar nos braços, nós não temos o restante… e sabe como fralda é muito necessário, não é?

A diretora falou menos depois disso. Rosana convenceu o Bispo a deixar alguns de seus trabalhos queridos serem expostos no museu. Durante os meses de exposição não deixou de perguntar um dia sequer pelo bem-estar de suas peças.

─ Elas têm se comportado?

* * * * * * *

Com as sucessivas trocas e negociações realizadas na Colônia, a nova direção ordenou pela abertura dos pavilhões. Soltavam-se os beija-flores. Um clima de festa que aos poucos se apoderara daquele lugar, agora chegava ao auge. Àquela altura Rosana e Sebastião já haviam se mudado para uma casinha e ela ia até a Colônia apenas como visitante. No dia da abertura se planejava uma festa à noite, Rosana chegara pouco antes. É claro que o Bispo não participaria, mas o que a surpreendeu foi a maneira como encontrou seu pavilhão.

Todas as vitrines, esculturas, estandartes, cetros, fardas e mantos do seu acervo tinham sido reorganizados dentro das celas vazias. Não mais um ateliê, mas agora um verdadeiro salão. Da maneira como tudo estava disposto Rosana conseguiu ver os bandeirões com suas palavras bordadas a identificarem do que se tratavam. Numa seção, denotavam navios e suas partes, esmiuçando os pormenores das embarcações; noutra, bandeiras de países e povos, identificados pelo nome. Onde quer que pusesse os olhos, Rosana encontrava algo novo e a impressão que tinha era que, sim, o mundo todo, bordado em azul, recriara-se ali dentro.

No meio de tudo, abaixo de um estandarte onde bordara uma série de textos em que se incluíam a data precisa do seu renascimento, Arthur Bispo do Rosário se deitava na cama-nave, trenó que o levaria aos céus. Os véus e fios azuis o escondiam, mas não o bastante para que não notasse a sua fraqueza. Naquelas condições não poderia ter reorganizado tudo aquilo com tamanha precisão. Quando quis saber como ele havia feito aquilo tudo, quase não conseguiu escutar a resposta, tão debilitada estava a sua voz.

 ─ Ora, tá mais do que visto. Os anjos, Rosana. Os mesmos sete anjos que me acompanharam na primeira vez que andei como Cristo e me apresentei. Vinte e dois de dezembro de trinta e oito. Não vê? Não vê como vê minha aura?

Rodopiando, Rosana enxergou apenas um acervo interminável de representações, de peças de xadrez a um belo carroselzinho. Deteve-se ao se sentir tonta, parando de frente para o estandarte que encimava o leito derradeiro do seu amigo. Ali, leu sua verdade, justificativa de tantos bordados, de todo aquele catálogo. Via-se: EU PRECISO DESTAS PALAVRAS.

Rosana, de todas as pessoas, entendia a importância de nomear. Pôr em palavras é criar. E, o que ele aquele homem fizera além de criar, no meio século em que ficara trancafiado?

* * * * * * *

Na noite de sua transformação, internos, diretores, enfermeiros, ex-pacientes e alguns moradores das proximidades vieram assistir. A cama-nave flutuava acima dos pavilhões que compunham o Núcleo Ulisses Viana. Os véus tinham sido removidos e, deitado sobre ela, estava o Bispo. Não estava nem como na última vez que o vira e nem como na primeira. Estava como ninguém nunca havia visto. Jovial, de rosto liso, o cabelo encrespado e avolumado guardado por uma coroa de luz dourada, sua aura prateada reluzindo tão longe que se refletia nos rostos espantados os quais, dali da terra firme, assistiam àquela transcendência, anunciada cinquenta anos antes.

Bispo se vestia no melhor de todos os seus mantos, concebido e fabricado por suas próprias mãos para aquele momento de apresentação. Já havia o vestido antes, é claro, para fotos e gravações. Rosana já o conhecia, mas agora parecia ainda mais bonito e colorido do que antes, com sua superfície marrom lotada de símbolos bordados que iam desde peças de dominó a rosas cardeais. Cordões grossos pendiam da gola vermelha, atados a uma bolsinha branca como aquelas em que os padres guardavam hóstias. Nas bordas do manto, embora não pudessem enxergar daquela distância, Rosana sabia que Bispo havia bordado com cuidado as bandeiras de todos os países que conhecia. Eram as nações do mundo que recriara. Cordas se ligavam das margens do manto, unindo-se em seu centro, bem onde a marca branca de uma mão se desenhava; de sua mão, a mão que criara tudo aquilo.

O céu, límpido e azulão como não se imaginaria de ser num dia de Juízo Final, abriu-se de repente, como se desfiasse, um milhar de fios azuis que se desprendiam do firmamento e se enrolavam em torno do Bispo, enredando os seus braços, pernas, torso, rosto. O que quer que estivesse por detrás do rombo que a descostura do céu deixava não era visível a mais ninguém, ofuscado pela aura prateada de Arthur Bispo do Rosário. E, quando a fiação azulada do céu se avolumou a ponto de ocultá-lo, Rosana chorou e berrou tal qual uma criança. Não estava sozinha. Na multidão que virava o rosto para o alto, muitos tiveram a mesma reação.

Como qualquer outro à quem foram apresentados os pormenores do manto, sabia que um de seus detalhes era a sua camada interior, onde, sobre uma superfície branca, Arthur Bispo do Rosário bordara o nome de todos aqueles que salvaria em sua ascensão aos céus. Sempre que olhava para aquela parte tinha a impressão de que os nomes bordados se alteravam, infinitos, mas nunca perdia de vista o seu, que também havia sido costurado ali. Em seu choro, Rosana não entendia que sentimento a tomava, uma espécie de luto que era também um grande alívio. Fragmentos daquela estranha euforia, uma curiosa e inédita sensação de que nada no mundo a abalaria, não a deixariam jamais.

Por isso, ao ver as discussões e sucessivas exposições às quais nos anos seguintes foram submetidas as peças sagradas e enredadas em azul de Arthur Bispo do Rosário, Cristo artesão cuja cruz havia sido o próprio quarto-forte, Rosana desdenhava das iniciativas. Quando observava todos aqueles críticos de arte, só conseguia pensar que seus olhos ainda não sabiam ver.

15 comentários em “Seus olhos ainda não sabem ver (Diretora de Tudo)

  1. Fabio D'Oliveira
    16 de junho de 2021

    Antes de continuar, acho justo esclarecer como estou avaliando nesse desafio. Além de uma consideração final, guio-me por três fatores: artístico, técnico e criativo. Não estou participando dessa vez, mas decidi ajudar a movimentar os comentários!

    ARTÍSTICO

    O conto transita entre o belo e o tédio.

    A narrativa densa e demorada, com algumas repetições de ideias, cansa o leitor, mas não deixa de ser um trabalho bem feito. Vou implicar um pouco com o tema: o argumento é frágil. O foco é a loucura e genialidade de um artista, não a arte em si. Talvez tenha sido um erro contar a história de Bispo pelos olhos de Rosana, uma louca-comum, e, assim, não explorar os verdadeiros contornos da arte dele.

    Não diria que o conto possui muito valor artístico, ele tem traços belíssimos, mas, em alguns momentos, desperta o tédio, além da morosidade da narrativa. É difícil avaliar essa questão. Talvez o conto simplesmente não tenha me conquistado.

    TÉCNICO

    Bem encaminhado, mas cabe melhorias.

    Além dos pequenos erros, que podem ser resolvidos numa revisão mais cuidadosa, como palavras que sobraram e outras que faltaram, acredito que o conto poderia ser um pouco mais fluido. A densidade não é o problema, mas sim o ritmo da leitura, que, por vezes, se estende além da conta. Algumas quebras de ritmo inseridas de forma estratégica poderia resolver isso.

    Também me preocuparia com um estilo: sua escrita fica sempre morna, mesmo nos pontos altos. Por exemplo, a forma como você contou a liberdade dos loucos foi excelente, fazendo uma referência direta ao Bispo duma forma poética e simbólica, mas perde o impacto, pois, em seguida e sem descanso, já desenrola outros assuntos. O leitor, naturalmente, não tem tempo para absorver o impacto dessa frase tão bela e importante. Um estilo bem definido ajudaria a esquentar e esfriar a narrativa quando necessário.

    CRIATIVO

    Gosto quando transformam uma história antiga e conhecida em algo novo. Para mim, isso é criatividade.

    Há uma grande competência em manter o foco em Bispo, mesmo sendo necessário desenvolver outras situações que dispersam o leitor, para fortalecer Rosana, mas é hábil como sempre retorna para o artista. A história é linear, sem grandes entraves, e não impressiona, porém. Esse problema, que nem é tão problemático assim, existe por causa da natureza da própria história e personagem escolhido para acompanhar o final da vida de Bispo.

    Não tem muito o que fazer. É uma boa história.

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    É um conto muito bom.

    Além da criatividade, diria que é um bom poeta, mesmo sem saber disso. Há muitas passagens bonitas. Ainda insisto que pode melhorar, assim como reforço minha implicância com a temática.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte no certame!

  2. Mauricio Piza (@mtplopes)
    15 de junho de 2021

    Muito bom, o conto. Conheço a vida de Arthur Bispo do Rosário, e achei bem interessante a narração do ponto de vista marginal, porém bem lúcido, de Rosana. Ela funciona como uma espécie de mediação entre o mundo exterior do leitor e o universo interior do Bispo.
    Achei interessantes alguns dos pontos colocados nas outras críticas. Realmente, uma das dificuldades com uma figura histórica e ainda próxima como a dele é a profusão de fatos e acontecimentos que tende a distrair da narração mais fundamental, que é a do conto por si mesmo.
    O conto tem seu ponto forte nessa mediação de Rosana e na progressiva transição de um quarto caótico do hospício, para uma oficina confusa de um artista e depois na organização final da exibição, que é quando se vê completamente explicitado seu mundo interior. O artista/artesão não faz para a oficina, ele faz para o mundo.
    É lá que ele pode ter a sua apoteose final, que leva à conclusão e justifica todo seu esforço de redenção. Nesta tarefa é auxiliado pelos anjos involuntários (os críticos, curadores e operários que montaram a exposição). Ele leva consigo e salva a todos, inclusive a si mesmo.
    Isso é o que ele faz realmente, e que os olhos de muitos não conseguem ver. Pergunta-se: quem cooptou a quem?
    Sugiro que pesquisem “Christ the architect” nas imagens do Google, para ver esse paralelo entre Cristo artista/artesão que o Bispo busca encarnar.
    Parabéns pelo trabalho, sacro como todo trabalho, dona Diretora de Tudo e muito boa sorte.

  3. Elisabeth Lorena
    15 de junho de 2021

    Seus olhos ainda não sabem ver (Diretora de Tudo)
    Sobre Texto, estrutura, personagens, tema, enredo, espaço, tempo e linguagem

    Olá!
    Seu texto está no tema. Personagens principais são bem marcantes, embora pudessem ter trabalhado melhor neles. Narrador firme e narração bem desenvolvida. No quesito ritmo acho que me cansei. Leva um pouco de tempo falando sobre Rosana/Rogério. Mas há algo nessa enrolação que gostei de ler, a chamada para a hipocrisia: “─ Como é que é a história que não passo no crivo pra ser mulher, mas passo pra ser estuprada? Alguém me explica?” Se bem que essa violência nos presídios, em muitos casos, não observa realmente se a pessoa se reconhece/identifica ou não como mulher. Entretanto, para a narrativa, dentro do contexto que está e que representa, faz sentido e é uma denúncia.
    Esse texto entraria de boa em três Desafios recentes do grupo: Artes, o atual, perfeitamente alcançado; loucura e Criação.
    No plano da linguagem o texto tem beleza. uma das mais interessantes é “ Soltavam-se os beija-flores.” E em algumas culturas eles representam a cura, o renascimento. Para a Umbanda, por exemplo, os colibris representam a superioridade e, como para alguns antigos os loucos eram sábios por entenderem a vida como ela é, talvez caiba aqui no conto. Mas é especulação minha. Toda minha investigação é especulativa, não importa quanta teoria eu use.
    O conto é bom, tem um desfecho bem direcionado com temática fantástica. A forma de criação da arte de Bispo é muito interessante porque se baseia no reuso de material ao reciclar tudo o que tem, matéria-prima que por si só já é limitada, ele cria o universo paralelo, crível e tão complexo quanto sua mentalidade.
    Resumo: meus olhos ainda não sabem ver esse texto, mas o que vi e entendi, gostei muito.

    Não conhecia Arthur Bispo do Rosário e fui ler sobre ele. Na verdade, meu sobrinho que me disse que seu personagem existiu de fato. A loucura ou falta dela faz arte e cria inimigos. Fui ler sobre ele e o conto aqui é uma recontagem de sua trajetória e cria um final que ele, o artista, poderia imaginar.
    Tive uma tia louca (esquizofrênica) na família e infelizmente ela não teve acesso às terapias ocupacionais típicas de Nise da Silveira e as ideias de Hans Prinzhorn, as que tive acesso tardiamente. Ela tinha sua veia artística e os remédios e internações constantes não tiraram dela sua capacidade de criar e sonhar. Sempre que ouço ou leio sobre pacientes manicomiais que conseguiram algum destaque, fico imensamente feliz.
    Infelizmente nem mesmo alguém como Rosário escapa da ideia de que sua arte não é arte porque não foi criada a fim de ser um produto artístico. Sinceramente, posso até ser assassinada – eu dando de louca – mas há muita coisa dita como arte só porque seguiu esse critério e que não possuem beleza e nem vida própria. A obra de Rosário pode não ser entendida, até porque não foi criada para isso, como está posto em seu conto, entretanto, possui sentido uma vez que o seu desejo de apresentá-la a Deus, no Juízo Final. E esse sentido é temático, logo já surge “batizado” com o emblema de arte sacrificial, daí ele crê ser uma entrega. É muito lindo isso, espiritual até. Ele coloca toda sua energia em sua arte/oferenda.
    Parabéns pelo texto, é um resgate bem interessante.
    Sucesso no Desafio.

  4. gisellefiorinibohn
    14 de junho de 2021

    Olá, Diretora de Tudo!

    (Já me chamaram de Chefinha de Tudo, então me identifiquei hahaha…)

    Muito interessante, esse seu conto! Trazer um personagem que de fato viveu e criou, e mesclar com uma personagem fictícia – ainda mais uma tão rica quanto Rosana – foi uma sacada bem inteligente. Cria-se, assim, uma expectativa de algo complexo, que o texto de fato entregou. Aí, porém, reside, no meu ponto de vista, sua força e ao mesmo tempo seu ponto fraco.

    O personagem do Bispo é muito bom, mas também é a Rosana, em especial pela questão da transexualidade. Mas no final, não se desenvolveu bem nem um, nem outro. O final, fantástico, foi uma escolha ousada que teria funcionado melhor se fosse mais trabalhada a questão de Bispo se ver como Cristo, como sabemos que fez na vida real. Ficou muito superficial essa relação no conto.

    Além disso, algumas passagens ficaram confusas, não só pela forma como foram escritas, mas também pelo excesso de conflitos. Eu teria optado por um foco maior em um dos dois. A narrativa também às vezes embolou. A conversa entre Rosana e a diretora é um exemplo disso: muita coisa sendo dita em um espaço curto. Estes trechos abaixo exemplificam a forma, no meu parecer, confusa de narrar:

    “Depois explicou que o xerife era um interno a quem, embora evitassem, recorriam para ajudar com outros pacientes agitados e que o Bispo acabara se excedendo com ela, o que já havia sido compensado, pois o meteram numa das celas do bolo, espaço reservado especialmente aos internos fora de controle.”

    “Enquanto se lembrava disso, a diretora não parecia achar o fim da explicação pela extrema necessidade das obras de Bispo em sua exposição.”

    “Arthur Bispo do Rosário era senhor e escravo do seu acervo e em um dos documentários que fizeram estava gravado para quem quisesse ver que, se ele quisesse, não faria aquilo.”

    Houve vários trechos assim, em que a escrita parece não dar conta do que está acontecendo. Mas pode ser impressão minha. Não sou a mais hábil das leitoras.
    De forma geral, entretanto, é um conto muito bem escrito. Porém, eu, chata que sou, num nível próximo do insuportável, vi algumas pequenas falhas de revisão. Eu gosto quando me apontam tais coisas, pois já aprendi muito assim, então faço o mesmo aqui. Se você não gostar disso, já peço perdão antecipadamente.

    – Faltaram vírgulas aqui nos “depois”:
    “Esmurrou o primeiro dos enfermeiros, depois o segundo e depois o terceiro.”

    – Não entendi a opção pelo Pretérito Imperfeito. “Achava” denota hábito ou ação contínua, o que não faz sentido, já que foi evento único. Deveria ser “achou” ou “pensou” ou “notou”, algo assim:
    “Rosana achava que o seu baixo calão realmente impressionara o outro.”

    – Faltou vírgula antes do “não” e do “sim”:
    “Ah, esse daí não tem cura não.”
    “É, talvez não, que nem eu, mas seguinte: muito das minhas colegas sim.”

    – “Tinha”:
    Não tinham nem dez minutos

    – “Muitos”, no plural
    “de que muito dos internos e das internas não eram tão loucos quanto sugeriam.”

    – Faltou acento em “ínterim”:
    “Naquele interim,”

    – Por que “deixarem” no plural? “Ele resistia a deixar”:
    “Em uma ocasião, Bispo resistia a deixarem levar algumas de suas peças para exposição e Rosana agiu como mediadora.”

    – Faltou alguma coisa aqui. Um “é”, talvez? Ou tirar o “que”?
    “Este é que o verdadeiro atestado da arte moderna.”

    – “… por quem desconfiava ele ter se apaixonado”:
    “Um dia, logo após uma de suas consultas com uma jovem psiquiatra de quem desconfiava de ele ter se apaixonado, Rosana o encontrou caído no chão, contorcendo-se.”

    – Além da frase estar estranha, tem vírgula separando sujeito e verbo:
    “Um clima de festa que aos poucos se apoderara daquele lugar, agora chegava ao auge.”

    – Além da vírgula faltando, o infinitivo devia ser “a identificar”:
    “Da maneira como tudo estava disposto Rosana conseguiu ver os bandeirões com suas palavras bordadas a identificarem do que se tratavam.”

    – Infinitivo pede ênclise – “sentir-se”:
    “Deteve-se ao se sentir tonta”

    – Acho que não tem nada errado aqui, mas esses pronomes relativos assim tão próximos truncaram a leitura pra mim:
    “sua aura prateada reluzindo tão longe que se refletia nos rostos espantados os quais, dali da terra firme, assistiam àquela transcendência, anunciada cinquenta anos antes.”

    – Quem imagina, imagina algo, não “de algo”. Eu tiraria o “de”:
    “O céu, límpido e azulão como não se imaginaria de ser num dia de Juízo Final”

    – Não há crase aqui:
    “Como qualquer outro à quem foram apresentados os pormenores do manto”

    Bom, é isso. Em resumo, um bom conto, com uma história criativa e intrigante, bons personagens, algumas passagens muito inspiradas, das quais a minha favorita foi “Pôr em palavras é criar”. É isso o que fazemos, não? 😊

    Parabéns e boa sorte no desafio!

  5. Fernanda Caleffi Barbetta
    9 de junho de 2021

    esse “Seus olhos ainda não sabem ver” após “Notei uma ausência de vírgulas. Exemplos:” não sei o que foi fazer ali.

  6. Fernanda Caleffi Barbetta
    9 de junho de 2021

    Olá, Diretora de Tudo, parabéns pelo belo texto. Muito boa a forma como abordou o tema arte, trazendo um personagem real e que carrega uma história muito forte. A dualidade entre a genialidade e a loucura muito bem retratada aqui.

    Notei uma ausência de vírgulas. Exemplos:
    Seus olhos ainda não sabem ver
    Esmurrou o primeiro dos enfermeiros, depois (vírgula) o segundo e depois (vírgula) o terceiro.
    Então (vírgula) chamaram o xerife.
    terror (vírgula) enquanto somente um
    Antes de desmaiar (vírgula) ele estava sobre ela

    Um dos diretores foi trazido (levado)

    “Essa xerife sabia como convencer suas colegas”, da forma como foi construído este parágrafo, não fica claro se a xerife é a Rosana.

    “edificações acabadas” não foi uma boa escolha a palavra acabadas.

    Não tinham (tinha) nem dez minutos

    “Sebastião se censurou diante do seu olhar de reprovação. Não tinham nem dez minutos que Rosana havia explicado a ele sua teoria de que muito dos internos e das internas não eram tão loucos quanto sugeriam. Indagara-se o mesmo sobre o Bispo e então decidiu visitá-lo.” – parágrafo confuso.

    “olhos vidrados a encará-la com a mesma chateação desinteressada da outra vez” – Olhos vidrados e chateação desinteressada são opostos, que torna o trecho coerente.

    “audível baque metálico” – ?

    Este é que (é) o verdadeiro atestado da arte moderna.

    “consultas com uma jovem psiquiatra de quem desconfiava de ele ter se apaixonado!” – essa frase precisa ser reconstruída.
    cuidar mais (da) minha mulher

    “Vai custar. A senhora menstrua? ─ A diretora ruborizou ─ É, talvez não, que nem eu, mas seguinte: muito das minhas colegas sim. Sem absorvente ou qualquer coisa, é um verdadeiro banho de sangue, colega. E mais, tem aqui as que não menstruam porque engravidaram.” – não entendi estre trecho da menstruação…

    “ordenou pela abertura” – ordenou a abertura
    Da maneira como tudo estava disposto (vírgula) Rosana conseguiu
    Carroselzinho – carrosselzinho
    “E, o que ele aquele homem fizera “ – e o que ele, aquele homem , fizera

  7. Kelly Hatanaka
    7 de junho de 2021

    Olá Diretora!

    Achei seu conto maravilhoso, irretocável. Tanto pela imagem do Arthur Bispo do Rosário quanto pela personagem Rosana, muito bem desenhada e crível.
    Gostei, especialmente, do final, um tanto mágico, como se se abrisse uma brecha para o mundo do artista, para os milagres que só ele conseguia ver.

    É meu favorito até agora.

    Parabéns!

    Kelly

  8. Jorge Santos
    7 de junho de 2021

    Olá. Este foi o texto que gostei mais neste desafio. Fala de um homem transgénero que é internado num hospício onde conhece um internado que é artista, fazendo uma representação do mundo a partir de todo o material a que tem acesso. É um texto fluído, com uma narrativa que cresce em intensidade. Senti alguma confusão no final, mas nada que retire a qualidade do conto. A crítica homofóbica está presente, bem como o preconceito contra o doente mental – ainda não chegámos à paridade entre o doente mental e o que padece de patologias físicas.

  9. Fheluany Nogueira
    6 de junho de 2021

    Arthur Bispo do Rosário é um artista tirado da realidade, ligado à arte de vanguarda, à pop e ao novo realismo. Ele carregou todos os estigmas de marginalização social ainda vigentes, fatos que foram bem explorados na narrativa. No conto, Bispo é analisado pelo ponto-de-vista da narradora, outra paciente da clínica psiquiátrica e que “roubou” parte da atenção que deveria ser dada ao protagonista.

    O título e o texto, indiretamente, trazem críticas ao mercado da obra-de-arte e sobre a criação, além de reflexões sobre o conceito de arte, aqui atada à loucura. Afirmar que existe relação entre arte e loucura levanta polêmica. Mas o fato é que, sendo saudável ou não, o artista é visto como alguém fora dos padrões.

    A escrita é madura e envolvente, fluida a que o leitor se conecta com facilidade; enfim, é um trabalho inteligente, com boas analogias e alguns trechos marcantes.
    Conto bem tramado, desenvolvido e concluído em que se nota cuidado na construção das personagens. O desfecho é sem surpresas, segue a lógica da narrativa, com uma acentuação poética interessante, que lhe dá brilho.

    Parabéns, sucesso! Abraço!

  10. Leonardo Philipe
    28 de maio de 2021

    Olá, Diretora! Obrigado por compartilhar Seus olhos ainda não sabem ver conosco ❤

    Li seu conto duas vezes. É um texto complexo, com uma carga dramática enorme, que requer um olhar bem atento às entrelinhas. Com certeza a minha avaliação não fará jus à dimensão do seu processo criativo. Mas vamos lá!

    – PONTOS POSITIVOS: O domínio das palavras é notável. O conto parece ter sido escrito por alguém muito experiente, que sabe utilizar bem cada linha do seu trabalho.

    A narradora tem muita personalidade. Os primeiros parágrafos transmitem aflição, repúdio e principalmente, rebeldia!

    A história é impactante e tem frases poderosas, por exemplo:

    “─ Como é que é a história que não passo no crivo pra ser mulher, mas passo pra ser estuprada? Alguém me explica?”

    Tem voz política, elemento que considero ser fundamental para construir um texto como este.

    “Pôr em palavras é criar.” Esta aqui enriqueceu o conto porque evidencia a complexidade do processo artístico da escrita (que não é o foco da narrativa, mas ainda assim se faz presente); me fez lembrar da Teoria da Linguagem.

    – CONSIDERAÇÕES: precisei reler alguns trechos porque houve uma aglutinação de informações/ações. Isso prejudicou um pouco o ritmo.

    O final é apoteótico, mas senti falta de uma descrição mais dominada pela emoção. Acredito que a técnica da pessoa que escreveu este conto é tão boa que acabou freando a inspiração “pura”, o que é uma pena, pois deixar a “loucura” falar sozinha no final teria enriquecido a experiência do leitor.

    Mesmo assim, adorei a última frase fazendo referência ao título.

    Parabéns! ☮

  11. claudiaangst
    28 de maio de 2021

    Olá, Diretora de tudo, tudo bem?

    Farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = O conto aborda o artista Arthur Bispo do Rosário e toda a sua criatividade de fazer obras a partir do que tinha por perto. Também há referência à arte de ver, de enxergar o outro. Tema bem resolvido.

    R = Revisão = Senti falta de algumas vírgulas e notei pequenos lapsos:
    – Não tinham nem dez minutos que… > Não tinha nem dez minutos que…
    – o mofo e a poeira […] havia muito que o debilitara >o mofo e a poeira do quarto-forte havia muito que o debilitaram – fica estranho? Fica estranho. Então sugiro que troque por “o mofo e a poeira do quarto-forte havia muito o tinham debilitado” – mofo e poeira = plural. Ou “A MISTURA de mofo e poeira do quarto-forte havia muito que o debilitara”
    – de quem desconfiava de ele ter se apaixonado > POR quem desconfiava ele ter se apaixonado

    T =Trabalho de escrita/narrativa = Um texto longo que traz uma narrativa complexa, com personagens muito ricos de características. Em alguns momentos, a leitura trava um pouco por ser muita informação em um bloco só. É uma trama densa cheia de significados, detalhes que não devem ser vistos e revistos com atenção. O ritmo é mais lento como se o[a] autor[a] quisesse reter o olhar do leitor sem pressa.

    E = Então, autor[a] = Sem dúvida, uma história impactante que traz um desfecho mais para o fantástico, com todo o esplendor da arte de Bispo em sua derradeira transformação.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  12. Luciana Merley
    27 de maio de 2021

    Seus olhos ainda não sabe ver

    Seu texto levou-me obrigatoriamente à pesquisa e gostei muito de ter relembrado, agora com mais detalhes, a impressionante história desse artista. Já adianto que fiquei horrorizada, quando na pesquisa, descobri que compararam esse homem excepcional (que produziu arte com os restos, com utensílios, sem grandes recursos) a aquele vaidoso egocêntrico histórico chamado Duchamp (que não fez nada na vida além de botar um bigode na Monalisa).
    Bom! Passado a minha indignação, vamos ao seu ótimo conto (rsrs).

    Coesão – Esse é um item no qual quero destacar algumas chaturas minhas, caso o autor deseje considerar. A personagem escolhida para narrar a história é muito rica em características e personalidade, e por essa razão, talvez tivesse, em si, um conto inteiro para nos apresentar. Quero dizer que senti a narradora tomando o centro, a energia da história para si em muitos momentos da narrativa, ao menos à minha leitura, ao invés de contar sobre o personagem central. Quero dizer que a sua narradora é uma potência enquanto tema de enredo. Outra questão que me deu um pouco de trabalho na interpretação (mas acho que compreendi) foi a visão que ela teve da “passagem”. Caso o conto estivesse sendo narrado em primeira pessoa, a normalidade da visão dela estaria plenamente coerente com uma possível desorientação psiquiátrica. Contudo, num conto narrado em terceira pessoa, espera-se que o autor deixe claro que ela teve uma visão, ou alucinação, o que não ficou explícito na parte final.

    Ritmo – Muito bom. Texto grande, mas não cansativo. Esse parágrafo: “Enquanto se lembrava disso, a diretora não parecia achar o fim da explicação pela extrema necessidade das obras de Bispo em sua exposição. Rosana precisou se lembrar do motivo pelo qual aceitara negociar. A diretora discursava.” Ficou realmente muito confuso e embrulhou um pouco a leitura. Sugiro reescrever.

    Impacto – Muito grande. Apesar das ressalvas acima, gostei muitíssimo do texto e da sensibilidade como reinterpretou essa conhecida história. Obrigada por nos presentear com um texto tão belo e bem escrito.

    Um abraço.

  13. Anderson Prado
    27 de maio de 2021

    Olá! Tudo bem?

    Seguindo os passos da melhor revisora de todos os tempos, a dileta Claudia Roberta Angst, farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = A arte aparece com sucesso no conto: o personagem coadjuvante é um pintor.

    R = Razões para ODIAR o conto (porque sou desses) = O título beira o piegas. O capítulo final é decepcionante: metafísico, fantástico, fantasioso.

    T = Trabalho de escrita/narrativa = A escrita é boa.

    E = Então, autor[a] = Gostei do conto, que está entre os meus favoritos: está bem escrito e abordou temas relevantes (sobre o saber apreciar a vida, as pessoas e a arte).

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio!

  14. antoniosbatista
    26 de maio de 2021

    Ambientação= Dentro do tema já que o personagem é considerado um artista, embora tenha sido internado num manicômio por causa de suas alucinações (ou vice-versa).

    Escrita= Normal.

    Enredo= Conto baseado na história real de Arthur Bispo do Rosário.

    Considerações Gerais= Quando li o nome do personagem, tive a impressão de que já tinha lido ou ouvido falar nele. Para me lembrar, consultei a internet. A história do conto é praticamente a mesma, mas é um bom conto, muito bem escrito. A inclusão de Rogerio/Rosana na história, ficou bem legal, fez a diferença, para melhor, é claro..

  15. thiagocastrosouza
    25 de maio de 2021

    Resumo: Rosana é uma interna da colônia Ulisses Viana. No tempo internada, conhece o artista Arthur Bispo do Rosário, figura história real, que compunha obras de arte no seu quarto de interno.

    Comentário: Poxa, mais um conto que me ensinou um bocado! De cara, ao ver a imagem, lembrei de uma performance de Ricardo Aleixo, na qual ele declama o Poema “Meu Negro” coberto com um manto cheio de palavras. Talvez este tenha se referido ao artista que você homenageou em seu conto. Já vou buscar saber mais sobre essa personalidade.

    Sobre o conto, achei que você optou por um caminho paralelo, no qual apresenta Bispo pelo olhar de outra personagem, um homem que se reconhece como mulher que, dentro de sua própria experiência com a loucura, é transformada pela obra de Bispo. De certa forma, seu texto lembra bastante o conto vencedor do desafio Loucura, “As Cores do Colônia”, que usa um recurso narrativo semelhante.

    Há ainda espaço para reflexões, muito sutis, sobre a crítica artística e o uso mercadológico ou vazio das obras de artistas marginais. Reconhecidos e elevados ao status de arte maior, muitas vezes essa apropriação afasta a obra do seu contexto de produção e das pessoas que o artista almejou atingir ou representar. No caso do texto, são aqueles que ainda não sabem ver. Achei bonito o papel da palavra atribuído à obra de Bispo, sua capacidade criadora e representativa, que é o que buscamos enquanto autores.

    Enfim, é um texto que me instigou a curiosidade o tempo todo, com um caráter bastante informativo, mas que passa longe de ser didatizante ou simplesmente relatorial. O autor faz uso de uma escrita simples e consegue, ao final, fechar bem a história que desejou contar.

    Boa sorte no desafio!

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Informação

Publicado em 24 de maio de 2021 por em Artes.