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Detox Literário.

Pétala por Pétala – Conto (Bibi Cammarota)

Nunca gostei de rosas. Sempre as considerei belas demais, perfeitas demais para este mundo. De tão maravilhosas, chegavam às raias do artificialismo, pois não há como existir tal harmonia, perfeição e imponência em algo que pode morrer. Creio que deve ter sido uma brincadeira infame de Deus colocar tanta plenitude ao toque de nossas mãos. Seu perfume inebriante, um elevo perdido entre odores prosaicos da vida corrida e fumacenta. 

Como você. 

Eu sei que fui motivo de teu riso quando, ainda garoto, te confessei esses pensamentos íntimos e desconexos. E também lembro muito bem que meus olhos sorriram quando, em um menear gracioso e silencioso de cabeça seu, concordou comigo. Ali, naquele instante, soube que eu não estava só. Que nunca estaria sozinho, pois havia te encontrado. 

Por diversas vezes, ao longo daquele tempo, conversamos sobre essas ideias minhas loucas, jamais proferidas a nenhuma outra pessoa, pois, com toda a certeza, eu seria classificado como louco. Para outros mais benevolentes, um excêntrico sonhador perdido em um mundo tão pragmático. Outros, ainda mais complacentes, passariam a mão no meu rosto e diriam para que eu não perdesse esse olhar diferente para vida… mas que o guardasse só para mim.

Entretanto, para você, sempre… sempre pude falar meus segredos.

Concordamos que a perfeição não se enquadra na vida de pessoas de carne, só nas tridimensionais personagens dos filmes e animes. As rosas podem viver lá, naquelas histórias épicas, heroicas, românticas e herméticas em seu enredo. Para nós, já com espinhas e hormônios despontando em nossos rostos, a comum e falha margarida se tornou a nossa flor. De tantas cores, de tantos tamanhos…! Flores sedentas de calor, satisfeitas com pouca água, balançando-se à brisa dos campos, colorindo as relvas selvagens, ordenadas em jardins planejados, vivas dentro de quatro paredes. Adaptáveis. Não exigentes. Alegres. E simples. 

Como nós dois. 

Eu quis colher você para mim quando a barba me encheu o rosto e teus seios se balançavam soltos sob o vestido de algodão cru. Meus lábios, porém, não encontraram aconchego nos seus… e um lago salgado se derramou de teus olhos, amarelados como o cerne das margaridas. Você não podia ser podada e muito menos arrancada de si para ficar comigo.

Eu não te compreendi. Eu não aceitei apenas inspirar teu perfume sem poder te desfolhar pétala por pétala. Você murchou à minha frustração e a lembrança da palidez da sua pele de pétalas me coloriu nos anos que se seguiram.

Acabei por me perder nas rosas de uma estufa, arrancando-as para formar meu buquê. Elas duravam o tempo que lhes era destinado, porém as abandonava antes que atingissem seu apogeu de beleza. Pois, como eu sempre soube, a perfeição não pertence a estas paragens.

Os espinhos das rosas entranhados em minhas mãos ascendiam a dor da saudade que sempre cultivei de você. Depois de alguns invernos, eles já faziam parte de mim. 

Como você sempre fez. 

Em um outono de um ano qualquer, em um lugar que poderia ser todos, inesperadamente você brotou do outro lado da calçada no entardecer alaranjado. Suas sementes germinaram e duas pequenas margaridas, dois botões te acompanhavam, tão parecidas contigo! Fui arrebatado para primaveras passadas, onde os mesmos cachos castanhos arruivados caíam suavemente no seu vestidinho cor-de-mel agora coloriam as blusas brancas de suas filhas. 

Quis ir até você. Quis entrar no teu jardim, agora mais repleto de perfume. No entanto, ele surgiu por detrás de um roseiral, o cravo na lapela e envolveu-te nos braços longos, tomando-te toda para ele. 

E tirando você de mim. 

Escondi-me atrás de um arbusto cheio de minúsculas flores lilases, observando, consternado, tudo o que quis ali, sumindo pela esquina da tua vida em meio a uma chuva de folhas vermelhas.

Bem-te-quis. Mal-te-desejei. Quebrei todos os galhos dentro de mim e as poucas margaridas que lá ocultava caíram desoladas.

As estações passaram velozmente. No início do dia, a primavera se anunciava. O verão queimava com o sol ao alto. O outono serenava-se nas tardes e o inverno se calava à noite. Mal percebia sua alternância, pois para mim nada brilhava. Nem as rosas mais me atraíam com sua perfeição. Não mais me apetecia colhê-las, podá-las e vê-las se desmancharem em minhas mãos, embora eu continuasse a colecioná-las sem parar. 

Então, inesperadamente, o sereno da noite alimentou uma esperança. Brotou na minha vida uma margarida além de você.  Ela surgiu de lugar nenhum e parecia ter vivido apenas para me encontrar. Linda. Mais bonita que você, inclusive. Ela muito bem-me-quis. Ela realmente me amou. Eu tentei. Não consegui, embora muito desejasse. Tentei transplantar meu amor por você para ela… mas era você quem eu amava através dela.

Infelizmente, não possuía fortaleza por detrás de sua singeleza, como você a tinha altivamente. Na delicadeza das ações daquela que veio a se tornar minha esposa, havia pureza e inocência… não o suficiente para lhe velar os olhos e ignorar que ela não passava de uma pobre substituta sua. Entristeceu-se e mirrou pouco a pouco. E nada que fiz foi o bastante para ela ficar, indo em um despetalar suave e melancólico, deixando-me, entretanto, uma parte sua que carreguei em meus braços no momento de sua morte. 

Minha filha veio da tristeza e encheu-me de alegria. Nunca pensei que assim pudesse ser. Entendi seu sorriso, quando você mirava suas pequenas, que agora cresciam. Elas já não eram mais um broto e já desabrochavam no início da adolescência, enquanto eu conduzia minha criança para seu primeiro dia da escola. 

Artimanhas das rosas de vento…. nossas filhas estudarem no mesmo colégio. 

Dia após dia, eu te via com suas margaridas já moças. Vi seu rosto sorridente para elas. Vi seu semblante se fechar quando as deixava e ele te puxava pelo braço sem dar mais abraços. Você nunca me discerniu entre tantos pais e mães. Chegou, uma vez, a mirar na minha direção e não me reconheceu. As lágrimas guardadas nos olhos amarelos já sem brilho não te permitiram enxergar nada a mais do que sua própria tristeza. 

Quis falar contigo. Quis te encontrar. Quis te desterrar de sua vida e, nessa nova vez, acreditava que você não me negaria. Mas como, se você mesma se enraizara no jardim que construiu? Embora ele pudesse te prender, machucar-te, regá-la de infelicidade, nada e ninguém tinha a capacidade de te manter em uma redoma… a não ser você mesma. Por escolha própria, fechou-se naquele enfeite. E o passar do tempo me fizera compreender que, se eu quisesse te ter, quem teria que se colher era você mesma. 

Minha pequena margarida também se foi… não para a morte, como a mãe, mas para a vida que a esperava quando as portas das oportunidades se abriram para ela além das minhas paragens. Tal qual você, ela escolheria um jardim. Não me arriscaria novamente conter em um vaso alguém que eu amava e que almejava conhecer outras pradarias.

Quando o escuro de meus cabelos já se abrandava, a neve do inverno já me toldando as madeixas, eu, sentado em um café perto de um mar de flores, vislumbrei você vir para mim. Postou-se, calada, em frente a mim, de pé. Seu ápice há muito havia passado, muito embora o vento das décadas, que nos desfolha inexoravelmente, foi gentil contigo. Seus olhos amarelos trouxeram a brisa de garota, envoltos de minúsculas sombras de rugas ao seu redor que, no fim, davam-lhe um toque charmoso. Seus lábios continuavam cheios e carnudos, convidativos para eu me perder nele. Deus… há muito não me sentia tão vivo como homem! Meu corpo parecia ter recuperado toda a jovialidade, em um prazer antecipado. 

Você voltou para mim…! Você voltou para mim… Todas as noites, todos os dias, todos meus pensamentos se floreavam para ti, sempre e sempre… E agora, você diante de mim, eu não sabia como agir. Fale comigo…. Fale comigo, por favor! Tome a iniciativa! Reverta sua fuga do nosso quase primeiro beijo perdido na meninice.

– É você. É você que…

– Sou eu. – interrompi-a em um rompante sussurro, meneando a cabeça, sem saber como agir.

– A garçonete me disse que era o seu carro. – apontou para meu veículo um pouco mais distante. – Poderia recuá-lo um pouco? Tem espaço para você fazer isso. Fiquei trancada com o outro carro que parou agora na frente do meu, tão colado que não tenho como sair.  Estou presa. – riu, sem graça – Só você pode me libertar. Pode me fazer esse favor?

Minha mão, que antes já se entendia para você, congelou-se em pleno ar. Senti o sangue sumir de mim. O sol da tarde se tornou muito, muito…frio. 

– Libertar você…

– Por favor. Assim você também ficará livre para seguir adiante… quando terminar seu café, claro.

Baixei a cabeça. Não me reconhecera. Não havia nenhum franzir de testa, muito menos um turvamento no olhar ou um morder de lábio de uma lembrança a ser resgatada. 

O líquido escuro do café boiava na xícara branca. 

– É claro. – minha voz se enrouqueceu – Farei isso agora. 

– Eu… desculpe ter te atrapalhado. Fui inconveniente, mas é necessário, sabe? Tenho que pegar minha netinha na creche. Minha filha está no trabalho. Avó serve para isso. – deu uma risadinha.

Levantei-me lentamente, enquanto minha mão automaticamente pegava algumas notas de dinheiro para deixar ao lado do café, do sanduíche parcialmente comido e da margarida meio murcha no vaso com pouca água. Meu corpo curvo endireitou-se, incontáveis anos sonhados nas costas rolando para o chão.

– Seu marido também está no trabalho? – minhas palavras mal proferidas. 

– Deve estar. – suspirou e seu olhar se perdeu na margarida desolada do vaso – Não sei. Não sei… há muito tempo. 

Caminhei para meu veículo como se andasse em um sonho. Ou como se estivesse saindo dele. Seu perfume de flores do campo me assinalava que você me seguia na mesma direção… para o seu carro. 

Entrei no automóvel, dei ré mais do que o suficiente, o espaço entre nós o bastante para que você fosse embora. Você me sorriu sem graça ao longe, a mão indo ao pescoço em um incômodo desconhecido. Balançou a cabeça negativamente e procurou suas chaves na bolsa.

Em um ímpeto, saí do carro e andei determinado para ti. Agarrei-te de supetão. Antes que se desse conta, cingi você a mim e beijei sua boca, forte. Um beijo rápido, mas intenso. Esperava mel na sua língua, porém só encontrei amargor. 

– Você é louco?! Vai ser preso por isso!

– Não. Agora estou livre. 

Não sei o que você viu na minha expressão; apenas a indignação sumiu de suas feições e finalmente ali, o franzir de cenho. 

– Por que… por que fez isso? Nós nos conhecemos de algum lugar?

– Ah, não. Pensei que te conhecia. Eu que me enganei. Devia ter ficado com minhas rosas. Elas podem ser perfeitas demais para mim, mas sempre foram o que eram.

Entrei novamente no carro e parti. No retrovisor, seu reflexo aturdido no meio da rua, como se procurasse entender. Então enxerguei que você compreendeu quando sua mão acenou para mim desesperadamente. 

Eu trouxera a margarida murcha do vaso da cafeteria. Deixei-a no banco do carona para que, finalmente, suas pétalas se encolhessem. Você era resistente, claro. Preservara-se durante muito tempo. Mas, neste momento, não havia mais estufa, água ou um simples jarro que a acolhesse e alimentasse. 

Bem-não-quer. Mal-nem-quer. Nada-me-quer. Nada-mais-te-quero.

……………………………….

Conto publicado na antologia “As Flores do Meu Jardim“.

7 comentários em “Pétala por Pétala – Conto (Bibi Cammarota)

  1. thiagocastrosouza
    12 de março de 2021

    Bibi, conto metafórico e bastante bonito. Amores que se encontram, incendeiam e não se apagam, ainda que se separem.

    Parabéns!

  2. angst447
    8 de fevereiro de 2021

    Que conto lindo! Amores e flores combinam, até rimam. Infelizmente, também rimam com dores. A idealização é o que nos faz sofrer porque criamos a ilusão de um ser amado que não existe de fato. As rosas podem parecer perfeitas demais, mas mostram os espinhos logo de cara e sabemos que vão murchar. Já as margaridas (também as adoro) têm aparência singela, delicada e receptiva, mas nem muitas só servem de forração de um campo esquecido. Adorei a elaboração da sua narrativa mesclada à natureza. E que bom que o narrador finalmente pôde se libertar da sua ilusão. Parabéns!

  3. Fabio D'Oliveira
    5 de fevereiro de 2021

    É um conto que transpira sensibilidade, mais natural que o outro que li no desafio de Loucura (desculpa, mas ainda fiquei com essa sensação de artificialidade no outro conto, não é um problema, claro, mas eu não confio me apaixonar por contos assim). Por outro lado, eu adorei esse conto. Li outros contos que publicou aqui, por estar no celular e sempre dá problema com o WordPress ou Facebook, mas eu gosto do seu estilo. Ele é lírico, poético, feito com paixão, diria. Espero que entenda que minha nota no desafio anterior não foi pela qualidade geral do conto, você escreve muito bem, mas sim por estar seguindo alguns critérios pessoais. Hoje não sei se devo continuar seguindo. Sei que tenho que ser fiel a mim mesmo, mas se isso causa alguma dor a outra pessoa, mesmo que seja algo bobinho, talvez seja melhor mudar a abordagem. Nada pessoal, claro, todos podemos escrever como queremos e devemos fazer isso. É a expressão de nossa alma, afinal. Não podemos negar isso para ninguém.

    O que mais gostei foi como você abordou o amor. É algo idealista, que gera uma obsessão no personagem, fazendo-o perder oportunidades maravilhosas no decorrer da vida, por criar um imagem do que seria perfeito e não aceitar nada menos que isso. É a dor que predomina no conto. Uma dor que vicia. Algo que entra em nossa alma e não quer sair. Dor de coração ferido é maior que a dor de um braço quebrado. Vivi ambas as dores, como muita gente.

    A liberdade no final dá um final positivo, a superação dele, apesar de desejar, intimamente, um final mais pessimista, o clima melancólico do conto me inspirou isso. Eu gosto dos finais tristes. Ele me fazem questionar. Sentir, sabe? Acho que parte da comunicação da arte, dos observadores com o artista, é inspirar sentimentos. Talvez por isso histórias mais emocionais e humanas chamem mais atenção do que as artificiais e racionais.

    Espero ler mais contos seus, de fato, é um privilégio. Você escreve muito bem e com poesia nas frases. Isso é raro, ao meu ver, ainda mais em harmonia e naturalidade, coisa que ainda não consigo fazer.

  4. Anderson Prado
    24 de janeiro de 2021

    Muito lírico! Parabéns, Bibi!!! 👏👏👏

    • Bibi Cammarota
      24 de janeiro de 2021

      Obrigada, Anderson! Vc sempre é muito gentil !

  5. Bibi Cammarota
    22 de janeiro de 2021

    Valeu, Beto! Muito obrigada.

  6. Beto Martins_Guziej
    22 de janeiro de 2021

    Adorei

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Publicado às 22 de janeiro de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .