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Detox Literário.

Lembranças de um cientista – Conto (Givago Thimoti)

Seu jeito metódico e rotineiro o marcava até na subconsciência de seu sono. Usualmente, acordava um pouco antesda silenciosa e programada entrada do robô em seu quarto. Porém, mesmo que sem saber ainda a importância do dia, Fernando apenas permaneceu na cama, decidindo aproveitar a sensação da resistência da sonolência:

– Doutor Fernando, bom dia!

Ouvia o movimento automático das persianas, enquanto levantava devagar da cama. Parado diante dele, o robô jazia prostrado, erguendo a bandeja diante dos olhos sonolentos de Fernando.Segurava o caféda manhã típico do físico; uma banana, as torradas recém saídas da chapa, o requeijão, o leite quente com canela e os dois comprimidos obrigatórios. Os dois pontos azuis o encaravam, convidando-o a comer o desjejum. O senhor de idade pegou as cápsulas, colocou na boca junto do leite e engoliu. Não sabia o porquê de tomar aquilo, mas o instinto o aconselhava a fazer.

– Muito bem, doutor. Gostaria de ouvir as principais notícias do dia ou suas últimas anotações?

Ainda sentado na cama, Fernando encarou o robô, tentando encontrar da onde saía a voz. Sim, os brilhos harmonizados com cada palavra enunciada indicavam que ele, supostamente, deveria emitir som. Contudo, nada parecia sair dele. Pigarreou, enquanto analisava um tanto interessado a máquina.

– Algum problema, doutor? O senhor precisa que eu toque a playlist “Memórias Fundamentais”?

A voz feminina definitivamente não saía do robô parado diante do físico. Parecia sair do próprio quarto. Algo dentro de si clicou quando finalmente recordou-se de alguns fatos. A casa possuía uma inteligência artificial, capaz de controlar todos os aparelhos eletrônicos, incluindo o robô. O próprio Fernando havia ajudado a configurar Frau Christina. Embora sabia muito bem os perigos de manter uma relação carinhosa com IAs, ele gostava de pensar que Christina era uma filha para ele, dedicada a cuidar do pai nos dias finais.

Quanto a Fernando, ele era um físico e matemático extremamente conceituado pela comunidade acadêmica mundial, ganhador de Prêmio Nobel. Era também responsável pela teoria que elucidava um pouco mais o Mundo Subatômico, um dos maiores mistérios da humanidade. Professor aposentado da Universidade de Munique, o cientista rodou o mundo espalhando seu conhecimento para as novas mentes do mundo da Física. Colaborou com centenas de teses e, embora aproximasse da morte, o legado de Fernando continuaria por décadas, séculos e, talvez, milênios. Bom, pelo menos era o que lhe diziam dentro do universo acadêmico. Não pode conter o breve sorriso orgulhoso o qual invadia seu rosto naquele momento. Aquela era a constatação que embora estivesse falhando, sua memória ainda não o havia abandonado completamente.

– Nenhum problema, Frau Christina. Às vezes, demora mais do que o habitual. Por favor, conte-me as últimas anotações que produzi.

– Tudo bem.

A voz grave e cansada do próprio Fernando surgiu após a inteligência artificial anunciou a data e o horário da gravação:

– Fernando, eu e Christina trabalhamos por quase três dias ininterruptamente nessa máquina. Não tenho forças para testá-la. Ou, talvez, eu não queira constatar o que já sei. De qualquer forma, Fernando, tenho certeza que você saberá o melhor a se fazer.

O cientista assentiu, enquanto algumas memórias fragmentadas dos dias anteriores emergiam; em quase setenta anos de vida, Fernando jamais havia feito tantos cálculos em tanto tempo. Por vezes, pensava que aquele projeto era grande demais, até mesmo para uma mente como a dele. Nesses momentos, sentia sua cabeça entrar em ebulição, enquanto a memória falhava fortemente. Podia apenas desistir, reconhecer os limites que sua própria mente o impusera e viver seus últimos dias aproveitando a merecida aposentadoria. Contudo, a chama do conhecimento continuava a arder dentro de si, clamando por mais. A questão para o físico era se a sua mente ainda era capaz de alimentar o fogo.

Depois do café, Fernando caminhou pela casa, acompanhado pelo robô controlado por Frau Christina, até parar diante do escritório. O cômodo jazia estritamente organizado, exceto por uma pequena parte. As estantes não demonstravam um resquício de pó. Os livros estavam postos por ordem alfabética, tal como Fernando desejava. Os quadros brancos exibiam seus cálculos numa ordem que parecia fazer sentido para o físico. A escrivaninha era a exceção a meticulosidade; pilhas e mais pilhas de papel ocupavam, aleatoriamente, os mais variados espaços.

Os escritos não seguiam uma ordem lógica fácil de acompanhar; iam de uma vertente à outra em questão de uma linha para outra. Era possível perceber que, em muitas dessas folhas, o único objetivo do físico era desafogar a mente com aquelas ideias, mesmo que não contribuíssem em nada com o projeto. Riscos ligavam fórmulas soltas com nomes. Por vezes, Fernando olhava os quadros brancos, tentando remontar a linha de pensamentos do dia anterior.

Frau, você jogou alguma coisa fora?

– Não. Desde que o senhor foi dormir, eu trabalhei na máquina, como havia pedido.

– E eu dormi por quanto tempo?

– Quase dezesseis horas, senhor. Apenas o acordei uma vez para tomar a dose diária de seu remédio para hipertensão prescrita pelo Dr. Peter Kranz.

– Entendi. E a máquina está pronta para o funcionamento?

– Sim, senhor. Eu fiz uma análise sobre as chances de obtermos sucesso. Apenas 11,01%.

– Tudo bem. Por favor, leve os quadros brancos e as anotações para o porão.

– Sim, doutor.

– Além disso, queria te pedir mais duas coisas, Christina.

– Pode dizer.

– Primeiramente, sinta-se à vontade para fazer quaisquer alterações necessárias nessa máquina. Confio plenamente em você, afinal, fui eu quem lhe desenvolveu.

– Claro, doutor. E a outra coisa?

– Pode me acompanhar nos exercícios de hoje? Não quero me sentir sozinho.

O robô-auxiliador chacoalhou-se de um lado para o outro, piscando as sete cores do arco-íris. O físico sorriu, afagando a fria cabeça do andróide.

Em si, os exercícios eram bastante simples. De forma equilibrada, Fernando deveria manter-se o mais estimulado cognitivamente possível. Por isso, era comum que o físico empenhando-se vendo álbuns de fotografia, ouvindo músicas e cozinhando.

Com o outono alemão aproximando-se do fim, o frio começava a marcar presença através dos ventos frios. Fernando morava numa área rural afastada de Munique, bastante arborizada, com campos a perder de vista. Embora não fosse ideal, resolveu passear, aproveitando o clima bucólico da região. Agasalhado e conectado à Frau Christina, por meio dos discretos fones de ouvido, o professor aposentado caminhava pela relva seca, recheada de folhas amarelas e laranjas as quais ressoavam a cada passo dado. Enquanto ouvia uma música calma, procurava atentar-se aos detalhes da paisagem. O Sol marcava presença, mesmo sendo ofuscado em partes pelas nuvens. Algumas ovelhas, do lado de dentro da cerca dos Podolski, o observavam pacificamente, alheias a presença do border collie no meio do bando.

Após a caminhada matinal, usualmente Fernando dedicava-se à cozinha. Dada a importância do dia, resolveu esbanjar. Comeria o prato mais significativo que sabia fazer; uma omelete recheada com queijo mussarela, alho-poró, cebola, tomate e cenoura, junto com um arroz salpicado de bacon. Contra as indicações do médico e do cuidado repleto de esmero de Frau Christina, o físico tomaria o melhor vinho que tinha disponível na pequena adega.

Por meio do andróide, Christina exibia a tentativa de um olhar reprovador para o ex-professor. Este, por sua vez, deleitava-se com o ardor que o álcool provocava em sua garganta aliado ao sabor nostálgico da omelete, ignorando completamente a reprimenda.

– Não se preocupe comigo, Christina. – Fernando procurava mastigar com cuidado, tentando não desperdiçar um momento sequer de seu almoço. –Uma taçazinha não faz mal a ninguém. Lembra que até o dr. Peter recomenda?

– Provavelmente, quando o doutor te informou sobre isso, ele não contava com os remédios para a sua síndrome.

– É bastante provável mesmo.

Ao terminar a refeição, depositou a louça suja na pia e começou a lavá-la, dispensando a atitude proativa do robô-auxiliar de Frau Christina.  Não podia deixar de sentir a falta de alguém ao seu lado, secando os encharcados utensílios, enquanto fazia alguma piada, ou dançava no quadrado limitado pelos limites da imaginação ou, quem sabe, cantando uma música num tom extremamente desafinado.

Depois do almoço, Fernando dirigiu-se ao terceiro cômodo da casa. Era um tanto pequeno, contendo uma poltrona de couro de um preto velho e gasto, porém, confortável, um móvel que segurava o abajur eum armário repleto de quinquilharias, os quais acumulavam poeira; medalhas e troféus, diplomas dos inúmeros cursos os quais prestou e, por fim, os álbuns de fotografia.

Pegou o maior dos álbuns. Geralmente, ficava no fundo do armário, livre de eventuais obstáculos. Tradicionalmente, esfregou com delicadeza a capa, retirando eventuais traços resistentes de poeiras. Entregou-se à poltrona, sentindo a moleza provocada pelo vinho e pela caminhada feita mais cedo. Tateou a procura da cordinha responsável por acender a luz do abajur, para então, colocar seus óculos de leitura. Fernando não conseguia evitar o sorriso diante da aparência daquele pesado livro. Sempre lhe ocorria a sensação que aquele era um momento mui importante, como uma história que um avô conta ao seu neto. Além disso, se pudesse ver, o físico gostava de pensar que ela sentiria orgulho. Afinal, ele jamais fora um primor artístico.

O álbum era revestido por um material marrom que imitava couro. Em letras douradas, a palavra “memórias” estava espalhada pela capa, grafada nas cinco línguas conhecidas por Fernando; português, inglês, alemão, espanhol e latim.

Com o instinto de quem já havia feito aquela procura algumas vezes, Fernando abriu o álbum na pagina a qual mais o interessava. A foto de uma jovem mulher sorridente ocupava o centro da folha. Encarando o fotógrafo, ela exibia uma expressão de paciência contemplativa, com um leve sorriso estampando-se nos lábios rosados e carnudos. A atenção aparecia no brilho dos olhos castanho-escuros, como quem procurava o exato momento de se pronunciar. O rosto estava apoiado pela palma da mão direita, exibindo os anéis delicados,a pulseira com pingentes, além da delicada tatuagem de uma âncora. O pescoço estava encoberto por um lenço de vários tons azuis, estampado com pequenos girassóis, enquanto o cabelo negro e cacheado caía até a altura das orelhas.

– Quem é esta mulher, Dr. Fernando?

Mesmo que fosse algo ensaiado e provavelmente repetido muitas vezes ao decorrer dos anos, o físico ainda sentia um enorme prazer em responder a pergunta de Frau Christina.

– Esta é Isabella. – O físico respondeu, ainda encarando o retrato, a espera de um novo detalhe surpreendente.

É verdade que algumas vezes era necessário que Fernando lesse os parágrafos ao lado, responsáveis por rememorar as lembranças dele. Porém, no caso especifico de Isabella, era muito raro que o físico lesse os bilhetes coloridos.

Naquelas páginas, o físico constatava o poder que a mente humana possuía, mesmo que esta falhasse. Como os próprios anos de estudo o ensinaram, o Tempo é o verdadeiro Senhor do Universo. Não há contestação quanto a isso; ele irá vencer, não importa o quão brilhante seja o humano. Masali, sentado na confortável poltrona gasta pelo decorrer dos anos, a saudade o aninhava de tal forma que, por alguns minutos, o físico trapaceava a crueldade dos ponteiros do relógio.Contando aquela história, tantas vezes repetidas, para Frau Christina, Fernando revivia Isabella, municiado pelo álbum repleto de fotografias e imagens de mensagens trocadas num passado distante.

Rumou para uma das fotos que mais gostava. Ao fundo, a brilhante roda-gigante estava congelada, assim como as crianças que se divertiam no parque de diversões. Mesmo sendo uma típica noite tropical, Fernando e Isabella colavam seus rostos.Se fechasse os olhos, concentrando-se um pouco, o físico podia sentir o reverberar do contato da sua pele áspera com a pele macia de Isabella, quebrando os limites espaço-temporais. Seguindo a página, aparecia uma foto na qual o físico beijasse a bochecha dela. A imagem jazia um tanto desfocada, com um raio de luz cortando diagonalmente o rosto de Isabella.

A risonha Isabella estampava uma das memórias mais belas e resistentes que Fernando possuía. Era uma madrugada de sexta-feira. Ambos haviam passado o dia inteiro sem se falar, presos no trabalho. Ela trabalhava na entrega de um projeto importantíssimo que homenageava algum intelectual literário brasileiro, enquanto ele tinha dado aulas das 14h atéas 22h. Pelo físico, apenas pediriam uma pizza e dormiriam. Mas, não era o suficiente para a arquiteta; tinham de meter a mão na massa. Tentaram uma receita bonita e complexa que ela havia visto na Internet, mas o resultado foram muitas risadas e beijos, além de uma gororoba salgada incomestível. Com os últimos três ovos da geladeira, e alguns ingredientes encontrados perdidos, o casal fez uma omelete, acompanhado pelo famoso arroz de bacon que Fernando tão bem fazia. O próprio físico capturou a reação da então namorada ao beliscar um pedaço daquele jantar.

A ultima imagem do álbum era Isabella aninhando um bebê. Era a primeira sobrinha dela, Patrícia. O rosto dela estava completamente iluminado, encantada diante de tamanha delicadeza.

– Nando, minha filha vai se chamar Christina, sabe?

– Nossa. – Desejava ter respondido, estampando um sorriso no rosto.

É verdade, doía. Relembrar aquilo tudo sabendo o fim que tiveram. Podia ouvir a voz de Isabella, doce e profética, alertando pela última vez um Fernando ambicioso e arrogante, cheio de si por demais para mantê-la ao seu lado:

– Você é um gênio, destinado a muitas coisas. Mas um dia, vai pagar por tanta inteligência. E não terá ninguém ao teu lado para te apoiar.

De fato, agora pagava por sua própria mente. E embora por um lado fosse crueldade relembrar como se encontraram e como se perderam, Fernando ainda conseguia agradecer pelo simples fato de rememorar, mesmo que fracamente.

Com certa dificuldade, o fisico levantou-se da poltrona. As lágrimas desciam pelo rosto enrugado dele até cair no álbum. Pigarreou, tentando equilibrar sua voz diante da dor que sentia apertar seu peito.

– Christina, chegou a hora do experimento.

Concentrado, dirigiu-se ao porão, acompanhado de perto pelo androide. Na mão direita, carregava uma foto da sorridente Isabella. Por um momento, enquanto esperava Frau Christina ligar a máquina, admirou a engenhosidade que construíram. Os botões azuis do painel de controle brilhavam sozinhos, programando os detalhes finais. Era uma espécie de tubo giratório, no qual em seu centro, ligado por fios de inúmeros tamanhos e cores, jazia uma cadeira acolchoada com material isolante. No chão ao lado do assento, uma coroa metálica recheada com fios finos. Embora os números fossem intraduzíveis em coisas materiais, aos olhos de Fernando, aquela engenhoca era a representação concreta da porcentagem 11,01. 11,01% de chances de trapacear fisicamente o Senhor do Universo.

– Dr. Fernando, está pronto? – Frau Christina indagou.

A coroa não prejudicou a ultima olhadela de Fernando na foto de Isabella. Mentalizou todos os detalhes possíveis. Assentiu, respirando fundo, enquanto ouvia sua engenhoca pela primeira vez.

Aos poucos, despertei. Um raio de luz sorrateiro passava rebeldemente pela fresta da janela. Meu braço direito esticado formigava, protestando pela baixa circulação provocada pelo peso em cima dele, enquanto o esquerdo repousava gentilmente apoiado numa superfície quente.

A blusa branca, detalhada por flores tão claras, contrastava com a pele morena e arrepiada das costas de Isabella, marcada sutilmente por uma tatuagem minimalista de um símbolo hindu. Instintivamente, a acariciou. Ela despertou, virou-se com o icônico sorriso que ostentava geralmente misturado ao sono:

– Qual o problema, seu estranho? Não me diga que ficou me encarando enquanto eu dormia…

Afaguei o rosto dela, tentando encontrar uma explicação para o sonho que acabava de ter. O máximo que consegui foi:

– Tive um sonho estranhíssimo. Eu estava velho e delirando…

Isabella ignorou o mau hálito típico de uma manhã, calando-me com um beijo. Em seguida, deu mais um sorriso para mim:

– Está tudo bem agora. Você está comigo, meu bem.

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Um comentário em “Lembranças de um cientista – Conto (Givago Thimoti)

  1. Antonio Stegues Batista
    22 de setembro de 2019

    Viagem no tempo é um tema fascinante. Quem dera pudéssemos voltar no tempo e fazer o que se deixou de fazer e se arrependeu. Fernando é um grande inventor, vive entre o moderno e o antigo, o abajur que se acende com uma cordinha e não um simples estalar de dedos, o álbum físico de fotografia, e não digital. Ficou legal a história, gostei das passagens melancólicas, como o passeio numa tarde de outono.

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Informação

Publicado às 20 de setembro de 2019 por em Contos Off-Desafio e marcado .