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Detox Literário.

Zacarias e a Festa na Casa da Tia Nancy – Conto (Angelo Rodrigues)

Acordei pela manhã pensando que uma desgraça ia acontecer, mas não sabia o que era, ou se era um dente que me aporrinhava as gengivas, e logo que abri os olhos, dei um cutucão na Nataly, que me lascou uma bundada tão bem dada que quase me derrubou da cama, e eu fui logo falando: Nataly, querida, uma desgraça tá pra acontecer, e eu nem sei não o que é, mas que vai, vai, isso vai; e Nataly, com seu jeitão parceiro, foi logo dizendo: Reage, Zacarias, que hoje tem pagode na casa da tia Nancy, e a coisa vai pegar fogo, tem feijoada no almoço e rega-bofe na janta, coisa fina, e vai logo tomar um banho pra tirar essa inhaca que tu tem, e vambora porque não quero perder tempo; e ela foi logo se levantando e entrando no banheiro, e eu atrás dela querendo entrar com ela no chuveiro, porque eu tava com aquela coisa, assanhado demais, e ela me deu outra bundada e me deixou sentado no vaso sanitário olhando praqueles cadeirões debaixo da água fria, porque tava faltando eletricidade na Pavuna, e quando ela acabou de tomar banho, foi logo dizendo: Agora você pode entrar, Zacarias; e foi quando eu fiquei entusiasmado e peguei ela de jeito, segurei aquele cadeirão, mas ela correu e disse: Sai pra lá, Zacarias, porque você pode entrar mas é no chuveiro, que eu vou fazer um café com pão pra gente se mandar pra Seropédica; e eu fui ficando cada vez mais frio debaixo daquela água fria enquanto Nataly, preparava um pão com ovo da melhor qualidade e um café preto que o cheiro dava água na boca, e logo depois a gente já tava no meu Fucão 64 tinindo de bonito, e Nataly dizia pra mim que eu tava de olho comprido em cima dela: Tira esse olho dos meus peitos, Zacarias, que hoje eles são só pra olhar e fazer bonito na festa; e quando saímos da Pavuna eu senti aquele jeito de desgraça ruim, e disse pra Nataly: Nataly, alguma merda vai acontecer hoje, e eu não sei o que é; e Nataly me olhou com aquele olhar meigo que ela tem e me disse: Presta a atenção na porra da estrada, Zacarias, que a ressaca tá afetando a tua cabeça, e periga de você fazer uma cagada na estrada; e a gente foi rolando, vendo aquele mundaréu de gente tocando porco com vara pela beira da estrada, e gente com pão enfiado debaixo do sovaco, e a molecada carregando a bola pro campinho na gala da manhã de sábado, tudo coisa bonita de ver, e eu tava feliz pra caramba porque a minha Nataly também tava feliz, e nada me deixava mais feliz do que ver a minha Nataly feliz, mas nada de Seropédica chegar, porque Seropédica é longe pra caramba, um buraco perdido lá pra Baixada Fluminense, e toca de o meu Fucão beber gasolina, e eu só pensando: Meu Deus, que porra de lugar mais longe é esse?, em que buraco a tia Nancy se meteu?; e o Fucão ia comendo estrada e era buraco que nunca acabava, e a minha Nataly toda hora dava uma ajeitada nos peitos pra eles ficarem quietos dentro do sutiã, porque naquela buraqueira desgraçada eles saltavam tanto que pareciam que tavam montados num boi de rodeio, e eu olhava pra Nataly e ficava tendo ideias de jerico com ela, pegando naquelas tetonas bonitas que ela tem e me acabando de tanta felicidade, e Nataly sabia que eu tava pensando naquilo tudo, naquela sem-vergonhice toda, porque ela sempre sabe tudo, porque é parceirona, e me disse com aquela voz bonita que ela tem: Para de babar, Zacarias, porque hoje não tem pra você; e de repente ela bateu o olho no meio do matagal e falou: É por ali, Zacarias, tamos chegando na casa da tia Nancy; e já faltavam uns quinhentos metros, e foi quando eu entrei na desgraça ruim, e fui logo dizendo: Nataly, querida, aconteceu o que ia acontecer, eu sabia que hoje era dia de desgraça ruim e não deu outra, porque o freio do carro sumiu de vez; e eu arregalava os olhos e minha barriga gelava, e eu bombeava o freio feito louco, e apertava o pedal e nada de o carro parar, e eu não sabia mais o que fazer porque o meu Fucão não podia aprontar aquela comigo, e fui puxando devagarinho o freio de mão, bem aos pouquinhos, e vinha chegando uma subidinha na estrada e o carro foi parando, parando e parando, e eu imbiquei ele num montinho, e vi que dali já dava pra ver a casa da tia Nancy num tremendo alvoroço, cheia pra caramba, mas ainda tava longe, mas que por sorte tinha logo ali um orelhão, e fui estacionando, estacionando o possante sem saber o que fazer, porque do meu Fucão eu só entendo de passear e curtir, e nada de concertar, e do orelhão dei uma ligada pro reboque, e a moça que me atendeu, muito educada, falou: Não se preocupe seu Zacarias, que em três horas vai imbicar aí um reboque da melhor qualidade pra pegar o seu possante; e foi quando eu falei pra minha Nataly: Nataly, eu sabia que hoje era mesmo dia de alguma desgraça ruim, querida; mas Nataly nem ligou, e me falou: Zacarias, seu mané, fica tomando conta dessa merda de carro que eu vou pra casa da tia Nancy, porque senão vou morrer de fome, e não adianta os dois ficarem aqui feito patetas, e fica só você que tem mais jeito pra isso, que eu vou me mandar; e ela se mandou rebolando aquele traseirão bonito que ela tem na direção da casa da tia Nancy, e eu fiquei olhando pra Nataly e olhando pro meu Fucão, pra ela e pro meu Fucão, sem saber se ficava com o possante ou se seguia aquela coisa bonita, e foi quando um moleque passou e falou: Moço, eu sei consertar carro, sou bom nisso; e me pediu cinquentinha pra dar um trato no possante, e eu fiquei animado e passei pra ele uma nota novinha de cinquenta, e ele se meteu debaixo do carro e dois minutos depois ele voltou de lá tão sujo quanto entrou, nem mais nem menos, e disse: Tem jeito não, moço, que arrebentou o cabo do freio; e eu, que não sei nada de cabo nem de sargento, nem de freio, fiquei pensando em arrebentar aquele moleque com uns cascudos, mas não fiz nada, só pedi de volta o meu cinquentinha, mas ele se mandou correndo, dizendo que não ia devolver o dinheiro coisa nenhuma porque tinha trabalhado, que era pretinho mas não era escravo de ninguém, e eu falei: Mas não é nada disso, moleque, que eu respeito trabalhador; mas não adiantou nada porque ele não parou, continuou correndo, e eu não podia correr atrás dele porque tinha que ficar tomando conta do possante, e quando olhei, o moleque já ia longe, e foi quando vi que chegava o Baiano, que é o irmão da Nataly, que tinha na cara um sorriso bonito, e eu sabia que aquilo não era nada bom porque sempre que ele me dava aquele sorriso, ia também me dar uma facada, arrancar alguma grana do meu bolso, então eu amarrei a cara e fui logo falando: Fala, Baiano, amigão!; e ele me respondeu: Deixa comigo, Zacarias, que sou bom de motores, peças e engrenagens, e vou dar um trato no teu Fucão; e falou que pra fazer um reparo naquela máquina da melhor qualidade, precisava de cinquentinha, porque não era nenhum otário pra trabalhar de graça, e foi quando eu falei pra ele que um moleque já tinha me levado cinquenta, e voltei pro orelhão porque tinha passado umas meia hora, e eu tava impacientado, e a moça do outro lado da linha, sempre muito educada, falou: Seu Zacarias, fica tranquilo porque em três horas o reboque vai estar imbicando aí no seu possante; e eu falei pra ela: Mas, uma hora atrás a senhora falou que chegaria em três, e agora a senhora tá aumentando pra quatro; e ela, sempre muito educada, me disse: Nem tem nem jeito, seu Zacarias, porque aqui a chefia fala pra gente dizer que o reboque sempre chega em três horas, nem mais nem menos; e então eu vi que o jeito era mesmo esperar, e foi quando eu vi que Nataly vinha chegando de volta com um monte de gente, um povo que ficou rondando o meu Fucão, e foi quando um moleque que já batia no alto dos seus treze anos, com uma guria da mesma idade, entraram no banco de trás do possante, e toma de agarração e sacolejo, e era um amassando o outro, e ele metendo a mão por debaixo da saia dela, e era ela enfiando a língua no fundo da garganta dele, e era um tal de amassa peito e amassa pinto que eu comecei a me apavorar, e tudo acontecendo no meu banco de pureza e óleo pra conservar o couro do meu Fucão, então eu pensei: Meu Deus todo poderoso, que pouca vergonha é essa dessa juventude tão jovem?; e foi quando eu vi que um moleque magriça feito capim se enfiou debaixo do carro e começou a dormir na sombra fresca, bêbado pra caramba, já chegando no alto dos seus quatorze anos, e foi quando um tampinha que parecia um anão, gordo e bolachudo, entrou no banco do motorista e ficou brincando de passar a marcha, e toca de imitar o barulho do motor com a boca cheia de paçoca, e toca de cuspir e babar no painel do possante, e aí chegou o pai dele, um sujeito do tamanho dum elefante, que levantou o capô do carro e não viu o motor, e toca de mexer nas coisas procurando o motor que ficava na parte de trás do carro e não na frente, e aí ele me falou: Seu Zacarias, o senhor foi roubado, roubaram o seu motor; e eu me borrando de falar merda pra ele, de dizer que o motor ficava nas traseiras do possante e não na frente, então com muito jeito só falei: Fica tranquilo seu moço, que o motor acaba aparecendo, alguém deve ter levado ele pra consertar, mas eu acho que o defeito mesmo é no radiador, que deve de ter furado; foi quando ele concordou comigo e foi embora rebolando aquela bunda de elefante que ele tinha, e a minha Nataly só ficava me dizendo: Zacarias, que merda de carro é esse que escangalha bem no dia do pagode?; e eu já tava ficando bolado pra caramba, e expulsei aquele povo todo de dentro do meu possante e tranquei as portas, e o pessoal foi saindo de fininho, e quando eu pedi que eles empurrassem o carro até a casa da tia Nancy, aí mesmo é que eles se mandaram de vez, ninguém quis saber de ajudar, e até a minha querida Nataly perdeu a paciência comigo e foi de volta pra festa, e eu fiquei só olhando quando ela arrastou com ela o Baiano, e já tava anoitecendo, e foi quando começou uma infestação de mosquito desgraçada, e eu me tranquei no carro esperando o tempo passar, sentindo um calor desgraçado, mas livre dos mosquitos, e quando me dei conta já tinha passado mais de três horas que eu tinha telefonado pra moça educada do reboque que ainda não tinha chegado, e saí novamente do carro e fui até o orelhão pra telefonar pra ela, mas quando cheguei lá, já tinha uma mulher gorda pra caramba pendurado no telefone falando com alguém, e ela ria e ela chorava, e ela ria e ela chorava, e entre uma coisa e outra arrancava uns biscoitos da bolsa e enfiava na boca, e toca de chorar, e toca de rir, e toca de comer biscoito, e não largava aquele maldito telefone, e quando ela acabou largando, depois de quase meia hora, o telefone tava todo cuspido e cheio de farelos de biscoito, e era tanto farelo que aquilo dava pra alimentar uma criança carente, e tive que limpar com a fralda da camisa, e foi quando eu liguei pra moça educada do reboque porque já tinha passado quatro horas que eu tinha ligado pra ela pela primeira vez, e ela se mostrou espantada porque o reboque ainda não tinha chegado, mas me garantiu que em três horas o reboque ia estar imbicando no meu possante, que eu não me preocupasse, e foi quando eu falei pra ela: Moça, três mais quatro são sete; e ela nem ligou e voltou a dizer que só podia dizer que todo reboque só chega depois de três horas da hora que alguém ligasse pra ela, coisa da chefia, e então eu aceitei, tinha que respeitar porque era coisa da chefia, mas os mosquitos carniceiros pareciam nem ligar pra isso, porque só queriam me devorar, braços e o pescoço, e comecei a perder a paciência e acabei dizendo pra ela: Moça, tudo bem, que eu sou um homem viril e paciente, e espero tranquilo pelo homem do reboque, porque também sou um homem educado, de bem, parceiro, dez, mas se eu não fosse assim, a senhora já teria me ouvido dizer pra senhora ir tomar no cu, mas eu não sou esse tipo de homem e nunca vou dizer isso pra senhora, pode ficar tranquila; é, e foi isso que eu disse, mas foi quando eu vi que vinha chegando gente pra caramba, e eu agradeci à moça do reboque pela paciência dela, mas ela já tinha desligado fazia um tempão, e aquele mundaréu de gente foi chegando novamente, e ficando em volta do carro, e tinha também o irmão da Nataly, que trazia com ele um tamborim, e tinha um outro, o cara que parecia um elefante, que trazia uma cuíca, e chegou também a Chininha com um moleque pretinho que era filho do Baiano, e um outro com um pandeiro numa mão e um copo de cerveja na outra, e Nataly trazia com ela um panelão de comida e pratos de papelão e garfos de plástico, e foi todo mundo sentando dentro e fora do possante, e a minha Nataly foi distribuindo linguicinha e asinha de galinha pra todo mundo, e a cerveja rolando, e o pessoal foi se chegando, cantando e sambando, menos a tia Nancy, que ficou tomando conta da casa, porque devia de estar enlouquecendo com aquele povo todo enchendo a cara e batucando na cabeça dela, e aí começaram a tocar um pagode e a cerveja rolando, as asinhas com farofa, linguicinha e molho à campanha também, e mais cervejada que ia chegando de todo lado, e de repente chegou o moço do reboque, e lá se iam sete horas que eu tinha telefonado pra moça educada do reboque, e foi quando eu falei pra minha Nataly: Nataly, querida, acho que hoje não era dia de desgraça ruim coisa nenhuma, porque tá tudo muito legal; e o moço do reboque, um tremendo parceirão, pegou um pandeiro e um prato de farofa com asinha de galinha, e começou a puxar um pagode legal, e eu pensei: Hoje não era mesmo um dia de desgraça ruim coisa nenhuma, e a noite fechou e o pessoal foi ficando, ficando, a cerveja rolando, a farofa rolando, as asinhas de galinha também, e a cervejada rolando também, e aí eu já nem sentia mais a mosquitada me devorando.

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Publicado às 14 de julho de 2019 por em Contos Off-Desafio e marcado .