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“Pequenas Mortes Cotidianas”, de Paula Giannini – Resenha (Fil Félix)

Os contos presentes na coletânea Pequenas Mortes Cotidianas, publicada em 2017, tratam, além da morte em seus diversos significados, a questão de poder sentir. O livro convida o leitor a se abrir e sentir. Assim como a carta da Morte no tarô, a morte presente nos textos é, na verdade, um convite ao renascimento, às novas possibilidades. E o texto da Paula Giannini possui algumas características bem marcantes para auxiliar nessa viagem, como os parágrafos curtos, os jogos de palavras e o despertar das sensações, seja pelo tato, pelo cheiro ou pelo paladar.

São 16 contos curtos que abordam a coisa do cotidiano, das mais variadas maneiras. Em Mariposa, temos uma mulher que se vê em coma, podendo ouvir e até ver aqueles que a rodeiam, mas sem poder se comunicar, sendo obrigada a ver o tempo passar diante de si. Em Déjà vu são as inúmeras possibilidades que cercam nossas vidas, com em Quase reforçando essa ideia, a capacidade de se reinventar de uma mulher nos seus 40, 50 anos. Uma outra característica de seus contos é a narrativa a partir do ponto de vista de personagens inusitados. Em Bob, por exemplo, temos o cachorro-título narrando toda sua história.

Tive a oportunidade de ir ao lançamento do livro e ouvir narrarem tanto Bob quanto a Mariposa, que me deram uma imersão diferente ao livro. Pude ler de maneira mais profunda depois e realçar alguns dos pontos que mais se sobressaem de todas as histórias. A grande mensagem, dentre tantas, que fica após terminar cada um deles é a de que é preciso observar as situações com um outro olhar, enxergar as linhas que tecem nossa vida e as possibilidades que elas nos trazem, cada qual desembocando num caminho diferente. Qual escolher? Em Lagartixa, com fundo político ao representar uma personagem trans, e De Saltos Altos, sobre um atropelamento, vemos que “as vezes é preciso matar pra viver“, e a morte surge, mais uma vez, de maneira literal e metafórica. Reforçando a necessidade de se ver o bom no ruim.

Um outro tema muito forte presente nos contos é em relação ao corpo. Em Ossos Largos, há uma mulher que não se sente no corpo certo, uma alma perdida numa carcaça errada. Assim como a trans em Lagartixa. É um ponto muito interessante pois dá pra fazer vários paralelos, como os outros contos da Paula, que são narrados por animais ou objetos, sempre um ponto de vista diferente daquele que esperamos, como o gênero ou o peso dessas personagens. O título surge em dois momentos, na frase “pequenas mortes cotidianas subtraem algo de nós em todos os dias de nossas vidas”, que faz um contraponto com o último conto, Inventário, que fala sobre as coisas que acumulamos durante a vida, seja material ou não, ao mesmo tempo em que alimentamos diversos sonhos, sempre ficando pra depois. E nesse sentido, Paula faz o questionamento: “quantas vidas são precisas para que realizemos todos os nossos sonhos?”. Um livro sobre morte, vida, possibilidades, erros e acertos, sobre se sentir deslocado e, mesmo assim, poder renascer a cada situação.

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8 comentários em ““Pequenas Mortes Cotidianas”, de Paula Giannini – Resenha (Fil Félix)

  1. Marilia Rydlewski
    4 de janeiro de 2018

    Já li e reli esse livro algumas vezes, simplismente adorável, muito dos contos me emocionaram as lágrima, parabéns Paula.

  2. Marilia Rydlewski
    4 de janeiro de 2018

    Adorei a RESENHA do Fil Félix, ele analizou conto por conto, discrevendo os com muito carinho de um leitor atento, de um leitor amante do que lê e entende, simplismente maravilhosa a resenha. Alem de leitor é um amigo companheiro que vai aos lançamentos da autora.

    • Fil Felix
      7 de janeiro de 2018

      Fico feliz que tenha gostado! E que tenha mais lançamentos em 2018, estaremos lá!

  3. Bianca Machado
    4 de janeiro de 2018

    Adorei a resenha! E sei que adorarei o livro da Paula. Em janeiro quero o meu. =D

  4. eduardoselga
    4 de janeiro de 2018

    Fil, parabéns pela resenha. Acredito que tenha observado bem algumas das marcas textuais características da Paula, principalmente o que nela mais me encanta: os pontos de vista inusitados. Ela o faz com a maior naturalidade, sem o exibicionismo do diferente pelo diferente, como se fosse a coisa mais comum do mundo um abajur narrar a estória de uma criança.

    • Fil Felix
      7 de janeiro de 2018

      Também gosto muito dessa característica. E lendo os contos, viajando nas ideias, fiz um link com os textos que falam sobre o corpo, criando essa associação entre narrar por outro ponto de vista/ nascer num corpo errado/ querer ser diferente. Obrigado pelo comentário!

  5. Iolandinha Pinheiro
    4 de janeiro de 2018

    Já li vários dos textos mas agora comprei um exemplar para ter na distância de um braço esticado. Excelente autora e, que sorte, minha amiga. Parabéns pela linda resenha, menino Fil. Abraços.

    • Fil Felix
      7 de janeiro de 2018

      Obrigado, menina Iô! Também tive a sorte de poder conhecer a Paula. O EC vem construindo grandes pontes!

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Publicado às 4 de janeiro de 2018 por em Resenhas e marcado , , .