EntreContos

Literatura que desafia.

A Feiticeira – Clássico (Anton Tchekhov)

tchekhov

Era quase meia-noite. Deitado em um imenso leito, na casa do sacristão, o chantre Saveli Guikine não dormia, se bem que tivesse o hábito de dormir cedo, como as galinhas. Sob a coberta imunda, feita de restos de chita de todas as cores, apareciam seus ásperos cabelos ruivos. Do outro lado da coberta, saíam dois pés enormes, que havia muito não eram lavados. Escutava…

A casa do sacristão era cercada pelo muro curial e sua única janela dava para o campo, onde se travava uma verdadeira guerra. Era difícil perceber o que fazia a imensa algazarra; ou notar pela perda de quem a natureza punha tudo de pernas para o ar; mas, a julgar pelo seu esbravejar incessante e sinistro, que repercutia violentamente, alguém estava em perigo… Uma força vitoriosa corria pelos campos; danificava a floresta e os telhados da igreja; batia furiosamente nas janelas; varria; rasgava — e qualquer coisa vencida urrava e chorava.

O gemido lamuriento ouvia-se, ora além da janela, ora no telhado, ora descendo pela chaminé — e não era um apelo de socorro que se sentia nele, mas angustiada consciência de que não havia mais salvação, de que era tarde demais…

Os montículos de neve estavam cobertos de uma fina casca de gelo e lágrimas congeladas tremiam sobre eles e sobre as árvores. Pelos caminhos, os atalhos desafogavam um suco de lama e de neve fundida. Era o degelo. Mas, através da noite opaca, o céu não o percebia e enviava, com toda a sua força, novos flocos de neve. O vento rodopiava como um homem ébrio e sem permitir à neve tocar a terra fazia-a voar, nas trevas, à sua mercê.

Guikine ouvia o atordoante concerto e franzia o rosto. Sabia, ou pelo menos julgava adivinhar, a que levava toda essa algazarra e de quem ela era obra…

— Eu sei — dizia em um rosnar, ameaçando alguém com o dedo, sob a coberta. — Sei tudo!

Perto da janela, sentada em um escabelo, estava sua mulher Raissa Nilovna. Sobre outro escabelo, uma lâmpada de lata, que, como se estivesse intimidada e incerta de suas forças, derramava uma tênue luz vacilante sobre seus largos ombros, sobre os belos e apetitosos relevos de seu corpo, sobre suas tranças espessas, que tocavam o solo.

Costurava sacos de grossa estopa. Suas mãos corriam ligeiras, mas todo seu corpo, seus olhos, suas sobrancelhas, seus lábios carnudos, seu longo pescoço, imobilizados pelo trabalho monótono e mecânico, pareciam dormir. De quando em quando, erguia a cabeça para relaxar o corpo fatigado e olhar furtivamente a janela, além da qual se desencadeava a tempestade. Mas, logo voltava a debruçar-se sobre o grosso tecido. Nem desejos, nem tristeza, nem alegria — nada transparecia em seu rosto de nariz arrebitado e faces marcadas de covinhas. Assim como nada expressa uma bela fonte, quando não está jorrando.

Ao terminar um saco, atirou-o ao chão e, após espreguiçar-se, com visível prazer, deteve sobre a janela seu olhar fixo e terno: pelos vidros, deslizavam lágrimas e a brancura dos efêmeros flocos de neve que, tombando, se fundiam.

— Vem deitar-te — resmungou o chantre.

— A mulher não respondeu. Mas, subitamente, seus cílios começaram a mover-se a atenção brilhou em seus olhos. Saveli que, sob as cobertas, vigiava sem cessar as expressões de seu rosto, ergueu a cabeça e perguntou:

— Que há?

Raissa respondeu, docemente:

— Nada. Parece que está chegando alguém…

Com as mãos e com os pés, Guikine atirou longe as cobertas, ajoelhou-se na cama e fitou a mulher, com expressão aparvalhada. A luz tímida de pequena lâmpada iluminou a face peluda e crestada do chantre e deslizou por sua áspera cabeça.

— Estás ouvindo? — perguntou à mulher.

Através do ulular contínuo da tormenta, ele apreendeu um som de campainha muito fino, apenas perceptível, semelhante ao zumbido de um mosquito, que se zanga quando é impedido de pousar em um rosto.

— É o correio — resmungou Saveli, sentando-se sobre as pernas.

A três verstas da igreja passava a mala postal. Quando o vento procedia do lado da estrada, os habitantes da casa ouviam as campainhas. A mulher do chantre suspirou:

— Senhor! Como se pode viajar, com um tempo desses…

— Questão de dever… Queiram ou não, é preciso trabalhar…

O som pairou no ar e extinguiu-se.

— Já se foi — disse Saveli, voltando a deitar-se.

Mas mal teve tempo de puxar as cobertas: logo o som nítido da campainha novamente a seus ouvidos. O chantre, inquieto, olhou para a mulher, saltou da cama, sacudindo-se todo, pôs-se a andar em torno da lareira. A campainha ainda ressoou um pouco, depois silenciou, como se tivesse sido arrancada.

O chantre murmurou, detendo-se, olhando a mulher, os olhos meio fechados:

— Não se ouve mais nada…

Exatamente nesse momento o vento chicoteou a janela e chegou com o som fino e agudo… Saveli empalideceu, tossiu e arrastou, pelo chão, seus pés nus.

— O correio perdeu sua rota — disse, com voz rouca, olhando colericamente a mulher — estás ouvindo? A mala postal extraviou-se. Eu sei… Eu sei… Penas que não compreendendo? Sei tudo! Que o diabo te carregue!

A mulher perguntou, suavemente, sem desviar os olhos da janela:

— Que sabes?

— Sei que és tu que fazes tudo isso, mulher diabólica. É obra tua… Esta tormenta, o correio extraviado… és tu a culpada… és tu!

— Estás louco, ou és imbecil — replicou tranqüilamente a mulher.

— Há muito tempo venho notando… Desde o dia de nosso casamento, senti que há, em tuas veias, sangue de cadela…

— Ora! — exclamou Raissa, surpresa, erguendo os ombros e benzendo-se. — É melhor que faças o sinal da Cruz, idiota!

— És uma feiticeira, sem remédio — disse em continuação Saveli, voz surda e dolente, assoando-se rapidamente em sua própria camisa. — Embora sejas minha mulher e de condição eclesiástica, direi em confissão o que és…

— É meu dever. Senhor, protege-me e salva-me! O ano passado, no dia do profeta Daniel e dos três adolescentes, houve também uma tempestade de neve… e que aconteceu? Um operário veio ter aqui, para aquecer-se. Depois, no dia de Santo Aleixo, o Homem-de-Deus, o rio degelou. O chefe de polícia veio… conversou a noite toda contigo, o maldito; e, pela manhã, quando saiu, tinha olheiras e as faces cavadas. Hein? Que dizes disso? Também por duas vezes, na festa do Salvador, houve tempestades e, nessas ocasiões, um caçador veio passar a noite. Vi tudo! Que o diabo te carregue! Vi tudo! Ah! Agora ficaste mais vermelha do que uma lagosta, vês?

— Não viste nada disso…

— Tenho certeza! Vi, sim. E, neste inverno, antes do Natal, no dia dos Dez Mártires de Creta, lembra-te? O escrivão do marechal perdeu-se, não achou o caminho e veio cair aqui, o cão… E logo por quem, te enfeitiçaste? Por um reles escrivão! Gastar tempo com uma coisa dessas! Um aborto do diabo, um, ranhoso que não enxerga um palmo acima do chão, com a boca cheia de borbulhas e o pescoço torto… Se, ao menos, fosse belo… Mas é nojento, o cachorro!

O chantre tomou fôlego, enxugou os lábios e ficou atento. Não mais se ouvia a campainha, mas o vento bateu no telhado e a janela vibrou, novamente. Saveli continuou:

— E, agora, a coisa repete-se. Não é por acaso que o correio se extravia! Podes cuspir-me na cara, se não é a ti que ele procura! Ah! O diabo conhece bem suas tarefas… vai extraviá-lo e o trará até aqui. Eu seei! Eu veejo! Não podes mais ocultar-te de mim, guizo do diabo, monstro de luxúria! Adivinhei teus pensamentos, desde que a tormenta começou.

— És um imbecil! Então achas que sou eu quem fabrica o mau tempo?

— Sim, tenho certeza. Podes rir! Penas que não tomo nota? Sempre que teu sangue ferve, faz logo mau tempo e, a cada tormenta, surge-nos um cretino qualquer… Isso acontece todas as vezes… Logo, és tu a culpada!

Para ser mais persuasivo, o chantre levou o dedo à testa, fechou o olho esquerdo e prosseguiu, arrastando a voz:

— Ah! Loucura e danação de Judas! Se fosses realmente uma mulher e não uma feiticeira, devias indagar se esses homens são um operário, ou um caçador, ou um escrivão e não o próprio demônio, disfarçado em suas figuras. Hein? Devias indagar, não devias?

— Como és cretino, Saveli — disse a mulher, suspirando e olhando o marido com piedade. — Quando meu pai morava aqui, muitas pessoas vinham procurá-lo, para curar as febres… Das aldeias, dos lugarejos, das fazendas dos armênios… Quase todos os dias, sem que fossem tomados por diabos. E agora, se aparece alguém, uma vez por ano que seja, para abrigar-se do mau tempo, ficas logo pensando em feitiçarias, imbecil que és. E imediatamente tua cabeça se enche de toda espécie de maus pensamentos…

A lógica da mulher abalou um pouco Saveli. Afastou os pés nus, baixou a cabeça e refletiu. Não estava ainda firmemente convencido quanto a suas suspeitas; e o tom sincero e tranqüilo da mulher o desarmou completamente. No entanto, depois de pensar um pouco, sacudiu a cabeça e disse:

— É que nunca vêm velhos, ou aleijados: são sempre homens jovens, os que pedem para passar a noite… Por quê? Se ao menos buscassem apenas aquecer-se… mas não! Fazem o jogo do diabo… Não, mulher, não existem criaturas mais ardilosas no mundo do que as da espécie feminina… Do verdadeiro espírito, meu Deus, têm menos do que um estorninho, mas de sua malícia diabólica que a Rainha dos Céus nos salve! Escuta a campainha do correio! Aconteceu logo que a borrasca começou… Adivinhei teus pensamentos… Fizeste as tuas feitiçarias, teceste as tuas teias, aranha!

— Mas que razões trens para me maltratares assim, desgraçado? — disse Raissa, perdendo a paciência. — Por que te colas a mim, resina?

— Maltrato-te porque, se suceder alguma coisa esta noite… Deus nos preserve disso! … irei amanhã mesmo, de madrugada, a Diadkovo, procurar o padre Nicodime, para lhe contar tudo. Direi o que se está passando. Assim: perdoe-me generosamente, padre, não tenho culpa, mas minha mulher é feiticeira. Por que digo? Por quê? O senhor quer saber por quê? Por isso, por aquilo… Então, pobre de ti, mulher! Serás punida, não só no Juízo Final, mas aqui mesmo, neste mundo, também! Para isso existem os rituais…

Subitamente, bateram à janela. Tão violentamente e de forma tão inusitada, que Saveli empalideceu e encolheu-se de medo. A mulher sobressaltou-se, empalidecendo, também. Procedente de fora, soou uma voz grossa, profunda e trêmula:

— Em nome de Deus, deixem-nos entrar, para nos aquecermos um pouco! Não ouvem? Por piedade, abram! Estamos perdidos…

— Quem sois? — perguntou a mulher do chantre, receosa de abrir a janela.

— Somos da mala postal — respondeu uma outra voz.

— Nunca fazes tuas feitiçarias em vão — disse Saveli, num gesto desanimado. — Já chegaram… Eu tenho razão, vês? Mas cuidado contigo!

O chantre deu dois saltos, diante da cama, atirou-se sobre o colchão e, fungando raivosamente, virou o rosto para a parede. Logo, uma rajada fria bateu-lhe nas costas: a porta rangeu e, no umbral, apareceu um vulto alto, coberto de neve. Atrás dele, um outro vulto, também todo branco…

— Devo trazer os sacos? — perguntou o segundo vulto, o da voz rouca.

— Não. Podem ficar lá.

Dito isso, o primeiro homem começou a desabotoar sua capa de montanha e, antes mesmo de terminar, arrancou-a, juntamente como gorro, atirando-a, irritado, para perto da lareira. Depois, despiu, com dificuldade, o casaco e atirou-o no mesmo lugar do manto e pôs-se a andar pela sala, sem lembrar-se de dizer “boa noite”.

Era um jovem empregado postal, metido em uma horrível túnica de uniforme, bastante gasta, e em botas surradas e sujas. Reaquecido pelo movimento, sentou-se diante da mesa, estendeu os pés enlameados sobre os sacos e apoiou a cabeça nas mãos. Seu rosto branco, com manchas vermelhas, guardava ainda a marca dos sofrimentos e das dificuldades que enfrentara. Crispado, expressão angustiada, a neve liqüefazendo-se em suas sobrancelhas, em seu bigode, em sua barba bem aparada e arredondada, era, apesar de tudo, um belo rosto.

— Que vida de cão! — falou numa rosnadela, olhando as paredes, talvez sem acreditar, ainda, que estivesse em abrigo aquecido. — Quase passamos sem ver… não fosse esta luz na janela, nem sei o que nos teria acontecido. E só o Diabo sabe quando tudo isto passará… Não há sentido nesta vida cachorra que levamos!

— Onde estamos? — perguntou, olhando em torno.

— Procurava informar-se, baixando a voz, fixando interrogativamente a mulher do chantre.

— Próximo a Gouliaevo, na propriedade do General Kalinovski… — respondeu Raissa, tocada e corando.

— Ouviste, Stepane? — disse ao companheiro, retido na porta pela largura do saco de couro que trazia aos ombros. — Estamos em Gouliaevo.

— Sim? Tão longe, ainda?

Deixando escorregar as palavras, com um suspiro rouco e entrecortado, o cocheiro saiu e, pouco depois, reapareceu com um segundo saco, bem menor do que o primeiro. Saiu mais uma vez e trouxe o sabre do correio, pendente de uma larga correia, muito parecido como longo gládio achatado que os artistas populares colocam nas mãos da imagem de Judite, perto do leito de Holofernes. Depois de enfileirar os sacos ao longo da parede, sentou-se e acendeu o cachimbo.

— Talvez queiram tomar um pouco de chá — disse a mulher do chantre.

— Não se trata de tomar chá — respondeu o homem, de cara fechada. — Trata-se de nos aquecermos um pouco e partir o mais depressa possível: não podemos chegar atrasados para o trem da mala postal. Descansaremos uns dez minutos e seguiremos viagem. Só queremos que tenha a bondade de nos indicar o caminho.

A mulher suspirou:

— Parece castigo de Deus, um tempo assim…

— Sim…Talvez seja… Quem é a senhora?

— Nós? Somos daqui mesmo… adidos à igreja… Pertencemos ao clero… Vejam: meu marido já está deitado. Levante-se, Saveli! Vem dizer boa noite… Antes, existia aqui uma paróquia. Mas foi suprimida há um ano e meio. Quando os chefes viviam aqui, vinha muita gente… é natural. Bem que valia a pena termos um padre… Mas agora, faça idéia, como poderia viver aqui um clérigo, com a aldeia mais próxima, Markovka, a cinco verstas? Saveli, no momento, não tem cargo. Está substituindo o zelador… foi incumbido de tomar conta da igreja.

Então, o homem ficou sabendo que, se Saveli tivesse ido falar à mulher do general e escrito uma carta ao arcebispo, certamente lhe teriam dado um bom lugar. Mas não o fizera porque era um sujeito preguiçoso e selvagem.

— Se bem que, servindo ele de zelador, continuamos a fazer parte do clero — esclareceu, ainda, a mulher do chantre.

— E de que vivem?

— Há o prado e o jardim da igreja. Mas isso não rende grande coisa — disse, suspirando, a mulher. — O Padre Nicodime, de Diadkovo, que tem olho grande, acha que, só porque diz missa aqui nos dias de São Nicolau do Verão e de São Nicolau do Inverno, tem o direito de pegar quase tudo para ele. E não há ninguém que nos sustente…

— Mentes — gritou Saveli. — O Padre Nicodime é uma santa alma, uma flâmula da igreja. O que ele pega é regulamentar.

O hóspede sorriu:

— Como teu homem é zangado! Estás casada há muito tempo?

— Há quatro anos… contando do Domingo do Perdão. Papai era chantre, aqui… Quando sua hora se aproximou, dirigiu-se ao consistório, pedindo que seu lugar ficasse para mim, até que nomeassem um chantre solteiro e eu me casasse com ele. Foi assim que me casei…

O correio brincou:

— Então de uma só cajadada mataste dois coelhos, hein? Pegaste o lugar e pegaste a mulher — disse a Saveli, que se conservava silencioso e de costas.

Saveli agitou nervosamente o pé e reaproximou-se da parede. O hóspede levantou-se, espreguiçou-se e sentou-se sobre um dos sacos. Ficou um instante pensativo. Depois, apalpou o saco em que se sentara, examinando-o, mudou o sabre de lugar e espichou-se, com uma das pernas pendentes.

— Vida de cão! — resmungou, levando as mãos à cabeça e fechando os olhos. — Não desejo uma vida dessas ao mais feroz dos tártaros.

Logo, veio o silêncio. Ouvia-se Saveli fungar, enquanto o correio, adormecido, respirava lenta e tranqüilamente, deixando escapar, a cada exalação, um ruído cheio e prolongado. Dir-se-ia, em certos momentos, que uma pequena roda, mal lubrificada, rangia em sua garganta. Sua perna, trêmula, arranhava o saco.

Saveli voltou-se, sob as cobertas, e olhou lentamente em derredor. Sua mulher, sentada no escabelo, o rosto entre as mãos, contemplava o hóspede; e seus olhos tinham a fixidez dos seres dominados pelo espanto e pelo medo.

Irritado, grunhiu:

— Vamos! Que estás olhando?

— Que te importa? Continua deitado e deixa-me em paz — respondeu a mulher, sem desviar o olhar da cabeça loura do jovem.

Saveli, furioso, suspirou profundamente e, de novo, virou-se para a parede. Instantes depois, inquieto, ajoelhou-se na cama e, apoiado no travesseiro, observou a mulher, de esguelha. Raissa, imóvel, continuava a contemplar o viajante: suas faces estavam mais pálidas e em seu olhar brilhava uma estranha luz. O chantre gemeu, deixou-se escorregar da cama e, aproximando-se do homem adormecido, colocou-lhe um lenço no rosto.

— Por que estás fazendo isto? — perguntou a mulher.

— Para que a luz não lhe bata nos olhos.

— Então, o melhor é apagar tudo.

Saveli fixou-a, cheio de suspeitas, esticou os lábios em direção à lâmpada… Deteve-se, porém, e cruzou os braços, exclamando:

— É uma astúcia diabólica! Não existem criaturas mais ardilosas do que as da espécie feminina!…

— Ah! Basta, demônio de batina — sibilou a mulher, crispada de raiva. — Não perdes por esperar

E, acomodando-se melhor, recomeçou sua contemplação ao jovem hóspede.

Não importava que seu rosto estivesse coberto: isso a interessava muito menos do que a visão geral, o conjunto, a novidade e a juventude do homem adormecido. Um peito largo e forte; belas mãos, finas e musculosas; pernas rígidas e muito mais atraentes do que as gâmbias de Saveli: não havia comparação…

— Posso ser o diabo de batina — disse Saveli, ao cabo de alguns instantes. — Mas eles não têm o direito de vir dormir aqui. Sim… Não têm o direito! O serviço deles e dever de Estado… e nós seremos responsáveis, também, se permitirmos que percam o horário. Quando se transporta a mala postal, deve-se levá-la a seu destino. Não se tem o direito de dormir. Ei! Tu, aí! — gritou. — Tu, aí, cocheiro! Como te chamas? Queres que eu te conduza? Levanta-te. Não está certo dormir, quando se tem a responsabilidade da mala postal…!

Perdeu a paciência, precipitou-se para o correio e puxou-o pela manga:

— Ei! Doutores! Enquanto se pode andar, o dever é caminhar. Se não se pode, tanto pior! O que não é certo é ficar dormindo…

O jovem abriu os olhos, esticou o corpo, sentou-se sobre o leito improvisado, correu o olhar ainda perturbado pelo quarto e deitou-se, novamente. Saveli puxou-o mais ima vez pela manga, martelando as palavras:

— Afinal, quando pretendes partir? A mala postal existe para chegar a tempo, não compreendes? Vou mostrar-te o caminho.

O jovem entreabriu os olhos. Aquecido, prostrado, amolecido pela doçura do primeiro sono, não totalmente desperto ainda, via, como através de um véu, o colo branco, o olhar fixo e úmido de Raissa: fechou os olhos e sorriu, como se tudo aquilo não passasse de um sonho. Ouviu uma doce voz de mulher:

— Como será possível viajar, com um tempo desses? Fariam melhor dormindo o quanto quiserem…

— E a mala? Quem levará a mala? Tu a levarás?

Saveli falava, alarmado. O hóspede abriu os olhos, contemplou as vivas covinhas da mulher: lembrou-se do local em que se encontrava e compreendeu. A idéia de sair, pelas gélidas trevas, arrepiou-o da cabeça aos pés. Franziu a testa. Bocejou:

— Bem que ainda podíamos ficar, por uns cinco minutos. De qualquer maneira, já chegaremos atrasados…

Ouviu-se a voz do cocheiro, à porta:

— Talvez ainda a gente chegue a tempo. Com um tempo mau assim o trem deve estar atrasado.

O jovem ergueu-se, espreguiçou-se e, sem pressa, vestiu o casaco. Saveli, vendo que os homens do correio se preparavam para partir, relinchou de satisfação.

— Ajuda-me aqui! — gritou-lhe o cocheiro, procurando levantar um grande saco.

O chantre correu em seu auxílio e arrastou os sacos para o pátio. O outro empregado público começou a desdobrar seu grosso manto. Raissa olhava seus olhos, como se procurasse sondar-lhe a alma…

— Pelo menos, deviam tomar um pouco de chá…

— Bem que eu gostaria — respondeu o jovem. — Mas já está tudo preparado… É verdade que, de qualquer maneira, já estamos atrasados…

— Então fique — sussurrou a mulher, olhos baixos, tocando-lhe a manga…

— O jovem conseguiu, enfim, desatar o nó do manto e, indeciso, colocou-o, dobrado, no braço. Sentia-se arder, perto da jovem mulher.

— Que lindo pescoço!

Acariciou-lhe levemente o pescoço, com a ponta dos dedos. Sentindo falta de resistência, tocou suas mãos, seu colo, seus ombros.

— Como és bela!

— Fique mais um pouco, para tomar chá…

Ouviu-se, de fora, a voz do cocheiro:

— Que está fazendo com este saco, seu cara de arroz? Ponha atravessado!

— Fique — dizia a mulher. — Veja como a tempestade está rugindo.

Ainda não totalmente desperto, não podendo resistir ao apelo amolecedor de um sono sadio, o jovem foi subitamente tomada do desejo da mulher próxima, esquecendo os sacos de cartas, os trens-correios, todas as coisas do mundo… Assustado, como se quisesse fugir, ou ocultar-se, voltou as costas à porta, abraçou a mulher pela cintura e já se debruçava sobre a pequena lâmpada, para extingui-la, quando ouviu ruído de botas no corredor e o cocheiro apareceu. Atrás dele, Saveli olhava-o Deixou cair rapidamente os braços, hesitante.

— Tudo pronto — disse o cocheiro.

Por um segundo, ficou imóvel. Depois, sacudiu a cabeça e, completamente desperto, seguiu o cocheiro. Raissa ficou só.

— Vamos! Sobe! Mostra-nos o caminho! — ouviu ela.

Uma campainha começou a tocar, preguiçosamente. Depois, outra… e mais outra… e os sons, encadeando-se, suavemente, distanciaram-se.

Quando, pouco a pouco, extinguiram-se, a mulher do chantre ergueu-se e pôs-se a andar nervosamente. Muito pálida, de início, enrubesceu logo. Seu rosto convulsionou-se de ódio. A respiração ofegava. Os olhos brilharam, num lampejo de irritação selvagem e cruel. Andando como se estivesse presa em uma gaiola, lembrava um tigre espicaçado com ferro em brasa. Deteve-se um instante, lançando um rápido olhar sobre o alojamento. O leito ocupava quase a metade do compartimento: alongava-se, na extensão da parede, com seu colchão sujo, seus travesseiros duros e cinzentos, suas cobertas feitas de trapos. Formava um amontoado informe, muito semelhante à cara do chantre, quando ele cedia ao desejo de se empomadar. Do leito até a porta que dava para o corredor frio, avultava a lareira, com os seus esfregões e suas panelas suspensas. Tudo, sem excluir Saveli, apresentava-se no superlativo da imundície, dentro do ambiente enfumaçado, no qual parecia estranho ver-se o pescoço alvo e a pele macia e fina da mulher.

Raissa correu à cama, estendeu a mão, como se quisesse dispersar, pisar aos pés, reduzir a pó tudo aquilo. Mas, apavorada ao contato de toda aquela imundície, recuou e recomeçou a andar.

Quando, duas horas depois, Saveli voltou, coberto de neve e extenuado, já a encontrou deitada. Seus olhos permaneciam fechados, mas, pela leve palpitação do rosto, o chantre adivinhou que não dormia. Não pôde privar-se de feri-la, de ofendê-la, embora em todo o trajeto de volta tivesse prometido a si próprio nada dizer-lhe, até o dia seguinte, e não tocá-la:

— De nada serviram tuas feitiçarias… Ele se foi!

Falava com uma ironia malévola. Raissa, no entanto, calava-se. Somente o queixo tremia. Saveli despiu-se lentamente, passou por cima do corpo da mulher e deitou-se bem junto à parede. Encolheu-se, murmurando:

— Explicarei tudo amanhã ao Padre Nicodime… Contarei a mulher que tu és!

Ela se voltou bruscamente. Seus olhos faiscavam.

— Podes ficar com a casa. Mas vais procurar outra mulher na floresta. Não sou a mulher que mereces. Ah! Como seria bom que estourasses de uma vez! Que grosseiro, que vagabundo caiu-me em cima! Deus me perdoe… é o que sinto…

— Vamos, vamos… Dorme!

— Sou muito desgraçada — disse, soluçando, a mulher. — Se não tivesses aparecido, talvez eu casasse com um negociante, ou com um nobre. Se meu marido fosse outro, eu o amaria agora. Por que a neve não te sepultou de uma vez? Por que não ficaste congelado na estrada, Herodes?

Chorou longamente. Por fim, suspirou bem fundo e acalmou-se. A tormenta crescia cada vez mais, além da janela. Na lareira, na chaminé, do outro lado das paredes, alguma coisa chorava; e a Saveli parecia que esse choro era dentro dele próprio e perto de seus ouvidos. Naquela noite, ficou definitivamente convencido da verdade de suas suspeitas em relação à mulher. Não duvidava mais de que, com a ajuda do maligno, ela dispusesse das tempestades e das tróicas do correio. Não duvidava. E, como para aumentar seu sofrimento, esse poder sobrenatural, esse mistério e essa força selvagem davam à mulher, deitada a seu lado, um fascínio especial, incompreensível mesmo, que nunca percebera antes. Sem que se desse conta, ele a poetizara e parecia-lhe que se tornava agora ainda mais branca, mais suave, mais distante.

— Feiticeira! — exclamou, com raiva. — Fora, sua nojenta!

No entanto, na suposição de que, já acalmada, ela começasse a respirar regularmente, tocou-lhe a nunca com os dedos. E tomou nas mãos sua pesada trança. Ela não o sentiu. Mais audacioso, acariciou-lhe o pescoço.

— Deixa-me! — gritou a mulher. E, com o cotovelo, bateu-lhe tão fortemente no nariz, que centelhas cegaram seus olhos, por instantes.

A dor do chantre acalmou-se logo. Mas seu suplício continuou…

…………………………………….

Tradução de Maria Jacintha

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Publicado às 10 de janeiro de 2017 por em Clássicos e marcado .