EntreContos

Literatura que desafia.

Sabugo – Conto (Cilas Medi)

De milho. Sim, ele sabe, arrastando para o lado direito, com a mesma mão de direção, o suor. Mais sabugos, deles, dos milhos que gastou quase um grande, milhão, para colocar em todos aqueles alqueires de terra. E não vai colher nem quarenta por cento. Vai ter que comprar mais deles para poder suprir a necessidade de seus animais. E o chapéu voltou para a cabeça, depois que passou o lenço por ela, tirando o suor pelos poros pelados de cabelos. Só na lateral. O que adianta em certas horas ser um grande latifundiário? As cobranças para o céu, tentando enxergar e colocando a mão em concha nos olhos. Para mais adiante e adiante. Um enorme esse, trabalho demais, vendo o estrago da carestia. De água. Por favor, céu, e todos os seus arautos de bondade e caridade, para onde levou a nossa chuva? De longe, também, viu, pela estrada de terra, que separa um dos vários talhões que tem a sua disposição e colheita, um veículo. Sabe lá. Está sozinho. Prefere assim, apesar das máquinas colheitadeiras e todo o aparato, enorme e financeiramente grande, de muitos milhos e alguns milhões. Ri disso, o que se pode fazer. Essa brincadeira, apesar de velha, é coerente com o que está vendo. E alguém está com pressa pensou depois que contou maquinalmente e mentalmente, o possível chegar da máquina de quatro rodas e tração nas quatro. Ele sabe quem é agora. O filho. E pelo visto, algo em desespero. Esperou. O milho está no meio do caminho também, vendo os pés a altura do umbigo, pegando mais um em formação e vendo o estrago. Nem bem nasceu e já morreu. Ele parou na estrada, quase deixando o veículo continuar, voltou, travou e continuou na desabalada e quase o derruba.

— Pai, volta logo, pai, aconteceu uma desgraça.

— Mais? Demonstrando a aflição. O que foi? Fala logo.

— A mãe, pai, o Vicente levou para o hospital. Ataque cardíaco. Ele se aprumou depois de um pouco de mal-estar e o filho o ajudou, a se recuperar e enterrar um pouco mais o chapéu, enquanto voltavam para o veículo. E o desespero da volta foi duplo, agora, com o filho preocupado com ele também. — Calma, viu pai, desculpe chegar assim, mas fiquei nervoso. E o carro, de quase um milhão, pensou, também vai acabar na vala de um dos talhões se continuarem assim.

— Calma, Vitinho, calma. Se o Vicente já ajudou a sua mãe, estou bem também. Vamos mais devagar, vai acabar atropelando alguém.

— Tudo bem, diminuindo. Ela chegou a ficar roxa, pai, nos lábios.

— Então foi quase fulminante. O que estava fazendo?

— Nada, pai.

— Quer parar de mentir para mim, Vitinho. O que ela estava fazendo?

— Trabalhando. Na cozinha.

— Está mentindo. Ela estava nas flores, não é? Estava ou não?

— Estava sim, pai. Mas lá o trabalho é leve.

— Sim, muito leve. Já falei que não deveria. Que mulherzinha teimosa!

— Ei, a minha mãe está mal e ainda vai brigar com ela?

— Não vou brigar nada, tirando o chapéu e o pouco de suor, agora, no meio do ar refrigerado. Vá mais devagar. Eu já sei que o doutor vai falar e não será pouco.

— E está com medo dele, por acaso!

— Não tenho medo de nada. Minto, tenho medo de saber que ela pode morrer isso sim, é o meu maior medo.

— Não fale assim pai, por favor. Implorando.

— E porque vocês não a seguram em casa?

— A Clotilde não consegue e é amiga dela há anos pai. O que eu posso fazer? Tenho meus compromissos, minha faculdade e tudo o mais. Ela não obedece a ninguém. E a Marcinha já ligou também. Quer falar com ela? Estou com o do sinal de rádio. E apontou para o mesmo, à frente. Ele não ligou para o assunto, olhando para fora e enxugando a camisa de vez. E tem mais um ou um e meio quilômetro para chegar. E está, agora, fugindo do campo. Direto para a mensagem e iluminada presença da esposa, quarenta anos atrás. E vendo o apavorado do filho, preocupado em chegar. Menos violento agora. Não se pode fazer nada. Não somos médicos, somos latifundiários. E a mensagem retorna sempre. Enquanto vivemos somente para nós, é uma coisa. Quando refletimos nossa vida para outros, como ela, sua paixão, outra. E ficou assim, olhando o milharal à sua frente, depois do lado direito e do esquerdo, passando e vendo o olhar pétreo do filho para a estrada de barro, cinco metros de distância entre os dois talhões. E logo virá uma encruzilhada, pegar à esquerda e chegar à casa da fazenda. No meio de um pequeno bosque e o começo dela, da pequena fazenda para o latifúndio. Do que adianta tanta terra e tantos desejos, cumpridos os seus ditames ou não. Basta olhar que a vida acontece. E acaba no mesmo sentido. Sem água, o milharal. Sem saúde, a vida. Da esposa.

— Pai, tudo bem?

— Sim, tudo bem, estamos chegando, diminua, por favor, não vai querer fazer uma curva de noventa graus a oitenta quilômetros por hora. Diminua Vitinho.

— Já fiz, tirando o pé do acelerador. Já fiz. Olha lá o pessoal.

— Estou vendo. Pare um pouco, anda. Não vai adiantar nada chegar mais dois ou três minutos antes. Pare, estou mandando.

— Como pode fazer assim, pai, ela já deve ter chegado ao hospital.

— E eu posso fazer o que?

— Não ama mais a minha mãe.

— Ela é minha esposa antes de ser a sua mãe, por sinal, sabe como se faz, falou bravo. Ele parou.

— Altênio abrindo a janela. No pasto doze estamos precisando roçar. Fica esperto com o pessoal.

— Sim senhor. A dona Lucília está bem?

— Não sei ainda.

— Patrão, liga para o hospital, queremos saber. Ele pegou o telefone do “quatro rodas”. E fez o capataz, o gerente pegar no mesmo.

— Ligue você, falou bravo. Pode ligar e perguntar. Vamos, Vitinho. Fechou o vidro e fez o gesto de ter que sair. Ele engatou a marcha e virou à esquerda, deixando o pobre do homem sem saber o que fazer. Viu pelo espelho retrovisor do seu lado. E sorriu triste.

— Ele liga mais para ela que o senhor, falou bravo.

— Se ouvir essa besteira novamente, eu mando você parar e vou a pé. Vai falar, provocou.

— Não, não vou. Por que está bravo assim com ela?

— Porque tem sessenta e seis anos de idade e não se conforma em que está ficando velha, falou bravo. Eu não faço essas estripulias.

— Ah, não, não mesmo. Onde peguei o senhor? No pasto, no meio do nada e sozinho. E tem quantos, senhor Alencar.

— Sessenta e dois, sorrindo amargo.

— Sessenta e nove, devolveu o filho.

— Setenta e um, completou. Que tal noventa e seis. Um século. Do passado, pontuou bravo. E vá mais devagar, já pedi. Falta pouco. Não adianta nada esse nervosismo todo. Se tiver que ser, será. E o olhar para frente, tentando transparecer o que não estava sentindo. O extremo nervoso nos seus sessenta e oito anos de idade. Com a esposa no mesmo sessenta e seis. Linda, sempre foi. Nos seus vestidos floridos, pensou. Nas suas tranças, para brincar de criança feliz, quando com dezoito anos. E nas festas, desde pequena, nas rodas de laço e correr com o cavalo, trotando ou bailando em volta das marcas de tambores. E ganhando boa parte das disputas entre as amigas. E ganhou a ele, seu coração, pulmão e tudo o mais que precisa de ar. Para respirar e continuar sentindo a sua amada. Agora, nesse exato momento, disfarçando bem. Muito bem, por sinal, a ponto de o filho cobrar uma atitude de desespero. Não, não vai fazer. Vai se controlar. E se ela morrer, não precisa da nova safra de milho. Que fiquem para eles todos, seus três filhos.

— Está bem, pai!

— Já perguntou, já entendi e não fale mais, por favor.

— Está bem, tudo bem. E parou de vez até chegar a casa. E foi assim, com a mesma atitude, agora de puro pavor em procurar saber se a mãe estava bem. A irmã, no alto da escada de cinco tábuas, madeira forte e circundado por jardim que a sua mãe faz questão de cultivar. Com ou sem saúde. Ele puxou o breque de mão e trouxe de volta a porta do veículo. E ficou ali, imaginando.

— Como está a mamãe?

— Está bem, calma. E o papai?

— Vai fazer o mesmo, pelo visto. Não está nem aí para ela.

— Não fale bobagem, Vitinho. Ele deve estar desesperado. Eu o conheço. Agora vai ficar na cabine, no refrigério, para ver se a alma fica fria, pensou bem. E não vai voltar lá para incomodar. Liga para o hospital e se acalme.

— Eu vou até lá.

— Não vai não, já disse. E se acalme. Tome um chá de camomila, ponderou. E esperou, voltando a atenção para o automóvel. O pai vai ficar assim, tirando e colocando o chapéu, se refrescando no geladinho. Por todo o tempo que achar necessário e o coração voltar a pulsar corretamente. Deve estar na taquicardia e logo volta ao normal. Ela esperou, sentando-se na cadeira de balanço dele, a preferida. Que fica assim, vendo o tempo passar, chorar por água da chuva e finalmente ficar feliz quando ela chega. Na partida da esposa querida para o hospital é totalmente ao contrário. Espera que não venha a chuva de lágrimas.

— Vai falar com ele ou não?

— Vitinho, vá tomar… chá, já falei. Não me encha o saco, irritada. Estou descansando.

— Tudo bem, você é que nem ele. Não liga. Ela olhou com toda a doçura para o irmão, o melhor que seja possível e depois a carranca de desagrado. Ele entendeu, abriu a porta com os traços de espantar bicho do mato, de luz e lanterninhas que os fazem se aproximar. Ainda ficou assim, no quadradinho do lado de fora do rosto, ela brincando que seria engraçado ele passar por elas, esses quadradinhos e vir em pedacinho. Estava montado desse jeito. Pedacinhos no coração aflito. E voltou a olhar para o pai, depois que ele abriu a porta principal e deixou a outra bater forte. E fez o mesmo com a grossa. Um grande barulho. Do lado de dentro, ouviu a amiga da mãe, de muitos anos gritar de volta.

— Calma Vitinho!

— Está bem, calma Vitinho. Só isso que sabem falar. Merda!

— Ei, Vitinho, quer parar. Ela gritou assim e voltou ao que estava fazendo. Esperar o pai. E foi o que aconteceu. Mais meia hora e ele, finalmente, saiu do carro. Ela se levantou e foi, devagar, como ele sempre pede, para junto dele. Sentou-se agora, no banco de frente da casa, debaixo da marca de amor, coração e tudo, observando e lembrando-se de quando o fez e a conquistou integralmente.

— Pai!

— Oi, filha, esperando que sentasse e o abraçasse por trás com o braço e mão esquerda. E pegou em sua mão direita, levemente. Tudo bem, não é, perguntou.

— Tudo bem sim. O Vitinho é que é um apavorado, pai. Está nervoso?

— Estou calmo agora, refrigerado, tentou sorrir.

— Estou sentindo. Caiu a pressão, você está gelado.

— Eu aumentei o ar, querida. Não se importe com isso. Eu posso ficar gelado, ela não.

— Quer parar de falar assim. Olha só o milho, está lindo.

— Em parte. Precisamos ver, tem sabugo pequeno no talhão doze.

— Está bem, não vamos falar sobre isso agora.

— E vou falar sobre o que. Milho não pode. Sempre foi isso que fiz a vida toda. Não, fiz filhos maravilhosos. Melhor, ela me deu três filhos lindos e maravilhosos. E agora, parece que sim, quer me deixar.

— Não, não fale assim. Não vai lhe deixar não. Ela é forte. Está nova ainda. Vamos, por favor, não fique assim. O Vitinho piora e já falou merda dentro de casa.

— Vou deixá-lo de castigo, pode deixar. Ela sorriu, levemente. Deixar de castigo. Até parece. Nem quando a gente pôs fogo no celeiro não fez, mais cuidou das poucas feridas do que ele, o celeiro. E foi um grande prejuízo. Agora, nesse exato momento, com filhos, como o Vitinho, o caçula e mais apavorado, com vinte e quatro anos de idade é mesmo o máximo.

— Deixar de castigo. É mesmo? Vou só ver isso. No quarto? Vendo televisão e computador?

— Também, falou e olhou para ela. Tirou o chapéu e deixou do lado do banco. Você ainda me ama, perguntou triste. Pronto, ela sabe, vai recomeçar a ladainha. Se você me ama, mais do que a sua mãe e assim por diante. Carente. Da ausência dela. E da possibilidade de ser finalizada a de tê-la de volta.

— Sempre o amarei do fundo do meu coração, do meu pulmão, de todas as minhas entranhas que ainda, ainda, não lhe deu um neto. Mas prometo para logo.

— Está bem, não fique nervosa por isso também. Já bastam os dois do seu irmão. É o suficiente.

— Claro que sim. Claro. Está melhor. Vamos entrar e descansar?

— O Altênio vai ligar. Se ele chegar depressa já sei que aconteceu errado. Se chegar devagar, sorrindo, já sei o resultado. Estou rezando para ele demorar muito.

— Não entendi.

— É porque está vindo a pé. Então não tem problemas, falou solitário. Ela sorriu novamente. O pai constrói essas configurações estranhas. Mas tem que aceitar. De fato, tem razão. Se vier devagar é porque não é urgente. Diferente de como o irmão saiu e voltou com ele. Deve ter sido o mesmo, de sempre. O Vitinho reclamando dele e o pai fazendo aquele ar de que não é nada comigo e que está tudo bem.

— Vamos entrar papai, por favor. Vá descansar em sua cadeira de balanço. Vou lhe preparar um chá de camomila.

— Está bem, vou com você. Ela sabe que é mais do que carência. É doação total. Está esperando a resposta de seu questionamento de segundo em segundo. O que está acontecendo com ela. Por favor, céu e inferno nesse instante. Responda. Que sim, que está tudo bem. Obrigado, céu. Vá para longe, inferno. Ele levantou e a filha o amparou. Só nesse instante, mesmo, porque normalmente não é assim. É forte, disposto e voluntarioso. Em todos os seus poros.

*o*

 

Ele, o doutor já entrou sorrindo.

— Então, como está a minha paciente favorita. Rica, linda, com ótimos predicados e muito dinheiro no bolso. Como vai Vicente.

— Como vai, doutor, tentando sorrir da brincadeira dele.

— Oi, Estevão.

— Olá, Lucília, já avisei, ele lhe trata mal por isso fica tendo esses achaques. O que podemos fazer por você, sorrindo para a enfermeira também.

— Ela ficou roxa nos lábios doutor.

— É de paixão pelo seu pai. Por mim ficava e vinha sempre com o vermelhão para me manchar e dar problemas com a sua prima, não é Lucília.

— É sim, rindo.

— Mamãe, quer parar, por favor. O que está fazendo, aflito, para ele.

— Massagem cardíaca.

— Não pegou sequer nela.

— Não está sentindo o coração pulsar mais forte, Lucília. A me ver, não fica assim, morrendo de amores. Ou vivendo deles, dos bons momentos. Deixa ver, olha só, cento e vinte por minuto. Excelente. E com várias válvulas ocupadas por gordura. Sabe o que é excesso de amor. Eu sei muito bem. Ela rindo, a enfermeira acompanhando e ele colocando o escutador de bumbo como chama.

— Tire esse escutador de bumbo, falou ela. Está gelado.

— Então já está boa. Pode avisar ao seu pai, aquele agoniado. Ele fitou bem aos dois, amigos de infância, como o pai. E essas conversinhas de médico idiota.

— Está bem, vou ligar. E a senhora se comporte. O senhor também, falou bravo e puxando o celular. Do lado de lá, no sem fio, a Marcinha. E ouviu a boa notícia e o bravo do irmão mais velho reclamar dela, a mãe, e do médico que atendeu. E a brincadeira que não gostou.

— Deixa de ser pior que o Vitinho. Um beijo, querido.

— Outro. Desligou e voltou ainda para ouvir outra dos dois.

—… abandone de vez essa vida. Ele ainda vai acabar com você, meu amor.

— Pare com isso, o meu filho vai brigar com você. Oi, querido, avisou a sua irmã?

— Sim, ela pediu para eu me acalmar.

— Só tenho filhos nervosos.

— E um marido chato. Vamos, enfermeira Generosa, vamos embora do mau humor, salientou e direto no garotão nervoso ao lado da mãe. Ah, esqueci, vou cobrar em dobro. Estava namorando e você me tirou de cima dela. A enfermeira abriu os olhos e a mãe dele, partiu para a gargalhada. Ele saiu do quarto, rindo também.

— Quer parar, mamãe. O pai não vai gostar de saber que está se divertindo. O que aconteceu, afinal.

— Fiquei mal, roxa nos lábios e você me trouxe. O que foi fazer na minha casa?

— Estava preocupado com a senhora. Parece que foi a mão…

— Pronto, vai começar. Eu sempre sei o que a senhora e o papai estão fazendo. O descobridor da forma de ler pensamentos e ações. Não preciso ouvir isso de novo, Vicente. Quer me largar, não vou quebrar. Quando estava gemendo e o fazendo vir ao mundo não precisei da ajuda de ninguém.

— E me devolve com essa má criação a minha preocupação?

— Sei, sim, sei, devolvo sim. Agora me deixe em paz. Quero esperar o seu pai assim, calmo. Vá, já fez tudo o que podia.

— Mamãe, por favor!

— Mamãe, por favor, qual, qual favor você quer de mim. Tenho problemas cardíacos, o que posso fazer? Ficar parada, olhando o milho crescer? Vou continuar limpando e arrumando o meu jardim e a minha linda coleção de crisântemos. O que posso fazer se tiver que morrer, quiçá no meio delas. E perto do seu pai. É o suficiente para a minha vida.

— Quer saber de uma coisa, vou lavar as minhas mãos.

— Sujou aonde?

— O que disse?

— Aonde você sujou para ter que lavar. E riu. Ele pensou bem, ela está provocando novamente, como sempre fez, aliás, para ele e o irmão, com a irmã segura entre as pernas e rindo dos dois. Ela a protegeu, sempre, por ser assim, como ela. Sem zanga no mundo, a não ser quando apanhavam a boneca preferida, fazendo os altos giros por dentro da casa, parecendo uma mulher mais do que maravilha. Uma super boneca voadora. Fora isso, todos têm o seu ponto fraco, era linda e generosa com eles dois. Comigo, o mais velho, sempre dizendo que era assim mesmo, quando apanhava na escola. E para o mais novo, nervosinho, era assim mesmo quando o defendia e vinha de olho roxo. E nos beijava, igualmente, chorando ao lado dela que a punha no colo e considerava que os três deveriam continuar sempre. Amigos, antes de ser irmão. E irmãos para apanhar de chinelo velho dela, quando faziam estripulias. Lembranças.

— A senhora sempre engraçadinha. Mas foi forte dessa vez, sofreu não foi?

— Sofro mais quando ficam com essa cara que está fazendo agora. Claro que sim, mas não foi pior do que pôr três cabeçudos no mundo. Portanto, estou bem. Ele desconsiderou a última frase. Ela faz assim, talvez influenciada pelo pai, deles três. Sempre tudo é contornável. Agora, com a doença coronária dela, a cinco anos atrás, de algo que não souberam precisar o motivo. O colesterol correto, os exames também. Até pesquisa com o pouco que usa nas plantas, de veneno e fertilizantes foi avaliado. Dor de amor foi o diagnóstico do amigo. Um cara muito chato como marido. E ficou assim. Ela debilitando a cada dia. Talvez, talvez, ele disse e para isso partiu de vez a pesquisa, alguma doença proveniente da falta de alguma química melhor. Deu remédios para fortalecer as paredes das coronárias e isso pode ter afetado mais ainda a fraqueza. O efeito colateral. Todos os remédios abusam disso, na formulação. E para ler tudo, alguns com duas folhas de letras miúdas, prejudicam mais ainda. Não se sabe o que pode ocorrer.

— Vou ficar até o papai e a Marcinha chegarem.

— O que se pode fazer, não é mesmo. E não preciso de quarto particular.

— Não ouvi. Até logo. Já que não quer a minha presença vou ficar lá fora.

— Ótimo, falou brincando. Viu o filho sair e o olhar agora, de susto e repreensão. Não faça mais isso, querida, pode morrer no meio de suas famosas bromélias e outras que tais. Quero todas elas, sentir o perfume. É a minha vida também. Mas está e vai ficar melancólica e não pode transparecer isso para ele. Vai chegar nervoso demais, fingindo calma. Eu conheço o meu velho. E estamos velhos mesmo, ele tem razão. Menos saúde, nesse sol abrasador que ele vai para a sua batalha diária. E eu, no frescor das plantas, não deveria estar carregando os vasos pesados. Por que será que as pessoas ficam assim? E o médico voltou.

— Ele já foi, perguntou e colocando a cabeça para dentro do quarto.

— Já, entre. Então, como estou?

— Morrendo, com certeza, se continuar fazendo isso. Quer parar, por favor. Se um morre o resto vai atrás. Ela começou a rir de novo. Ele é mesmo uma peste. Assim, desde criança, brincando com a ranzinza do, agora, atual marido. Que não sabe por que é feliz, já que casou com a mulher mais feia da praça. Tudo mentira. Troca de amabilidades.

— E essa agora ele vai chegar rápido. Já ligou que está tudo bem.

— Mas não diz que faz ao contrário. E o Altênio ligou também. Que cara chato.

— É apaixonado por mim, rindo.

— Eu também e não sou chato.

— Isso é verdade?! Vai fazer exames?

— Todos. Peladinha.

— Chato. Tarado. Sem vergonha. E viu o amigo sair e continuar rindo. A enfermeira voltou. Ela se prontificou. Mais uma grande bateria de exames. Para comprovar o que todos sabem. Ela é cardíaca, tem lá os seus problemas já identificados. E um ótimo médico. Que lhe traz, nesses momentos, ótimas lembranças também. Tudo ótimo. Menos essa picada de agulha, sorrindo para a enfermeira que devolveu aquele célebre está tudo bem, sorrisinho maroto. Bandida. Está doendo isso sim. Como a dor no peito. Fiquei sem ar. E roxa na boca. Está piorando. Estou morrendo aos poucos. Então, que seja logo. Esperou terminar e ela lhe devolveu o mesmo sorriso. Ajustou a cabeceira e levantou um pouco, colocando o travesseiro por baixo. Dois. E foi assim, nesse conforto que entrou a luz da sua vida. Com aquele disfarçado no olhar. Não estou bravo e nem nervoso, meu bem. Você também está ótima.

— Oi, querida, abaixando um pouco e o beijo demorado na testa. Segurando o chapéu na mão esquerda e a direita dando toques em seu cabelo branco. Poucos pontos azuis. E a filha, sempre no olhar enérgico. E outro beijo, do outro lado. E ela de um para outro.

— O que foi?

— Nada, tudo bem. A senhora está melhor? O Vitinho pode entrar? Ele está nervoso, segredou.

— Estou melhor. Manda entrar o bruto brincou. E você, estava no meio do milharal?

— Como adivinha meu amor.

— Eu sei tudo de você e você tudo de mim. Portanto, já sabe que estava cuidando das minhas plantas e foi o peste do Vitinho que contou. Eu vou deixar todos eles de castigo.

— Então o Altênio e o pessoal todo. Vou ficar sem poder colher o milho nessa temporada, tentou brincar.

— Está certo. E o filho, apavorado, entrou no quarto.

— Oi, mãe. E deitou sem se ater à condição, em seu peito. O pai puxou e apontou.

— Justamente aí, Vitinho.

— Desculpe. E beijou em sua testa, pôs a mão direita nela e mais um beijo demorado em sua face esquerda, com um princípio de choro. Mãe, falou emocionado.

— Estou bem, querido. Estou muito bem. Foi só um susto.

— Ou o número milhão de susto, mãe. Não vou deixar a senhora fazer isso novamente.

— Quem pensa que é? Sou a sua mãe!

— Eu sei a Marcinha também e o doutor Vilarinho aqui também. Todos sabem o que faz e quando faz. Portanto, vou ficar vigiando ou colocar alguém para fazer isso, especialmente.

— Nossa quanta generosidade. Vou morrer enclausurada. Quer parar, por favor, vai me aborrecer. Agora fora, quero conversar com o pai de vocês. Vem querido. Ele pegou na mão dela e afagou a mesma da continuação do braço que levou a picada. Quando eles estavam saindo, de volta, o médico. E lá vêm bobagens.

— Quer parar de agredir a sua mulher Vilarinho.

— Não vem com as suas brincadeiras. Como ela está?

— Está não está vendo. Aqui, olha, tentando tirar a mão dele da dela. Quer dar licença, fingindo empurrar. Sai fora, malfeitor. E colocou, de novo, o aparelho para medir a pressão, com ar de afronta para ele. Que resolveu não criar mais caso. E mediu, perfeitamente. Está ótima, cento e vinte por quarenta e nove. E ainda levantou o peito para cima dele.

— Cento e vinte por quarenta e nove. Fala certo, que cara chato.

— Chato é você. Querida, doze por oito. Fenomenal. Basta me ver e tudo volta ao normal. E agora, seu chato, não deixe que a sua presença modifique, ouviu bem. Posso mandar prendê-lo por bater na esposa.

— Que cara chato. Cai fora, médico ginecologista.

— Pensa que me ofendo. É uma nobre profissão, seu milhão. Falando nisso, vou cobrar em dobro.

— Ainda brinca assim! Tiramos você de cima dela! Só se for do sofá, seu palhaço. E ele riu, saiu e o casal ficou assim. Ele completou. —Continua maluco. E você está ótima, afirmou.

— Eu sei. A sua presença me deixa assim.

— Enamorada?

— Não, aceitando o desprazer, o que posso fazer. Lá vem bronca, eu sei. Pouca, meu bem, por favor, estou doente, lamuriou. Ele beijou de volta, na boca que ficou roxa. E ela sentiu a aflição, finalmente. Ele estava tremendo. Muito. E parou a brincadeira.

 

*o*

Eles aguardaram as novidades de dentro do quarto, esperando o pai sair. E o doutor passando por eles, também, sempre sorrindo. E não conseguiram nada mais além do famoso.

— Ela vai ficar bem, não se preocupem. E foi assim, mesmo quase implorando para novas informações. Para as enfermeiras que já conhecem a rotina do doutor e suas brincadeiras, algumas bem particulares, fazem o mesmo.

— Já estamos vindos com os exames, aguardem, por favor. Que por favor, que nada, é obrigação de vocês nos derem informações sobre a nossa mãe. Essas ficam no pensamento, tomando cafezinho e águas, alguns chocolates e prontos para esperar o pai. Que finalmente, depois de mais de uma hora, saiu do quarto. Chorando. E enxugou as lágrimas novamente. Eles três se precipitaram para dentro do quarto. E lá, chorando também, ela, a voluntariosa dona Lucília.

— Vão embora, não chateiem o seu pai. Vou ficar aqui, isolada. Já combinamos. Não vêm Vitinho, não chateia.

— Poxa, mamãe, não chateia. Estamos preocupados.

— Isso não vai melhorar as minhas coronárias, vão embora. E não fiquem perguntando para o pai de vocês toda hora. Ouviram?

— Sim senhora.

— E Marcinha.

— Sim, mãe.

— Traga os meus netos, por favor.

— Não começa com esse clima de estou indo embora e querer ver os netos.

— Quem disse que vou embora?

— Fez o pai chorar.

— De emoção, filha, rindo. Ele vai ter que cuidar dos meus crisântemos. Então, o que estão esperando? Se sair daqui, sem vocês me obedecerem, o chinelo vai cantar.

— Nossa, que medo!

— Vicente, Vicente. Vão logo. E cuidem do pai de vocês três. Não de dois, é mesmo. Ainda não sei quem é o pai de você.

— Você quem mamãe? Ela colocou a cabeça para o outro lado e continuou reclamando algo e eles três se olhando. São parecidos em tudo. São filhos do mesmo pai, com certeza absoluta, até pelos traços dos dois em cada um deles. Mas ela faz assim, também, para arreliar e os tirar do sério.

— Vamos embora. Vamos, Vitinho.

— Quer me largar, Vicente. Sempre soube que você não é filho do nosso pai. Ela é que não quer contar.

— Você ainda acredita nessas bobagens, Vitinho. Vamos, já entendi mamãe, está nos expulsando, tudo bem, beijando a mulher, puxando o rosto e beijando nele, no esquerdo. Ela está chorando, essa é a verdade. Ele sabe, faz assim para não os deixar mais preocupados e fazer com que irritem mais ainda ao pai.

— Obrigado, amor, você sempre foi um anjo.

— Do que, do pau oco? Até logo, mamãe, não se atreva a ir embora sem nos avisar. Trinta anos antes.

— Certo, estou avisando agora, então. Trinta anos. Noventa e seis, nossa, que horror. Vão com eles todos, os anjinhos. E a filha abraçou e ela se sentiu, como sempre, com o abraço dela, reconfortada. Mulher com mulher. E a sua se tornou uma enorme. De uma gentileza e amor por todos os poros. Vai ser uma ótima mãe, não perdi o meu tempo. E adora os meus crisântemos, pensou. E parece que ela lê os seus pensamentos.

— Deixa que eu cuide deles, o papai já tem bastante sabugo para cuidar, sorrindo. Eu te amo.

— Eu te amo também, querida. Traga os meus netos.

— Não vou trazer nada, trate de sair dessa cama e ir vê-los. Não pode entrar criança no hospital, ainda mais para ver a avó querida deitada em uma cama com esses penduricalhos todos. Comporte-se.

— Não se preocupe, se ele me deixar nua muito tempo eu aviso ao seu pai, sorrindo.

— A senhora não tem jeito. Bem, vamos embora. Ela já retornou, vai viver mais trinta anos. Promessa é dívida, e ela sempre nos pagou. Beijou novamente. Ela sentiu esse tempo todo o amor dos filhos. De um mesmo pai. E vai rir, como agora, sozinha e esperando o médico vir lhe tirar a roupa e fazer todos os exames. Em todos os poros. Em toda a sua debilitada forma. Vai morrer, sim, talvez dessa vez. E não quer mais judiar dos seus. Estou morrendo, gente, tenham compreensão. Não vou desaparecer da vida de vocês. Existe uma próxima, logo aqui, do lado dessas.

— Como está a minha paciente favorita, retornou ele depois de mais uma hora e meia. Então, eles se conformaram. Falou com eles não foi?

— Não, não falei. E não quero ficar nua novamente. Não pode só auscultar? Estou morrendo, que merda, deixe-me em paz. Ele olhou para cima, desconversando.

— Quero você nua e pronta. Se não pude antes, vou lhe perturbar agora. Ela riu, novamente, a pulsação melhorou e ele foi embora. E faz assim, de tempos em tempos, vem perturbá-la e a pulsação melhora. Mas isso é um paliativo, ela sabe, mas se diverte do mesmo jeito. Mesma brincadeira. Se não fizer, faz falta. Muita falta. E o coração volta a bater em seus sessenta ou até menos, por minuto. E salta para cem quando ele entra. Ficou em dúvidas, entre ele e o marido. Mas escolheu certo, isso não tem dúvida nenhuma. E a prima ficou com ele. Outra coisa mais sensível ainda. E agora, na sua frente.

— Oi.

— Oi, Ludmila, como vai.

— Tudo bem e você. Ele continua lhe perturbando?

— Bastante. E já me viu nua de novo.

— É um tarado, não posso fazer nada.

— Pode sim, diga para não fazer. Fico constrangida, brincou.

— Até parece. Então, vai voltar quando?

— Não sei querida, dessa vez eu acho que é definitiva.

— Não fale bobagens, ele me disse que está melhor.

— Sim, quando entra no quarto, fala as bobagens que você já está cansada de saber e eu ainda consigo rir delas, de nossa infância e de nossas brincadeiras. Fui sempre feliz. Cuide dos meus filhos e do meu marido.

– Tenho os meus e o meu marido também para cuidar. Trate de sair dessa cama e pronto, não se fala mais nisso. A semana que vem temos as visitas para fazer e a reunião das Senhoras Despudoradas, brincou. Ela voltou a rir. Essa é outra. Das reuniões de chá da tarde, ele, a bestinha do marido dela e seu médico particular, falou assim uma primeira vez. Chegando de maiô e dizendo que iria fazer um “strip”. Assim mesmo, vou fazer um escândalo entre as senhoras. E fez o escândalo, não o “strip”. Ainda tem mulheres que se acanham, e, nessa sociedade elas se divertem justamente por isso.

— Dessa vez não vou, querida.

— Vai sim. Em mais dois dias estará de pé. Os crisântemos precisam de constâncias nos cuidados. E quero dois, um branco e um vermelho. Trate de me entregar.

— Certo. Certo, confirmou no rosto contraído dela. Está bem, já falei, vou levantar. Dois dias?

— Dois dias. E agora, vamos às orações.

— Está fazendo o papel do padre?

— Pare com isso, já disse. Vamos lá. Ela fez um esforço e juntou as mãos. E rezaram. Quando o marido chegou de volta, estavam assim, compenetradas na oração e ele acompanhou, sorrindo levemente. Ama de paixão a esposa e a prima dela, a Lucília. Ludmila e Lucília. Duas das suas paixões. E se uma se for, como disse antes, todos vão logo em seguida. Muitas reminiscências de infância, até troca de informações e segredos entre as duas. Muitas delas. E deles também.

 

*o*

O doutor Vilarinho, como brincam com ele, advogado e, principalmente, pecuarista e plantador de milho. Somente, é o suficiente. O restante fica por conta dos fornecedores e vizinhos, que praticam outras culturas. Soja, feijão e outras mais. Não está com vontade de pensar sobre isso, agora. Está voltada nos pensamentos para ela, a sua flor principal. E do seu lado, a filha, deixou os seus afazeres para lhe fazer companhia. E fica assim, olhando de tempos em tempos para ele. Que resmunga algo, ela não se importa. Resmunga de novo, depois de tempos que não fica olhando no relógio. Basta estar ali, presente.

— Oi, filha.

— Pronto, papai, quer alguma coisa?

— Calma, só quero conversar. Sobre a sua mãe.

— Ótimo, puxando a cadeira para mais perto. Já está assim há mais de três horas papai, está me preocupando.

— Vou voltar se não quiser me ouvir ou ficar preocupada.

— Não, não estou. Preocupada, quero dizer. Com nenhum dos dois, salientou.

— Não precisa exagerar querida. Já entendi. E vou lhe contar como nos conhecemos.

— Já sei dessa história toda, da árvore que cresceu com o coração de vocês dois e da tia Ludmila também. Não é sobre isso que quer falar.

— Esperta demais para o meu gosto.

— Estou crescida, papai, não acredito mais em Saci-Pererê e a Mula sem Cabeça, como me assustava, seu danado.

— É verdade. Mas ela mandava fazer assim só para você correr para a nossa cama. Era ela, sempre. Sempre foi ela e suas brincadeiras para me tirar a ranzinza. Ela é uma mulher maravilhosa.

— É sim, papai, é sim. E depois de hoje, vai voltar, pode acreditar. Prometeu. Trinta anos.

— Tudo isso, sorrindo. Ela é mesmo uma peste.

— Não foi ela. Eu que falei a quantidade de anos e ela confirmou.

— Então vai cumprir. E lá vem o Altênio. Diga que não estou.

— Bom dia, dona Márcia. Bom dia, doutor Vilarinho.

— Ele não está Altênio. Pediu para avisar que foi para a cidade. E o outro, como já conhece, simplesmente sentou-se na outra cadeira e puxou para perto.

— Eu espero, vamos conversar enquanto ele não chega. E se recostou, sorrindo.

— Certo. E os dois não se estranham, simplesmente fingem que não estão perto um do outro. E lá vem conversa. O talhão doze vai ser roçado depois de amanhã, Marcia.

— Certo. E o que mais?

— Mais nada, já liguei e a sua mãe vai voltar e esperar mais trinta anos. Tenho muita conversa com ela e os crisântemos. Tenho muitos pedidos para eles. E você, como está?

— Tudo bem, Altênio, tudo bem, rindo e vendo o pai sorrir também, mas mantendo o famoso não estou aqui.

— O outro talão vai verificar se precisa e depois aviso. Trago o relatório. O pessoal quer saber se vamos ter a festa no sábado, como programado. Os peões estão todos eles, entusiasmados em ganhar os dez por cento das terras no Norte. E ela riu, ele provoca, mas o pai não está nesse momento e não fez nada, nenhum reflexo. Então está tudo certo, eu sei. Quando o doutor Vilarinho chegar, diga que já vou deixar as rédeas dele para o garanhão.

— Certo, ele vai pular a paliçada, eu sei. Um metro e meio. Acha que consegue com ela se voltando para o outro lado e rindo, baixinho.

— Claro que sim. Está velho, mas consegue sim. Um metro e meio. De conta de mentiroso para isso tudo é só uma pata de cavalo. E sorriu. Bem, vou indo. Chega de contar histórias. E amanhã estou de folga. Preciso me preparar para a festa.

— Certo tio Altênio. Quando o meu pai chegar avisa. Ele vai até a sua casa, tomar chá.

— Eu não faço parte dessa confraria de sem vergonhas, nunca. A minha mulher é de respeito. Não gosto de esperar e fazer sentar velhos sem vergonhas. Até mais, querida. E pôs o chapéu, antes batendo nas calças jeans, levantar o pé direito de cinquenta e seis anos de idade e bater neles também. E a amizade de mais de quarenta anos. Sempre foi o preferido deles todos e já trabalhava como rapazote para o pai. As constâncias de aumento da fazenda o fez ficar, possuir uma bela casa no meio do milharal e alguns pés de feijão, batata, uma bela horta cultivada. Para não precisar de nada do patrão. E essa amizade fez assim também, cuidar e ajudar a cuidar dos agora marmanjos e dela. Que o recebe, também, como um tio. Levantou-se, abraçou bastante na frente do pai, arreliando e beijando por tempos também. Até a Clotilde rindo, do lado dele, não o feito mencionar que estava ali. E lá se foi o tio, Altênio, para a sua casa. De longe, na garupa do pangaré, como o Vilarinho fala, de um belo corcel preto com faixa branca na testa, outro adeus e até nunca mais, gritou.

— Até nunca mais, patrão. E lá se foi incitando o animal que sempre corresponde. Ela riu a Clotilde também e ele ficou. E acordou.

— Puxa vida, dormi muito dessa vez.

— Oi, papai, o tio Altênio esteve aqui.

— Está bem, depois você me conta. Que sujeito chato. Elas riram e voltaram a fazer o que estavam fazendo. Ela do lado do pai e a Clotilde para a cozinha. Preparar o jantar. E bateu a porta inicial, devagar e fechou com o mesmo cuidado a mais forte. Do qual o Vitinho acha que merece as pancadas, quando está de mau humor.

— Como está o papai? A pergunta é um misto de angústia e início de exasperação.

— Tudo bem, o Altênio esteve aqui e ele estava na cidade, sorrindo.

— Ainda fazem essa brincadeira? Como podem se divertir com um assunto tão bobo!

— Você terá os seus quando tiver filhos. Deixe para lá. Prefiro assim. E a sua irmã está cuidando dele, sem falar, como você, toda hora com essa pergunta.

— Ei, você também?

— Sim, eu também. Ela vai morrer no meio dos crisântemos, querendo ou não. Eu vou sempre ajudá-la, no que for possível. Já desisti.

— Você também?

— Eu também. E o que quer para a janta, ainda está em tempo de mudar o cardápio.

— Chata.

— Pentelho.

— Ei, que falta de respeito, dona Clotilde, agarrando e ela saindo, procurando se safar.

— Larga, Vitinho, vá estudar.

— Está bem. Mandar estudar. Eu tenho vinte e quatro anos, último ano de aturar a universidade. Primeiro a minha mãe, sua chata.

— Pentelho. Larga, seu chato. E lá se foi ela, com ele rindo. Que mulherzinha mais malcriada essa. E foi para a varanda. A irmã, sem que ele sequer pensasse, já pôs o dedo indicador direito nos lábios. O pai olhando o infinito e os sabugos. E a previsão de chuva para amanhã, à tarde. E vai ficar com ela, porque está proibido de perguntar. Como o senhor está, papai. Haja saco para aturar essa pergunta. Se deixar ele faz de cinco em cinco minutos. Depois reclama que o pai faz assim. Porque o tio Altênio é outro. Gruda como água de chuva em solo ressecado. Ele sentou-se na mesma cadeira do tio Altênio, ao lado do pai, e colocou a mão suavemente sobre a direita dele, com a sua esquerda. O pai o vislumbrou, em silêncio. E voltou para o que estava fazendo. Ou para o espaço. De lembranças. Dela e da sua vida quando criança. Com o coração na árvore. Dois deles. Um com aquele peste do doutor ginecologista e a sua querida. E outro, maior, com o dele. Vi e Lu. O coração ainda pulsando. É essa a sua oração.

 

*o*

— Vamos lá, vire-se.

— Estou fazendo, pode esperar um pouco, por favor.

— Espero sim. Tudo bem, agora se concentre. Vou espetar a agulha.

— Só sabe fazer isso mesmo. Precisa mesmo esse exame. Não tenho próstata. Ele começou a rir e a seringa balançar na mão e parou.

— Quer parar, por favor, preciso tirar o líquido da espinha, como chama. Se ficar me perturbando eu não consigo.

— Ótimo. E está olhando para a minha bunda, seu safado.

— Para o rego, não para a bunda. A bunda só tem carne, falou e desistiu. Assim não é possível. Vou chamar outro profissional.

— Não precisa tirar líquido nenhuma da espinha, falou séria, voltando à posição. Já tomei raque demais, doutor ginecologista. E eles riram de novo, as enfermeiras esperando a situação.

— Quer saber, tem razão. Já tenho essa informação. Não vou fazer sofrer o amor da minha vida.

— Palhaço. Elas estão ouvindo e vou comentar com a Ludmila.

— Até parece que tenho medo. Do chinelo também não, pontuou. Pronto, podem cobrir esse corpo horroroso, tirando as luvas.

— Não vai tirar mesmo, doutor, para completar os exames?

— Não, ela tem razão. Tem razão, apontando. Elas cobriram a pequena parte da dona Lucília, que ria do constrangimento delas. Amigos e amigos, negócios a parte. E ela provocou e ganhou de novo.

— Vou dormir essa noite, já que não me espetou. E eles já me telefonaram de novo. Pode pedir para tirar o telefone do meu quarto?

— Claro que sim, tem razão. Bem, até mais tarde. Se o nenê for nascer de madrugada me avisem. E saiu rindo e ela também. As enfermeiras já conhecem as brincadeiras, com certeza, mas tem algumas que ficam completamente alheias ao correto. Mas cumprem o que devem, tirando com a maca do centro de raios e trovões, como chama. Exames e mais exames. De tudo. E haja esqueleto para aturar tantas chapas. Ela voltou para o quarto. E lá, de volta, a prima.

— Oi.

— Oi, tudo bem?

— Sim, o chato do seu marido dessa vez desistiu.

— Fez o que, já sorrindo.

— Nada, nada, estou afirmando.

— Até parece que acredito. Querida, vou indo. E beijou a prima, ajeitou o vestido leve no corpo e saiu do quarto. Ela, agora, vai ficar sozinha de vez. Durante a noite, espera dormir muito. Para acordar no dia seguinte refeita do susto. Tem razão, estou melhor. Novamente. As crises vêm e vão e assim que é, assim que se passa a vida. Dormiu bem, acordando como esperava. Com ele ao pé da cama, estranhando.

— Oi.

— Oi, bom dia ou boa tarde, provocou.

— Boa tarde?!

— Sim, a turminha já esteve e continuou dormindo. O chato do seu Vitinho ficou perturbando e tive que expulsá-lo. Tem certeza que é mesmo o seu filho?

— Filho do pai, somente. Ele esteve aqui também?

— Também. Tudo certo com os seus exames. Alta amanhã. O Altênio, outro, perguntou se vai participar do rodeio. Ela sorriu. E dos crisântemos, quantos tem para vender. Não quis entrar na estufa.

— Por que ele não pediu para a Márcia? E viu a cara de insatisfação do médico. Entendi, tem que ser eu, como somente estivesse de posse de alguma chave que não existe.

— É paixão, o que posso dizer. Você conquistou agora ature.

— Está bem, vou sair mesmo amanhã? Que horas é?

— Hora do almoço, onze horas e quarenta e dois minutos, olhando o relógio. Dormiu bastante, mais de dez horas.

— Estava preparando a minha casa, apontando para o alto. Tive que fazer limpeza mais recente.

— Entendi. Ótimo isso, ótimo. Mas vai sujar de novo, completou. Até mais, fique tranquila, colocando a mão direita em seu pulso esquerdo. Pegou de leve, auscultando. E tudo bem, depois de um minuto exato.

— Quanto?

— Sessenta e oito. Está ótima. Até mais tarde. E almoce bem, nada de frescuras com a comida do hospital.

— Certo chefe, batendo continência. Pode deixar. Eles dois sorriram, juntos. E saiu. Ela se pôs novamente com um pouco de amargor na alma. Está melhor, até quando? Vou continuar, até quando? E a enfermeira entrou depois de dez minutos com o almoço. Tirou a tampa. Mais um caldo ralo, canja de galinha com arroz branco e batatas. Um vermelhinho pode ser cenoura e tomate. Tudo bem. Pãozinho francês, um pedaço de frango na chapa e alface e tomate. Está ótimo. Suco e gelatina. Excelente. E fez a refeição, sozinha e olhando de vez em quando para fora. A velhice tem o seu lado bom, precisamos e ficamos mais sozinhos e pensando na vida. Doente então, mais ainda. Serve para nos dar a volta da força da razão. E eu tive todas elas para viver até hoje como estou. Sou, melhor, fui e ainda sou bem feliz. Uma vida de lutas, fortes e frequentes, como todos. Afinal ficar rico e os altos e baixos são assim também. E depois de vinte minutos, mastigando devagar e curtindo cada pedaço, empurrou para mais adiante a bandeja e o alimento. Encostou a cabeça no travesseiro. E dormiu, simplesmente, antes mesmo da enfermeira retirar a bandeja. Verificou o estado dela. Tudo ótimo. Está tudo ótimo. E foi assim que expirou. Para sempre. Voltou para o paraíso que havia feito a limpeza. Sozinha como tudo na vida. E ele a viu assim, depois de duas horas, na sua ronda. Beijou a sua testa e puxou o ar, devagar, suspirando. Ela mereceu essa morte. Tranquila. No meio da casa varrida e arrumada, antes. E talvez com todos os crisântemos de todas as cores que cultivou. Agora, a família. E não vou gostar de dar essa notícia.

 

*o*

Ela foi a primeira, a saber. Sempre a encarregaram disso e chorou muito, muito mesmo. E enxugou as lágrimas, com força para mantê-las dentro do seu amargor. O pai. O pai pensou novamente. Como vou poder transmitir isso a ele? E onde estará a essa hora. Talhão. Qual deles? E a Clotilde foi a primeira a ter certeza quando a viu. E chorou sem que ela precisasse falar algo. E as duas se seguraram.

— Clotilde, por favor, me ajuda.

— Eu vou, eu vou confirmando e chorando muito. Que coisa, danada ela, nos abandonou isso sim. Mas eu já sabia, sentia aqui dentro, aqui dentro, Marcinha, pontuando com a mão fechada, direita, direta no coração. Mas vai ficar tudo bem, eu ajudo sim.

— Ótimo. E o Vitinho?

— Na universidade. E o Vicente? Primeiro ele?

— Sim, vou ligar. A tia Ludmila está vinda para cá para ficar com o papai. Eu não sei como ele vai ficar não sei mesmo.

— Não se preocupe, é forte. Eu acho que sim, voltando a chorar. Oi minha adorada, fique no céu, meu amor, por favor, nos acuda nos momentos de sofrimento como esse. Volte em espírito e nos acolha, minha amiga querida.

— Quer parar, Clotilde, assim eu fico chorando e não consigo fazer mais nada.

— Vamos orar Marcinha, eu preciso disso para desabafar.

— Está certo, tudo bem. E as duas chorando e rezando. Terminaram depois da ladainha dela, enxugando com força e parando de vez. Recobraram o fator controle quando a tia chegou.

— Oi tia.

— Oi querida. Calma agora. Ela foi dormindo. Mereceu isso.

— Dona Ludmila, eu estou arrasada.

— Calma Clotilde. Eu estive com ela ontem e rezamos muito.

— Nós fizemos isso também. Estou arrasada.

— Todos nós a amava, Clotilde, não precisa se justificar. Foi em paz, como nos fez acreditar que assim seria todo o tempo. Estava debilitada, muito. Chorou comigo depois da oração. Agora o velho Vilarinho. Ele é o motivo de nossas preocupações.

— Está bem, tia, tem razão. Vou chamar o Altênio. Devem estar juntos, agora. Foram ver algum talhão por aí, nesse mundão. Pegou o telefone da fazenda, via rádio. E o homem atendeu, brincando.

— Oi, Marcia, boa tarde. O que manda, estamos no meio da festa, melhor, preparação para a festa. Diga querida.

— A mamãe, tio.

— Sim, o que foi?

— Ela se foi, tio. Ela sentiu o baque nele, por telefone mesmo. E um suspirar fundo e temente ao universo. Algo se perdeu nesse instante. Ela o sente, nos poros. A tristeza tomou conta das ondas do rádio e da ligação.

— Ela se foi. Ela se foi, ouviu repetir. E o que digo a ele, está se divertindo, querida.

— Como o senhor achar melhor, tio, eu não vou conseguir.

— Sempre sobra o pior para mim, tentou brincar e começando a chorar. Ela o fez também. Ele segurou a ligação por um tempo, até ouvir chamar o patrão. Patrão, doutor Vilarinho, ligação para o senhor. Márcia, querida, eu não consigo, amor. Por favor, por favor. E o pai atendeu.

— O que foi Márcia. Esse peste não faz nada direito. E não precisou falar. Ele entendeu e um grito no ar, assim, seco como a espera da chuva. Estava brincando com os peões na dança da chuva. E foi o começo dela, no talhão, correndo atrás das nuvens, que veio forte. A chuva e o choro.

— Papai, papai, por favor, fale comigo.

— Não posso, querida, a chuva chegou, estou molhado. E desligou. Ela voltou a chorar, muito e todas as duas seguiram o mesmo ritmo. Escutou o trovão distante e a chuva chegando à casa, batendo na varanda e balançando, com o vento altivo e seguindo junto, a cadeira dele, especial. Ela estava junto com a chuva, com certeza. Amparando os seus, no coração que estava fraco e agora forte. Não precisa mais dele, para a vida eterna. E, reforçada nele, nesse coração divino e forte, para sempre na eternidade, conseguir fazê-los forte para aguentar essa enxurrada. Ela parou e ligou de novo. O tio atendeu.

— Está tudo bem, ele está no meio da chuva chorando, Márcia. Vai estar tudo bem, querida. Ele precisa sofrer toda a intensidade, falou filosoficamente. Eu também. Desculpe querida, mas vou acompanhar. Quer falar com a sua tia?

— Quero sim, tio. E ouviu a dona Carminda dizer os pêsames. — Obrigada tia. Desligaram. E voltou a chorar, enxugando e chorando. Para a varanda, fazer o mesmo que o pai. E ali ficou esperando os irmãos. Que elas duas se encarreguem disso, de dar as más notícias. Ou a entrada de um anjo, uma bela notícia. Mais um anjo no céu. E tomou toda a chuva, forte e que irá fazer ressurgir a plantação. E os sabugos de milho, destacados das longas hastes de sua floração para o futuro. Dela, dos sobrinhos e dos irmãos. E do pai, principalmente. Tem que ser forte. O salgado dele, da espiga depois que fica como suporte para novas plantações. Trucidados na máquina de fazer a base. Um sabugo não morre totalmente. Ele sabe disso. Vira fertilizante. E é o que sabe bem, o pai fará. A lembrança dela o fortalecerá. E os crisântemos vão enfeitar a sua cova. Renovadas todos os dias. Para enquanto durar a sua vontade e a sua vida.

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3 comentários em “Sabugo – Conto (Cilas Medi)

  1. Miquéias Dell'Orti
    2 de janeiro de 2017

    E aê Cilas, tudo bem?

    Cara… gostei de como você colocou em pauta a questão dramática da história. A morte, mas não de uma forma totalmente desagradável ou opressiva (pelo menos em minha interpretação). Há a dor, lógico, mas há um certo sentimento de complacência do início ao fim. Talvez eu tenha sentido isso devido a veia cômica de algumas partes.
    A maioria dos personagens também ficaram com uma carga emocional bastante interessante. Cada um aceitando a situação ao seu modo, como manda o gabarito.
    Contudo, para mim, o grande problema foi seu estilo ao escrever a história. Algumas passagens me pareceram bastante confusas e eu não conseguia entender o que estava acontecendo ou mesmo formar uma cena lógica na minha cabeça. O excesso de pontuações deixou o texto cansativo e muitas delas nem deveriam estar ali. Como o texto é relativamente grande, para mim a fluidez no que escrevemos é essencial e achei que faltou um pouco disso.
    Também senti falta (e muita) dos incisos e verbos dicendi nos diálogos. Não sei se foi proposital, mas sem uma parcela explicativa nos diálogos eu me perdi diversas vezes. Não sabia quem estava falando, para quem estavam falando e, em algumas vezes, o que estavam falando.
    Na minha opinião, tem tudo para ser um ótimo conto: um bom tema, com uma boa ambientação e com bons personagens, mas perde poder por causa da narrativa massante e de alguns erros, que podem ser corrigidos em uma nova revisão.

    • Cilas Medi
      3 de janeiro de 2017

      Estou aprendendo e com a sua leitura e opinião, me fazem querer mais. Vou revisar e tentar melhorar. Agradeço a presença e a leitura.

      • Miquéias Dell'Orti
        3 de janeiro de 2017

        Esse é o espírito. Filtre as críticas e melhore cada vez mais.

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Publicado às 31 de dezembro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .