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Detox Literário.

A Loteria – Clássico (Shirley Jackson)

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A manhã de 27 de junho estava límpida e ensolarada, com o calor refrescante de um dia em pleno verão; as flores desabrochavam em profusão, e a grama era de um verde vivo. Os habitantes do vilarejo começaram a se reunir na praça, entre os correios e o banco, por volta de dez da manhã; em algumas cidades, havia tantas pessoas que a loteria durava dois dias e tinha que começar em 26 de junho. Neste vilarejo, porém, no qual havia apenas cerca de 300 pessoas, a loteria inteira durava menos de duas horas, por isso, podia começar às dez da manhã e ainda acabar a tempo de permitir que seus habitantes voltassem a casa para fazer a refeição do meio-dia.

Sem dúvida, as crianças foram as primeiras a se reunir. Recentemente, a escola fechara para o verão, e a sensação de liberdade instalara-se inquietamente na maioria; elas tendiam a se juntar em silêncio por um tempo antes que irrompessem numa brincadeira barulhenta. E a conversa ainda era sobre a turma e a professora, os livros e os castigos. Bobby Martin já enchera os bolsos com pedras; os outros garotos logo seguiram seu exemplo e selecionaram as mais lisas e redondas; Bobby, Harry Jones e Dickie Delacroix — os habitantes pronunciavam “Dellacroy” — finalmente fizeram uma grande pilha de pedras em um canto da praça e a protegeram dos ataques-surpresa dos outros garotos. As garotas se mantiveram a distância e conversavam entre si, olhando por cima dos ombros para os meninos; crianças muito pequenas rolavam na terra ou seguravam as mãos de irmãos ou irmãs mais velhos.

Pouco depois, os homens começaram a se reunir. Observando os pró- prios filhos, falavam sobre plantio e chuva, tratores e impostos. Eles ficavam de pé, juntos, longe da pilha de pedras no canto, suas piadas eram silenciosas, e sorriam em vez de dar risadas. As mulheres vestiam roupas de casa e suéteres desbotados, e chegaram pouco depois dos homens. Elas se cumprimentavam e fofocavam conforme se juntavam aos maridos. Logo, as mulheres, de pé, ao lado dos homens, começaram a chamar seus filhos, e eles vinham, relutantes, tendo que ser chamados quatro ou cinco vezes. Bobby Martin abaixou-se sob a mão da mãe que o apertava e correu, às gargalhadas, de volta para a pilha de pedras. O pai ergueu a voz abruptamente, e Bobby se aproximou rápido, assumindo seu lugar entre o pai e o irmão mais velho.

A loteria era conduzida — assim como as quadrilhas, o clube juvenil, o programa do Halloween — pelo Sr. Summers, que tinha tempo e energia para dedicar às atividades cívicas. Era um homem jovial, de rosto redondo, administrava o negócio de carvão, e as pessoas lamentavam por ele, pois não tinha filhos, e a esposa era uma megera. Quando chegou à praça, carregando a caixa de madeira preta, ouviu-se um murmúrio de conversa entre os habitantes, e ele acenou e falou: “Um pouco atrasado hoje, amigos”. O carteiro, o Sr. Graves, o acompanhava e trazia um tamborete com três pernas. O banquinho foi colocado no centro da praça e o Sr. Summers pôs a caixa preta em cima dele. Os habitantes mantinham distância, deixando um espaço entre eles e o tamborete. E quando o Sr. Summers falou: “Algum de vocês, amigos, quer me dar uma ajuda?”; houve uma hesitação antes de dois homens, o Sr. Martin e seu filho mais velho, Baxter, darem um passo a frente e segurarem a caixa equilibrada no banquinho enquanto o Sr. Summers remexia os papéis dentro dela.

A parafernália original para a loteria fora perdida havia muito tempo, e a caixa preta que agora estava apoiada no banco havia sido posta em uso mesmo antes do Velho Warner, o homem mais velho da cidade, nascer. O Sr. Summers conversava com frequência com os habitantes sobre fazer uma nova caixa, mas ninguém gostava de perturbar a tradição representada pelo objeto preto. Havia uma história de que a caixa atual fora feita com alguns pedaços da caixa que a precedera, que fora construída quando as primeiras pessoas se instalaram para criar um vilarejo aqui. Todos os anos, após a loteria, o Sr. Summers começava a falar mais uma vez sobre uma nova caixa, mas todos os anos deixavam que o assunto morresse sem que coisa alguma fosse feita. A cada ano, a caixa preta ficava mais danificada: agora nem era mais totalmente desta cor, mas, muito lascada em um dos lados, mostrava a cor original da madeira e, em alguns locais estava desbotada ou manchada.

O Sr. Martin e o filho mais velho, Baxter, seguraram a caixa preta com firmeza em cima do banco até o Sr. Summers remexer totalmente os papéis com a mão. Como grande parte do ritual fora esquecida ou descartada, o Sr. Summers conseguira substituir as lascas de madeira, usadas durante gerações, por pedacinhos de papel. Lascas de madeira, argumentara ele, tinham servido muito bem quando o vilarejo era minúsculo, mas agora que a população era de mais de 300 habitantes, e provavelmente continuaria a crescer, era necessário usar alguma coisa que coubesse mais facilmente na caixa preta. Na noite anterior à loteria, o Sr. Summers e o Sr. Graves prepararam os pedacinhos de papel e os guardaram na caixa, ela foi então levada para o cofre da companhia de carvão do Sr. Summers e ficou trancada lá até que ele estivesse pronto para levá-la à praça na manhã seguinte. No restante do ano, a caixa ficava guardada; às vezes, em um lugar, outras vezes, em outro; ela passara um ano no celeiro do Sr. Graves e outro ano no chão dos correios. E, algumas vezes, era colocada em uma prateleira na quitanda de Martin e deixada ali.

Ouvia-se um grande burburinho até que o Sr. Summers declarasse a loteria aberta. Havia listas a serem preparadas: com os chefes de família, chefes dos moradores de cada casa, moradores de cada casa em cada família. E o devido juramento feito pelo Sr. Summers ao carteiro, enquanto oficial da loteria; antigamente, como se recordavam algumas pessoas, ocorria um tipo de recital, cantado pelo oficial da loteria: um cântico pouco melódico e monótono, que fora recitado apressadamente, como estava previsto, a cada ano; algumas pessoas acreditavam que o oficial da loteria costumava ficar simplesmente parado quando recitava ou cantava; outros julgavam que ele deveria caminhar entre as pessoas, mas havia muitos anos que esta parte do ritual acabara caducando. Além disso, via-se um ritual de saudação, que o oficial da loteria teria que usar ao se dirigir a cada pessoa que aparecia para sortear da caixa, mas isso também mudara com o tempo, e agora somente era necessário que o oficial cumprimentasse cada pessoa que se aproximava. O Sr. Summers era muito bom nisso tudo; com a camisa branca limpa e a calça jeans azul, uma das mãos apoiada negligentemente sobre a caixa preta, ele parecia muito decente e importante ao conversar interminavelmente com o Sr. Graves e os Martin.

Assim que o Sr. Summers finalmente parou de falar e se voltou para os habitantes reunidos, a Sra. Hutchinson veio apressadamente pelo caminho até a praça, com o suéter jogado sobre os ombros, e se esgueirou até o local no fundo da multidão.

 

— Esqueci completamente que dia era — falou à Sra. Delacroix, que estava de pé junto a ela, e ambas esboçaram um sorriso. — Pensei que meu velho tivesse saído de novo para empilhar lenha — emendou a Sra. Hutchinson — e então olhei pela janela, os garotos tinham sumido; aí me lembrei de que era dia 27 e vim correndo.

Ela enxugou as mãos no avental, e a Sra. Delacroix falou:

— Mas você chegou a tempo. Eles ainda estão conversando por lá.

A Sra. Hutchinson esticou o pescoço para enxergar através da multidão, e viu o marido e os filhos de pé quase na frente. Ela tocou o braço da Sra. Delacroix para se despedir e começou a caminhar entre a multidão. As pessoas se afastavam de bom humor e a deixavam passar: duas ou três disseram em voz alta o suficiente para serem ouvidas em meio à aglomeração: “Lá vai a sua Sra. Hutchinson” e “Bill, ela conseguiu, no fim das contas”. A Sra. Hutchinson se aproximou do marido, e o Sr. Summers, que estivera esperando, falou alegremente:

— Pensei que nós íamos ter que continuar sem você, Tessie.

A mulher retrucou com um sorriso:

— Você não ia querer que eu deixasse a louça na pia, não é, Joe?

E uma risada baixa percorreu a multidão conforme as pessoas voltavam para suas posições após a chegada da Sra. Hutchinson.

— Bem, agora — falou o Sr. Summers gravemente —, acho melhor começar e acabar logo com isso para podermos voltar ao trabalho. Falta alguém aqui?

— Dunbar — responderam algumas pessoas. — Dunbar, Dunbar.

O Sr. Summers consultou a lista.

— Clyde Dunbar — disse ele. — Está certo. Ele quebrou a perna, não foi? Quem vai sortear por ele?

— Eu. Acho — falou uma mulher, e o Sr. Summers virou-se para fitá-la.

— A mulher sorteia pelo marido — respondeu ele. — Você não tem um rapazinho para fazer isso por você, Janey? — Embora o Sr. Summers e todos os outros no vilarejo soubessem a resposta perfeitamente bem, era tarefa do oficial da loteria fazer tais perguntas formalmente. O Sr. Summers aguardou com uma expressão de interesse polido enquanto a Sra. Dunbar respondia:

— Horace tem apenas 16 — respondeu com pesar. — Acho que vou ter que substituir o meu velho este ano.

— Muito bem — disse o Sr. Summers. Ele anotou na lista que estava segurando. Depois, perguntou:

— O garoto dos Watson vai sortear este ano?

Um rapaz alto levantou a mão na multidão.

— Aqui — falou. — Vou sortear pela minha mãe e por mim. — Ele piscou os olhos, nervoso, e abaixou a cabeça quando algumas vozes na multidão disseram coisas como “Bom garoto, o Jack” e “Feliz por ver que sua mãe tem um homem para fazer isso.”

— Ora — emendou o Sr. Summers —, acho que estão todos aqui. Será que o Velho Warner conseguiu?

— Aqui — falou uma voz, e o Sr. Summers acenou com a cabeça.

 

Um silêncio repentino desceu sobre a multidão quando o Sr. Summers limpou a garganta e olhou a lista.

— Todos prontos? — gritou ele. — Agora vou ler os nomes — os chefes de família, primeiro —, e os homens se aproximam e tiram um papel da caixa. Mantenham o papel dobrado na mão sem olhar até que todos tenham tido a vez. Entendido?

As pessoas tinham feito isso tantas vezes que simplesmente nem prestavam atenção às orientações: a maioria estava em silêncio e passava a língua pelos lábios, sem olhar em volta. Depois, o Sr. Summers ergueu uma das mãos e chamou:

— Adams.

Um homem se separou da multidão e deu um passo à frente.

— Olá, Steve — disse o Sr. Summers, e o Sr. Adams respondeu:

— Olá, Joe.

Eles sorriram um para o outro sem senso de humor e com nervosismo. Depois, o Sr. Adams enfiou a mão dentro da caixa e retirou um papel dobrado. Ele o segurou firmemente por um dos cantos enquanto dava meiavolta e caminhava apressado até sua posição na multidão, onde ficou parado a alguma distância da própria família, sem baixar os olhos para a mão.

— Allen — chamou o Sr. Summers. — Anderson… Bentham.

— Parece que não há mais tempo algum entre as loterias — disse a Sra. Delacroix à Sra. Graves, na fila de trás. — Parece que a última foi apenas na semana passada.

— Sem dúvida, o tempo voa — observou a Sra. Graves.

— Clark… Delacroix.

— Lá vai o meu velho — falou a Sra. Delacroix. Ela prendeu a respiração quando o marido seguiu adiante.

— Dunbar — disse o Sr. Summers, e a Sra. Dunbar caminhou com firmeza até a caixa enquanto uma das mulheres dizia “Anda, Janey” e outra emendava: “Lá vai ela.”

— Somos os próximos — falou a Sra. Graves. Ela observou enquanto o Sr. Graves se aproximava, vindo da lateral da caixa, cumprimentava o Sr. Summers com ar grave e retirava uma tira de papel. Agora, por toda a multidão, havia homens segurando os pequenos papéis dobrados nas mãos grandes, virando-os e revirando-os, nervosos. A Sra. Dunbar e os dois filhos estavam parados, juntos, e a mulher segurava o pedaço de papel.

— Harburt…. Hutchinson.

— Levante-se e vá até lá, Bill — disse a Sra. Hutchinson, e as pessoas perto dela riram.

— Jones.

— Dizem que, lá no vilarejo ao norte, estão falando em abandonar a loteria — comentou o Sr. Adams com o Velho Warner, que estava a seu lado.

O Velho Warner fez um muxoxo.

— Bando de malucos — disse ele. — Você dá ouvido aos jovens, e nada é bom o bastante para eles. Da próxima vez, sabe, eles vão querer voltar a morar nas cavernas; ninguém trabalha mais e vive desse jeito por um tempo. Costumava haver um ditado: “Loteria feita garante a colheita.” Só o que sei é que todos comeríamos ervas daninhas e bolotas. Sempre houve uma loteria — emendou com arrogância. — Já é ruim o bastante ver o jovem Joe Summers ali zombando de todo mundo.

— Em alguns lugares, eles já abandonaram as loterias — observou a Sra. Adams.

— Nada além de confusão com isso — disse o Velho Warner, com teimosa. — Bando de tolos.

— Martin.

E Bobby Martin observou o pai caminhar.

— Overdyke… Percy.

— Eu queria que eles se apressassem — falou a Sra. Dunbar para o filho mais velho. — Eu queria que eles se apressassem.

— Estão quase terminando — disse o filho.

— Você tem que se preparar para correr e contar a seu pai — retrucou a Sra. Dunbar.

O Sr. Summers chamou o próprio nome, então deu um passo a frente com precisão e retirou uma tira de papel da caixa. Depois, chamou:

— Warner.

— É o 77º ano no qual compareço à loteria — disse o Velho Warner ao passar pela multidão. — Septuagésima sétima vez.

— Watson.

O garoto alto se aproximou, constrangido, em meio à multidão. Alguém falou:

— Não fique nervoso, Jack.

E o Sr. Summers emendou:

— Leve o tempo que precisar, filho.

— Zanini.

 

Depois disso, fez-se uma longa pausa, uma pausa tensa, até que o Sr. Summers segurou a tira de papel no ar e falou:

— Muito bem, amigos.

Por um instante, ninguém se mexeu, e então as tiras de papel foram abertas. Subitamente, todas as mulheres começaram a falar ao mesmo tempo e perguntavam: “Quem foi?”, “Quem pegou?”, “Foram os Dunbar?”, “Foram os Watson?”. Depois, as vozes começaram a dizer: “Foi Hutchinson. Foi o Bill”, “Foi Bill Hutchinson quem pegou.”

— Vá contar ao seu pai — pediu a Sra. Dunbar ao filho mais velho.

As pessoas começaram a olhar ao redor para ver os Hutchinson. Bill Hutchinson estava parado, em silêncio, e fitava o papel em sua mão. No mesmo instante, Tessie Hutchinson gritou para o Sr. Summers:

— Você não deu tempo suficiente para ele tirar o papel que queria. Eu vi você. Não foi justo!

— Leve na esportiva, Tessie — gritou a Sra. Delacroix, e a Sra. Graves falou:

— Todos nós tivemos a mesma chance.

— Cale a boca, Tessie — disse Bill Hutchinson.

— Bem, pessoal — concluiu o Sr. Summers —, isso foi feito bem rápido, e agora temos que nos apressar um pouco mais para terminarmos na hora. — Ele consultou a lista seguinte. — Bill — chamou —, você sorteia pela família Hutchinson. Você tem outros parentes nos Hutchinson?

— Tem Don e Eva — gritou a Sra. Hutchinson. — Dê uma chance a eles!

— As filhas sorteiam com a família dos maridos, Tessie — respondeu o Sr. Summers gentilmente. — Você sabe disso tão bem quanto qualquer um.

— Isso não foi justo — queixou-se a mulher.

— Acho que não, Joe — disse Bill Hutchinson com pesar.

— Minha filha sorteia com a família do marido; é justo. E não tenho outros parentes, a não ser as crianças.

— Então, no que diz respeito ao sorteio pelas famílias, é você — explicou o Sr. Summers —, e no que diz respeito aos parentes, é você também. Certo?

— Certo — disse Bill Hutchinson.

— Quantos filhos, Bill? — perguntou formalmente o Sr. Summers.

— Três — respondeu Bill Hutchinson.

— Tem o Bill Jr., a Nancy e o pequeno Dave. E a Tessie e eu.

— Muito bem, então — falou o Sr. Summers. — Harry, você devolveu os papéis deles?

O Sr. Graves acenou com a cabeça e ergueu as tiras de papel.

— Ponha na caixa, então — orientou o Sr. Summers. — Pegue os papéis de Bill e ponha dentro dela.

— Acho que deveríamos recomeçar — disse a Sra. Hutchinson, falando no tom de voz mais baixo que podia. — Fique sabendo que não foi justo. Você não lhe deu tempo suficiente para escolher. Todo mundo viu isso.

O Sr. Graves havia separado as cinco tiras e colocado na caixa, e deixou todos os papéis, à exceção daqueles, caírem no chão, onde a brisa os pegou e ergueu.

— Preste atenção, pessoal. — Era o que a Sra. Hutchinson estava dizendo às pessoas em torno dela.

— Pronto, Bill? — indagou o Sr. Summers, e Bill Hutchinson lançou um olhar rápido à esposa e aos filhos, e acenou com a cabeça.

— Lembre-se — falou o Sr. Summers —, pegue os pedaços de papel e mantenha dobrados até que todos tenham tirado um. Harry, ajude o pequeno Dave.

O Sr. Graves segurou a mão do menininho, que o acompanhou até a caixa com boa vontade.

— Tire um papel da caixa, Davy — falou o Sr. Summers.

Davy pôs a mão na caixa e deu uma risada.

— Pegue apenas um papel — explicou o Sr. Summers. — Harry, segure por ele.

O Sr. Graves pegou a mão da criança, retirou o papel dobrado do punho fechado e o segurou enquanto o pequeno Dave ficava parado ao lado dele e o fitava com ar pensativo.

— A próxima é a Nancy — disse o Sr. Summers.

Nancy tinha 12 anos, e os colegas de escola respiraram fundo quando ela deu um passo para frente, balançando a saia, e retirou delicadamente uma tira da caixa.

— Bill Jr. — falou o Sr. Summers, e Billy, com o rosto vermelho e os pés grandes demais, quase derrubou a caixa ao sortear um papel.

— Tessie — chamou o Sr. Summers. Ela hesitou por um instante e olhou ao redor, atrevida, então estreitou os lábios e caminhou até a caixa. Retirou um dos papéis e o segurou atrás de si.

— Bill — falou o Sr. Summers, e Bill Hutchinson enfiou a mão na caixa, remexeu e finalmente retirou-a com o pedaço de papel dentro dela.

A multidão estava em silêncio. Uma garota murmurou: “Espero que não seja a Nancy”, e o som do cochicho alcançou os limites da aglomeração.

— Não é do jeito que costumava ser — observou o Velho Warner distintamente. — As pessoas não são do jeito que costumavam ser.

— Muito bem — falou o Sr. Summers. — Abram os papéis. — Harry, você abre o do pequeno Dave.

O Sr. Graves abriu a tira de papel e ouviu-se um suspiro generalizado em meio à multidão quando ele o ergueu e todos puderam ver que estava em branco. Nancy e Bill Jr. abriram seus papéis ao mesmo tempo. E ambos esboçaram sorrisos, deram risadas, e se viraram para a multidão, segurando os pedaços de papel acima da cabeça.

— Tessie — chamou o Sr. Summers. Fez-se uma pausa, e então o Sr. Summers olhou para Bill Hutchinson, e Bill desdobrou o papel e o mostrou. Estava em branco.

— É a Tessie — falou o Sr. Summers e sua voz era baixa. — Mostre-nos o papel dela, Bill.

Bill Hutchinson se aproximou da esposa e retirou o pedaço de papel da mão da mulher à força. Tinha uma mancha preta nele, a mancha preta de lápis bem forte que o Sr. Summers fizera na noite anterior, no escritório da companhia de carvão. Bill Hutchinson o ergueu, e a multidão se agitou.

Embora os habitantes tivessem se esquecido do ritual e perdido a caixa preta original, ainda se lembravam de usar as pedras. A pilha de pedras que os garotos tinham feito antes estava pronta; havia pedras no chão com os pedaços de papéis soprados, que tinham saído da caixa. Delacroix escolhera uma pedra tão pesada que teve que erguê-la com as duas mãos, e se virou para a Sra. Dunbar.

— Anda — disse ela. — Apresse-se.

O Sr. Dunbar tinha pedras pequenas nas duas mãos, e ela falou com a respiração entrecortada:

— Não consigo correr de jeito nenhum. Você terá que ir na frente, e eu me encontro com você.

As crianças já tinham pedras. E alguém deu uns seixos ao pequeno Davy Hutchinson.

Tessie Hutchinson estava no centro de um espaço vazio agora, e esticava as mãos em desespero enquanto os habitantes se aproximavam dela.

— Não é justo — disse ela.

Uma pedra a atingiu na lateral da cabeça. O Velho Warner dizia:

— Vamos, vamos, pessoal.

Steve Adams estava na frente da multidão, com a Sra. Graves a seu lado.

— Não é justo. Não está certo! — gritou a Sra. Hutchinson, e, em seguida, eles estavam sobre ela.

…………………………………..

Tradução de Ana Resende, publicada na Revista Literária em Tradução, nº 9 (set/2014), Fpolis/Brasil

10 comentários em “A Loteria – Clássico (Shirley Jackson)

  1. Erika
    19 de julho de 2023
    Avatar de Erika

    Obrigada por disponibilizar o trabalho de Shirley Jackson, escritora que admiro muito mas não tem o reconhecimento merecido.

  2. Nanda Miranda
    14 de abril de 2022
    Avatar de Nanda Miranda

    Saudações…
    Este é o conto traduzido na íntegra mesmo?
    Nem acredito…
    Desde já, gratidão!

    (Talvez eu vá reblogar, se puder…)

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  4. britoroque
    6 de agosto de 2020
    Avatar de britoroque

    Concordo com o senhor Brian Oliveira Lancaster e agradeço a publicação de um conto tão interessante que eu não conhecia.

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  8. Eduardo Selga
    25 de outubro de 2016
    Avatar de Eduardo Selga

    Evidentemente a tradução pode alterar o efeito estilístico (e portanto o efeito de sentido), se este estiver calcado na composição das palavras e na organização delas na frase, se for uma escultura feita de palavras. Não me parece ter sido esse o caso, ou seja, a tradução não afetou um possível efeito estético, na medida em que, assim considero, o ponto forte do conto está na crescente suspensão causada em certo tipo de leitor. A ação, portanto, nesse conto, é muito mais relevante que a manipulação estética da palavra, motivo pelo qual a organização sintático-semântica é bastante simples.

    Mas por que a ansiedade causada por esta narrativa impressiona tanto? Sim, pois há narrativas em suspensão que não impressionam na mesma medida desta. Certamente não é em função do desfecho, na medida em que a razão do suspense está antes do fim do conto, pois quando o desfecho se dá o efeito de suspensão também acaba.

    Acredito que a razão esteja no fato de que até o desenlace não fica muito claro aonde a trama pretende ir, o que contraria nossa tendência de querer antecipar, com algum grau de certeza, os finais, até para provarmos para nós mesmos o quanto somos leitores competentes. Não há um mordomo para servir de Judas. A relevância dos personagens é mais o menos a mesma, não há um suspeito.

    “A loteria” toca num ponto bem interessante: a nossa animalidade represada pelo processo civilizacional. Por meio dos diálogos é possível detectar a delícia masoquista dos personagens, devidamente contida, mas que explode no final. Querem apedrejar alguém, não importa quem seja. É catártico.

    Outro item importante abordado é a importância que damos, na vida em sociedade, à tradição, pouco importa se é deletéria ou não. Nesse sentido, é relevante notar a reação de censura de certo personagem quanto sabe que alguns, de outra vila, estão abandonando a tradição. uma censura à juventude, que corrompe a tradição. Esta, porque solidificada no meio social, funciona como um elemento validador do modo de viver de um povo. O ritual social nos lembra que pertencemos a determinado grupo e enquanto tal temos nossa individualidade em relação a outros.

  9. Priscila Pereira
    25 de outubro de 2016
    Avatar de Priscila Pereira

    Sinistro…

  10. Brian Oliveira Lancaster
    25 de outubro de 2016
    Avatar de Brian Oliveira Lancaster

    Não lembro onde já havia lido esse texto e continua igual. Denso, opressivo, com um estranho clima descontraído no início e “terror embutido” na parte final. Há palavreados bem diferentes, o que o torna um pouco cansativo. Mas esse é um belo exemplo de texto que deixa lacunas para o leitor preencher, sem precisar explicar tudo. A conclusão é bastante óbvia, apesar das entrelinhas.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 25 de outubro de 2016 por em Clássicos e marcado .