EntreContos

Literatura que desafia.

Entrevista – Conto (Lucas Felix)

Eles me ligaram e eu não tive escapatória. Ontem eu estive aqui e agora cá estou outra vez devido a um ímpeto que devia ter controlado. Estou sentado em uma cadeira de ferro, o assento de madeira comportando o meu peso tranquilamente, minhas mãos estão estendidas sobre uma carteira também de madeira exceto pela parte inferior que tem uns ferros entrelaçados que formam um tipo de plataforma onde guardam-se coisas, contanto que essa coisa em questão tenha a área maior do que 28 por 28 cm, que é o tamanho das fendas que se formam lado a lado por ali.

Há um rosto diante de mim e, em suas mãos, há uma resma de papéis aglutinados. Ele está parado como se estivesse morto, talvez acometido por uma disforia. Ele parece querer dizer alguma coisa. Percebo que seus lábios se movem e ele está de fato dizendo alguma coisa para mim. Eu concordo, sacolejo a cabeça como se dissesse: “Estou lhe entendendo muito bem, meu caro”, e continuo sem compreender. Ele me entrega uma ficha na qual devo preencher meus dados. Eu realizo uma sequência de preenchimentos maquinalmente. Quando termino, levanto-me e entrego a folha a ele. Ele faz que sim com a cabeça em um sinal de anuência descomprometida, uma expressão que diz: “Só estou fazendo o meu trabalho, veja bem”, e fala que devo voltar para o meu lugar. Eu obedeço.

Cinco fileiras de carteiras semelhantes a minha me cercam. Eu quero imaginar que estou bem no centro delas, mas não estou e, a bem da verdade, não sei por que ansiava por isso. Às minhas costas há uma mulher mascando ruidosamente um chiclete de morango o qual posso sentir o cheiro adocicado quando o ar-condicionado sopra em sua direção — ainda que haja outros fatores que contribuem para isso, imagino. Tenho a impressão de tê-la fitado mais do que deveria enquanto voltava para o meu assento. Acredito que ela não reparou. Ela tem uns olhos sopesados por alguma mágoa ou tristeza incomensurável e, assim como eu, não está aqui presente por vontade própria, mas porque mãos invisíveis nos empurraram para este lugar. Ao meu lado há um homem mexendo no celular, infinitas rolagens de um feed interminável. “Onde ele quer chegar, afinal?”, eu me pergunto. Ele está vestindo uma jaqueta que já está em andrajos, uma toca puída na cabeça, pernas esticadas como quem não está nem aí para nada. Ele ri intermitentemente acompanhando uma lista de postagens aleatórias que vaga na tela do seu dispositivo.

Fizeram-me assinar isso e aquilo para comprovar coisas que não sou. Concordei com tudo. Eles não precisam saber. Mas eles sabem onde eu moro agora. De fato, podem até puxar um dossiê completo sobre mim, se bem quiserem. Sinto um tremor percorrer-me o corpo como se algo de proporções colossais estivesse prestes a desmontar-me pedacinho por pedacinho como em um quebra-cabeça — mas toda essa sensação converte-se a um levantar de joelho que termina com a sola do meu tênis soando um “tap” no piso da sala. Suspiro depois de segurar a respiração por um momento tal qual uma criança que submerge em uma piscina para ver por quanto tempo ela consegue aguentar sem respirar. A água na qual estou submerso é a inquietação e, se ela não me afoga verdadeiramente, umedece os sentidos e naufraga os pensamentos.

Somos avisados que a chamada será por ordem alfabética. Meus dedos estão tamborilando na superfície da carteira. A mulher atrás de mim abre o segundo chiclete; eu ouço o farfalhar da embalagem. Ao meu lado há outro, um homenzinho com a cabeça estendida para trás, olhos fechados e usa fones de ouvido dos quais soa uma música que não posso identificar. Percebo que ele está entediado quando começa a se balançar inclinando a cadeira para frente e para trás e, toda vez que ele repete o movimento, tenho certeza que, pelos meus cálculos, ele vai descrever um arco perfeito em direção ao chão.

Chamam o primeiro nome. Um homem de ombros largos e de uma barriga protuberante é acompanhado à outra sala. Ouço o som de portas abrirem-se e fecharem-se. Depois de alguns minutos ele volta e vai embora. Há no rosto de todos, suponho, uma tensão indecifrável que só pode ser sentida, como quem espera por alguma coisa que nunca virá e, mesmo assim, nutre a esperança que o será diferente. Agora é a vez de uma mulher que estava nos fundos — não a tinha visto até agora. Ela tem um rosto agradável e comum, percebo, e, como que para fingir que não a reparei, coloco uma expressão no rosto que tem qualquer coisa entre indiferença e indigestão. Não sei se funciona. A maioria dos que estão ao meu redor são homens, fato que gera uma reação quase que automática quando a mulher mencionada levanta-se e segue em direção à porta. Olhos atentam para os movimentos de suas pernas rijas e apertadas pela calça jeans que contorna suas formas cintura abaixo, o cabelo negro e ondulado que varre suas costas, e os que a fitam longamente, quase que sem se darem conta, estão nutrindo desejos libidinosos por ela, navegando sua figura voluptuosa em um oceano de fantasias jamais realizadas. O homem que se balançava na cadeira olha para mim e ri como se quisesse pontuar algo que todos perceberam mas que é melhor se deixar subentendido. Não o acompanho ou entendo.

— Gostosa demais —, ele me diz em meia-voz à espera de uma resposta. Não quero falar nada, não estou aqui para conversar. Ele não entende minha reação e ri outra vez, zombeteiro.

— Essa daí — começa uma voz cujo dono não posso enxergar devido ao ângulo em que me encontro —, ia dar uma bela de uma janta lá em casa.

Ouço uma risadinha aquiescente seguida por um silêncio súbito que tem algo de meditativo. Será que estão pensando em alguma coisa agora?

Eles chamam a terceira pessoa. Acontece que não reparo quem é porque comecei, aqui com os meus botões, uma ideiazinha. Não exatamente uma ideia, está mais para um desses pensamentos que começam com uma abstração qualquer e é extrapolado à exaustão até que se torne impossível chegar a uma conclusão e, a bem da verdade, até o que dá início a todo esse fluxo mental se perde completamente depois de um tempo. Não tomei meus remédios hoje porque tendo a ficar sonolento e falar umas coisas estranhas que podem fazer sabe lá Deus quem vai falar comigo a pensar: “este daí diz umas coisas estranhas”, e odeio quando pensam isso porque não é bem assim. É verdade que tenho uns problemas aqui e ali, mas estou são e não faço mais do que fumar uns cigarros no final de semana, nada sério demais — drogas industrializadas, por exemplo: isso não é comigo, jamais. Mas acontece que minha cabeça cai nesses redemoinhos e não consigo sair a não ser que eu tente resolver situação, coisa que nunca faço. Prefiro ficar deitado e esperar passar. Só que nunca passa e eu fico protelando o quanto posso. Ontem pensei que seria bom deixar o currículo aqui, “vai que me chamam, não sei”. O problema começou quando me ligaram no mesmo dia avisando que eu poderia vir hoje.

Chamam a quarta pessoa. Estou irritado porque imagino que não vou conseguir ficar até o final. A mulher atrás de mim está abrindo o terceiro chiclete e sinto uma vontade incontrolável e virar-me para a sua direção e encetar um diálogo acerca de qualquer banalidade e fingir que nos conhecemos — não porque eu tenha qualquer interesse nela ou no que ela pretende aqui, ou no que pensa; mas é que esse silêncio está me destroçando. Eu hesito e não digo nada, tento ficar o mais inerte que posso, paralisado como uma dessas estátuas que se vê em praça pública que parecem vivas se você as olha de soslaio. Às vezes tenho a impressão de que todos estão me espreitando e murmurando ofensas e inverdades, até que me dou conta que isso é bem idiota e que estou ficando paranoico. Tenho desses episódios. Desconfio que coisas improváveis estão acontecendo ao meu redor e que sou o único que não pode percebê-las. “Bem, é necessário ressaltar alguns pontos”, lembro-me do meu psiquiatra dizendo com aquela sua voz aveludada e condescendente que só médicos têm e que transmite que quem entende do assunto são eles e fim de papo. “Muita coisa acontece no âmbito da mente, nas ideias”, ele coloca o indicador em uma das têmporas como quem vai disparar uma arma nos próprios miolos. “É aí que se pensa demais. Segundo Freud…” Ora, eu concordei com tudo; o que eu diria, hem?

Chamam a quinta pessoa, então a sexta. Provavelmente perdi a conta depois de um tempo. Ouço meu nome. Levanto-me e sigo em direção à porta pela qual todos os meus colegas anteriores o fizeram — ainda que colega não seja a palavra que eu gostaria de empregar, pensando bem. Empertigo-me e, com passos controlados e afetados levemente por um desses tremores que nos acometem quando uma situação aflitiva está prestes a cair sobre os nossos ombros, enveredo na direção na qual sou indicado a enveredar. “Não há mais como fugir”, penso e sigo caminhando, pé ante pé — não quero que meus movimentos chamem atenção para mim. Preciso parecer normal. Preciso parecer que quero um emprego nesta repartição e ter lá os meus vencimentos, comportar-me, ser respeitoso, ouvir atentamente ao que me pedirem, não quebrar códigos de conduta cujas regras são tão convolutas quanto a uma equação de física quântica (o que estou claramente supondo que é difícil, porque qual!, sou um imbecil daqueles até). O homem que me entregara a ficha a qual concordei com coisas que em outra hipótese não concordaria acompanha-me até a  sala contígua.

Entro na sala na qual sou indicado a entrar. O homem da ficha vai embora fechando a porta atrás de mim e deixa-me aos cuidados de outro que está sentado no outro lado do aposento, no extremo de uma mesa de jacarandá que se interpõe entre nós — cadernos e canetas apinhados junto de papéis amarelados, um monitor de tubo no qual aglomera-se uma espessa camada de poeira que de quando em vez é levantada pelo vento que vem de uma janela ao fundo cujas persianas ficam se movendo arbitrariamente projetando umas sombras retilíneas e envergonhadas sobre uns armarinhos com portas de vidro. Agora estou diante de um homem que está me perscrutando. Camisa social com listras horizontais, um crachá plastificado pende no seu peito no qual eu imagino ostentar o seu nome, cabelos esticados para trás e modelados por brilhantina, olhos e mãos inquietos. Ele aconselha a sentar-me com uma voz calma porém séria para podermos, imagino eu, estar de igual para igual, ainda que ele tenha certeza que há uma disparidade irremediável entre nós. Ele retira a ficha cadastral que preenchi e pergunta se meu nome é o mesmo o qual ele está lendo. Digo que sim e ele confere outras coisas entremeando-se em silêncios e outras perguntas as quais que ele já sabe a resposta. Ele está me testando.

— Então, meu caro — ele finalmente começa guardando o papel em uma das gavetas de sua mesa as quais eu não sabia que existiam até agora —, por que quer trabalhar conosco?

Paro por um instante e penso. Eu sei o que responder, mas continuo emudecido. Meu interlocutor levanta a sobrancelha e apoia o corpo no braço que está estendido horizontalmente ao seu torso.

— Porque tudo está muito difícil — eu respondo.

Ele me olha consternado. Seu rosto demora para absorver o que eu disse, então ele muda toda a forma do seu semblante para algo que parece indicar que minha resposta era inesperada.

— E não é que é verdade? — ele deixa um sorriso curvar-lhe os lábios. — Mas fale-me sobre as suas motivações.

— Na verdade, não vou mentir para você. O dinheiro está curto, contas atrasadas, aluguel…

— Claro, claro — ele me interrompe com um quê de: “isso pouco me interessa”, e continua: — Quero que você me fale sobre as coisas que gosta.

— Isso não está ficando pessoal demais? — eu tenho certeza que somente pensei a pergunta, mas percebo tardiamente que ela saiu da minha boca como se tivesse tomado consciência e assumido um forma de fugir de mim. O homem me lança um olhar desconfiado e noto que ele fica até embaraçado, o que lhe faz ter que tomar uma atitude quanto a mim: mostrar que naquele ambiente no qual nos encontramos a pessoa com mais poder é ele. Ele endireita-se na cadeira que está sentado, sorri breve e ironicamente e dobra as mãos uma na outra, entrelaçando os dedos como quem está maquinando alguma coisa.

— Então você não quer esse emprego? — ele pergunta acintoso.

— Eu não sei.

— “Eu não sei”? — exclama ele, visivelmente irritado pela falta de subordinação que era esperada de minha parte. — Trabalhar nesta repartição é um motivo de orgulho. Temos o melhor ambiente de trabalho, a interação entre os colaboradores é excelente, temos atividades que incentivam a criatividade e ainda ajudamos os novos a crescerem aqui dentro. A impressão que o senhor me dá é que alguém o está obrigando a estar aqui.

“Talvez alguém esteja”, penso com os meus botões. Não sei o que responder. Minhas mãos estão tremendo. Quero me levantar e sair. Estou olhando fixamente para o homem que está enfurecido com a minha atitude. Ele quer se ver livre de mim, mas não pode deixar de me dar uma lição na qual ficarei por dias pensativo e refletirei acerca das minhas ações e objetivos, o que me tornará uma pessoa mais humilde, leia-se cordata e inofensiva, e depois vou procurar outro emprego e posso até ser contratado dessa vez. Eu tenho vontade de lhe dizer o que penso: que este trabalho só me servirá como fonte de renda e que, pouco a pouco, deteriorar-me-á até o ponto que ele seja obrigado a dizer-me que ando estressado e que preciso repensar minhas visões sobre o mundo. Depois que eu estiver sumamente exausto com todas as coisas, ele me chamará até esta exata sala e dirá que estou sendo mandado embora e que isso é pelo meu próprio bem.

Levanto-me de um salto e corro para fora. Ouço o homem praguejar, no entanto não consigo discernir o que ele diz. Os que ainda estão na sala de espera veem minha sombra trespassar o vidro que ladeia a sua parede. Talvez ninguém tenha me notado se todos tiverem resolvido ir embora nesse intervalo. Entro no elevador e pressiono o botão que ostenta um “T” sem serifa que indica o térreo, uma luz azul que circunda o raio do botão, o zunir dos cabos de ferro os quais seguram a câmara em que estou preso fazem-se ouvir, lâmpadas oscilantes no teto, a força que me empurra para baixo.

Acabou.

Do lado de fora ando um quarteirão como que sem rumo, meus olhos cruzando-se com os de desconhecidos, as linhas e curvas descritas pelos veículos na avenida, a profusão da vida urbana que me enclausura. Detenho-me à vitrine de uma loja qualquer. Minhas costas estão tocando a superfície do vidro frio. Um grupo e manequins está me fitando através da vitrine. Volto-me a eles e sinto uma vontade súbita de dizer-lhes algo, ainda que não saiba exatamente o quê. Tiro do bolso o isqueiro e então o maço de cigarros que eu guardava para o final de semana. Acendo o primeiro. Tenho a impressão de que ninguém está me olhando além daqueles seres sem vida. Minha mente está tranquila e sinto como se estivesse em um extenso prado no qual sopram cálidas brisas estivais. Lanço volutas para o alto e ponho-me a pensar enquanto elas sobem e desaparecem desfazendo-se como nuvens no céu. “Ainda não tenho certeza sobre o que está acontecendo com a minha vida”, penso e trago novamente. “Contudo, uma hora dessas, hei de descobrir.” Eu termino de fumar e arremesso a bituca em um latão de lixo próximo a mim.

É hora de ir embora.

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2 comentários em “Entrevista – Conto (Lucas Felix)

  1. Olisomar Pires
    29 de agosto de 2016

    Acho importante o “feedback” dos leitores e por isso teço este comentário. Os primeiros parágrafos possuem muito os pronomes “eu” e “ele”, isso não facilita a leitura. As impressões da personagem com suas descrições do ambiente criam de forma razoável a impressão do lugar e do tédio sentido pelo candidato. Entretanto, não há um clímax para que decorra em um desfecho, é uma linha planificada, sem muita emoção. Como exercício se saiu bem. É isso.

  2. Neusa Maria Fontolan
    23 de agosto de 2016

    Achei o conto um pouco cansativo, mas valeu.

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Publicado às 23 de agosto de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .