EntreContos

Detox Literário.

Saudade – Conto (Gustavo Aquino)

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“Não fique triste, não, viu vovó!
Pois vou sair pelo mundo afora,
pensando sempre em você”.

 

 

A noite puxou a coberta de veludo.

No largo crestado do porto as lamparinas derramavam suas luzes oscilantes, iluminando a silhueta dos homens acocorados em volta da roda. A brisa faceira varreu o ar, mesclou-se com o marulho das ondas que se desmanchavam nos contrafortes de pedra dos ancoradouros e espalhou o aroma de tempos idos existentes em tamarindeiros, baobás, gameleiras, árvores de meus ancestrais.

Branco como os lençóis que minha irmã Deuzuita deixava quarando nos fundos do quintal de nossa casa em Amaralina, um sorriso passeou pelos lábios dos negros, cafuzos e caboclos, quando o berimbau estalou um São Bento Grande. Vozes se elevaram, contornaram o silêncio. Palma espalmou em cima de palma, marcando o compasso das ladainhas que falavam de Mangangá, Maria Rosa, Chico Tristeza, Santinha e Lucas de Feira, gente forte, honrada, que habitou as ruas, os becos, os casebres miseráveis e as praias daquela antiga cidade de temperos, ebós e misticismo.

O luar brilhou com mais intensidade, imaculado como o riso de um negrinho. A toada ganhou coro, saçaricou em outras bocas, vadiou com o vento, ó-de-lá-ó-de-cá-eu-estou-no-centro-e-vim-aqui-para-jogar-jogo-de-dentro. Era hora de prestar respeito à fé ioruba.

Creia-me, capoeira é arte grande. Poesia do corpo, cadenciada, maliciosa, esperta no inusitado; força dada pelo axé daquele um que come primeiro e é o rei das encruzilhadas. No instantinho em que vi aquelas figuras diminutas armando floreios, aús e outras firulas, desci rápido como um corisco. Sem deixar olho esperto de seu ninguém me enxergar, beirando a lua de Ogum, cortei caminho pelas nuvens de Iansã e me coloquei ao lado de um corpulento negro que se preparava para entrar na roda. Era hoje! Hoje era! Pois errei mundos e raimundos só para ver aquele jogo bom. Vim de longe, tão longe que nem me lembro de onde, só para ver os que eram de fé dançar; vim de longe, meu camaradinho, e, acredite, tive que dormir dentro de madeira envernizada enterrada a sete palmos, dar vento as lágrimas de filhos, netos, afilhados – lágrimas que tantos olhos prometeram no dia do meu velório –, só para poder girar naquela roda e honrar a memória dos eguns que dançaram nas noites sem estrelas, nos dias de azul nenhum, dos tempos das casas de pedra da época do cativeiro. Eparrei!

Eu não sei dizer, não senhor, se foi a alma do negro corpulento, enraizada nos preceitos de Oxóssi, ou se foram os seus olhos escuros, espelhos de paisagens bonitas, mares, florestas, que me fizeram simpatizar tanto com a sua pessoa. Eu só sei que senti uma atração muito forte por ele, mas não era bestagem de atração carnal daquelas que senti por Olímpio, pai de meu menino Gil. A atração pelo negro era espiritual, daquelas que senti quando girei nos canzuás de minha adolescência ao som dos atabaques, e ela me arrastou com a força de uma arrebentação. Quando dei por mim, já estava junto dele: corpo e alma, espírito com carne, olhando através de seus olhos de nagô as estrelas que brilhavam no céu.

Felicidade era porteira aberta, horizonte despossuído de qualquer fronteira. Sem cerimônia, São Bento Grande reboando alto, adentrei na roda. Aú riscou lá em cima, agitando os cabelos longos do caboclo que, com muito do respeito, entrou para jogar comigo. Bati o olhar no rosto do camaradinho e vi que o irmão era de fé. Sambei um picado na frente dele só para mostrar quem agora guiava a cabeça do negro. Esperto, o caboclinho reconheceu num tino e jogo correu solto.

Armada, esquiva, negativa, rasteira, martelo e rabo-de-arraia. Teve de tudo, porém sempre no respeito, na disciplina. Dancei bonito, como nas festas de Cosme, Damião e Doum; ginguei como gingou meu bisavô nas rodas de sua mocidade, quando os filhos de Keto e Angola foram trazidos das costas verdes da África para morrer de fome e banzo nos grilhões das senzalas. Toda a minha existência, tudo o que existiu antes dessa noite, tinha certeza, fora um sonho, uma ilusão. E somente agora, girando o corpo suado contra as lajotas do porto, era que a vida se avivava em cores verdadeiras. Ao longo de minha outra existência, eu havia sido filha, empregada, sonhadora, mãe e avó… Em outros tempos, quando netos brincavam na varanda de minha casa, fazendo fuzuê com bola e risada, meu nome fora Maria José Bispo da Anunciação, Vó Cabocla. No entanto, agora, diante daquela multidão de retintos, eu era mais um egum encarregado de manter a memória dos que já se foram. Digo adeus aos que ficam, diga olá aos que partem. Como disse minha sobrinha Inocência no dia de meu enterro: “Do outro lado é que é vida!”.

De repente, quando o caldo já encorpava na roda dos capoeiras, as vozes grossas e o tropel das botas dos guardas fizeram parar a cantoria. Berimbau engasgou bruscamente, os retintos debandaram. Abandonei o corpo do negro que, ainda um pouco enjoado, variando as pernas, correu em direção às vielas escuras que margeavam o porto onde bala, faca e maldade, não poderiam alcançá-lo. Os dedos frios da madrugada já haviam espantado a lua quando, finalmente, me preparei para subir.

Lá em baixo, no centro de uma outra cidade cheia de cinza, fumaça e luzes frias, vi que alguns sambistas ainda cantavam modinhas para espantar a pesada bebedeira. Olhei um vulto alto, desengonçado, achegar-se timidamente junto àqueles homens e improvisar um versinho. Aprumei-me no invisível e uma música cheia de tristeza, com rimas que pareciam querer tocar uma saudade, preencheu os meus ouvidos. Sorri, pois a voz desafinada do camaradinho me era estranhamente familiar. Do alto de outra nuvem, um pouco acima de onde estava, notei que Exu também escutava a canção com interesse. Virou-se para mim, fez uma muganga e, apontando com o queixo, a voz banhada de marafo, falou sorrindo:

— Esse promete.

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3 comentários em “Saudade – Conto (Gustavo Aquino)

  1. Gustavo Castro Araujo
    25 de abril de 2016

    Juro que ouço os atabaques e o berimbau. Putz, fantástico jogo de palavras, ritmo envolvente. Você é o “Querido-de-Deus”, meu chapa. Sorte nossa. Abraços!

  2. Jefferson Lemos
    18 de abril de 2016

    Parabéns, Gustavo.

    Esse teu estilo “brasileiro” é bem marcante, e mostra essa competência estilística em tudo que escreve, seja sobre morros ou rodas de capoeira.

    Gosto da forma como desenvolve a narrativa de um jeito suave, sem as usuais demarcações de ações que costumamos ver. Passamos por cada quadro como se fosse um slide com “fade out”. A história também consegue se desenrolar como uma música intermitente.

    É um conto que realmente merece aplauso, por fazer muito com tão pouco.
    Parabéns,.

  3. Davenir Viganon
    17 de abril de 2016

    Só passei para aplaudir teu conto.
    Parabéns!

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Publicado às 16 de abril de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .