EntreContos

Literatura que desafia.

Onipotência – Conto (Felipe Holloway)

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O Universo é uma esfera infinita, cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar nenhum.
Enfim, que a nossa imaginação se perca nesse pensamento é o maior sinal sensível da onipotência de Deus.

– Blaise Pascal,

Pensieri

“What if God was one of us?”

Amanda Marshall

Para Letícia

 

 

Até onde a memória alcança é especulação o que se tem. Nunca houve consenso sobre a época e as circunstâncias exatas de seu surgimento. (É provável mesmo que seja anterior ou alheio ao tempo, ao nosso conceito de tempo.) Em menino, ouvi falar de um vilarejo da Suécia cujos habitantes não envelheciam. A alta longevidade — convertida em imortalidade pela hiperbólica mente infantil — dos moradores de Överkalix aliou-se a uma série de eventos misteriosos (navios que, partindo da costa sueca, desapareciam no mar báltico; proliferação de espécies dadas por extintas e aparecimento de outras jamais documentadas) para cravar, segundo um grupo de antropólogos noruegueses, o vizinho país europeu como o berço daquele a cuja vontade tudo o mais se submetia. Esses estudiosos apoiavam-se numa suposta relação entre os fenômenos suecos e as quatro ações descritas por RØald Undset no século XVIII para testar as habilidades de um ser hipotético que se descobre onipotente: intervir, criar, destruir, refazer. Outras nações apresentaram registros de acontecimentos análogos, na esperança de trazer para seus livros de história a origem do maior evento conhecido. Enquanto o feto era belo, não faltou quem lhe quisesse assumir a paternidade.

Quando as manipulações em larga escala se tornaram comuns (e a inevitável transcendência da moralidade, evidente), convencionou-se que rastrear sua origem, física ou geográfica, era um esforço vão e dispendioso. Sentenciados à coexistência com um Deus, cabe resignar-se ou apegar-se a frágeis esperanças, como as que resumirei a seguir. Antes, contudo, uma observação.

Sempre intrigou-me notar certa gradação na maturidade de suas intervenções. Não é lícito supor que, dada sua plenitude ontológica, um ser onipotente prescinda de qualquer espécie de evolução? O frágil Deus bíblico, como as temperamentais divindades gregas, não eram imperfeitos, frutos inegáveis da imaginação humana, não tinham sua liberdade tolhida, enfim, justamente por carregarem em si o reflexo da instabilidade a que estavam sujeitos seus criadores?

E, no entanto, houve evolução. Ou assim ele nos fez acreditar. Da lua que uma noite encimou o Hemisfério Norte iluminada por uma frequência de cor até então inexistente (posteriormente denominada infra-sofia) às incursões simultâneas à mente de todos os homens; da animação de conceitos abstratos à superposição de realidades, passava-se da curiosa euforia infantil à rebeldia adolescente, da estabilidade adulta à necessidade de reinvenção típica da velhice.

Pretendo me limitar à exposição de um evento representativo de cada fase, porque agradam aos muitos seguidores de Undset tais experimentos reducionistas e recendendo a certo empirismo.

 

Infância

 

Também conhecida como Tábula Rasa de Deus. Repudia o inatismo da onipotência. Caracterizou-se principalmente pela invenção subordinada a um ímpeto de descoberta e posterior averiguação dos próprios limites. Os pintores e escultores, quando desejam representar seres cuja existência é negada pela realidade cognoscível, jamais conseguem atingir a originalidade em sua plenitude, posto que apenas misturem formas de criaturas preexistentes. A transcendência de tal limitação operou-se em várias vertentes: animal (pelo surgimento de novas espécies), perceptiva (pela ampliação do espectro de cores visíveis a olho nu), química (pela catalogação de elementos estranhos à tabela periódica) etc. Foi acompanhada de perto por um séqüito que buscava dotá-la de significação subjetiva. Prenúncio do apocalipse para cristãos, advento do Messias para judeus, símbolo do descontentamento de Alá com o Ocidente para muçulmanos. A ciência, cujo empirismo só consiste noutra forma de fé, ou crença sem evidências, também tentou adaptar a desordem dos fatos à ordem de suas leis. A física quântica, que então apenas engatinhava, seria bastante apreciada, quiçá pela confortável anarquia inerente aos aspectos de sua estrutura basilar. Mas me adianto. O primeiro embate entre Deus e a racionalidade operou-se, com farta notoriedade, algum tempo antes. Eis um resumo do caso.

Em agosto de 1986, um idoso apareceu morto numa travessa deserta da província de Entre Ríos, ao norte de Buenos Aires, na Argentina. Trazia num dos bolsos, além de um documento de identidade presumivelmente falso (pois alegava que o desconhecido, de nome “Hugo Dornelles”, não passava dos 22 anos de idade), o recorte de um artigo do Clarín com data 43 anos ulterior. Seu conteúdo era confuso. Não seria preciso perícia para constatar que o óbito se dera pelas três perfurações a bala na altura do peito. As circunstâncias do crime indicavam ausência de premeditação, um possível latrocínio. No entanto, apressadas pela curiosidade que os pormenores incomuns da ocorrência suscitaram, as investigações com base nas evidências coletadas (impressões digitais, pele sob as unhas da vítima etc.) apontaram, absurdamente, um único assassino possível: o próprio Hugo Dornelles.

Por óbvia razão, o suicídio foi prontamente descartado. O caso evidenciou-se em meio à estranheza de outros que se haviam tornado comuns. A ciência forense tratou de repudiar a aura fantástica que o envolvia. Postulou que gêmeos univitelinos (portadores, portanto, do mesmo DNA) excêntricos e enfastiados com a velhice podiam ter arquitetado um pacto de suicídio incomum, ao qual uma das partes declinara em cima da hora. Confrontada com os sinais de violência e a evidência das impressões digitais — que diferem mesmo entre gêmeos idênticos —, mencionaram uma suposta briga e moldes de silicone sobre os dedos.  Essa débil e algo forçada reformulação do crime perfeito foi muito menos atraente do que a espantosa realidade.
Transcorridos cinco meses do fato, um homem apresentou-se numa delegacia da Província de San Juan, confessando-se o autor daquele crime. Sua idade: 22 anos. Seu nome: Hugo Dornelles.

Segundo o relato (em tudo corroborado pelas evidências), Hugo voltava da casa da namorada naquela noite mormacenta de abril. Depois de pedi-la em casamento, sentira-se bem o suficiente para fazer o trajeto a pé, em vez de usar o bonde, como em tantas outras ocasiões. Ao enveredar por determinada travessa, fora abordado por um senhor que não conhecia. Depois de algumas palavras desencontradas, o estranho — que, pela incoerência do discurso e propensão ao choro repentino, pareceu-lhe embriagado — afirmou que  não esperava ser perdoado pelo que viera fazer; disse algo sobre “o mais devastador dos atrasos” ser o da maturidade, que só nos chegava em quantidade suficiente para que atravessássemos determinada fase da existência quando tal fase já havia terminado. Por essa lógica, o idoso esperava que também a morte representasse a conquista tardia de todas as ferramentas que haviam sido negadas ao outro em vida, incluindo um significado maior para ela. Só então Hugo percebeu a arma apontada para seu peito. Confuso, aterrorizado, tentou explicar que o estranho certamente o confundira com outra pessoa, que nunca antes tinham se visto. O velho, contudo, mostrara-se irredutível em sua convicção, segundo a qual os dois haviam se encontrado todas as vezes que o rapaz se olhara no espelho.

Hugo compreendeu, então, que aquele louco pretendia passar por uma versão ulterior de si mesmo. Que, para “salvá-lo”, poupando-o do desgaste lento e doloroso de uma existência que, segundo o desconhecido, não passaria de decepções duradouras entrecortadas por fugazes períodos de felicidade, como a débil nesga de sol infiltrando-se intermitentemente entre nuvens carregadas, havia se disposto a protagonizar seu próprio assassinato. Percebendo que o apelo à lógica realista não surtiria efeito, Hugo passou à elaboração de argumentos que condescendessem com aquela fantasia. Invocou a injustiça do ato, alegando que condená-lo por escolhas que ainda não havia tomado seria o mesmo que matar um inocente. Afirmou que, de sua perspectiva, era impossível estar certo de que a opção apresentada era de fato a melhor, sem ter experimentado a suposta gradação daquele sofrimento por si mesmo. Por último, quis repudiar o fatalismo, pois o mero surgimento do velho sem dúvida bastaria para alterar as ramificações que o conduziriam àquela idade, tornando o tempo que lhe restava algo mais próspero, menos infeliz. Foi ouvido com a piedosa paciência dos irredutíveis. O desfecho da luta que travaram a seguir era conhecido.

Até as perturbadoras conclusões da polícia técnica, Hugo não tinha depositado o menor crédito nas palavras do velho, que ele matara, afinal, em legítima defesa. Dominado pelo pânico, comunicou à noiva, em linhas gerais, o que tinha ocorrido e fugiu. Depois raciocinou que a ordem dos acontecimentos recentes — pessoas que não envelheciam, monstros mitológicos — podia muito bem conduzir a um futuro em que viagens no tempo fossem possíveis, ou a interpolação de pessoas em épocas diferentes das delas. Uma variante de remorso foi então tomando conta dele. Havia sido, a um só tempo, assassino e vítima de um crime terrível, e continuava vivo, embora já soubesse de que forma sua própria existência se encerraria. Aniquilara o homem que viria a ser, mas cujos átomos de algum modo ainda não se tinham combinado. A ação por instinto diluiu um pouco sua culpa. Se tencionasse realmente matá-lo, por que o velho não atirara em silêncio, talvez pelas costas? Não podia esperar que ele consentisse com o fim que insanamente lhe apresentava, o que o levava a outra questão: por que não retornar a um período anterior, quando Hugo era apenas um bebê e, portanto, não ofereceria resistência? Em semanas de reflexão, entendeu que a idéia consistia em encerrar sua biografia na melhor parte. Como se, segundo o idoso (segundo ele próprio), aquele fosse o último dia feliz de sua vida — caminhando enlevado naquela travessa de chão batido, porque a mulher que amava acabara de aceitar seu pedido de casamento. Corroído pelo remorso, o jovem resolvera se entregar. Indicou o lugar onde a arma (um modelo que ainda não constava da linha de produção do fabricante) fora enterrada e cedeu amostras de DNA para a comparação com o do corpo exumado. Tratavam-se, de fato, da mesma pessoa separadas por quatro décadas.

Muitos incautos alegaram que Hugo deveria ser condenado unicamente pelo “ineditismo” de se poder sentenciar um suicida por seu crime. Outros, que o direito ao auto-extermínio não prescindia do distanciamento físico e temporal. Outros, ainda, que a condenação deveria ser a mesma imputada a quem comete um homicídio comum, posto que as células do corpo humano se renovem inteiramente a cada sete anos e, portanto, em termos estruturais, os dois Hugos eram pessoas distintas.

A absolvição fundamentou-se em grande medida na atenuante da legítima defesa. As crônicas registram o caso como a primeira intersecção entre o poder dele e um dos três instituídos pelo homem, e talvez uma das menos nocivas.

 

Adolescência

 

A experimentação deslumbrada deu lugar à anarquia de feições terroristas. Foi nesta fase que as últimas seitas que o veneravam ou se opunham à sua existência desapareceram. Gradativamente, a humanidade se dava conta de que o menos pernicioso era viver a despeito daquela onipresença, aceitá-la como quem aceita uma versão moribunda do sol, que pode continuar permitindo a vida em sua órbita ou explodir repentinamente e eliminá-la.

A alteração da memória coletiva tornou-se constante. Os livros de História anoiteciam como o registro mais ou menos fidedigno dos acontecimentos que haviam trazido a civilização ao momento atual e amanheciam como ficções estapafúrdias das quais ninguém se lembrava, e era impossível saber se a alteração se dera nas páginas dos livros ou na memória dos homens. Não havia quem consentisse, sem o menor vestígio de dúvida, sobre haver lutado na Segunda Guerra, não havia quem consentisse sobre ter havido uma Segunda Guerra. Ou os ataques a Hiroshima e Nagasaki.

Países inteiros desapareciam, e tornavam a aparecer reconfigurados (um estado em cada ponto cardeal do globo, com seus habitantes falando idiomas desconhecidos, ou transformados em estátuas). Vez por outra ressurgiam desertos, ou no fundo do oceano mais remoto… Um decreto inaudito, com duração aproximada de cinco anos, estipulou que toda pessoa que falecesse a partir daquela data teria as menções gráficas a ela apagadas em quaisquer registros sobre a Terra. Não se soube a finalidade desse experimento, como o de inúmeros outros, que significou meia década sem obituários, laudos post-mortem e inscrições sepulcrais (o “quinquênio das lápides lisas”, como definiu um escritor). Lembro-me de pegar o metrô certa manhã. Uma mulher sentou-se no banco à minha frente. Ao prender os cabelos num coque, deixou à mostra a nuca muito branca, onde pude ler os seguintes dizeres, tatuados em uma feia fonte recurva, sombreada: “Augusto e Mateus, meus dois amores”. Passei um terço da viagem me perguntando o que levaria alguém a uma demonstração pública de afeto levada a cabo de maneira tão desajeitada, e, em meio ao meu desdém, presenciei (horrorizado, estupefato) o instante preciso em que duas palavras sumiram, deixando a sentença terrivelmente incompleta:

“        e       , meus dois amores”

Compreendi, devastado, triste, que em algum lugar acima de nós o marido e o filho daquela desconhecida haviam acabado de morrer, e que eu não tinha o direito de ter consciência desse fato antes dela, uma vez que, para mim, ele pouco ou nada significava. Jamais odiei tanto a nossa versão Deus.

***

Muitos enxergaram a criação dos Pontos Cegos como uma resposta ou desafio às crescentes manifestações de crença num Deus além dele — num ser cuja onipotência contivesse e anulasse a sua, e cujas ações se guiassem unilateralmente pelo bem. Esses lugares estratégicos, de tamanho variável, identificáveis como regiões de sombra sem obstrução da luz do sol, durante o dia, e iluminadas sem qualquer fonte visível, à noite, eram, nas palavras do comunicado transmitido em sonhos e simultaneamente a toda humanidade, “o limite da jurisdição de teu Deus. Ides ali, pois, para fugirdes à onisciência que tanto temeis. Nada que fizerdes ou pensardes em seu interior poderá ser visto, intuído ou julgado por Deus, o Demônio ou quaisquer entidades idealizadas entre os dois extremos. Ali, sois totalmente imunes à vigilância. Quando sairdes, tudo o que houveres feito lá dentro ter-se-á apagado de tua memória e da de teus semelhantes, para que Deus não possa perscrutá-las e conhecer os segredos de teu coração.”

Ao absurdo da proposição adveio, naturalmente, o esvaziamento das cidades, a migração massiva para os Pontos Cegos. Os poucos que declinaram passaram a acreditar-se os únicos merecedores do Paraíso, pois o mero ato de dirigir-se a um local supostamente oculto aos olhos de Deus pressupunha intenção de desobedecê-Lo. Não tinham argumentos, contudo, para condenar os que já residiam naquelas terras antes da ocultação, ou que tencionavam, na verdade, escapar à onisciência do próprio idealizador do bloqueio. De minha parte, senti profunda compaixão pelas pessoas crentes num Deus justo que haviam se descoberto de repente e contra a própria vontade no interior dos pontos cegos. Imaginei-as diante do Criador, no fim de tudo, sem que pudessem ser condenadas ou absolvidas, pois uma parte da vida jazia fora do alcance tanto de réus quanto do Juiz, e esta parte poderia conter imperdoável desobediência. A dúvida eterna impediria a aplicação da única justiça tida por infalível.

Estive num Ponto Cego ao norte de Interlaken. Decerto não me orgulharia de meus atos em seu interior, se deles tivesse a mais remota lembrança. Mas gosto de pensar que tais espaços eram menos Gomorras invulneráveis que refúgios para a reflexão livre de policiamento mental, embora nunca se tenha dito que todas as onisciências, sem exceção, fossem barradas dentro de seus limites.

Muitos entraram, menos de um terço saiu, e várias décadas depois não se podia encontrar uma única região de sombra sem obstrução do sol ou iluminada sem fonte observável.

 

Amadurecimento/Velhice

 

Não é possível se acostumar à convivência com um Deus, a menos que ele assim deseje. Está-se sempre na iminência de ter a mente vasculhada do primeiro ao último pensamento. De ser inundado pela ignominiosa compreensão de tudo. De agir contra a vontade, ou de acordo com uma vontade que jamais saberemos se germinou em nossa alma ou foi nela implantada. A onipotência alheia torna impraticáveis os débeis poderes humanos, seus direitos e deveres. Todas as leis subentendem uma exceção que as anula — “salvo se obedecendo a ordem Superior”. Assiste-se a notícias sobre a evisceração de dezenas de crianças e já não se tende ao julgamento imediato do assassino, porque ele pode ter sido obrigado àquilo, ainda que diga o contrário — pois também pode ter sido levado a dizer o contrário, a julgar ter agido sem influência; porque o crime está longe de ser irreversível, como já o comprovaram as infindáveis ressurreições, inserções de uma época em outra, supressões de fatos e de suas memórias. Nenhum ato potencial está isento de influência. Você teme que o ser humano por quem acaba de se afeiçoar, a pessoa com a qual descobriu inúmeras afinidades, não passe da personificação de suas idealizações românticas, tornada real por uma ordem secreta, programada para corresponder às suas expectativas (para dar-lhe a ilusão de completude, de felicidade) e que só existe nos momentos em que você a vê. O livre-arbítrio sucumbe à impossibilidade de saber se se agiu por livre-arbítrio. Nada resiste incólume.

Dada a fragilização da humanidade, é compreensível o apego desmedido a patéticas esperanças retóricas. Para justificar a falibilidade e inevitável ruína daquele poder, falou-se muito no paradoxo da onipotência. Em Cowan, em Bergson. Nas coisas além das possibilidades de Deus. Exumaram a feitura de uma rocha tão pesada que nem Ele conseguiria mover. Inferiram da criação dos Pontos Cegos que somente uma onipotência era capaz de restringir o campo de ação da outra, mas que, coexistindo ambas, nenhuma seria ilimitada em seu poder. Concluíram, pois, que, das coisas que aquele Deus amoral era impotente, nenhuma devia humilhá-lo mais do que a impossibilidade de criar outro Deus idêntico ou cujo poder o superasse. Uma manifestação a nível mundial foi organizada. Usavam máscaras de Feuerbach, refutavam de antemão falácias linguísticas, alegações de que a lógica dos homens era limitada, incapaz de abarcar a complexidade do pensamento divino.  Sob a desoladora bandeia do desafio às fronteiras da vontade Superior, pretendiam esconder o grito de que era fácil reinar sem uma oposição à altura. Desejavam ardentemente a criação de uma nêmesis.

A resposta não tardou, segundo nossa concepção de tempo. Pediram-lhe outro Deus, ele deu-lhes bilhões.

 

Faz sentido que, durante o sono, o descanso da mente, a parte de nosso cérebro que mais trabalhe na vigília esteja desligada. O córtex pré-frontal está diretamente relacionado ao pensamento racional. Devido à sua quase total inatividade quando dormimos, é extremamente difícil pensar racionalmente durante um sonho, estranhar a abolição das leis físicas ou a mudança constante de rostos e de cenários, razão por que se mostra tão trabalhoso desconfiar de que estamos sonhando enquanto o sonho dura.

Dias após a manifestação mundial, notou-se uma mudança comum nos relatos oníricos durante as refeições matinais. Um contingente expressivo da humanidade alegava ter conseguido alcançar, com relativa facilidade, a rara experiência do sonho lúcido. Estudos posteriores comprovariam a alteração no funcionamento do cérebro humano: a atividade das áreas desligadas era agora retomada tão logo começava o estágio R.E.M. do sono (onde se dá a maioria dos sonhos), e sem que a pessoa despertasse. Entender que se estava vivendo uma experiência onírica não era, então, mais dificultoso do que intuir o quadrado do número dois. Uma casa flutuante, por exemplo, fornecia uma pista (porque, desde o advento do onipotente, tal disparate era perfeitamente verossímil na vida real), e a tentativa bem-sucedida de trazê-la ao solo com uma simples ordem mental comprovava a irrealidade daquele mundo. Que, a partir de então, o sonhador podia manipular como bem lhe aprouvesse, à semelhança exata de seu correspondente no mundo real.

A noite passou a ser, de longe, o trecho mais esperado das vinte e quatro horas que compunham o dia. A indústria de sedativos lucrou como nunca, mas a produtividade mundial decaiu. Convencionou-se acrescer duas horas do tempo diário de trabalho e duas do de lazer às oito que integravam o intervalo dedicado ao sono, ficando o dia, portanto, dividido em 12 horas de sono e outras tantas de vigília. Era inevitável que essa repartição exata estreitasse a dúvida metafísica sobre o que tornava o sonho menos real que a realidade, além de avalizar a inversão dos termos e seus significados.

Ali, cada sonhador era o Deus de seu próprio universo, cada ser humano conhecia na prática o que era ser onipotente. Construíam cidades, fundavam países, povoavam continentes, exploravam mares, queimavam florestas, inundavam desertos, criavam amantes, amigos, irmãos, reviam pessoas já mortas, implodiam estrelas, escapavam ao sumidouro resultante dessa implosão, nasciam, viviam, morriam, acordavam. E era como se a realidade não passasse então de uma pausa da qual o corpo físico necessitava entre dois sonhos.

Duas conjecturas nascidas nessa época ainda me encantam. A primeira relaciona-se à antiga dificuldade em descobrir a natureza irreal do sonho, enquanto este durasse. Sabe-se que isto só acontecia porque nossa maior ferramenta investigativa se encontrava, então, inacessível: a racionalidade. Uma vez alcançada, assumiu-se o controle total. Por analogia, não haveria também uma parte inacessível da mente desperta que concederia, a quem pudesse ativá-la, poder ilimitado? O ser que alterara o funcionamento de nosso cérebro não teria obtido suas faculdades supremas assim?

Também se dizia que aquele que morresse durante um sonho lúcido reinaria supremo em seu universo particular para sempre. E se a realidade fosse isso, as formas oníricas eternizadas de alguém que morreu enquanto sonhava — e sabia que sonhava? E se não passarmos de simulacros, de ideias na mente da onipotência que nos projeta e, de algum modo, tiraniza?

 

Morte?

 

Dos que tiveram a vida prolongada por algum capricho de Deus, poucos são os que, como eu, não duvidam que ele tenha existido. Oitocentos anos de ausência são capazes de suprimir até a maior evidência de suas intervenções da memória das gerações — que, mesmo quando as admitem, concedem-lhe origens distintas. Novos postulados ópticos explicam a cor da lua. O neodarwinismo se encarrega das espécies que encantaram biólogos de outrora. Fragmentos de asteroides justificam os metais alheios à mineralogia conhecida. Nossa longevidade deve ser-lhes mais dificultosa, mas não me interessei em saber como a explicam — se recorrendo à miscigenação de Overkhálix ou a ligações com a linhagem de Matusalém. Ceder-nos imortalidade antes de retirar-se soa como uma promessa de retorno, porque há a necessidade de testemunhas de sua primeira passagem por este universo, do qual nunca nutri esperanças de que ele jamais enjoasse. Ou talvez — e penso muito nisso — seja uma forma de assegurar que, ao cabo da eternidade, nos irmanemos na onipotência, pois não há hipótese que não se converta em fato quando se dispõe de todos os instantes do tempo.

 

Que eu me lembre, Hugo Dornelles faleceu vítima de uma septicemia, 15 anos depois de entregar-se por ter matado a si mesmo. Descontada uma possível intervenção Superior, isto parece provar a falácia do fatalismo, pois alterar um fato pretérito cria um segundo futuro, sem que o primeiro perca lugar no espaço. Há, portanto, várias realidades potenciais, como a vibração das cordas de um instrumento prestes a ser tocado. Numa delas sou imortal, noutra nasci morto. Creio que Ele seja o denominador comum a todas, o oceano insondável no qual todos os rios se originam e para o qual inexoravelmente voltarão, no fim.

 

Conquanto os séculos não tenham embotado na mente os temores da convivência com esse Deus além da moral, meu espírito de algum modo anseia por tal reencontro.

 

Post-scriptum

 

Na era dos sonhos lúcidos, muitos se cansavam do poder absoluto. A dilatação do tempo onírico tornava o expediente de administrar o próprio universo demasiado enfadonho — e ordenar “que o enfado se acabe” não menos entediante. Influenciados pelo experimento de Rawls, alguns sonhadores adotavam, então, uma estratégia de efeito retroativo: construíam minuciosamente um mundo no qual se inseriam, programados para esquecer tudo, abdicando inclusive da própria onipotência — que seria recuperada num dado instante ou sob determinada condição. Ao abrirem os olhos, não faziam ideia de que ainda se encontravam no universo que eles mesmos haviam criado, e permaneciam ignorantes sobre sua capacidade de mudar tudo (muitas vezes submetendo-se a humilhações infligidas por seus próprios simulacros), até deparar com o “sinal” combinado — e finalmente recuperá-la. A essa breve pausa do poder chamavam “realidade”.

Pensando nisso, fundei uma seita (que não prosperou) que postulava um destino similar à nossa desaparecida divindade. A supressão da cor verde do espectro visível ao olho humano foi um de seus últimos atos cognoscíveis (embora os estudiosos de hoje afirmem que nunca fomos capazes de enxergá-la, que essa frequência de cor foi um mito fomentado por um tipo raro de daltonismo, que as folhas das árvores sempre foram amareladas). Viu-se em tal atitude uma correspondência com um de seus primeiros atos cognoscíveis, a apresentação da nova cor da lua. Uma simples troca: dava-nos uma tonalidade com a mão direita e tirava-nos outra com a esquerda. Eu, porém, imaginei que aquilo devia ser o Sinal. Inconsciente, Deus agora se distraía como um de nós, mas recuperaria sua divindade em breve ou muito tempo. Um dia ele daria com a cor verde eivando alguma superfície remota e se lembraria de tudo. De sua condição não-humana. Da própria onipotência.

Por décadas refleti sobre que superfície seria essa, e como torná-la visível para o maior número de pessoas que pudesse. O aparente fracasso não me demoveu da empreitada.

Pois se há uma coisa que nem mais mil anos extinguirão de minha memória, é que o verde costumava ser a cor da esperança.

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5 comentários em “Onipotência – Conto (Felipe Holloway)

  1. Felipe Velista
    18 de setembro de 2016

    Fantástico! Narrativa mto instigante em todos os aspectos. Gostei demais da sua prosa, cara. É sintética, elegante e precisa, as referencias enriquecem deliciosamente o texto (a multidão com mascaras de Feuerbach foi genial, além de inteligente, criou uma cena super legal na minha cabeça… algo com um significado denso, mas absurdo e meio cômico ao mesmo tempo). No começo estranhei um pouco a construção dividindo as idades do deus como num relatório, mas sua prosa é muito fluída e de maneira nenhuma isso se tornou um empecilho para a fruição do texto. No fim, essa escolha ja me parecia mto acertada e mais um ponto positivo do conto. A progressão das reflexões sobre o impacto de uma mente onipotente em nossa realidade são interessantíssimas e vc foi mto mestre na forma como, mesmo sem entrar na mente da divindade para explicitar o que Ela pensava, definiu mto bem uma personalidade(bastante rica, aliás) para ela…mantendo o mistério e o interesse no máximo durante toda a narrativa. A multiplicação dos deuses no fim do conto foi uma ideia que me deu inveja, admito…gostaria eu de ter pensado algo interessante assim. E o arremate com o deus partindo (ou apenas se disfarçando entre os homens?) manteve o nível de maestria.
    Me sinto até envergonhado da pretensão de fazer uma critica ao texto, mas senti falta de um desenvolvimento maior do narrador. Ele quase desaparece por trás dos ‘fatos’ em alguns momentos. É bem verdade que ja na primeira frase vc abre a possibilidade para o questionamento da credibilidade do narrador – recurso bastante comum no mestre Borges (que suponho que vc conheça mto bem)…mas, ainda assim, senti falta do desenvolvimento dessa instancia no decorrer do texto. Mas reforço: Nada que tenha atrapalhado a fruição.
    Conceito e execução invejáveis!
    Só me resta te agradecer por ter compartilhado um conto tão bom.
    Parabéns e muito obrigado pela leitura.

  2. Rubem Cabral
    29 de fevereiro de 2016

    Seu Holloway, eu já conhecia esse conto, mas é sempre interessante poder outra vez apreciar tantas consequências imaginativas da possibilidade de se conviver com um ser onipotente. O texto tem sabor dos escritos do mestre Borges.

    Reparei em duas coisas pequenas, talvez para acertar:

    – Não há o caracter “Ø” no alfabeto sueco. Ele faz parte dos alfabetos norueguês e dinamarquês (embora você não diga exatamente a nacionalidade do RØald Undset, que poderia bem ser descendente de, ou natural desses países);
    – Tem um antidiluviano trema sobrando em “séqüito”.

    Abraços!

  3. Fabio Baptista
    26 de fevereiro de 2016

    Mr. Holloway e sua costumeira genialidade.

    O estilo não é dos mais fáceis, exige atenção redobrada do leitor (acho que já comentei isso em algum lugar, recentemente kkkk). Mas as reflexões, quebra-cabeças e paradoxos que o texto apresenta são sensacionais.

    Agora, me sinto até meio bobo com meus devaneios (que soam infantis, depois de ler isso aqui) sobre onipotência, feitos no livro que acabei de escrever hauahuahu.

    Abraço!

  4. Pedro Luna
    26 de fevereiro de 2016

    O texto me deixou bem impressionado. Certamente, deixei boiar muita coisa, mas gostei das relações exploradas entre o conceito de Deus e a humanidade. Por estar lendo aqui, me diverti com o fato de que esse conto poderia se encaixar em diversos desafios, pois explora ficção científica, sonhos, viagem no tempo.

    Gostei de muitas construções textuais como: Invocou a injustiça do ato, alegando que condená-lo por escolhas que ainda não havia tomado seria o mesmo que matar um inocente. (Kkkkkk… o cara via a morte frente a frente e ainda assim foi muito esperto).

    E claro, da criatividade insana. Cadê um romance seu nas prateleiras? Sem dúvida, pro bem ou pro mal, seria uma leitura desafiadora.

  5. Brian Oliveira Lancaster
    25 de fevereiro de 2016

    Fantástico! Uma mistura complexa de conceitos, com uma pegada sci-fi metafísica. Tem que ser lido com total atenção, devido ao rebuscamento (muitos dirão que isso atrapalha, mas é um adorno que combinou muito bem com o estilo “crônica” do conto). A história é bem nebulosa, mas no desenvolvimento é possível captar as nuances até seu final poético. Lembrou vagamente o filme/experiência “O Congresso Futurista”, misturado com a filosofia de “Blade Runner”. Um texto que causa uma sensação estranha, sem dúvida.

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Publicado às 24 de fevereiro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .