EntreContos

Detox Literário.

Vigia (Gustavo Carlos)

Há mais ou menos quinze anos fiz uma viagem até o litoral, com Juliana. Eu havia ganhado um final de semana grátis em um Resort, e então resolvemos comemorar antecipadamente nosso primeiro ano de namoro. Eu não estava tão ansioso, mas acabei por me cativar com todo o seu ânimo, de forma que a aproximação da viagem se tornou um assunto recorrente em nossas conversas.

Chegamos ao hotel depois das 22h, em uma sexta-feira. Logo ao entrarmos no quarto, ela jogou suas coisas sobre o sofá e se apressou em direção à sacada, abrindo a porta para ouvir o mar. Eu me adiantei até a TV, ciente de que deveria tê-la seguido, mas rapidamente ignorei tal ideia. Estou convicto de que eu não poderia ter feito outra coisa.

Vaguei rapidamente entre os canais que exibiam propagandas e documentários dos mais desinteressantes, até que cheguei aos canais que exibiam as câmeras externas do hotel. Uma delas provavelmente mirava o mar, pois exibia uma minúscula faixa de areia em seu limitado campo de visão, tomado pela escuridão. Outras exibiam quiosques distantes e o setor da piscina, todos desertos. Vi também uma pequena ponte de madeira, onde um casal de idosos parecia lutar contra o vento em sua caminhada.

Eu permanecia por um mínimo instante em cada um daqueles canais, pressionando o controle remoto mecanicamente, até que cheguei a uma câmera instalada em uma árvore. Ela vacilava vagarosamente com o balançar do galho ao qual estava presa, e uma garoa finíssima passava à sua frente, mas sem molhar sua lente. Não havia qualquer ponto de referência dentro de seu campo de visão, de forma que eu não podia imaginar onde ela poderia estar, e além dos galhos e das poucas folhas eu só podia ver alguns poucos metros de grama, iluminados vagamente por um poste próximo. Tentei imaginar o que ela poderia exibir ao longe, à luz do dia, mas logo deixei isso de lado e me concentrei na calma de seus leves movimentos e na sensação de vazio que toda a noite à sua frente me trazia.

“Muda logo desse negócio, que tá me dando agonia ver essa coisa!”, ouvi Juliana dizer, enquanto fechava as cortinas. Mudei de canal tão rapidamente quanto antes, sem dizer nada, e esperei que ela entrasse no banheiro para novamente voltas às câmeras.

Demorei a pegar no sono. Na verdade nem mesmo sei se dormi naquela noite. Pensei várias vezes em ligar a TV, mas temia que sua luminosidade a acordasse, e então enfiei minha cara no travesseiro e esperei a manhã chegar.

Quando nos preparávamos para o café, liguei a TV e dissimuladamente cheguei aos canais das câmeras, mas nada me prendeu a atenção como antes. Agora a câmera da praia me permitia ver uma grande extensão de areia, o mar e uma ilha arborizada, enquanto as câmeras dos quiosques exibiam algumas poucas pessoas perambulando. A ponte de madeira dava acesso a um restaurante, enquanto a câmera presa à árvore exibia uma faixa de grama ainda menor do que na noite anterior, por conta da forte luminosidade do sol que a encarava. Passei o dia sem pensar nisso, mas à noite voltei algumas vezes ao quarto, sozinho, inventando desculpas para que Juliana não me acompanhasse. Não me demorava com a TV, e em algumas vezes até mesmo deixei de ligá-la, mas acredito que fazia isso para tentar aplacar o temor que aquela dependência estava criando em mim.

Durante a noite consegui dormir, mas acho que sonhei com tudo aquilo, pois acordei cansado, com a sensação de ter passado a noite toda assistindo às câmeras. O controle remoto permanecia distante, sobre a mesa próxima à porta da varanda, e aquilo me tranquilizou um pouco. Eu tinha certeza de que não era sonâmbulo, mas me assustei um pouco ao ver que já não conseguia pensar em muitas outras coisas além do galho e da pequena faixa de grama.

_

No ano seguinte, tentei convencer Juliana a comemorarmos nosso segundo ano de namoro no mesmo hotel. Ela, obviamente, propôs que fizéssemos uma viagem a um local diferente, e eu não pude deixar de concordar que sua ideia era melhor.

Cogitei insistir no assunto, mas sabia que eu devia abandonar esta ideia que diariamente me ocorria. Várias vezes tentei imaginar as mudanças que poderiam ter ocorrido naquele cenário, e sempre terminava por me irritar ao imaginar que poderia ter acontecido alguma coisa grave a ele.

“Mas você gostou mesmo daquele hotel, né”, disse ela rindo, enquanto escolhíamos um lugar para comemorarmos nosso noivado, no terceiro ano. “Pois é, aquele lugar é lindo”, respondi sorrindo forçadamente, tentando disfarçar o meu nervosismo.

Obviamente eu não havia contado a ela que minha viagem, no mês anterior, não havia sido à casa de minha irmã mais nova, e sim àquele hotel. Pedi o mesmo quarto, e me desesperei ao ouvir que este já havia sido reservado para aquela data. Pensei que minha tranquilidade só retornaria com a mesma encenação de anos antes, mas ao entrar no quarto e ligar a TV, que agora era de um modelo diferente, me deparei com o mesmo enquadramento dos galhos e da grama, e senti meu coração voltar ao seu devido lugar.

Voltei algumas vezes ao hotel. A estadia era cara, o que me forçou a economizar e até a usar o dinheiro de minha poupança, em certas ocasiões. Tentei ceder às minhas vontades o mínimo possível, mas nunca consegui passar mais do que três meses longe dali.

Poucos anos depois, Juliana, então minha esposa, descobriu uma destas viagens. Obviamente o casamento quase acabou, pois ela pensava que eu estava com outra mulher. Não sei se consegui convencê-la com a ideia de que eu precisava apenas passar um tempo sozinho, mas ela se dignificou ao menos a fingir que acreditava completamente em mim, pedindo para eu não mais enganá-la com nada daquilo. Eu, obviamente, tive que mentir e concordar.

Ano passado pensei em propor que nos mudássemos para aquela cidade, mas logo percebi que isso era uma ideia completamente descabida por conta de nossas profissões, além do fato de que seria ainda mais difícil esconder minhas idas ao hotel.

Em certo fim de semana consegui me acalmar ao simplesmente passar com meu carro pelo saguão do hotel, mas logo minha cabeça voltou a se incendiar, e eu tive que me hospedar por dois finais de semana consecutivos naquele mesmo quarto de antes. Eu havia me conformado, finalmente, com a loucura que me tomava, julgando-a como parte indivisível de mim. Conseguia inventar histórias mais críveis e elaboradas, e até mesmo consegui convencê-la a me acompanhar outra vez.

Já haviam se passado mais de dez anos, e no último deles eu havia me distanciado completamente do hotel, apesar dos pensamentos recorrentes, mas menos intensos. Pensei que finalmente tudo se acertaria e que eu poderia encontrar uma obsessão menos cansativa, até que em uma viagem ao exterior eu abandonei minha esposa e corri de volta para cá, alegando que um amigo havia morrido. Deixei-a para trás com meu filho, justificando o meu nervosismo por conta daquela notícia. Naquele dia eu jurei a mim mesmo que nunca mais mentiria para ela.

Cheguei ao hotel durante a madrugada, sem bagagem ou reserva. Corri até o quarto a uma velocidade que meu corpo já endurecido parecia não suportar, quase tropeçando a cada passo. Com sua porta ainda aberta, liguei a televisão, sentindo meu rosto repuxado, enquanto meus pulmões eram fogo e minha mandíbula se fechava dolorosamente sob um grande esforço, sufocando um grito que pontuaria a loucura que finalmente estava me tomando por completo.

A televisão havia sido trocada, e o acesso aos seus canais e menus agora era diferente. Minhas mãos tremiam mais a cada tecla que eu pressionava no controle remoto, e eu já não sabia se devia continuar tentando ou me atirar pela janela agarrado à TV, até que consegui sintonizar a maldita câmera.

O galho era o mesmo, mas agora parecia muito mais envelhecido, coberto por cascas esbranquiçadas e com menos folhas. O vento fazia com que uma fina garoa caísse na diagonal, mas o galho não se balançava. Uma mulher muito alta e magra surgiu correndo de encontro à árvore no mesmo instante, partindo da escuridão arroxeada. Pensei que sua figura desengonçada sumiria sob a parte inferior da câmera, mas ela estacou no lugar, parecendo tão surpresa quanto um animal que se depara com faróis numa estrada por anos deserta.

Assim como eu, ela manteve a respiração suspensa por um instante. Fui violentado por várias imagens distintas, onde ela tanto me sorria com uma boca preenchida por um número incontável de dentes quanto gritava através de milhares de fendas vazias que levavam ao infinito. Sua figura oscilava pavorosamente, desmanchando-se e refazendo-se a uma velocidade enlouquecedora enquanto eu tentava enxergá-la. Entendi que aquela coisa não tinha sexo, idade, tamanho ou qualquer outro atributo inteligível. Suas dimensões pareciam cada vez mais deslocadas, através da televisão, e senti minha consciência estilhaçando-se enquanto ela se embriagava com o vazio que minha alma se tornava.

Lentamente, as infinitas visões convergiram a uma forma minimamente racional. Quando nossos olhares se encontraram, compreendi que o elo entre nossos universos havia finalmente se solidificado através de uma frequência ou vibração abominável, que esmagava o pouco que havia sobrado de minha lucidez.

Aquela coisa forçava a passagem para nosso universo. Eu não sabia o que estava fazendo para impedi-la, mas sentia minha consciência resistindo àquele ataque pelo que pareceu durar anos incontáveis. Ela era decidida, incansável, mas depois de tanto tempo eu aprendi como enfraquecê-la e desestabilizá-la, de modo que pude quebrar nosso vínculo e lançar-me no vazio, para longe dela.

E então vaguei pelo vácuo por eras, agarrado a fantasias e lembranças de tudo o que havia acontecido, até que eu pude retornar a mim, sentado à beira da cama do quarto. Na Televisão, não havia nada além do velho galho esbranquiçado, nem mesmo a garoa.

Permaneci no hotel por uma semana, acabando com o dinheiro de minha conta. Logo que voltei para casa providenciei a separação de minha esposa, que levou alguns meses até desistir de me procurar. Me mudei para uma cidade mais próxima à região, onde consegui um emprego que mal me permite continuar com tudo isso.

Não sei se eu posso me sentir culpado ou arrependido de alguma coisa, afinal de contas eu acho que fui arrastado até tudo isso. Deixei esse tipo de pensamento pra trás, mas ainda me pego pensando sobre como as coisas poderiam ter sido diferentes. Eu poderia muito bem ter me livrado disso se outra pessoa houvesse ficado naquele quarto, ao invés de mim, naquela viagem. Realmente não sei, e acho que nem adianta saber.

Também não sei dizer se tudo aquilo que eu vi realmente aconteceu. Às vezes eu penso que não, mas ainda assim eu volto sempre que posso, e fico assistindo àquela câmera até meus olhos não aguentarem mais, e nada acontece.

Meu dinheiro e minha força não irão durar por muito mais tempo, mas acredito que muita gente deveria torcer por mim. Torcer, e muito.

Um comentário em “Vigia (Gustavo Carlos)

  1. Juliano MARQUES
    19 de junho de 2015

    Uma boa história e uma boa narrativa, não gostei muito do final, mas é uma opinião pessoal. Gostei do resto muito bem escrito e um bom suspense parabéns.

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Informação

Publicado às 17 de junho de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .
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