EntreContos

Detox Literário.

A Grande Onda de Amor (Rodrigues)

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Ela era fascinada pelo tal Hokusai. Vivia com aqueles papéis, andando de um lado pro outro. Tinha uma malinha preta, quando ela abria e colocava na mesa era uma coisa linda. Espalhava tudo com carinho sobre uma mesinha de madeira, deixando sempre aquela pintura da onda em destaque. Ela me dizia que adorava o desenho da onda, achava triste e, ao mesmo tempo, engraçado. Ria dos pescadores perdidos em alto-mar, como se eles estivessem confusos, como nessas comédias do Gordo e o Magro. Mas, ao mesmo tempo, ela ficava olhando, chateada. “Eles parecem perdidos, tenho pena”, me dizia.

Sei que ela estava crescendo e eu achava aquele interesse precoce, mas bem verdadeiro. Nem sabia como ela tinha conhecido. Na escola que não foi. No Dia das Crianças, me pediu dinheiro e comprou um livro grande, que só tinha pinturas dele. Até eu gostava, aquela imagem, eu nem sabia o nome, preciso lembrar. Sim, sim, A Grande Onda, ela até me contou um pouco… Era a mais conhecida das obras dele, era parte de uma série em que sempre aparecia o monte Fuji…

Depois da escola eu a esperava lá embaixo, perto da guarita do porteiro. Ela saiu da perua de braços cruzados, cara fechada, olhando pra baixo. Quando chegou perto de mim, em vez de me dar um beijo, saiu correndo e resmungando. Fui atrás. A menina se trancou no quarto. Eu bati, bati, mas ela não abria. Perguntei o que tinha acontecido. “Odeio todo mundo naquela escola”, ela gritou. A voz estava meio estranha, ela estava chorando. Foi quando ela saiu e sentou do meu lado no sofá.

– Vai ter feira lá na escola, feirinha de arte. – ela disse.
– E posso saber o porquê dessa manha? – perguntei.
– É que tem que fazer um trabalho.
– E?
– É que é sobre o país que a gente nasceu.
– E porque você não faz?
– É que eu não quero fazer do Brasil, quero fazer do Japão.
– E a professora não deixou?
– Deixou, mas é que só eu vou fazer do Japão… Todo mundo vai fazer do Brasil…
– Filha, você veio pro Brasil um amendoinzinho, aqui dentro, ó, você é daqui também.
– Mas eu gosto do Japão! Quero fazer do Japão! Só que todo mundo vai fazer do Brasil!
– Ei! Deixa de manha! Se quer fazer do Japão, faz do Japão, chorona!

Ela me olhou com os olhinhos meio molhados ainda, caindo pelo nariz. Aí pegou na minha mão e nós duas rimos juntas daquilo. Depois ela foi pro quarto. Daí em diante ela não queria mais sair do quarto, comecei a ficar até meio brava.

Todo dia, chegava da escola e falava que estava ocupada. Ocupada? Eu brincava com ela, falava que menina da idade dela não tinha tanta ocupação. Mas ela não saia de jeito nenhum e deixava a porta encostada, pra ninguém ver o que ela estava fazendo. Aí eu fiquei tão curiosa, mas tão curiosa, que comecei espionar. Imagina!

Eu fiquei esperando ter a chance, eu até podia entrar lá, claro, com ela em casa, mas eu estava me sentindo tão bem por ela, via que ela estava tão feliz, que resolvi não atrapalhar em nada. Ela estava diferente, sempre sorrindo e brincando com todo mundo. Assim, de bem com a vida. Aí ela foi pra escola e eu não me segurei. Abri a porta, mas ela tinha colocado uma cadeira pra atrapalhar. Que menina! Dei uma empurradinha, vi que caiu uma latinha de lápis de cor, estava em cima da cadeira. Tive que juntar tudo.

Olhei na mesa de desenho, não tinha nada, nem em cima da escrivaninha. Abri as gavetas e puxei umas folhas, era papel vegetal. Ela tinha copiado uns desenhos do livro nesse papel, os desenhos do Hokusai. Ela tinha um traço bem leve, pra não rasgar, o desenho era bem clarinho, quase não dava pra ver, mas era tão bonito. Não sei, era bom sentir aquilo na mão.

Fiquei esfregando o papel com cuidado, sentei na cama dela e cheguei o desenho bem perto do rosto. Cheirava. Meu coração ficou afogado, começou me bater uma alegria muito grande. Aí guardei tudo, rapidinho, tinha muito cuidado pra não estragar. Coloquei de volta. Eu sou tão chorona. Deixa pra lá.

Ia passando as semanas, ela do mesmo jeito. Um dia, ela chegou com uma cartolina gigante, enrolada, aquilo era muito grande, dava uns cinco dela. Teve que recuar até o canto da sala pra entrar no quarto.

Achei engraçado, ela toda estabanada, deixei se virar. Então ouvi um barulho lá dentro, ela deu um grito, parecia com raiva. Abriu a porta e veio falar comigo, mas não falou nada, ficou me mostrando o copinho de lápis de cor, aquele que tinha caído. As pontas estavam quebradas, ela olhando pra mim com reprovação. Eu fingi que não sabia de nada. Ela pegou a caixinha e entregou pra mim. “Você quer isso?”, ela disse e estendeu os lápis bem perto de mim, as pontinhas quebradas. Eu fiquei com vergonha e fui pra cozinha. “Deixa de bobeira, menina!”, falei.

Depois disso eu não tive mais cara de entrar lá. Ela tinha ganhado. Eu não podia falar nada. Eu amava esse jeito dela, que não era errado. No fim, a errada era eu. Resolvi deixar. Nesses dias ela ficou meio assim comigo, desenhou uma carinha brava na porta do quarto. Uma carinha redonda, coisa de criança, mas com os olhos bem bravos, olhando pra quem olhasse pra porta. Ela entrava e saia. De um lado pro outro. Guache, lápis, papel, tinta, essas coisas. O bracinho dela vivia manchado de azul, verde. Eu tinha que passar álcool pra tirar. Só parava pra comer, isso por que eu vivia chamando. Nem desenho ela assistia mais.

O que eu podia fazer? Ia brigar com ela? Não tinha motivo, não tinha reclamação. Ela fazia lição. Eu não queria que ela me ajudasse em casa, queria ela fizesse as coisinhas dela lá… Mas tinha aquele bichinho da curiosidade me picando. Um dia ela chegou da escola e colocou um bilhete na geladeira, prendeu com dois imãs de peixinho. Era um comunicado da escola. Um bilhete convidando todos os pais para uma exposição. Eu já sabia, mas agora era oficial. Escreveram que era uma coisa imperdível, assim, com letras maiúsculas: IMPERDÍVEL.

Eu já tinha entrado no jogo dela, de não falar sobre o assunto. Aquilo era tão gostoso e a gente tinha entrado de cabeça, não conseguia mais sair. Outro dia, já era bem noite, fiquei até mais tarde na sala olhando pela janela. Nossa casa era na cidade, mas tinha vista pra um jardim verdinho, bonito, cheio de árvores antigas. Fiquei vendo o riacho, ouvindo o barulho da água. Eu gostava.

No sábado eu não aguentava, mas a espertinha, antes que eu pensasse em qualquer coisa, me chamou pra ir ao parque. Fazia tempo que a gente não saia assim, e minhas férias estavam acabando. Ajeitei o casaco dela, estava meio frio, coloquei minha blusa. Trancamos tudo e saímos. Demos a volta no parque todo, pelas trilhas, umas duas vezes. Enchemos algumas garrafas com a água da bica e ficamos sentadas no banco, vendo as pessoas passarem, mexendo com os cachorros. Ela gostava de ficar meio longe, assustar as pombas. Um monte de pomba, cinza, branca, marrom. Ela ia correndo e dava um pulo, todas voavam juntas, fazendo um estardalhaço. Depois voltava correndo e ria, ria, ria…

Voltamos e ela foi tomar banho primeiro. Depois ficamos assistindo tevê. Ela deitou no meu colo. Acabei pegando no sono. Acordei de madrugada com as costas doendo do sofá. Arrumei as almofadas, desliguei a tevê e fui pro quarto. Ela tinha deixado um copo d’água perto da minha cama. Tinha um bilhetinho embaixo do copo. “Essa água é da bica, você vai beber se tiver coragem, eu já bebi”. Ri daquilo e tomei a água, depois um calmante, água, e deitei. Fui pegando no sono aos poucos, relaxando bem devagar.

No outro dia fez mais Sol. Era domingo, dia da feirinha. Ela ficou batendo na minha porta logo cedo. “Acooorda!”, dizia. Fiz o café e coloquei a mesa, ela labutava lá no quarto. Veio tomar café, mas nem comeu direito. Dei bolacha pra ela levar. “Eu vou fazer uma coisa estranha, mas você tem que deixar”, ela disse. “Que coisa?”, perguntei. Voltou com uma faixa preta, vendou meus olhos e disse “só abre quando eu estiver lá fora. Vou primeiro pra escola. Hoje é surpresa”. Quando ela voltou, mexi a maçã do rosto até abrir uma frestinha na venda, dava pra ver meio embaçado. Os pezinhos dela, o tênis rosa, depois levantei um pouco o pescoço e vi aquela cartolina gigante, mal ajambrada. Ela tentando sair com aquilo, quase ri.

Tomei um banho e me arrumei, pus roupas leves. A escola ficava a uns três quarteirões dali. Tinha uma fila grande de carros, os pais saindo com os filhos. As crianças cheias de esculturas, maquetes, bonecos, invenções, papéis pintados, caras e corpo cheios de tinta. Carregando aquelas coisas que mal cabiam nas mãozinhas, com todo cuidado, com medo de deixar cair. Entrei e falei com o inspetor, a exposição era nas duas últimas quadras do pátio. Eu queria ver a dela primeiro. Nem precisei procurar muito…

Lá no fim da quadra, tinha uma imagem muito grande, não dava pra ver direito, o sol estava batendo forte no papel. Embaixo do desenho tinha uma fileira de carteiras, ela estava na do meio. Fui chegando perto e consegui ver melhor. Tomei um susto. Era A Grande Onda, desenhada naquela cartolina gigante, cheia de detalhes. Bem melhor que a do Hokusai! Azul! Todos olhando, fui cortando entre eles, fiquei de frente. Ela me viu, abriu os bracinhos, um pra cada lado, deu um sorriso, vi aquele dentinho de leite mole. “Surpreeeeesa!”, disse para mim. Não me contive, passei pelas carteiras e a agarrei. Levantei-a na altura do meu pescoço e abracei bem forte.

Ela não podia sair de lá, tinha que ficar explicando a história da obra pros visitantes da feira, aí foi que foi… Estava se achando. Era Hokusai pra lá, Grande Onda pra cá, não sei o que de mangá e movimentos… Fui olhando as outras artes das crianças. Um garoto havia desenhado alguns capoeiristas em três telas de pintura que estavam grudadas, todos gingando. Depois, uma menininha, que estava com um arco e flecha de madeira e linha de costura. Ela ficava falando “eu que fiz, eu que fiz”. Mais pra frente, um grupo de garotos de branco, de terninho com gravata borboleta e chapéu. Estavam tocando samba e todo mundo do lado ficava dançando, se divertindo. Um outro grupo tinha feito um mini-carro alegórico, e ficavam dando aquele grito dos puxadores de escola, que é mais ou menos assim “aaaaaaaaaaaaaaaaaiii!!!”, todo mundo achava engraçado e eles ficavam fazendo cada vez mais, palhacinhos.

Já era tarde e todos estavam guardando as coisas. Ajudei a enrolar a cartolina. Que esforço! Depois falamos com o inspetor e fomos embora. “Muito lindo o seu mar, viu?”, ele disse. “É onda, seu Roberto. É onda!”, disse toda orgulhosa. Aquele sol enganador tinha se escondido e um vento frio começava a bater. Dei uma blusa pra ela vestir e fomos a passo rápido pra casa. Entramos e colocamos uma roupa quente, de dormir. Sentamos na mesa da cozinha falando sobre a feirinha e tudo mais. Ela estava agitada, falando pelos cotovelos.

– Vou colocar você em um curso de desenho! – eu disse.
– Oba! Não é caro, né? O meu desenho era o mais bonito! Todo mundo ficou olhando!
– É, filha! Todo mundo gostou do seu mar…
– É onda!
– Até o professor disse que…
– Mãe, sabe o que eu queria mesmo?
– O que, filha?
– Que o pai visse.

Coloquei a mão nos cabelos dela e acariciei. Já estava escuro. Levei-a para a janela e ficamos as duas ouvindo o chiado das árvores.

– Filha, você pode dormir comigo hoje? – perguntei.
– Na sua cama?
– É.
– Tá bom. Legal!

Apaguei a luz da sala e liguei o abajur, a casa ficou escura e eu só via aquele rostinho meio laranja no sofá. Fui ao quarto, arrumei os lençóis, deixei a cama bem quentinha e a chamei. Deitamos as duas.

“Espera aí!”, ela disse. Voltou com a cartolina, colocou encostada no pé da cama. “Quero que ela fique aqui também”, falou. A gente se cobriu bem e ficou tremendo um pouco, estava muito frio. Dei um abraço nela, chegamos perto pra aquecer. Ela dormiu no vão do meu cotovelo. Os olhinhos bem fechados e o cabelo caindo de lado. Amanhã era só a gente de novo.

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4 comentários em “A Grande Onda de Amor (Rodrigues)

  1. Maurílio Júnior
    11 de dezembro de 2014

    A história é muito instigante no momento em que o leitor começa a ler; ele não quer parar e sim saber o final de tudo. (Y) muito massa!!!

  2. Anorkinda Neide
    22 de novembro de 2014

    Oi!
    Eu tinha lido aqui e sisquecido de comentar.
    Adorei as personagens, a menina muito maluquinha… rsrsrs
    Mas não consegui identificar a idade dela, ela teve muitas iniciativas independentes para q tivesse em torno de seis anos, como quis me parecer q vc sinalizou, inclusive ir sozinha para a escola.

    A história é terna e nos acarinha como uma carícia de mãe, porém vi poucos acontecimentos e uma lacuna gigantesca qd cita-se o pai.
    Gostaria de ler mais sobre estas duas princesas…hehe

    Abração

  3. mariasantino1
    21 de novembro de 2014

    Oi!
    Gostei muito da trama, o vínculo afetivo foi muito bem amarrado e o enternecimento repassado é cativante.

    • Rodrigues
      21 de novembro de 2014

      obrigado, Maria!

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Publicado às 21 de novembro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .