As últimas horas haviam sido assustadoras. Por fim, encontrei um lugar onde pudesse ficar protegida, onde adormeci, com meu bebê nos braços. Protegendo-o. Ele era lindo. O rosto muito parecido com o meu, mas os olhos…
Tinha o mesmo olhar entristecido do pai. A forma como me encarava era idêntica. Um anjo.
Acordando ainda cansada e com o corpo dolorido, eu sabia que não poderíamos ficar muito tempo ali. Observei minha criança, deitada, em sono profundo. A vontade era abraçá-la imensamente. Mas eu não queria que acordasse. Choraria. Gritaria. Chamaria a atenção. E isso era o que menos poderia acontecer. Tínhamos que fugir e procurar outro lugar onde ficar. Só que não havia onde se esconder.
Se me perguntassem, eu nem saberia dizer ao certo quando tudo começou. Alguns anos antes, quando se iniciou uma nova onda de pandemias mortíferas, um homem de algum lugar qualquer surgiu na televisão para anunciar que descobrira a cura para as doenças da humanidade.
Que encontrara uma forma de nos proteger ou nos salvar dos males orgânicos. Alegou ainda que ninguém mais teria de morrer de forma natural e, talvez, nem viria a envelhecer. Era a vitória do ser humano contra a natureza. Nessa época, conseguiram mapear por completo o genoma humano, encontrando um jeito de decifrar quais os determinantes das doenças hereditárias. Usando-se disso, o cientista maluco ofereceu a todos o direito de manipular os genes dos filhos e, assim, evitar que nascessem crianças defeituosas. Só que ele foi ainda mais longe, mesmo sob os protestos das igrejas e a raiva desvairada de comitês de ética: ele usou o homem para curar a si mesmo. Aprimorou as técnicas de clonagem de tecidos, permitindo que qualquer célula velha ou morta fosse substituída por uma nova, progenitora. Era a cura para tetraplegia, câncer, AIDS e tantas outras patologias.
Claro que nem tudo deu certo assim. O tratamento de manipulação gênica e clonagem tecidual chegou ao mercado como uma novidade estrondosa, portanto custando valores absurdos, ainda mais porque eram necessárias quatro ou cinco sessões. Funcionaria de forma quase que experimental, apenas àqueles capazes de pagar e dispostos a se submeter ao produto. Não faltaram pessoas ricas interessadas. Afinal, para quem está a ponto de morrer ou de não viver por uma doença, a mínima solução é uma luz no fim do túnel.
Passados meses dos primeiros tratamentos realizados, começaram as conseqüências. As células pluripotentes que eram injetadas no sítio defeituoso se proliferavam de forma desordenada. De início, elas corrigiam as falhas orgânicas, pois assumiam a função das células que estavam destruídas. A partir da segunda e da terceira dose, havia uma mistura de células funcionais e células mortas, e as novas injetadas acabavam por aumentar esse ambiente diverso. A substituição decaía, dando lugar a uma destruição maciça do tecido, que não se limitava ao local, e sim atingia todo o corpo.
Com isso, os doentes, que começavam a melhorar de seus problemas, tinham um agravamento inesperado. Boa parte da pele começava a necrosar lentamente, hemorragias aconteciam, havia queda de cabelo e das unhas. O fígado parava de funcionar, em seguida rim também bloqueava. Por fim, pulmão e coração começavam a falhar, causando a morte do indivíduo. Quando não era assim, surgia uma infecção e morria em dias. Lembro que a situação se tornou caótica. Os pacientes não sabiam se paravam de se tratar e morriam pela doença, ou se morreriam após o tratamento.
Até o terrível dia em que um homem ex-paralítico descobriu uma nova solução, após ser preso em uma jaula pela esposa, que o queria distante de si. Ele conseguiu se libertar no dia em que ela deu à luz uma menina saudável. O homem, faminto, desesperado, perdido em si mesmo, matou a filha, comeu sua carne e lhe bebeu o sangue. E, aos poucos, sentiu que a reação do corpo reduzia. Parte do que lhe vinha acontecendo melhorou após ingerir o sangue da recém-nascida.
Por isso, eu estava ali, escondida. Na horrível noite anterior, eu estivera numa maternidade.
As últimas horas foram assustadoras. Meu corpo já está tão fraco que eu nem sei como estou conseguindo me mexer. Caminho em passos trocados, tendo que me apoiar nas paredes para ficar de pé, protegendo-me do sol forte no escuro de becos frios. O calor queima o que sobrou da minha pele, e a luz tem me cegado. Mas eu respiro com força. E sinto de forma clara o cheiro suave. Ele está perto.
Eu me aproximo aos poucos do local. A mente está me fazendo ver coisas que não existem. Ouço vozes me chamando, pedindo que eu pare, que esse não sou eu. Só que não tem ninguém por perto. E, segundos depois, surgem várias pessoas, me observando com expressões de críticas, ou rindo às minhas custas. Fodam-se. Se estivessem passando por isso, não me julgariam. De tudo que eu sinto, vejo, ouço, a única certeza é o doce odor do sangue.
Lá estão eles. Não consigo ver seus rostos. Está tudo nublado na minha vista. São apenas dois corpos que se movem juntos. Mas a mulher parece bonita e forte. Abraça a criança como se protegesse parte do próprio corpo. Meus dedos sem unhas tremem, fracos. Eu preciso do sangue. Com urgência.
Eu arrumei meu bebê com carinho. Ele estava calmo. Tinha mamado um pouco, mas apenas o suficiente para não chorar. Levantei e o coloquei contra o peito. Hora de sumir. Deixei ali o resto dos panos que usamos, para despistar qualquer doente que sentisse nossos cheiros.
Estávamos dentro de um galpão abandonado. Não sabia para onde ir exatamente, mas correria pelas ruas evitando topar com qualquer estranho. Continuaria a vagar de canto a canto, até que meu filho já fosse velho o bastante para não ser mais alvo. Quando estava grávida, procurei entender o que era tudo isso. Poucos sabiam explicar. Alguns falaram que tinha a ver com o sangue do recém-nascido, que é um pouco diferente da adulta. Falaram até que o sangue já é assim quando está na barriga. O nome que deram era hemoglobina. O que me importava naquele instante é que o bebê alcança uma idade em que seu sangue é trocado, e as hemoglobinas problemáticas vão embora.
Eu só queria que ele vivesse tanto assim. Era injusto imaginar que uma pobre criança incapaz de se proteger pudesse morrer nas mãos de criaturas. Isso que os doentes se tornaram… Criaturas. Não eram mais humanos. Com o bebê protegido em meu calor, corri para uma pequena escadaria, pela qual havia descido. No dia anterior, depois de ser atacada na maternidade e ter que roubar uma ambulância para escapar, cheguei àquele mausoléu e entrei por uma janela. Voltaria por lá. Não queria me expor em público com um neném nos braços.
Subi os degraus lentamente, para não perturbá-lo. Tudo continuava quieto e abandonado como antes. Segui até a janela de vidro, ainda entreaberta. Empurrei para cima, dando mais espaço, e só então ouvi. Não eram passos, exatamente. Eram como se alguma coisa rastejasse até onde eu estava. De forma espontânea, segurei meu filho com mais força, e me voltei com cuidado. Procurei me esconder por trás de uma das tantas caixas e, de lá, tentei ver.
Embora parecesse se arrastar, passou muito rápido no meu campo de visão e sumiu. Comecei a recuar, nervosa, prenunciando o que estava por acontecer. Olhei em volta, procurando algum esconderijo conveniente, e não encontrei. Passei a caminhar de caixa a caixa, como se nelas pudesse me manter camuflada. Implorei com os olhos para que meu filho não chorasse, senão seria o fim.
O cheiro está ainda mais intenso. Meu corpo parece que vai se partir enquanto arrasto as pernas a cada degrau, mas o apoio do corrimão ajuda. Vejo a janela aberta. Caminho até poder tocar no vidro, cheiro o ar. Não passaram ali. Alguns raios de sol tentam invadir, e me cegam ainda mais. Ouço um movimento. Muito de leve. Não sei se é coisa da minha cabeça, ou se são eles.
Há dúzias de caixas à frente. Os pés trêmulos impulsionam meu corpo, sabe Deus como. É um labirinto. Só por saber que estou perdido, as dores ficam ainda piores. Um bolo ácido sobe à garganta, mas consigo evitar que escape. Um filete de sangue desce por uma narina. Não agüento mais. Estou pronto para morrer.
Um choro. Uma carga final de adrenalina é injetada em meu sangue. Resista. Só mais um pouco. Ando o mais depressa possível em direção ao berro da criança. Dá para ouvir até a mãe, que implora para que o filho pare. Tola. Não adianta mais. Cheguei.
Sugando o peito, ele se acalmou. Respirei fundo, tentando retomar o controle. Sabia que a criatura ouvira, e agora estava à espreita. Precisava com urgência fazer alguma coisa. Havia uma porta logo adiante. Mas, se corresse para lá, seria seguida. Vasculhei o ambiente com os olhos, nada serviria como arma. E, subitamente, uma mão sem pele agarrou meu braço com força.
Gritei e esmurrei a mão, conseguindo fazer com que me soltasse. Nem me preocupei em virar e olhar o doente. Corri para longe, destrambelhada, quase tropeçando, e cheguei à porta. Aberta. Entrei e procurei algum trinco para nos isolar. Não havia. Era uma sala menor, com vários manequins enfileirados um ao lado do outro, como se pairasse ali vasta multidão. Abaixei atrás de uma das tantas estátuas e pisquei várias vezes, suspirei, acariciei o cabelo fino do bebezinho. Estava mais calmo, ainda bem. Senti um arrepio quando ouvi a porta abrir e fechar lentamente.
Rastejei com apenas três apoios, evitando qualquer ruído que nos denunciasse. Passei de manequim a manequim, sempre parando, olhando em volta, tentando avistar alguma sombra, esperando prever um ataque repentino. Como antes, não ouvia passos, apenas o rastejado do pé doente, cujo barulho ecoava, impedindo saber de onde vinha.
Caminhei em direção a outro boneco, e alguma coisa por perto caiu. Não fui eu. Congelei, observando meu filho, adormecido. Tudo ficou quieto. Avistei um pé-de-cabra enfiado em uma caixa. Animada, levantei para apanhar. Sentia o suor gotejando pelo rosto. O manequim ao meu lado se moveu levemente. Virei, para entender, e vi quando veio no meu rosto.
Foi uma pancada tão forte, que caí no chão, zonza, sem conseguir entender direito o que havia acontecido. Tudo parecia nublado. Notei que o doente chegou perto e rapidamente apanhou meu bebê. Tentei desesperadamente lutar, mas o corpo não cedia. A cabeça doía tanto!… Não conseguia nem chorar. Tudo foi escurecendo, enquanto eu via o homem colocar o bebê sobre uma caixa. Ele se voltou e me encarou. E eu reconheci os olhos. Assustada, em um último desatino angustiado, avisei:
“É seu filho!”
Indiferente, a criatura revelou uma seringa. Perdi a consciência no momento em que a agulha penetrou o peito do meu anjinho, roubando-lhe a seiva.
Maravilhoso. O menino era muito forte. Muito mais do que eu imaginava. Não faz nem quinze minutos que o sangue dele está circulando em mim, e já sou outro. As articulações pararam de doer, os músculos estão rijos, e a vista, completamente limpa. Até amanhã, espero que a pele já comece a cicatrizar. Quando eu respiro, o ar enche os pulmões. Vida. Nem me atrevo a perder tempo pensando no que a mulher me disse. Meu filho. Como um monstro feito eu pode ter um filho? Eu não tenho filho. Eu não tenho vida. Eu sou um nada. Sou apenas um desejo da pessoa que já morreu desde o momento em que comecei o tratamento.
O pior erro.
Não queria continuar assim. Tem hora que penso em me matar e destruir tudo. Tem hora que meu único desejo é não existir. Mas basta que a dor recomece, e eu tenho certeza. Nem a morte eu mereço. Minha punição é a vida.
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Este conto foi escrito por Elton Severo. A publicação neste blog foi devidamente autorizada pelo autor.
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