Pela trilha de volta da Cachoeira dos Amores, por onde entrei, vou ver as latinhas no chão e talvez pense que cheguei um pouco tarde ao mundo para conhecer esse lugar tão bonito. O Uber, acharei razoável que custe trinta reais dali até o centro de Bertioga. Na beira da BR, vou notar, haverá uma barraquinha vendendo bebidas, e pode ser que uma cerveja não seja má ideia. Vou conferir que a chegada do Jefferson é em três minutos, e vou desistir da cerveja. Vou, quando o Onix prata estacionar ao meu lado, demorar para entender que até o centro de Bertioga é quarenta e cinco reais. O Jefferson vai cancelar a corrida no aplicativo e eu vou ficar contente quando descobrir que dentro do Onix prata o ar-condicionado está ligado. Vou imaginar, enquanto o Jefferson me leva por um bairro periférico do litoral, que meu sequestro está em andamento. Vou me distrair na contemplação das casas e da mata que transcorrem lá fora, ao som baixinho de Mr. Catra. Vou fechar os olhos. Vou, quem sabe, tirar um cochilo, vou sonhar com um velho muito barbado e uma barba que se torna um nevoeiro. Vou abrir os olhos e ver a mata rareando aos poucos. Vou, quando a mancha urbana de Bertioga se fizer indiscutível, pegar o celular para conferir a distância a que estamos da casa dela, mas vou lembrar que o Jefferson cancelou a corrida. Três minutos, vou ouvir o Jefferson adivinhar, e vou digitar um CPF no aplicativo do banco. Vou ler em voz alta o nome Lindalva Aparecida dos Santos e o Jefferson vai dizer é minha coroa. Vou descer do carro me perguntando o que é que o Jefferson andou aprontando para receber os pix das corridas na conta da Lindalva Aparecida dos Santos, que é a coroa dele, e pode ser que eu pense que a história do sequestro até que não era impossível, mas logo vou esquecer disso porque em seguida ela vai abrir a porta com um sorriso, a gente vai conversar durante uns quinze minutos e dali a pouco estarei dentro dela enquanto afundo minha cara nos seus seios cheios de pintinhas que nem os da minha mãe.
Quando a conheci achei que ela tinha cara de menino. Não de homem, de menino. E me desconcertou – talvez porque na época eu vivesse em espanhol – que todo mundo a chamasse de Mamá.
Foi meu pai quem nos apresentou. Um dia eu passei no estúdio e uma moça muito jeitosinha estava empoleirada atrás da cadeira giratória enquanto ele explicava alguma coisa sobre uma foto de uns indígenas no computador. Eu achei que fosse uma cliente, mas ele me explicou que aquela era a Mariana.
Você que mora na Colômbia, ela disse.
Depois que ela foi embora eu fiquei tentando lembrar se era pergunta ou afirmação. Mas não conseguia definir, porque eu queria mesmo era entender que cara de menino era aquela que ela tinha. E no dia seguinte eu indaguei meu pai sobre a amiga dele e achei engraçado falar essa palavra em voz alta, a palavra amiga. Ele me explicou que ela morava ali perto, na mesma rua, e explicou também que era artista e que era uma gracinha.
O Paulão é uma gracinha, meu pai disse uma vez. Quando saí do estúdio, recordei que ele se referiu dessa exata maneira a um amigo que tinha feito uma gentileza, e que eu fiquei constrangido com esse jeito de chamar um amigo. Mas depois esqueci dessa cena infantil porque fiquei olhando as casas uma a uma imaginando em qual delas a Mariana morava.
Uma noite eu entrei no bar do bairro e ela estava ali, de chinelo havaiana e três garrafas de cerveja que enfiava num saco de supermercado. Ela sorriu para mim, me deu um beijo no rosto, e eu disse você é a amiga do meu pai, fingindo lembrar-me vagamente. Em seguida me arrependi de não a chamar pelo nome de Mariana.
Mamá, disse alguém na rua, como se corrigisse meu pensamento. E a Mamá foi embora com as três garrafas de cerveja e o chinelo havaiana.
Outra noite o bar estava cheio e perguntei para a Mamá se ela tinha não sei que sobrenome, porque eu tinha inventado que ela era a cara de um amigo meu da infância. Ela disse que não tinha esse sobrenome e quis muito que eu falasse do meu amigo. A gente passou duas horas falando mal da vida e dos outros. Eu contei para ela que achava desconcertante que todo mundo a chamasse de Mamá (porque eu vivia em espanhol naquela época). Expliquei também que na Colômbia eles chamavam uma mulher bonita de mamacita. Ela quis saber como é que eles chamavam um homem bonito, e eu disse papacito, e ela achou muito engraçado e um pouco nojento.
Depois ela me contou que nem todo mundo chamava ela de Mamá. Não chamam?, eu quis saber. Não, não chamavam. Então como te chamam?, eu perguntei. Por exemplo, ela disse, de Mariana, é assim que seu pai me chama sempre.
Meu pai está dormindo no sofá e sobre ele a manchete diz que a aprovação de Fernando Collor é de quinze por cento. De repente me dou conta da dupla indiscrição que é espiar alguém que dorme e não me conhece. Pois esse homem, com essa idade e essa barba preta, eu não conheci. Fui me informando dele só mais tarde, quando passei, passo a passo, a existir. E existir, para quem recorda, não é de um dia pro outro, mas em degradé.
A porcentagem indica que o Collor não vai durar muito. Isso quer dizer que olho meu pai do ponto de vista de uma mulher grávida. Grávida dele, ou seja, grávida de mim. Olho o verso para conferir a data na letra inclinada da minha mãe. Mas no verso não há nada.
A derrocada do presidente também significa que meu pai tem ali um pouco menos do que a minha idade agora. Penso o quanto mais que eu parece um homem completo, e isso que não tem filhos, e isso que talvez não tenha sequer emprego. Tão completo parece que até parece um pouco morto. Devo pensar isso porque o jornal lhe cobre o rosto parcialmente, como quando alguém, por pudor à morte, tapa o cadáver com o que quer que esteja à mão.
Ou vai ver é outra coisa. Vai ver estou pensando isso porque faz uns meses que o homem que conheci não irá, nunca mais, despertar.
Vou abrir os olhos lentamente e descobrir que estou com a cara enfiada numa massa muito macia de carne e pele. Macia, quente e úmida. Vou desejar que ela não se desperte com meu movimento. Depois vou entender que quem não quero que se desperte sou eu. Mas já terei despertado.
Ela vai se levantar sem dizer nada e sair do quarto se escondendo numa camiseta enorme e gasta. Olharei minhas mãos, ainda sujas de cinzas. Vou reparar que babei um pouco, e, depois de vestir minha bermuda jeans sem cueca, olhando no espelho o matagal dos pelos sumindo na roupa que se fecha, vou passar no banheiro para me recompor. Na cozinha ela estará sentada numa cadeira, um dos pés no piso e outro no assento, de modo que um braço se apoiará sobre o joelho, enquanto o braço livre sustentará uma xícara de café. Ela vai me oferecer café, eu vou aceitar, mas vou pensar mesmo é na cerveja da barraquinha da BR. Vou considerar, com algum temor, se não espalhei cinzas pelo seu corpo nu. Depois vou me tranquilizar, porque essas cinzas, no fim das contas, não são bem o que a gente chama de sujeira.
Ela vai perguntar se deu tudo certo. Eu vou dizer que quase fui sequestrado pelo Jefferson do Uber. E vou explicar que ele me fez pagar quarenta e cinco reais para a Lindalva Aparecida dos Santos numa corrida que era trinta no aplicativo. Ah, ela vai dizer, aqui é assim que eles fazem. E eu vou entender.
E a Lindalva, quem é?, ela vai querer saber. A Lindalva, eu direi, bom, não sei o que o Jefferson andou aprontando, mas a Lindalva Aparecida dos Santos parece que é a coroa dele.
Ela vai rir, rir uma risada gostosa, e depois vai dizer que não sabe porque está rindo. E aí a gente vai ficar em silêncio e eu vou pensar que queria essa risada e esse silêncio na época em que a gente estava apaixonado. Mas isso terá sido bem antes.
Aqui eu calculo que seja um pouco mais antes que antes. A câmera devia estar apoiada numa árvore, porque ao fundo se vê o parque, e ao chão, de cócoras, em plano picado, minha mãe e meu pai encaram um fotógrafo inexistente. É claro que nas fotos o fotógrafo nunca aparece, mas nesse caso eu sei que atrás das lentes não há ninguém. Foi um dos dois que, enquanto o outro já posava, subiu na árvore, fez o enquadramento, anteviu o lugar onde se encaixaria, acionou o timer e correu a tempo de sustentar, por segundos talvez excessivos, uma expressão destinada a ser vista décadas depois.
Imagino isso enquanto me distraio do passado no presente. A mesa onde eu olho essas imagens tem apenas três objetos: a caixa de fotos, o abajur, que tudo ilumina, e a urna. Intuo uma relação entre eles, e quem sabe é por isso que repito o exame dessas cenas em gestos quase idênticos, semanalmente. Quem sabe se, à força da repetição, alguém na foto vai me dizer o que diabos fazer com a urna. E é claro que ninguém vai dizer nada.
Volto ao retrato. Pensando bem, o caso aqui é que, pelo contrário, o fotógrafo aparece demais. E o plano picado os deixa diminutos lá embaixo, um pouco vulneráveis, embora pareçam não percebê-lo. É justamente essa ingenuidade que me comove um tanto. Me enternecem esses sorrisos que exibem sem que ninguém prescreva (pois o fotógrafo são eles mesmos), essa crença gravada nos rostos de que a vida é possível, de que o amor é possível, de que a fotografia, enfim, é possível.
E pode ser que na verdade o ingênuo seja eu. É provável que esse dia no parque fosse repleto de imperfeições. Talvez, no intervalo entre o acionamento e o clique, eles não estejam de fato felizes, e os sorrisos que agora vejo sejam forjados para o engodo. E com certeza, nos momentos que a câmera não flagrava, segredavam aos ouvidos um do outro as maiores safadezas, as maiores porcarias.
Minha mãe cochichava ao ouvido do meu pai alguma coisa que o fazia sorrir e balançar a cabeça em afirmação. Coisa contraditória, isso de conspirar bem na minha frente. Na minha frente e na da Mariana também, que nessa noite tinha sentado na mesa do bar com a minha família completa.
Se a gente não podia ouvir era porque falavam da gente. E se falavam da gente, coisa boa não era. Ou era boa demais.
Fazia muito calor nesse verão e os mosquitos me picavam os tornozelos. Eu soltava os chinelos para coçar um pé esfregando o calcanhar no outro pé. Depois voltava o pé a seu devido chinelo. Durante a meia hora seguinte Mamá e minha mãe conversaram à vontade, como velhas amigas. Eu não sabia que intimidade pregressa havia. O estúdio do meu pai ficava no lugar da garagem, e a casa em cima. Como a Mamá vivia ali conversando com meu pai, devia ter cruzado caminho com minha mãe algumas vezes.
Meu pai pontuava o papo com comentários a cada dois minutos, fumando. E eu, no silêncio de um animal em caça.
Uma hora enfiei meu pé no chinelo e senti que ele tinha encolhido enormemente. Recuei minha cadeira para espiar o que estava acontecendo ali embaixo. Vi que meu chinelo envolvia com sobras o pé da Mamá. Minha mãe percebeu meu gestual e quis saber o que foi. Eu olhei para a Mamá sem saber o que dizer e aí ela perguntou: pernilongo?
Sim, os putinhos estão me comendo, eu falei. As putinhas, alguém corrigiu.
Minha mãe e meu pai foram embora e a gente ficou um pouco no bar. Depois caminhamos pela rua e eu fui tentando adivinhar qual era a casa. Só consegui adivinhar quando já entrávamos pelo portão de ferro um pouco ruidoso. Terminamos de beber a última cerveja enquanto ela me contava que no dia seguinte, cedinho, ia para a casa que a família tinha em Bertioga, passar uns dez dias. Dez dias me pareceu um tempo enorme. E achei que já era um pouco tarde da noite para fazer alguma coisa.
Ela me levou até o portão e chegando lá nos beijamos durante uns dez minutos. Depois eu fui embora. A gente se falou por mensagens de celular durante aqueles dias. Ela explicou que Bertioga era uma cidade litorânea feia, mas que tinha um apreço por aquele lugar. Eu disse que entendia o que ela queria dizer porque meu pai ia muito a Bertioga numa casa da nossa família nos anos sessenta. Parece que nos anos sessenta era a única casa em quilômetros, a casa da minha família. Na verdade tinha também a casa do Antônio Ermírio de Moraes, eu lembrei depois. Ela achou que eu estava mentindo, e eu jurei que era verdade. Mas a casa não existia mais.
Ela ficou lá os dez dias. E ficou mais. Um dia mandei uma mensagem pra ela explicando que ia voltar para a Colômbia. Ela respondeu no dia seguinte dizendo que voltava a São Paulo uns dias depois e que queria me ver. Será que ainda dá tempo?, ela perguntou.
Ela voltou na véspera da minha partida. Fui para a casa dela à noite e ela estava mais morena por causa do sol. Logo nos beijamos e fomos para o quarto. Eu tive alguma dificuldade com seu sutiã, que eu não entendia o que estava fazendo ali, já que ela tinha peitos pequenos.
Tentei colocar uma camisinha, mas não me mantinha teso o bastante. Dediquei-me a ela durante um tempo e depois ficamos quietos nos olhando. Eu expliquei que ultimamente achava camisinha muito difícil. Ela disse que não gostava, que ninguém gostava, mas que na idade dela já tinha se acostumado. Que idade você tem?, eu quis saber. Trinta e um, ela disse, e você? Eu?, perguntei. Tem mais alguém aqui?, ela disse.
Não, não tinha mais ninguém entre nós. E eu tinha vinte e três anos.
Depois a gente voltou a se esfregar e fui, sem muita convicção, entrando nela, e terminei de supetão logo depois de entrar.
No dia seguinte eu fui para a Colômbia com a ideia de coisa incompleta na cabeça. Não de coisa errada. Coisa incompleta. A gente continuou se falando durante as semanas seguintes. Às vezes ficávamos proseando durante uma hora, hora e meia. Eu escrevia coisas que pensava na rua. Achei que estava apaixonado. Mas isso eu não escrevi. Depois as mensagens foram rareando. Foram se espaçando, minguando, murchando, até que uma hora, sem ninguém reparar, pararam.
Eu acompanhei no Facebook uma exposição de arte que ela fez. No post da exposição agradecia a umas pessoas, entre as quais meu pai – “por ser um paciente advogado do diabo”. No Facebook também ela começou a aparecer com um careca tatuado. E foi ficando grávida nas fotos, cada vez mais grávida, mas de modo descontínuo, porque não era todo dia que eu espiava. Quando estava já muito barriguda eu fiquei imaginando que ela tinha ficado grávida daquela vez, na véspera da minha partida. Obviamente não fazia sentido, porque já tinha se passado mais de um ano. Depois imaginei que meu esperma tinha ficado esperando ali na entrada, sei lá de que maneira, e fecundou a Mamá quando o careca tatuado entrou e empurrou tudo pra dentro. E depois eu fiquei sabendo que a criança tinha nascido e que tinha nome de fruta. Nome de Romã. Mas aí eu já não usava o Facebook e quem me contou foi meu pai, por telefone.
Ela vai segurar o celular junto à orelha, o cotovelo direito apoiado sobre o braço esquerdo, que estará deitado sob os seios. De vez em quando, por conta do vento forte da praia, os cabelos grisalhos vão cair sobre seu rosto ainda bastante jovem, e por isso ela levará a mão esquerda ao rosto, para ajeitar os cabelos que atrapalham a conversa. Não vou ouvir direito o que ela diz, mas vou entender que não é da minha conta quando ela me olhar de esguelha, muito séria. Eu vou pensar que essa convivência de idades, o grisalho dos cabelos sobre o rosto jovem, lhe cai muito bem, e que o vento lhe dá uma aparência ao mesmo tempo gasta e vivaz contra o dia quente que vai gradativamente tendendo ao cinza.
Vou me despir. Vou caminhar lentamente em direção ao mar e ver como o limiar das ondas sobre a areia é feito de linhas que avançam a mim numa geometria maluca, oblíqua. Vou sentir minha pele se arrepiando quando as linhas me atravessarem, olharei para baixo e será como se meus pés tivessem sido decepados por uma lâmina de notável precisão. Depois o mar vai recuar, vou ver a água vibrar cada vez mais à medida que a profundidade diminui e sentirei uma leve vertigem ao notar que, enquanto uma camada de água recua, uma outra parece avançar, por baixo. Outra onda virá e eu saltarei por sobre ela para evitar um contato que, no entanto, eu procuro de bom grado. Avançarei assim nesse vaivém como se corresse em câmera lenta, como se umas amarras ou a exaustão quisessem adiar esse desatino que é entrar no mar. Com as ondas, virão séries de ruídos que sobem desde um murmúrio infinito e indistinto, cada vez mais agudos, até arrebentarem ao contato do meu corpo e tudo recomeçar. Eu vou querer vencer o mar, ou que ele me vença, vou querer ficar completo na submersão ou que ele me afogue de uma vez, e vou mergulhar muitas, muitas vezes, de frente, de lado, de costas, de voadeira, que nem um Power Ranger, de cara aberta para a água aberta, que no entanto não se detém nunca, nem me sacia. Vai ser assim, até eu declarar empate entre a gente e voltar com o corpo vibrante e molhado.
Ela vai me perguntar se não estava frio e eu vou dizer que no começo sempre é frio. Depois passa. Ela vai dizer que amanhã de manhã eles chegam de carro, mas que à tarde ele já sobe a serra de volta, sozinho. Eu vou perguntar se é tranquilo para ela a divisão. A guarda?, ela vai perguntar, e tranquilo, tranquilo, nunca será, mas eles de um tempo pra cá se entenderão melhor. Eu vou perguntar se ela não vai entrar na água e ela vai balançar a cabeça, rapidinho. Vamos ficar em silêncio durante um minuto enquanto eu molho o papel do cigarro, que o vento fuma mais do que eu. Depois eu vou avistar um bar na avenida da praia e sugerir que a gente tome uma cervejinha. E ela vai dizer só se for agora.
Agora é uma série em que eles estão na praia. Deve ser o começo do amor. É preto e branco. A falta de cor me impede de saber quão radiante era o dia. Eles, pelo contrário, encontram-se no auge de sua voluptuosidade. Isso dá pra ver no peito nu do meu pai. Dá pra ver nos seus mamilos de pêlos úmidos, eriçados, nos seus músculos intumescidos. Dá pra ver toda a disposição do corpo para fazer aquilo que nos convoca de um lugar remoto e inegociável. Dá para ver – ou adivinhar, melhor dizendo – o apetite com que minha mãe retrata o corpo do seu homem, e a prova disso é a avidez que o retrato me transfere em forma de enigma repleto de sensualidade. Pois eu pretendo decifrar alguma coisa dessas imagens. Pretendo – e deve ser por isso que estou há semanas indo e vindo nessas fotos – pelo menos roçar uma fração dessa experiência íntima e visceral da qual eu participei em dessincronia. É que quando eu vim a ser, já foi depois, e antes, bem, antes eu talvez fosse apenas o desejo. Sim, eu fui esse desejo, e por isso mesmo não me embaraço em olhar o retrato seguinte, agora da minha mãe, e satisfazer-me com sua beleza, com a languidez de seus lábios entreabertos, com a ideia de que possuí-la terá sido a coisa mais urgente do mundo. Olho-a como a olhou meu pai – fotógrafo, voraz, tesudo –, e nisso conheço um pouco mais de mim antes de que eu fosse qualquer coisa mais palpável e menos brutal do que o puro querer.
Mas logo isso escapa. Vence-me uma mescla de ciúmes e nostalgia, e creio que nada disso está ao meu alcance. Minha mãe, com seu jeito de oferecida, parece que diz vai, filho, vai dormir, que essa transa é nossa e não te diz respeito. Ou são meus olhos que se cansam, porque é tarde.
And it’s too late, lady, eu pensava que era. Ou então, talvez, maybe. And it’s too late, maybe, now it’s too late. Sei lá. Sei que a música vivia dando voltas na minha cabeça quando eu voltava do bar onde eu trabalhava para a minha casa. Quer dizer, pra casa dos meus pais. Que era a minha casa, afinal eu tinha voltado da Colômbia fazia uns meses. Se bem que depois que a gente vai embora parece que ele nunca mais é nosso lar. O país, quero dizer. Falo de sair do país.
Assim eu andava, meio desarraigado. Quem sabe por isso eu postergava ao máximo a volta pra casa. Acabava o expediente, e eu me demorava com os colegas e um ou outro cliente mais chegado, no bar, com as portas já fechadas e os pacotinhos de pó abertos. Mas pode ser que eu demorasse porque não queria encontrar o que encontrava em casa.
Uma tarde eu ia para o bar e vi a figura muito pequena de uma mulher vindo na minha direção, de mãos dadas com uma pessoa ainda menor. As duas figuras foram crescendo enquanto a gente caminhava, até que a mulher atingiu mais ou menos o meu tamanho e me disse oi. Eu lhe dei um abraço carinhoso e desajeitado. A pessoa ao lado da Mamá permanecia pequena. Era uma pessoa em miniatura. Eu fiquei olhando querendo entender que cara de menina era aquela que ela tinha. Então a Mamá disse que aquele era o Roman. E o Roman ficou me olhando muito sério querendo entender que cara de animal era aquela que eu tinha. E a Mamá disse: essa porcaria toda é terra, né, Roman? Eu reparei na porcaria nas mãos dele e disse o que é que você andou aprontando, Roman? Ele abriu um sorriso muito gostoso e falou alguma coisa como bogaía. E falou de novo, bogaía, bogaía, bogaía. E ria. Devia ser uma bogaía muito engraçada, a do Roman.
Depois ela disse que ficou sabendo do meu pai. Pois é, eu falei. E antes de ir embora falou que ela estava ali, ao lado , se a gente precisasse de qualquer coisa.
De madrugada eu entrei em casa na ponta dos pés, como para não despertar a criança. Mas meu pai despertava ao menor ruído. Despertava para me pedir alguma coisa, ajudá-lo a ir ao banheiro, ajudá-lo com os remédios, com a água, com a dor, ajudá-lo a dormir de novo. E dormir definitivamente ele não dormia. Eu pensava com raiva que ele tinha esperado eu voltar da Colômbia para ficar daquele jeito. Mas pode ser que alguma coisa viesse se gestando no seu corpo fazia meses, ou anos. Uma coisa parecida com a vida, tão perversa e indomável quanto ela, só que do avesso.
Às vezes ele se sujava e eu dava banho nele em plena madrugada. Ele não suportava a ideia de ficar malcheiroso. Meu pai sentava na cadeira de banho e eu ia temperando a água para ficar no ponto exato da sua preferência. Depois conduzia a cadeira sob o jorro quente, o banheiro todo ia se perfumando de sabonete e os objetos se tornavam difusos atrás da camada esbranquiçada de vapor, como se estivéssemos em um sonho de filme antigo. Eu auxiliava na lavagem dos sovacos, da cabeça, buscava buchas e escova de dentes. Do pinto, lá embaixo no matagal grisalho, era ele quem cuidava. Depois eu fechava o registro e cobria o homem de toalhas felpudas. Embora ele não falasse muito, sabia que aquele era um momento de satisfação. Duraria um instante, mas era assim. Com uma das toalhas eu esfregava seus cabelos, poucos, fazia uma pontinha para absorver a água dentro das orelhas, dava tapinhas suaves com o tecido para que ele ficasse todo seco. Era aí que eu notava como sua pele tinha se tornado macia. Macia, quente e úmida. Sua pele, sua carne: menos que as de um homem, pareciam, para a memória do tato, a pele e a carne de uma mulher.
Eu botava meu pai pra dormir. Depois, caía na cama, ainda com os resquícios da umidade no meu rosto acentuando o frescor da madrugada. E então a canção que vivia na playlist do bar voltava, sempre duvidosa: and it’s too late… lady?, it’s too late… maybe?, It’s too late…
…baby.
É um bebê, bebezíssimo, com os pés enfiados em sapatos gigantescos e de olhos arregalados. Mais bebê, impossível. A mãozinha esquerda, gorducha, é sustentada com leveza pela mão de alguém que está fora do quadro. É o gigante dono dos sapatos, quem sabe.
Desde que achei essa caixa de fotos, não sei bem porque, procuro preservar a sequência, e à medida que espio, escondo os retratados um a um, com a cara para baixo, na mesa. Depois, para guardar, restauro a ordem dando volta ao monte todo de uma vez. Precaução inútil, já que a cronologia é bastante precária. No topo, sim, ficam as últimas imagens da era analógica, e no fundo, o desfecho dos anos 80. Só que, de um lado a outro, o tempo é pleno de zigue-zagues. A cada nova inspeção — e há tempos já perdi a conta — me convenço de estar lendo, como quem prospecta o solo em busca de riquezas, uma história de amor de trás para frente. Ou de frente pra trás, sei lá. O fato é que desse amor remoto, um pouco inesperado, surge agora o fruto, na forma arredondada de um bebê repleto de receio. Esse bebê sou eu.
Não sei quem me olha, mas quem me olha me espanta. Tudo me espanta nessa época. A ele ou ela, seja quem estiver detrás da lente, eu devia andar acostumado nos últimos sete ou oito meses, que aliás eram toda minha vida. Pai e mãe deviam ser umas ilhas, mais ou menos seguras, em meio a um mundo vasto e inóspito. E sempre que me registram, porém, o que fica é essa desconfiança, fronteira com a curiosidade.
Olho a urna sobre a mesa e imagino o que o homem ali dentro diria disso. Penso que a desconfiança decorre do próprio registro. Bobagem. Ali, bebê, não tenho como saber que a bugiganga me lança, por arte de mágica, à fugaz eternidade de uma foto. Então considero que meu temor tem a ver com algo que a câmera oculta: o rosto que amo, no ato da foto, desaparece detrás do aparelho. E eu não entendo que esse desaparecimento é provisório.
O sol desaparecerá e aparecerá várias vezes atrás das nuvens, até sumir de uma vez por todas no exato momento em que o garçom deposita sobre a mesa um prato metálico, forrado de folhas de alface crespa, com uma multidão de camarões fritos por cima. Será um conjunto de formas espiraladas, vagamente vermelhas, que imitam umas às outras, tão similares entre si que chegarei a pensar que levo o mesmo camarão várias vezes à boca. O sumiço gradual da multidão vai desmentir o meu delírio sem muita convicção, que do prato vai migrar às gotas, idênticas, caindo como um véu, primeiro no mar, lá longe, e logo avançando pela larga faixa de areia até cruzar a avenida e invadir o precário abrigo que o toldo representa. A chegada da chuva, empurrada pelo vento, vai acelerar uma embriaguez eufórica que ganhava força no ritmo pausado dos goles de cerveja nos copos americanos.
E quando ela estiver bêbada o bastante virá a revelação: a gente ficou meio apaixonado, ela dirá. Mas isso não será ainda a revelação. É que em seguida ela vai dizer seu pai, na verdade eu era apaixonada pelo seu pai. Acho que eu sabia, é o que vou dizer.
Vou olhar os rabinhos dos camarões organizados no canto do prato metálico. Estranho jeito de tratar o resíduo, esse nosso. Vou olhar a chuva desabando na região e pensar que por aí deviam abundar manguezais, reentrâncias, sopas de lodo onde a morte conspira com a origem, onde o podre borbulha lado a lado com a mais bruta vitalidade.
E ele?, eu vou dizer, ele era apaixonado por você também? E ela vai achar que sim.
Vai chegar mais uma cerveja e ela vai verter o líquido cuidadosamente no meu copo. Vou observar como a espuma é feita de milhões de bolhas espocando sem parar, e vou pensar que a vida deve ser mais ou menos isso aí, milhões de bolhas espocando sem parar.
Eu, lhe direi em seguida, eu era o meu pai que estava ao seu alcance. Pode ser, ela dirá.
A chuva estará tão constante que, olhando-a no cerne de sua complexidade, vai parecer de repente simples, como se fosse composta por meia dúzia de quadros que se alternam em ordem aleatória.
Olha, ela vai me dizer com um sorriso falsamente sacana, posso parecer muito cínica, mas a verdade é que eu gosto muito da sua mãe.
Satisfeitos?, o garçom vai querer saber. E estaremos satisfeitos.
Vou perguntar se ela conhece aquela música da Carole King que se chama It’s too late, baby. Ela vai querer saber como é. E eu vou cantar and it´s too late, baby, now it´s too late… do li di de di, la du le di… something inside has died and I can’t hide… Conhece?
Ela vai ficar em silêncio e eu vou achar que ela está lembrando da música. E a chuva vai parecer, por um momento muito breve, que chove de baixo pra cima.
Não, ela dirá. Não conheço.
Meu pai conhecia a canção da Carole King de longa data. Pouco antes de saber disso, pela manhã, eu passei em frente à casa da Mariana e reparei que o mato transbordava pelas grades um pouco enferrujadas. Placas de vende-se e aluga-se, muitas, inumeráveis, faziam pensar numa casa multiplicada. Por mensagem eu soube que a antiga inquilina agora morava em Bertioga, na casa da família. E ela soube que meu pai andava no bico do corvo. Depois me censurou por falar desse jeito e pediu que eu mandasse um beijo, um abraço.
Um adeus, eu pensei.
O trabalho no bar se estendeu madrugada adentro. Às cinco da manhã eu mandei minha última carreira e passei num mercado 24h para comprar figos maduros para o meu pai, que tanto gostava deles. Às seis, rendi minha mãe no hospital e vi as luzes do elevador piscarem uma a uma, como se subisse ao céu montado numa estrela eletrônica.
Lavei uma fruta na pia do quarto e a desabrochei com delicadeza. O figo tinha aquela aparência arroxeada do sexo. Levei a fruta aos lábios do meu pai, mas não lhe apeteceu. Figo bom é difícil de achar, ele lamentou, muito baixinho. Achei que nada mais lhe apeteceria naquela luz de dezembro. Depois olhei pela janela, altíssima, e calculei vagamente quantas alvoradas lhe restavam. O sol caía no rosto do velho pelo filtro suave das persianas como um afago derradeiro. E a cidade, lá fora, era um mundo distante e silencioso.
Liguei a caixinha, procurei And it´s too late baby e dei play no celular. Talvez fosse a baixa do pó, vai saber. Ele disse que aquela música era da sua época. Eu falei que ela tocava o tempo todo no bar onde eu trabalhava. Estava na playlist. Depois ele me disse para pegar leve e deu, com a força que lhe restava, dois toques suaves no nariz, com a ponta do indicador.
Quando terminou o refrão ele me perguntou por que eu estava chorando. Por quê? A música me fazia lembrar de alguém? Não, não era isso. O que era então?
Ah, eu choraminguei, é isso aqui. É isso: o que está acontecendo.
Em seguida ele começou a falar de quando minha avó estava no bico do corvo. Ele foi visitá-la no hospital, e ela, que era muito carola e muito pudica, lhe contou de uma tarde no fim dos anos 50 que passara com meu avô na Cachoeira dos Amores, em Bertioga. Meu tio era um bebê de apenas alguns meses. Fazia um dia lindo e não andava ninguém por ali. Os dois deixaram o cestinho com a criança sob a sombra de uma árvore e foram namorar entre as pedras da cachoeira. E namoraram, namoraram. Namoraram com gosto e alegria, minha avó deu a entender. Desse namoro, ela tinha certeza, nasceu meu pai. E às portas da morte, muito pudica e muito carola, ela lhe entregou a narrativa de sua concepção como um presente tardio, que meu pai agora me transmitia com alento entrecortado e um sorriso sutil na boca deformada.
Sabe quem está morando em Bertioga?, eu disse em seguida. A Mamá. A Mariana?, ele disse. Sim, a Mariana. Eu tinha passado na frente da casa e estava tudo cheio de mato, um monte de placa de vende-se.
Passou um minuto e então eu lhe contei: a gente teve um lance, eu e a Mamá. Sim, um lance rápido, meio que nos apaixonamos. Mas foi isso, só um lance rápido.
Meu pai pareceu se alegrar enormemente com essa fofoca atrasada. Depois adormeceu, com a marca do sorriso ainda na boca.
Três dias depois ele morreu. Expirou sem alarde, como quem submerge a uma água calma e cristalina. Decidimos cremá-lo. Fantasiei episódio de espetáculo, as labaredas consumindo a carcaça do meu pai defunto. Que nada. Falamos, apenas, umas palavras ensaiadas, sinceras, e o esquife baixou à profundeza secreta da funerária. Dias adiante veio a notificação para buscar os restos, como uma encomenda da Amazon. Era uma urna. No caminho pra casa, no banco de trás do táxi, bisbilhotei a arca: dentro dela um saco plástico, e dentro dele as cinzas, que bem poderiam ser de um finado qualquer ou de um bebê trocado na maternidade da morte.
Depositei a urna sobre esta mesa junto à qual me sento agora. Sobre ela correram semanas, meses, hálitos de sucessivas estações. Não vou dizer que sou indiferente a seu conteúdo carbonizado. Mas guardá-la num armário, como quem guarda uma ferramenta futuramente útil, me parece incabível. Essa serventia jamais virá, e no entanto o descarte, assim, sem mais, tampouco tem cabimento. Deixo então o objeto à vista, na mesa, embora mais pareça que o vigiado sou eu. Suspeito que, para dar fim à coisa, preciso entender algo da pessoa que ali habita. Só que pessoa para entender não há mais. Ou, quem sabe, será apenas dando fim ao conteúdo da urna que vou entender o que há ali dentro.
Faz umas semanas que, fuçando na bagunça do finado, topei com essa caixa de fotografias. Desde então vejo e revejo as imagens como quem procura uma resposta a uma charada inexistente. As semanas passam, os gestos se repetem. E os retratos insinuam uma solução, que sempre se esvai. Por vezes, se olho distraído, adivinho que a verdade maior do assunto mora no detalhe de roupa, no trejeito de família, e quero entender que verdade é essa. Tento, insisto, em vão, até dar volta nas fotos e fechar a caixa, pensando que a verdade é isso aí mesmo, uma série de imagens congeladas, incompreensíveis.
Decido por fim que o destino das cinzas não está nessas fotos. Será ridículo, será cafona, sim. Mas a própria morte é cafona. Arrumo uma mochila leve e vou dormir cedo planejando minha missão clandestina e afetuosa.
Despertarei querendo saber que voz de criança é essa. Depois vou achar que não é criança, mas animal. E criança é um tipo de animal. Será a voz da vizinha, a galinha da vizinha.
Ela vai quebrar três ovos em uma frigideira pequena. Vou contemplar as gemas flutuando na sua geleia nutricional, perfeitas, redondas. Em seguida ela vai ferir as esferas com uma colher de pau, e o amarelo vai dissipar, aos poucos e para sempre, sua substância densa na massa clara da vida.
Comeremos os ovos com torradas e silêncio. Um silêncio pacífico, de coisa cumprida. Depois eu vou me apressar um pouco para ir embora a tempo de não ouvir o carro chegando do alto da serra.
Sob o batente, sem desejá-lo de verdade, eu vou perguntar se a gente pode se ver mais uma vez. Está tudo certo, ela vai dizer, você é uma gracinha. Dirá que foi bom eu vir. Só que não.
Um carro vai passar na rua diminuindo a marcha, e eu vou achar que é o careca tatuado, com o Roman na cadeirinha. Não será.
Mas se for como amiga, ela dirá, pode ser. Eu vou achar esquisito ela falar essa palavra, a palavra amiga. E vou pensar que, se for pra ser assim, como amiga, não faz muito sentido.
Está bem, eu direi, como amiga. Como amigos. Parece que vou topar, e em seguida irei embora achando minha mochila leve demais.
Nas costas, enquanto espero o trem para Mogi, sinto que o saco plástico é mais pesado que todo o resto da minha bagagem. O saco foi a última coisa que peguei antes de sair de casa, no frescor de uma manhã que promete um dia de sucessivas temperaturas. Os trens que vêm a São Paulo estão cheios de gente, enquanto o meu não tem quase ninguém. Vou assim na contramão do mundo, achando na arquitetura antiquada das estações, que substituem umas às outras intermediadas pela paisagem deformada por deslocamento, um quê de viagem ao passado. Os breves lapsos para embarque, penso, são como fotografias, que logo descarto ou esqueço na progressão ritmada das paradas.
Depois, pela janela do ônibus que tomo em Mogi, são as nuvens que atestam a permuta contínua das coisas. São nuvens tão grandes quanto provisórias, nas quais se projeta toda a gradação de cores do amanhecer, e relances de mar, que entrevejo nas curvas, através da mata e do casario pobre da baixada. Deve vir chuva mais tarde.
Escrevo no celular que estou em Bertioga e pergunto se ela aceita uma visita. Confiro na tela o meu destino e me assusto com a ideia de saltar ao meio do nada. Mas quando salto não é o nada, é outra coisa. Vejo uma barraquinha na beira da BR, e ao fundo um terreno faz as vezes de estacionamento. Há poucos carros nesta sexta-feira. Uma placa verde, enorme para quem vai a pé, diz que Bertioga está a quatro quilômetros. E uma outra placa, que mal se vê entre a folhagem espessa da floresta que se excede sobre o acostamento, indica com timidez a trilha para a Cachoeira dos Amores.
A trilha tem algumas latinhas perdidas entre as raízes de árvores descomunais. Embalagens plásticas, quase descaracterizadas, entranham-se na terra como se procurassem uma segunda natureza. Mas, para minha surpresa, quando chego à cachoeira não há ninguém. Ninguém, apenas eu e a massa enorme de água que cai repetindo-se a si mesma, sempre com diferenças infinitesimais.
Observo as pedras e fico avaliando qual seria o melhor lugar para namorar naquele ambiente. Depois me considero ingênuo por achar que são as mesmas pedras nos mesmos lugares de há sessenta e tantos anos. Mas a verdade é que são sim as mesmas pedras nos mesmos lugares de há sessenta anos, e essa ideia é razão de espanto e conforto ao mesmo tempo.
Ponho a sunga e vou cuidadosamente caminhando pelas pedras cheias de irregularidades, uma mão segurando o saco plástico e a outra apoiando-se num corrimão invisível. Quando meus pés tocam o fundo de areia, meu equilíbrio se restitui. Estou imerso até o umbigo, suspenso no olho d’água que a cascata forma, e desato o fecho que lacra o saco plástico, similar àquele arame de pão de forma. Depois enfio a mão no saco e sinto que as cinzas têm uma textura crespa, quase crocante. Vou despejando os punhados de cinzas que a água leva embora sem empapar, como se fossem matérias antagônicas. A cena tem algo de ilícito e espalhafatoso. E talvez seja justamente por isso, porque é ilícito e espalhafatoso, que começo a chorar copiosamente.
Refaço meu caminho e penso que o lixo na trilha não impede que o cenário seja encantador. Ainda é cedo, considero ao checar a hora na beira da BR. Leio um endereço na tela do celular, logo abaixo da mensagem marota e protocolar que diz visita aceita. Para onde vamos?, me pergunta o Uber. E eu não digo nada. Copio e colo o endereço, e leio em seguida, com uma leve sensação de já ter vivido isso antes, que o Jefferson chegará em três minutos num Onix prata. Bem possível que eu já tenha visto esses lugares, é o que eu penso enquanto o carro atravessa um bairro periférico do litoral. Ou, se não é isso, é porque no fundo os lugares e as vidas são mais ou menos parecidos. O Mr. Catra soa baixinho no fundo, como um sussurro, e das duas uma: ou meu sequestro está em andamento ou é costume daqui cobrar cinquenta e cinco paus numa corrida de trinta. Ou ele disse quarenta e cinco? Sei lá. Sei que esse vaivém do Onix prata embala a gente que nem neném. Me distraio na contemplação das casas e da mata que transcorrem lá fora. Um silêncio se aproxima, e vejo o rosto de um homem muito velho e barbado no desenho das nuvens. Mas na verdade entendo que sua barba é um novelo de lã, que por sinal acaba de se desfazer com um sopro. Sim, o novelo agora é um nevoeiro. Sei que é um nevoeiro porque detrás se revela o perfil de um casarão. É um casarão que flutua sobre seus destroços, muito remoto, muito sereno. E quando eu estou a ponto de tocá-lo, ele já não é casarão, mas cidade.
E agora? É Bertioga, penso ao abrir os olhos.
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