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Lendas Urbanas Modernas – Crônica (Cláudio Alves)

Antigamente, “nossa vida era mais simples de viver”. Até os medos eram meio bobos: de Lobisomem, de Mula-sem-cabeça, do Boitatá, da Cuca, que “te pega daqui, te pega de lá”. Hoje, os receios são outros.

Por exemplo, Deus te livre de não desculpar o Transtorno.

O Transtorno está por toda parte: um corredor sendo pintado, uma loja se adaptando ao novo ponto comercial; uma avenida sendo ampliada; um novo viaduto… Lá está o cartaz com a advertência imperativa: “Desculpe o TRANSTORNO!”

Parece que seria melhor desculpar o dono da obra, o administrador, o prefeito, o governador, o engenheiro, os operários… Mas essa turma não quer saber de culpa. Ou, afinal, como se diz por aí, a culpa é deles e eles colocam em quem quiser! Aí, a tascaram no pobre Transtorno!

E, além disso, o cartaz pendurado é claro: “Desculpe o Transtorno!”

Infelizmente, é difícil encontra o Transtorno para dizer: “Tá tudo bem! Eu te perdoo!

Como ser imaterial que é, a gente até sente, mas não o vê. Na verdade, os seus efeitos se materializam: horas parado no trânsito, desvios, mudança de calçada… Mas o tal do Transtorno, esse a gente não topa com ele, não. É mais fácil cumprimentar o número 1 andando na rua – aquele boneco fazendo merchandising de algum comércio que se acha o tal.

Porém, sabe-se lá! O cartaz usa o imperativo, como já falei.

Ora, se tem cartaz, aviso, placa, é porque tem história.

Talvez o Transtorno apareça, como alma penada, nas madrugadas frias e puxe o pé da gente, exigindo o perdão para conseguir ir para um plano melhor na outra vida. Ou São Pedro, com as chaves do Céu na manhã, pra deixar a gente entrar pergunta, antes, “quantas vezes a gente perdoou o Transtorno”.

Melhor não arriscar e, no dia que ver o cartaz mandando perdoar o transtorno, seja recomendável fazer um adendo no Pai-Nosso, quando a gente for rezar antes de dormir: “perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e como nós perdoamos também o Transtorno”.

Mas se o Transtorno atormenta a consciência, nada se compara ao terror que causa o Mesmo.

Tem até lei dizendo que a gente, antes de entrar no elevador, deve ver se o Mesmo está no andar. Imagine você, o perigo de não dar uma olhadinha para ver se o Mesmo está ali ou não!

Há quem diga que se você não verificar, corre o risco de o Mesmo te empurrar no fosso de elevador e fica ali, na porta, apreciando a tua queda.

A coisa chega no ponto em que, em alguns lugares, tem até cartaz com a recomendação de que, para subir um ou dois andares, a gente deve preferir a escada.

Deus nos livre! Nesse caso, é melhor não se arriscar de jeito nenhum!

2 comentários em “Lendas Urbanas Modernas – Crônica (Cláudio Alves)

  1. camille
    25 de fevereiro de 2026
    Avatar de camille

    👏👏👏

  2. Louise
    25 de fevereiro de 2026
    Avatar de Louise

    Sensacional!!!👏🤣

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 25 de fevereiro de 2026 por em Crônicas e marcado .

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