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Detox Literário.

Sem necessidade de provas – Conto (Leila Patrícia)

Roberto vinha de uma família rica e informava isso como quem comenta o clima. Nenhum orgulho, nenhuma recusa. Apenas o dado. Desde cedo lidava bem com números, como se eles obedecessem a um código que ele conhecia antes de aprender. As línguas estrangeiras vinham com a mesma naturalidade. Aos vinte e poucos anos, foi estudar matemática na Itália. Parecia um destino lógico.

O primeiro episódio não chegou como ruptura. Chegou como encaixe.

Homens repetidos em lugares diferentes, um mesmo carro surgindo em horários improváveis, um rosto reconhecido no metrô. Isoladamente, nada disso chamaria atenção. O que o perturbou foi a coerência do conjunto. Quando compreendeu que estava sendo seguido, sentiu alívio. Tudo se organizava.

Passou a alertar os colegas. Não falava em suspeitas vagas. Havia agentes governamentais, documentos adulterados, um crime iminente no Vaticano, do qual ele seria responsabilizado. Indicava datas, descrevia trajetos, explicava motivações. A lógica era impecável. O erro estava fora dela.

Quando tentou acessar prédios oficiais para comunicar o que sabia, foi contido. A internação veio rápida. Para Roberto, aquilo apenas confirmava o plano.

A família o trouxe de volta ao Brasil. A repatriação reforçava a certeza.

Em casa, o delírio ganhou precisão. As torneiras passaram a exigir vigilância. A pressão da água variava conforme o interesse do serviço secreto chinês. Ele abria e fechava com cautela, anotava horários, evitava banhos longos. A água carregava informação.

Vieram consultas, exames, entrevistas prolongadas. O diagnóstico foi direto, esquizofrenia.

No início do tratamento, houve melhora. A matemática voltou sem urgência. Algumas histórias arrancavam riso. Dormia. Comia. Diziam que estava novamente consigo mesmo, como se isso fosse um lugar fixo.

Roberto retomou os estudos. Escrevia concentrado, disciplinado. Algum tempo depois, decidiu ir para a França. Garantia estar bem. Afirmava compreender agora o que havia ocorrido. Ninguém conseguiu demovê-lo.

Em Paris, interrompeu a medicação. O remédio embotava o pensamento. Não era possível raciocinar sob aquele efeito. A mente precisava estar limpa.

Começou a formular teorias matemáticas desconexas. Enviava os textos para universidades com convicção absoluta. Quando vinham as recusas, a justificativa acadêmica não bastava. Havia outro motivo. Eles faziam parte.

A convicção cresceu e a perseguição tornou-se mais ampla, mais sofisticada. Uma noite, certo de que não havia outra saída, lançou-se da janela do terceiro andar. Não se feriu gravemente. Mais tarde, explicaria que a queda fora calculada. Era preciso que acreditassem em sua morte.

Mais uma vez foi trazido ao Brasil.

Reiniciou o tratamento, mas nunca por muito tempo. Às vezes dormia por dias, levantando apenas para comer. Em outros períodos, simulava adesão. Os comprimidos iam para o bolso, para o vaso, para frestas improváveis. O corpo obedecia. A mente, não.

Seguiam-se dias sem dormir, e os delírios retomavam força total.

Acender as luzes tornara-se um gesto político. Apagá-las, também. Havia agentes americanos no telhado, e os pássaros na janela eram treinados pelo serviço secreto chinês. Ele não os enxotava. Observava.

Quando comecei a acompanhá-lo como enfermeira, fui analisada em silêncio por semanas. Um dia, com naturalidade, veio a constatação, eu era russa.

À noite, enquanto todos dormiam, eu tirava a peruca e tocava violino na sala. Ele descrevia o som, a posição do corpo, a curva do braço. Não havia ironia. Apenas certeza.

No auge de mais um episódio, cobriu o próprio corpo com álcool e ateou fogo. Foi socorrido a tempo, mas sofreu queimaduras graves. Acreditava que a vigilância operava em seus pelos, em circuitos minúsculos espalhados pela pele, e que só o fogo poderia interrompê-los. Ficou internado por meses.

Sob medicação, admitia excessos. Reconhecia que algumas cenas podiam não ter ocorrido exatamente como lembrava. Outras permaneciam inegociáveis. Não era tudo invenção. Apenas escapara ao controle.

A vida de Roberto passou a funcionar em repetição. A mesma sequência, com pequenas variações, recaídas, contenções, intervalos em que tudo parecia sob controle apenas o suficiente para que o próximo desvio fosse possível.

A matemática permaneceu. Ele, não.

A conspiração não precisava mais ser provada.

13 comentários em “Sem necessidade de provas – Conto (Leila Patrícia)

  1. Thiago Amaral
    11 de março de 2026
    Avatar de Thiago Amaral

    Lendo o conto, impossível não lembrar do filme Uma Mente Brilhante, com o Russel Crowe. Também a história de alguém que convive com a esquizofrenia e à leva a proporções extremas de perseguição política.

    Interessante como, mais próximo do final do conto, ele vai tendo frases mais curtas, acelerando o ritmo da leitura.

    Gostei do trecho: “Acreditava que a vigilância operava em seus pelos, em circuitos minúsculos espalhados pela pele, e que só o fogo poderia interrompê-los.” – forte e em um nível de detalhes que confere realismo à história.

  2. martim butcher
    1 de março de 2026
    Avatar de martim butcher

    Leila,

    Gosto muito do estilo. Com isso me refiro à rítmica, à construção austera das frases, à aparência de relatório que combina muito bem com a matéria tratada. O modo como você sustenta isso, sem cair na tentação de arroubos ou firulas, é admirável.

    Uma coisa que me agradou bastante foi a sutil aparição da narradora, já na porção final do texto. Até então, diríamos se tratar de um narrador em terceira pessoa, mas nesse momento vemos que a voz que narra está de certo modo implicada naquilo que conta. É uma observadora que tomou parte na situação. Eu fiquei, no entanto, com um gostinho de quero mais em relação a essa implicação. A narradora foi afetada por esse encontro? Qual é seu interesse em contar a respeito de Roberto? Em algum lugar entre Piglia, Benjamin e Borges eu li algo interessante sobre o gênero conto: ele traz as marcas da situação de enunciação na sua forma. Um conto nunca é apenas sobre o que se conta, mas também sobre quem conta — e, talvez, a quem também. Acho que a narrativa ganharia muito se essa sutileza deixasse entrever as razões pelas quais a enfermeira está contando isso, na certa decorrentes da afetação que o encontro com Roberto lhe causou.

    Uma nota à parte: com a estrutura meio de “profecia autocumprida”, o conto me fez lembrar a história terrível da mãe de uma amiga. Em resumo: o seu delírio lhe sugeria que seus movimentos iam causar alguma desgraça. Com o passar dos anos foi se movendo cada vez menos. Finalmente, quando já estava havia meses acamada, uma repentina recuperação a fez sair da cama. Essa pequeno passeio fez com que um coágulo, resultante das escaras, se desprendesse na circulação. Ela acabou morrendo de embolia pulmonar. O que há de terrível na história é que ela de fato morreu como previa: seu movimento causou a desgraça, mas apenas porque seu delírio de inércia tornou o movimento algo perigoso.

    • Leila Patrícia
      11 de março de 2026
      Avatar de Leila Patrícia

      Martim, obrigada pela leitura e pelo comentário.

      Fico contente que você tenha percebido essa mudança na voz narrativa. A intenção era mesmo que só perto do final o leitor percebesse que quem conta está dentro da história.

      A ideia de dar mais espaço para a narradora chegou a me ocorrer durante a escrita, mas acabei optando por manter o foco no percurso do Roberto e nesse movimento de fechamento em torno dele. Quis acompanhar esse labirinto cada vez mais estreito.

      Sua observação é muito interessante, e faz sentido pensar que o conto poderia ganhar outra camada se a implicação da narradora fosse mais explorada. Talvez seja algo para revisitar numa futura revisão do texto.

      Obrigado também por compartilhar a história que você contou. Ela ilustra bem esse tipo de lógica trágica que às vezes aparece nesses quadros.

  3. Gustavo Araujo
    25 de fevereiro de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Oi, Leila. Gostei do conto, já que ele envolve um tanto de suspense e de desesperança, ou seja, prende o leitor, que deseja saber o que vai acontecer, mas também o faz afeiçoar-se ao pobre protagonista.

    A primeira parte está excelente, pois convida o leitor a entrar no mundo do Roberto, em suas desconfianças, em suas conclusões. A segunda parte, que se desenvolve depois da internação, é um tantinho mais descritiva e acelerada, uma marcha em direção ao precipício inevitável. Frases curtas e diretas. Ideias que bastam em si.

    Lembrei do filme “Ilha do Medo”, do Scorsese, por conta desse contexto, de nada ser o que parece.

    Valeu pela postagem!

    • Leila Patrícia
      11 de março de 2026
      Avatar de Leila Patrícia

      Oi Gustavo,

      obrigada por ler o conto e comentar.
      Essa diferença de ritmo que você percebeu entre as duas partes foi intencional. Depois da internação, quis acelerar a narrativa para acompanhar a forma como os episódios vão se acumulando e se intensificando, quase sem pausa, até o final.

      Também gostei da associação que você fez com Ilha do Medo. Ainda não assisti ao filme, mas fiquei curiosa e vou procurar.

  4. LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR
    25 de fevereiro de 2026
    Avatar de LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR

    Oi, Leila adorei seu conto. Me lembrou aquelas histórias da época da guerra fria. Também as mais atuais da teoria da conspiração. Embora exista a possibilidade da esquizofrenia você consegue manter o suspense até o final não dando nenhuma resposta Clara é um recurso muito interessante. É um dos tipos de história que gosto muito de ler.

    • Leila Patrícia
      11 de março de 2026
      Avatar de Leila Patrícia

      Oi Leo, tudo bem?

      Muito obrigada pela leitura e pelo comentário.
      Fico feliz que o suspense tenha funcionado para você. A ideia era justamente manter essa dúvida em aberto e não fechar completamente a interpretação. Obrigado por dedicar seu tempo à leitura.

  5. Pedro Paulo
    25 de fevereiro de 2026
    Avatar de Pedro Paulo

    O primeiro parágrafo me capturou já por dois motivos, a cadência algo analítica da narração, como quem apresenta um estudo de caso – o que, mais à frente, fica bem justificado embora não demandasse explicar. O outro motivo foi o enredo, que a princípio nos engana, tregando para dentro do delírio do personagem, em dissimular que será um conto sobre uma mente hiperdotada, o que de certa forma é, mas logo vai em espiral pela loucura e paranoia, uma descendente contada com a excelência que reserva a cada ciclo de delírios um degrau abaixo rumo ao desastre. Nesse ponto eu celebro a sobriedade do texto, pois se mantém consistente em seu tom ao evitar uma elaboração poética maior ou uma descrição mais rocambolesca dos últimos episódios do personagem, até mesmo o seu fim sendo tratado com a sutileza de uma sugestão. Tenho gostado de todas as suas contribuições para a área OFF, Leila, mas este é o meu predileto!

    • Leila Patrícia
      11 de março de 2026
      Avatar de Leila Patrícia

      Oi, Pedro, muito obrigada por sua leitura sempre tão atenta e tão generosa.
      Seus comentários são algo que eu realmente valorizo, porque você costuma perceber detalhes da construção do texto que às vezes passam despercebidos para a maioria dos leitores.

      Que bom que o primeiro parágrafo tenha funcionado para te puxar para dentro da história e que o tom mais contido tenha feito sentido. Você foi preciso ao perceber o tom de estudo de caso. Fiquei muito contente com esse pormenor.

      E agradeço também por acompanhar e comentar meus textos com tanta constância aqui na área OFF. Isso faz toda a diferença para quem escreve. Obrigada mesmo pelo carinho na leitura.

  6. Priscila Pereira
    24 de fevereiro de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Oi, Leila! Tudo bem?

    Eu acho fascinante os problemas da mente humana e escrevo muito sobre isso e seu conto está ótimo! Soa como se pudesse ser mesmo uma conspiração, valida os sentimentos e percepções do personagem mesmo mostrando que ele realmente estava doente. É difícil acertar o tom, e você conseguiu! É um conto honesto e empático. E o final é muito doloroso. Gostei bastante! Parabéns!

    Até mais!

    • Leila Patrícia
      24 de fevereiro de 2026
      Avatar de Leila Patrícia

      Oi, Pri. Tudo bem?

      Muito obrigada pela leitura. Eu também acho fascinante os meandros da mente humana. Fico muito feliz que uma escritora e leitora do seu calibre valide minha escrita. Bjs

  7. Kelly Hatanaka
    24 de fevereiro de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Oi Leila.

    Um conto dolorido sobre um homem que sofre de esquizofrenia. Gostei da maneira como o conto começou, dando uma vibe de suspense, talvez ficção científica, para depois revelar que era tudo uma alucinação. Essa alucinação e as teorias da conspiração vão ganhando força mais e mais até consumirem tudo.

    Muito bom!

    Kelly

    • Leila Patrícia
      24 de fevereiro de 2026
      Avatar de Leila Patrícia

      Oi, Kelly.

      Tudo bem? Obrigada pela leitura atenta. Esse é um relato, realmente triste, de uma mente aprisionada em episódios que lhe soam como fatos.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 23 de fevereiro de 2026 por em Contos Off-Desafio e marcado .