Roberto vinha de uma família rica e informava isso como quem comenta o clima. Nenhum orgulho, nenhuma recusa. Apenas o dado. Desde cedo lidava bem com números, como se eles obedecessem a um código que ele conhecia antes de aprender. As línguas estrangeiras vinham com a mesma naturalidade. Aos vinte e poucos anos, foi estudar matemática na Itália. Parecia um destino lógico.
O primeiro episódio não chegou como ruptura. Chegou como encaixe.
Homens repetidos em lugares diferentes, um mesmo carro surgindo em horários improváveis, um rosto reconhecido no metrô. Isoladamente, nada disso chamaria atenção. O que o perturbou foi a coerência do conjunto. Quando compreendeu que estava sendo seguido, sentiu alívio. Tudo se organizava.
Passou a alertar os colegas. Não falava em suspeitas vagas. Havia agentes governamentais, documentos adulterados, um crime iminente no Vaticano, do qual ele seria responsabilizado. Indicava datas, descrevia trajetos, explicava motivações. A lógica era impecável. O erro estava fora dela.
Quando tentou acessar prédios oficiais para comunicar o que sabia, foi contido. A internação veio rápida. Para Roberto, aquilo apenas confirmava o plano.
A família o trouxe de volta ao Brasil. A repatriação reforçava a certeza.
Em casa, o delírio ganhou precisão. As torneiras passaram a exigir vigilância. A pressão da água variava conforme o interesse do serviço secreto chinês. Ele abria e fechava com cautela, anotava horários, evitava banhos longos. A água carregava informação.
Vieram consultas, exames, entrevistas prolongadas. O diagnóstico foi direto, esquizofrenia.
No início do tratamento, houve melhora. A matemática voltou sem urgência. Algumas histórias arrancavam riso. Dormia. Comia. Diziam que estava novamente consigo mesmo, como se isso fosse um lugar fixo.
Roberto retomou os estudos. Escrevia concentrado, disciplinado. Algum tempo depois, decidiu ir para a França. Garantia estar bem. Afirmava compreender agora o que havia ocorrido. Ninguém conseguiu demovê-lo.
Em Paris, interrompeu a medicação. O remédio embotava o pensamento. Não era possível raciocinar sob aquele efeito. A mente precisava estar limpa.
Começou a formular teorias matemáticas desconexas. Enviava os textos para universidades com convicção absoluta. Quando vinham as recusas, a justificativa acadêmica não bastava. Havia outro motivo. Eles faziam parte.
A convicção cresceu e a perseguição tornou-se mais ampla, mais sofisticada. Uma noite, certo de que não havia outra saída, lançou-se da janela do terceiro andar. Não se feriu gravemente. Mais tarde, explicaria que a queda fora calculada. Era preciso que acreditassem em sua morte.
Mais uma vez foi trazido ao Brasil.
Reiniciou o tratamento, mas nunca por muito tempo. Às vezes dormia por dias, levantando apenas para comer. Em outros períodos, simulava adesão. Os comprimidos iam para o bolso, para o vaso, para frestas improváveis. O corpo obedecia. A mente, não.
Seguiam-se dias sem dormir, e os delírios retomavam força total.
Acender as luzes tornara-se um gesto político. Apagá-las, também. Havia agentes americanos no telhado, e os pássaros na janela eram treinados pelo serviço secreto chinês. Ele não os enxotava. Observava.
Quando comecei a acompanhá-lo como enfermeira, fui analisada em silêncio por semanas. Um dia, com naturalidade, veio a constatação, eu era russa.
À noite, enquanto todos dormiam, eu tirava a peruca e tocava violino na sala. Ele descrevia o som, a posição do corpo, a curva do braço. Não havia ironia. Apenas certeza.
No auge de mais um episódio, cobriu o próprio corpo com álcool e ateou fogo. Foi socorrido a tempo, mas sofreu queimaduras graves. Acreditava que a vigilância operava em seus pelos, em circuitos minúsculos espalhados pela pele, e que só o fogo poderia interrompê-los. Ficou internado por meses.
Sob medicação, admitia excessos. Reconhecia que algumas cenas podiam não ter ocorrido exatamente como lembrava. Outras permaneciam inegociáveis. Não era tudo invenção. Apenas escapara ao controle.
A vida de Roberto passou a funcionar em repetição. A mesma sequência, com pequenas variações, recaídas, contenções, intervalos em que tudo parecia sob controle apenas o suficiente para que o próximo desvio fosse possível.
A matemática permaneceu. Ele, não.
A conspiração não precisava mais ser provada.
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