Eu morava sozinho. Não gostava de sair. Amava minhas rotinas secretas, rotinas que desapareceram depois do fato…
Uma noite, saí do banho e, nu diante do espelho, senti uma mordida no pescoço. Assustado, procurei pelo bicho. Nenhum inseto, morcego, rato, nada, só a marca dos dentes. Humana!
Não dormi, noites seguidas. Perdi a fome, perdi a voz. Mas meu coração batia forte. No espelho, meu corpo pálido. Depois, diáfano. Translúcido. Transparente. Invisível.
Agora, transpasso a porta do apartamento. Vizinhos, vejo nenhum. Sigo até ao apartamento de Letícia, tão sozinha, tão inatingível. Meu coração forte, forte, forte! Transpasso a porta.
Eu até estava gostando do texto enquanto estava supondo se tratar de uma história de realismo mágico com coisas absurdas acontecendo (como tomar uma mordida humana de coisa ou ser nenhum)… E até estava gostando do conto enquanto estava supondo se tratar de uma uma história de terror de alguém sendo atacado por um ser invisível no interior de seu próprio apartamento… Mas, no contexto do desafio, tão somente, passei a desgostar do conto por causa de seu desfecho, o qual me soou tolo, com o protagonista decidindo invadir o apartamento de sua affair. Além disso, o tema metamorfose ficou bastante escanteado.
Estar em primeiro pessoa é um diferencial dos demais.
Esse texto consegue ser intenso e inquietante. Muito bom!!!