Habitava o silêncio entre as cartas do que foi. A pele, exausta de tato, secou em pergaminho. O sangue escureceu em nanquim, vazando pelos poros para narrar ausências em cada margem. Não sentiu dor, apenas a tradução do que restava.
Ao tocar o envelope que jamais partiu, o esqueleto dobrou-se em vincos brancos. Braços e pernas tornaram-se arestas de um desespero geométrico. No chão, o papel pulsava a última respiração.
Ele já não tinha nome. Era o corpo da mensagem que nunca encontraria destino.
Percebe-se um domínio de escrita bem sofisticado, e gostei do personagem virar a mensagem. Parabéns
Seu micro conto ficou muito bom. O tema da metamorfose aparece quando o personagem principal vai se transformando lentamente em uma mensagem. A narrativa parece tratar da morte, do esquecimento e de uma vida sem propósito. Fiquei com a impressão de que o personagem principal fosse um escriba. Acho que ele se preocupava exclusivamente em registrar questões alheias e não vivia a própria vida plenamente.
Incrível como a escrita prende e deixa marca.