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Nossa Cidade – Thornton Wilder – Resenha (Kelly Hatanaka)

Nossa Cidade é uma peça em três atos escrita por Thornton Wilder em 1938 e fala sobre a vida na cidadezinha fictícia de Grover’s Corners, nos EUA, entre 1901 e 1913.

Uma peça lindíssima que ia evocando em minha tela mental cenas do filme Dogville, por motivos que só as vozes na minha cabeça seriam capazes de explicar. Há tanta coisa na peça, tantos sentimentos universais, tantas inquietações, que foi com certa tristeza e revolta que ouvi de um colega que a peça “tinha cheiro de naftalina”. Só o perdoei porque compreendi que seu comentário era motivado, em parte, por seu desejo de que fizéssemos Macbeth ou A Tempestade, de Shakespeare.

Naftalina meuzovo.

O primeiro ato se chama A Vida Diária, o segundo Amor e Casamento e o terceiro… bom tem o terceiro.

No primeiro ato, vemos um dia na vida das famílias Gibbs e Webb. Frank Gibbs é o médico da cidade, casado com Julia e pai de George e Rebeca. Charles Webb é o diretor do jornal da cidade e é casado com Mirtle e pai de Emily e Beth. Um dia como outro qualquer. O café da manhã, a escola, o trabalho. As pequenas reclamações, os sonhos meio esquecidos que teimam em se fazer lembrar.

Fizemos algumas leituras da peça. Uma delas, quase ininterrupta, com o objetivo de estabelecer uma duração. Levamos quase uma hora e meia para ler tudo. O que, pensamos, ia dar uma peça de mais de duas horas. Nem pensar, muito longa, nós, amadores que somos, não vamos conseguir “segurar” uma peça por tanto tempo. Precisamos que ela tenha, no máximo uma hora montada. Vamos cortar. Fiquei com a incumbência de cortar o terceiro ato, o que foi uma tarefa ingrata.

Thornton Wilder, esse homem é bom. Cada palavra sua é precisa, cada cena tem sua razão, cada fala carrega sentimentos e reflexões. Como cortar? Cortei metade do terceiro ato. Chorando por dentro, mas cortei. Meus colegas cortaram também grandes bifes do primeiro e segundo atos, o que removeu boa parte dos assuntos nacionalistas da história. Referências à história dos EUA e questões que entraram na formação cultural do povo americano e que tão pouco sentido fazem para nós, foram retiradas.

O que nos levou à ideia de trocar os nomes dos personagens para nomes brasileiros. Pois se a nossa versão de Nossa Cidade não estaria impregnada de referências americanas, se era uma história universal, que poderia se passar em qualquer lugar do mundo, por que falar de Webbs, Gibbs, Soames, Franks e Joes? Pois assim, Gibbs viraram Torres, Webbs viraram Silva, “Grover’s Corners” virou simplesmente “Nossa Cidade” e nossas línguas destravaram.

No segundo ato, Emily, agora Emília e George, doravante chamado de Jorge, se descobrem apaixonados, uma relação que se desenvolve aos poucos, desde a infância, através das enormes diferenças entre eles. Emília é uma ótima aluna, estudiosa e dedicada. Jorge joga futebol e sonha em ser fazendeiro. Seu tio Lucas, sem filhos, planeja deixar-lhe sua fazenda quando se aposentar. Os Torres, pais de Jorge, temem que ele não esteja preparado para se casar, embora vejam com bons olhos o casamento com Emília. Os Silva acham bom que os jovens aprendam a viver vivendo mesmo, como fizeram eles, como fazem todos. E os dois se casam.

Fizemos outras leituras da peça, já devidamente encurtada. Trocamos de personagem em cada leitura, para que a diretora visse quem seria melhor para cada papel. Inicialmente, eu queria fazer a Julia Torres. Algo no personagem me pareceu transcendente, meio irreal, mesmo quando estava tratando do cotidiano, e me encantou. Porém, sei o exato momento em que o papel escorreu pelos meus dedos (não que em algum momento ele estivesse em minhas mãos). Numa das leituras, fiz a Anabela Soares, uma personagem cuja função é mostrar a visão da cidade, de todos os que não são Torres nem Silva, sobre os acontecimentos. E li sua fala com uma leveza e naturalidade que me surpreenderam. Foi como encontrar um pedaço de mim perdido por aí. Intuí, nesse momento, que Anabela seria minha.

Minha intuição se confirmou e confesso que me senti um pouco frustrada. Estava “apaixonada” pela Julia Torres. Mas, estou nessa há alguns anos já. E, se tem uma coisa que sei com toda certeza, é da competência da nossa diretora. Se ela escolheu quem escolheu para cada papel, confio que foi o melhor. Confio nela e no processo. E agora, visto o resultado final, vejo que “minha” Julia jamais teria ficado tão boa como ficou. Além de ter sentido uma alegria inexplicável em fazer a Anabela.

Aqui começam spoilers. Se você se importa com isso, pare por aqui.

Além disso, como Anabela, eu morreria. Sim, porque esse era um de meus desejos desde que trabalhara nos cortes do terceiro ato. Queria ser um dos mortos. Temos o primeiro ato, que mostra o cotidiano, o segundo, que mostra o casamento e, quando pensamos que vamos ver algum desenvolvimento desse romance no terceiro ato, nos deparamos com um cemitério e alguns de nossos personagens queridos em seus túmulos. O terceiro ato fala sobre a morte.

Julia Torres morreu de pneumonia há alguns anos. Anabela que tanto gostou do casamento e Simão, o organista bêbado da igreja, também. E o que fazem? Esperam. Por algo que não sabem o que é, esperam esquecer suas vidas terrenas e se preparar para o que vem depois, o grande mistério. Então, Emília chega. Morreu de parto e sente-se desconfortável por ainda se sentir viva, incomodada pela confusão dos vivos. Está meio lá, meio cá, mergulhada em lembranças e, ao mesmo tempo, desejando deixar tudo para trás.

Lá pelas tantas, ela percebe que pode reviver se quiser. Escolher um dia e estar lá novamente. Os demais mortos tentam convencê-la de que não é uma boa ideia, mas ela está decidida. Escolherá um dia feliz, especial. Dona Julia, então, recomenda que ela escolha um dia insignificante pois, mesmo assim, ele será importante demais.

E Emília volta para um dia de seu aniversário, quando criança. E fica angustiada pelas lembranças e pelos sentimentos avassaladores que as pequenas, ínfimas coisas do cotidiano, despertam sobre ela. Fica atônita ao perceber que o grande tesouro da existência não são as grandes vitórias, as conquistas, os dias especiais, mas sim o café da manhã diário, as conversas corriqueiras com a família, os pequenos detalhes. E termina sua experiência com uma tocante despedida e o seguinte diálogo com o Diretor de Cena, personagem onisciente que guia toda a narrativa.

— Pode alguma criatura humana compreender a vida, enquanto ela vive? Minuto por minuto?

— Não. Os santos e os poetas, talvez, um pouco.

As estrelas saem, trazem lembranças doces aos mortos, a peça termina, um final triste e estranho, melancólico e doce.

O Diretor de Cena anuncia para a plateia que passam das 22:00 e é hora de repousar. Estou congelada em cena, mas não preciso olhar para a cara de ninguém para saber o que cada um de nós está pensando naquele momento.

“Caraca, foram duas horas de peça”. E não é que “seguramos” uma peça de duas horas?

Este foi o primeiro pensamento. O segundo foi: “Temos que fazer de novo”.

Nossa Cidade, nossa montagem, acabou, ao menos por enquanto. Estamos flertando com a possibilidade de produzir uma mini temporada em algum teatro pequenininho e aconchegante.

Nossa Cidade, o texto, é imortal. Se você gosta de ler e tem preguiça de grandes calhamaços, de dias, semanas, atracados a uma história, recomendo fortemente a leitura de dramaturgias. São leituras rápidas, dinâmicas e que deixam sempre muito para a imaginação do leitor.

2 comentários em “Nossa Cidade – Thornton Wilder – Resenha (Kelly Hatanaka)

  1. claudiaangst
    5 de janeiro de 2026
    Avatar de claudiaangst

    Muito boa a sua resenha, Kelly. Senti vontade de assistir à peça. Um texto que deve provocar muitas reflexões.

  2. Priscila Pereira
    5 de janeiro de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Que delicia de resenha, Kelly!! Amei demais! Só você pra escrever esse maravilha! Fiquei com vontade de ler e de assistir a peça! Seria fantástico poder assistir você no palco…. quem sabe um dia 🥹

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Publicado às 4 de janeiro de 2026 por em Resenhas e marcado , , .

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