É importante, antes de tudo, mencionar que eu odeio viajar.
Em 2024, no desafio Viagem do Entrecontos, escrevi Dicas de Viagem para quem não Gosta de Sair de Casa, conto que narra a história do Júlio e seus vários passeios com a família ao longo dos anos, nos quais ele sente tédio e asco pela natureza e pelo próprio corpo. Spoiler: o rapaz morre no fim, sem ter feito nada da própria vida, sem ter se aventurado, mal saindo de casa. Um dos comentários que li foi “parabéns, você criou o personagem mais chato da literatura brasileira”. Ele era uns 75% baseado em mim mesmo, o que espero que não diga muita coisa sobre minhas escolhas de vida.
Mas então por que eu peguei On the Road pra ler, afinal de contas?
Estranhamente, não me lembro bem. Mas sei que havia algo que me chamava, uma promessa de algo interessante que me seria revelado. Livros clássicos sempre têm alguma coisa pra nos ensinar, mesmo que não gostemos da história, mesmo que sejamos de uma geração posterior demais. Pelo menos podemos vislumbrar um pouco do passado e, quem sabe, entender melhor o presente? Ou pelo menos compreender como certas ideias começaram.
Só sei que, numa tarde qualquer no meio da semana, fui pro sebo e me mimei comprando vários livros por uns dez reais cada, entre eles o objeto dessa resenha. E, na madrugada daquele mesmo dia, esse foi o livro que escolhi para começar.
A obra narra a história de um jovem Kerouac (sob pseudônimo Sal Paradise) e as viagens que fez pelos Estados Unidos e parte do México; as cidades que conheceu, os trabalhos que se viu obrigado a fazer, as pessoas com quem festejou. A leitura tem clima de aventura, de grande empolgação em relação ao que vem pela frente, com as pessoas estranhas, alternativas, surpreendentes, que andam pelos EUA sem rumo, os loucos, os fora-da-curva, os não-conformados. As atividades e as pessoas que ele conhece são narradas em detalhes, e boa parte da história se baseia nesses encontros.
Apesar de eu não saber quando li a primeira vez, o elenco de personagens é composto por outros famosíssimos membros do movimento literário beat, todos sob pseudônimos. Temos, portanto, participação de Allen Ginsberg, William Burroughs e, mais importante ainda, Neal Cassady, mas li sem saber quem era quem.
Numa camada mais profunda desses encontros com figuras notáveis, no entanto, Sal parece buscar algo. A música, a dança e a bebida podem até ser boas, mas, no fundo, há desejo por algo mais. A sociedade tradicional, com seus empregos, roteiros de vida pacata, família, etc, supostamente promete algum tipo de satisfação, mas se mostra insuficientes diante da inquietação de Sal. Nada disso é explicitamente contado, mas é possível ser percebido nas entrelinhas, de forma bastante orgânica.
Lá pela página cem, já me perguntava qual era o objetivo daquilo tudo. Por um lado, estava até que interessante, sendo uma vida que eu nunca vivi e certamente jamais viverei – noitadas loucas dirigindo alucinadamente, festas boêmicas de bebedeiras e shows de jazz. Mas eu queria saber se havia algum tema central e palpável.
Pois o modo como o texto se apresenta produz um forte senso de realidade. Soa bastante plausível que os acontecimentos tenham ocorrido daquela maneira, uma vez que são crus, às vezes absurdos e específicos demais. Um autor de ficção dificilmente seria capaz de inventar encontros ao mesmo tempo tão singelos e verdadeiros. Esse é um dos trunfos do texto: nos permitir entrar naquele grupo, ou talvez naquela época, como voyeurs.
Em meio a essas reflexões, decidi pesquisar por que o livro havia sido tão impactante em sua época, e descobri que parte da resposta é o estilo do texto. Aparentemente, Kerouac queria uma escrita dinâmica, musical, que ignora pontuação e convenções literárias, a fim de transmitir um sentimento específico ao leitor. O clichê é dizer que On the Road soa como o jazz; o caos das orações, ideias e fisicalidade dos acontecimentos se atropelando; as descrições, primeiro calmas, depois crescentes, surpreendentes, e calmas novamente; os solos, os clímaxes. Quanto a esse ponto, fiquei desanimado por estar lendo em português, mas sabia que não teria saco nem interesse suficientes para pegar uma edição em inglês. Assim, abri mão de toda a musicalidade que o texto poderia me entregar. No entanto, algo sem dúvida sobreviveu à tradução e ainda se fez notar: a empolgação, o tesão pela vida que Kerouac e seus companheiros têm ao desbravar os Estados Unidos.
Mesmo sendo alguém sem nenhum interesse por fazer algo parecido, eu conseguia sentir aquele entusiasmo, o que me levava a questionar se não era a vida sobre aquilo mesmo: encontrar as lacunas do cotidiano onde podemos relaxar, dançar e curtir com os amigos, esquecendo e abandonando os objetivos chatos que nos convenceram ser a maneira certa de existir. Cheguei até a me perguntar se algum tipo de repressão me fazia julgar as personagens secretamente.
E segui lendo, mesmo sem grande vontade, e sem saber o motivo. É verdade que eu muitas vezes sigo fazendo algo só pra terminar o que comecei, mas talvez eu sentisse que aquela história ainda poderia me revelar algo.
Em determinado ponto da leitura, vi um tema interessante começar a se formar.
Para entendê-lo, vale voltar ao início do livro, que se abre com a seguinte frase:
“Encontrei Dean pela primeira vez pouco depois que minha mulher e eu nos separamos”
Assim como a primeira imagem de um filme, a primeira frase de um romance costuma ser reveladora – e aqui não é diferente. A partir daquele momento, ficou cada vez mais claro que Dean é o eixo em torno do qual a narrativa se organiza.
Dean Moriarty é o pseudônimo de Neal Cassady, grande amigo de Kerouac nessa época, e catalisador das aventuras pelos Estados Unidos. Ele é descrito como espetacularmente intenso: sempre animado, de olhos arregalados, suando de emoção nos shows de jazz; um observador e apreciador de cada aspecto da vida; quase sempre tagarela, ocasionalmente confuso e sem sentido. Ele se aproxima de Jack para aprender a escrever, e tem longas conversas com Ginsberg a fim de “revelar o mais profundo conteúdo de sua alma”. Em certo momento, vê um quadro e tenta observá-lo por todos os ângulos possíveis, impressionado, repetindo “uau”, como se sob efeito de drogas.
É um personagem caótico, carismático, e Kerouac estava profundamente apaixonado por ele – não de maneira romântica, mas porque Neal parecia encarnar tudo que Kerouac desejava para si: simplicidade, intensidade, aventura, uma espécie de lucidez instintiva.
Inclusive, o estilo que Jack usa para escrever On the Road – descrito por mim anteriormente – é baseado em cartas que havia recebido de Neal. A mistura de empolgação e períodos longuíssimos chamou tanto a atenção de Kerouac que ele resolveu adotar o estilo como base de sua “prosa espontânea”, usada não apenas nesse livro, mas também em obras posteriores. É ou não é amor?
No entanto, Jack sabia dos defeitos do companheiro. Dean (Neal) passa a ser criticado pelos amigos por abandonar as mulheres com quem casa e engravida – não conseguindo se manter por muito tempo na mesma cidade nem com uma parceira estável. Havia sempre a sensação de que ele partia por impulso, deixando pessoas e responsabilidades em suspenso. O ápice ocorre no México, onde chega a abandonar Jack doente. Após esse episódio, Kerouac, num raro momento de ressentimento, se refere ao amigo como um rato. E mesmo assim o escritor não consegue deixar de admirar Dean, vendo-o como, em suas próprias palavras, um “tolo sagrado”.
É engraçado como eu, lendo aquelas desventuras, logo de início percebi que não gostaria de conhecer o tal do Dean, muito menos um Old Bull Lee (alter-ego de William Burroughs na história). No entanto, tinha algo ali, naquelas pessoas, que atraía Kerouac, consequentemente jogando-o de volta pra estrada.
Não quero passar a impressão de que conheço o autor profundamente. On the Road é minha introdução a seus escritos, e fora isso vi apenas alguns vídeos no YouTube e li alguns textos pela internet. No entanto, a impressão que tenho é de alguém insatisfeito não apenas com a vida comum e quadradona que a maioria das pessoas leva, mas também consigo mesmo.
Leitor de Thoreau, Whitman, entre outros, Kerouac ansiava por uma vida simples, autêntica e independente. Se o movimento beat originalmente tinha esse nome por “beat” significar em inglês “derrotado”, “cansado”, Jack tentou mais tarde ressignificá-lo para algo mais positivo, interpretando “beat” como diminutivo de “beatitude”, uma vez ser assim que via seus colegas, misturando seu passado cristão com budismo zen e as próprias aspirações a uma vida plena, simples, boa e honesta. Me parece ser o que ele busca o tempo todo em On the Road, o que ele projeta em Neal e, com menos força, no grupo de amigos boêmios. Só que algo simplesmente nunca se encaixa definitivamente, nunca é satisfatório…
Em um trecho onde Sal Paradise se acalma um pouco e passa a viver sozinho, longe dos amigos e na mesma cidade por um período de tempo mais longo, é quando o vemos mais vazio e desorientado. A estabilidade não o acalma; ao contrário, o inquieta cada vez mais. Ele logo corre para reencontrar Dean e partir para mais uma viagem.
Estudos e interpretações posteriores sugerem que a perda precoce do irmão Gerard (quando Jack tinha quatro anos) teria sido evento formador de sua busca por uma pureza irrecuperável. Na obra posterior Gerard’s Vision, Kerouac trata o irmão falecido como um santo representante da mediação entre o mundo e o divino (não li ainda, mas pelo que pesquisei parece ser isso mesmo!). É possível, então, sugerir que o escritor talvez tenha usado figuras carismáticas (como Neil) para substituir sua perda e buscar a beatitude como algo tangível.
A fim de desconstruir o mito mais um pouquinho, vamos falar sobre o que acontece com nossos personagens após os eventos descritos no livro.
Uma figura central que ainda não citei, mas muito importante para os propósitos elucidativos dessa resenha, é Carolyn Cassady, uma das parceiras de Neal em On the Road, onde é chamada de “Camille”. Após os momentos descritos no livro, Jack Kerouac e Neal Cassady continuaram amigos e partilharam de um relacionamento amoroso com ela. Artista plástica e escritora, ela retrata a vida do trisal na obra Heart Beat: My Life with Jack and Neal (1976), até onde sei nunca traduzida para o português. Inclusive, chequei algumas entrevistas com ela, que constantemente se frustrava ao tentar desmistificar os dois homens com quem se relacionou, agora ícones lendários na cultura americana, mas que, como mostrei, eram profundamente problemáticos. Ela publicou uma obra mais madura e crítica sobre sua experiência com os dois beats (Off the Road: Twenty Years with Cassady, Kerouac and Ginsberg, 1996), e acabou falecendo em 2013. Pelo menos houve tempo de comentar a péssima caracterização de Neal no filme On the Road (2012), cuja produção, apesar de seis anos de preparação e desenvolvimento, além das entrevistas com Carolyn, parece não ter entendido a essência das pessoas ali retratadas.
Neal Cassady, por sua vez, após os eventos do livro, chegou a ser preso por dois anos e Carolyn decidiu se divorciar, aparentemente por acreditar na incapacidade do homem em viver de maneira estruturada, optando por livrá-lo – e também a si mesma – de uma vida familiar insustentável. Ele, então, continuou suas aventuras amalucadas, inclusive dirigindo o ônibus dos Merry Pranksters, coletivo contracultural de artistas, escritores e experimentadores psicodélicos comandado por Ken Kesey, autor de Um Estranho no Ninho. Essa aventura foi objeto de documentário em 2011, chamado Magic Trip. Em 1968, após uma festa no México, Cassady desfaleceu enquanto andava ao lado dos trilhos de um trem e foi encontrado em coma. Sua eventual morte teve causa incerta.
E, por fim, Jack Kerouac, que seguiu sua carreira literária, mantendo e até mesmo explorando mais profundamente o estilo de seu livro mais famoso. Ao longo do resto da vida, se afastou do budismo, agarrando-se mais forte ao cristianismo tradicional, tornando-se conservador e amargurado. Desse modo, passou a olhar com desconforto os desdobramentos culturais de sua obra; via, por exemplo, com desprezo o movimento hippie, que bebia das ideias contraculturais expostas em On the Road. Paralelamente, seus conflitos pessoais se agravaram: sucumbiu ao alcoolismo e protagonizou momentos públicos humilhantes, como a participação no programa Firing Line, quando sobe ao palco bêbado e semi-coerente.
Assim, posso afirmar que a leitura e subsequentes estudos foram uma viagem tremendamente interessante. Kerouac, ao escrever sobre seus amigos – e em especial Neil – transformou profundamente a história cultural dos EUA e, indiretamente, de boa parte do Ocidente. On the Road tornou-se leitura iniciática para a contracultura.
Esse imaginário ecoa em diversos artistas que se afirmaram influenciados pelos beat, como Bob Dylan, e em bandas e movimentos ligados ao rock psicodélico e à cultura de estrada, como The Grateful Dead e The Doors. Reverbera também no cinema, como em Easy Rider. As road trips, a busca espiritual além de instituições, a noção do artista como um errante, a crítica ao sonho americano e muitos outros memes culturais que hoje consumimos cotidianamente tiveram Jack Kerouac como um de seus momentos inaugurais.
Fico curioso por ler as obras de Carolyn sobre sua vida com Kerouac e Cassady, além dos trabalhos de Joan Didion, que explorou o desencanto com a contracultura, quando se começou a perceber o sonho de uma sociedade alternativa como algo cheio de falhas. Tenho também vontade de ler trabalhos de Hunter S. Thompson, como Medo e Delírio em Las Vegas, bastante influenciado por Kerouac, mas já tomado de cinismo e ironia que contrasta com os ideais beat dos anos 50.
E, concluindo, o que mais me tocou foi a busca de Kerouac, com a qual me identifico. Seu desejo de encontrar uma alternativa ao roteiro de vida socialmente estabelecido é louvável, e um sonho do qual muitos já desistiram. Acredito ser possível encontrar algum tipo de paz em meio a tudo e promover mudanças em nossos relacionamentos pessoais. No entanto, não se trata apenas de mudar o estilo de vida. É preciso o reconhecimento de toda nossa feiúra, nosso medo, nossas mentiras: uma disposição radical para encarar tudo o que deve ser mudado tanto em nossa cultura quanto em nós mesmos. Esse processo passaria inevitavelmente pela psicologia, pela filosofia, pela arte e pela história, entre outras áreas, exigindo doses cavalares de honestidade e mente aberta. Ainda estou nesse percurso, e ler On the Road fez parte dele. Após todas essas reflexões, posso dizer que essa viagem, afinal de contas, valeu a pena.
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